Quando morava na Europa, tive o privilégio de atuar como guia oficial de muitos amigos e familiares que visitavam a França e a Bélgica. Nesses passeios, perdi a conta de quantas vezes pisei no Museu do Louvre. A magia do lugar e a magnitude do seu acervo sempre capturaram tanto a minha atenção que confesso nunca ter reparado nos problemas estruturais e de gestão que ocorriam nos bastidores. Mas de uma coisa eu sempre tive absoluta certeza, desde a minha primeira visita: uma mudança drástica na dinâmica do museu era urgente.
O principal motivo dessa urgência tem nome e um sorriso enigmático: a famigerada Gioconda.
A realidade nua e crua é que milhares de pessoas vão ao Louvre todos os dias única e exclusivamente para ver o quadro magistral de Leonardo da Vinci. Durante décadas, a instituição forçou essa multidão a fazer um longo circuito pelo museu, na nobre esperança de educá-los artisticamente ao longo do caminho. A intenção podia ser ótima, mas na prática, essa romaria forçada se transforma em um fluxo caótico que atropela e atrapalha quem está ali para admirar, com a calma merecida, as inúmeras outras obras-primas espalhadas pelos corredores.
Parece que, finalmente, a direção do Louvre se rendeu ao pragmatismo. O recém-anunciado plano de expansão, batizado de "Louvre - Novo Renascimento", prevê exatamente o fim dessa procissão. O projeto inclui a criação de uma sala de cerca de 3 mil metros quadrados construída sob medida para exibir a Mona Lisa. A grande sacada é que o novo espaço permitirá ao público entrar, ver a pintura e sair sem precisar percorrer o restante da coleção.
Sinceramente? Eu iria até mais longe. Faria um museu só para ela. Uma atração caça-níquel mesmo, na cara dura. E não haveria mal nenhum nisso, afinal, existem muitos outros locais em que pagamos um ticket para ver uma única obra. Essa abordagem seria até bem-vinda para ajudar a pagar a mega reforma do museu, que pode chegar à assustadora marca de € 1,1 bilhão. Mas, pior mesmo do que o fluxo caótico de turistas, é ver que a instituição não tem uma infraestrutura mínima para proteger seu acervo, a ponto de permitir um roubo audacioso das joias da coroa à luz do dia, como ocorreu no ano passado.
Foto: Imagem do próprio de 2007, do meu arquivo.
1 comment:
Tenho lembrança de entrar da Santa Ceia, perto da casa da minha tia avó, para fugir do caldo de Milano em julho. Hoje precisa reservar, entrar na fila… Sim, faz sentido museu especial para obra muito atraente.
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