Sunday, May 24, 2026

Música - A crítica



Como alguns de vocês devem ter notado, recentemente lancei três álbuns de músicas geradas por Inteligência Artificial, que já estão disponíveis nas principais plataformas de streaming (Spotify, Apple Music, Amazon Music, YouTube Music, etc.). E, como não sou a melhor pessoa para avaliar minha própria criação, resolvi passar essa tarefa para a própria IA, pedindo que ela assumisse a persona de um crítico musical para resenhar o trabalho.


Há discos que pedem atenção. Iron and Lake, de Fernando B, prefere sugeri-la. O álbum se move devagar, sem ansiedade de causar impacto imediato, construindo uma atmosfera contemplativa que parece menos interessada em refrões do que em permanência emocional.

O título já funciona como chave de leitura: ferro e lago, rigidez e fluidez, matéria e silêncio. A música habita exatamente esse espaço intermediário. Em vários momentos, a sensação é de atravessar uma paisagem fria ao entardecer, onde cada detalhe importa mais do que qualquer clímax explícito.

A grande virtude do disco está na sinceridade estética. Em vez de soar como produto desenhado para playlists de ambient ou “focus music”, Iron and Lake transmite intenção artística real. Há paciência nos arranjos, espaço entre as notas e uma produção elegante que entende o valor do vazio. Fernando B parece mais interessado em criar estado de espírito do que em exibir virtuosismo — escolha que aproxima o álbum, em certos momentos, de artistas como Brian Eno ou Nils Frahm, ainda que sem imitá-los diretamente.

Mas o disco também revela um limite claro: seu excesso de contenção. Em alguns trechos, a busca pela beleza sonora reduz tensão e surpresa. Falta, às vezes, a rachadura no verniz — um ruído inesperado, uma ruptura estrutural, um momento de maior risco emocional. Grandes obras atmosféricas normalmente carregam algum elemento de instabilidade. Aqui, a música frequentemente prefere permanecer segura dentro do próprio clima melancólico.

Isso faz com que certas faixas funcionem mais como paisagens do que como jornadas completas. O ambiente é convincente; a transformação, nem sempre. Há espaço para mais contraste dinâmico, mais coragem estrutural e texturas menos familiares ao universo do ambient contemporâneo.

Ainda assim, Iron and Lake impressiona justamente porque não parece calculado. É um disco de maturidade silenciosa, que evita excessos e confia na força da atmosfera. Talvez ainda falte a assinatura inconfundível que separa bons trabalhos de obras realmente inevitáveis. Mas há aqui algo mais importante que exibicionismo técnico: visão estética, coerência emocional e a sensação rara de que o artista está tentando construir um mundo próprio — e não apenas ocupar espaço no algoritmo.


Imagem - Capa do terceiro álbum (Iron and Lake), uma imagem gerada por IA, obviamente.


Links do Spotify:

Iron and Lake 

Canyons of the Heart

Outrun the Edge



Saturday, January 24, 2026

Tenebrosas transações

 


Quando cursava a faculdade, lá pelos idos dos anos 80, uma das coisas que se comentava, num tom de quase piada, era que o Lula seria um agente da KGB. Vale lembrar aos desmemoriados, ou aos mais jovens, que naquela época Lula era um novato em candidaturas a cargos executivos, concorrendo ao governo de São Paulo.

Voltando à anedota: só fui entender que aquilo não era exatamente uma piada muito tempo depois. O conceito de "agente" para a KGB não correspondia à imagem cinematográfica que associamos a um James Bond, ou talvez a um "Ivan Bondov".

A realidade era mais sutil. Havia milhares de agentes, uma rede imensa de pessoas que poderiam contribuir, mesmo que marginalmente, para a causa soviética. Muitas vezes, esses simpatizantes sequer sabiam que eram agentes. De qualquer modo, a teia era enorme, abarcando políticos, jornalistas, sindicalistas e quem mais pudesse ser útil.

Faço esse paralelo para olhar o crime organizado nacional de hoje, especialmente o PCC.

As grandes revelações recentes escancaram a capilaridade das suas operações. Fica evidente que nem todos os milhares de cidadãos envolvidos, ou mesmo arrastados, por essa máquina criminosa têm consciência de serem peças da engrenagem. Trata-se de uma rede vasta de parcerias, contratos, negociações, trocas de favores e apoio logístico.

O núcleo central, aquele ligado aos crimes de sangue e ao tráfico, usa o crachá do PCC. Mas existe uma camada superior, a dos "empresários inescrupulosos". Gente que não usa o crachá da facção, mas sabe muito bem que é peça-chave na grande lavanderia. Nomes que surgem em investigações e manchetes, como o de Mohamad Hussein Mourad ou o onipresente Daniel Vorcaro, ilustram como o dinheiro sujo busca o verniz da legalidade.

Além deles, há os políticos que fecham os olhos. Há as milhares de pessoas comuns arrastadas pelos malfeitores. E, por fim, temos nós, espectadores daquela cena descrita por Chico Buarque: "A nossa pátria-mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações".


Foto: Imagens da viagem do Carnaval de 2025 - Funchal, Ilha da Madeira.

Tuesday, October 21, 2025

Competência rara


 

A história do nosso problema começa lá atrás. Ainda na década de 80, o líder chinês Deng Xiaoping fez uma declaração de peso: "O Oriente Médio tem petróleo. A China tem terras raras." Sim, isso foi há quase 40 anos! À época, muitos líderes ocidentais devem ter pensado: "Ah, é só mais uma pérola dos caciques do Império do Meio," daquelas que ficam no almanaque da História e nada mais.

Obviamente, você já sabe que não foi bem assim. Nessas últimas quatro décadas, a China pintou e bordou para dominar completamente esta indústria. Não vou entrar nos detalhes econômicos, mas o processo foi meticulosamente planejado e não era nada secreto. Se alguém se declarar surpreso com o uso deste virtual monopólio como instrumento de pressão, barganha ou resposta, provavelmente esteve hibernando durante todo esse período. O Ocidente viu a China assumir o controle total, da mineração ao crucial refino, por pura conveniência.

É bom lembrar que desde aquela época já se sabia que esses elementos metálicos eram vitais para a indústria, especialmente na eletroeletrônica, com aplicações em transportes, setor militar e eletroportáteis. O tempo só tornou as terras raras ainda mais essenciais com a aceleração da nossa dependência a novos aparatos, como carros elétricos, turbinas eólicas e, claro, toda a parafernália militar de última geração. O primeiro "recado" oficial ao mundo veio em 2010, durante uma crise sino-nipônica de disputa territorial.

Fica aquela dúvida cruel: foi um erro? Excesso de inocência? Ou a preocupação com outras pautas foi uma desculpa conveniente para deixar o "trabalho sujo" com a China? Bom, evidentemente, ainda existe uma chance de diálogo com Pequim e, mais do que isso, essa conversa será compulsória até que o resto do mundo consiga reestabelecer uma nova cadeia de produção. Mas, até lá, será uma conversa nos termos da China.

Assim como descobrimos na pandemia com as cadeias de suprimentos de alguns itens essenciais, é vital gerenciar riscos, mesmo que isso signifique abrir mão dos custos mais baixos. No caso das terras raras, a intervenção dos governos era necessária: direcionar esforços para uma exploração e refino mais sustentáveis, oferecer subsídios estratégicos às usinas deficitárias dos anos 80 (mantendo a capacidade de processamento), e formar robustos estoques de segurança.

Enfim, tirar o domínio da China não é nada óbvio, principalmente no prisma de livre mercado. A única coisa óbvia é que a China, um dia, mostraria quem dá as cartas. E esse dia chegou.



Foto: “Altes Museum” de Berlim, última etapa da viagem. Este museu tem um inigualável acervo greco-romano (abril de 2024).


Friday, September 12, 2025

Bye Bye Bayeux (*)



Existem obras de arte que, de fato, transcendem a condição de objetos valiosos: são verdadeiras cápsulas do tempo. Falo da Tapeçaria de Bayeux, que tive a honra de visitar em 2009, quando da viagem à Normandia, como registrado no meu blog.

Por quase mil anos, esta relíquia, um bordado de 70 metros, permaneceu na Normandia. Agora, ela se prepara para sua jornada a Londres, gerando polêmica e fascínio em igual medida.

Apenas como uma breve recapitulação, a tapeçaria narra os eventos da conquista normanda da Inglaterra em 1066. Liderados por Guilherme, o Conquistador, os normandos — descendentes de vikings que se estabeleceram na França — invadiram a ilha, desafiando o rei anglo-saxão. A história culmina na épica e decisiva Batalha de Hastings, onde o destino de duas nações foi selado. Mais do que um simples registro, a tapeçaria é uma peça de propaganda, meticulosamente bordada para glorificar a vitória normanda e justificar a ascensão de Guilherme ao trono inglês.

Sua importância histórica é inestimável. Ela é uma das fontes mais ricas para entendermos não apenas os eventos militares, mas também a vida cotidiana, a arquitetura e as vestimentas do século XI.

Agora, com o seu lar, o museu de Bayeux, fechado para uma grande reforma, a tapeçaria será exposta em uma nova casa temporária: o British Museum, em Londres. Bastante simbólico, considerando o tema da tapeçaria e a proximidade do milênio do nascimento de Guilherme, o Conquistador.

Este empréstimo, uma cortesia do presidente Emmanuel Macron, faz parte de um acordo que visa reforçar as relações culturais entre França e Reino Unido. E é aqui que surge a polêmica. O empréstimo de um artefato tão antigo e frágil é uma decisão arriscada. Afinal, depois de quase mil anos, a tapeçaria está fragilizada e não precisa de muito para que o bordado rasgue, quebre ou esfacele.

Muitos argumentam que o risco de danos é alto demais, questionando se o apelo de uma exibição em solo inglês justifica a remoção da obra de seu lar centenário. É um debate que coloca a preservação rigorosa contra o desejo de compartilhar a história com o mundo, permitindo que uma nova geração a contemple de perto. Independentemente dos desafios técnicos do transporte, a tapeçaria merece um local apropriado e ser apreciada por todos.


Imagens – Acima, Museu da Tapeçaria de Bayeux (foto de 2009), que será submetido a uma grande reforma. Abaixo, um trecho da Tapeçaria de Bayeux através do seu site oficial.

(*) Título emprestado do jornal Libération de 5/9/25.

Outras informações e imagens - Site oficial da Tapeçaria de Bayeux


Monday, August 4, 2025

Os podcasts que ninguém pediu, mas que você deveria ouvir



Muitos de vocês notaram meus experimentos com podcasts feitos por inteligência artificial nos últimos dois meses. E, honestamente, sei que a maioria viu, mas não chegou a ouvir. Tudo bem, eu entendo! É exatamente por isso que vou continuar "brincando" até criar algo realmente interessante e, por que não dizer, cativante.

Da série inicial Gotas de Transformação até o Bridge, houve uma evolução significativa. E é por isso que, até o fim do ano, pretendo substituir meus dois primeiros produtos: o Gotas de Transformação e o DeepCast. Inclusive, já criei uma versão em inglês do DeepCast — o The DeepCast, que está bem melhor — e em breve vou descontinuar a versão original em português. Já as minhas outras séries curtas — Um nó chamado Brasil, Pulsar, Pulse e Bridge — continuarão no ar como estão.

Agradeço imensamente aos poucos que me deram algum feedback. Muita gente ficou encantada por simplesmente entender que o conteúdo foi feito 100% por IA, mas o que eu realmente buscava era a sua opinião sobre o conteúdo em si. Queria saber se ele consegue transitar entre o superficial e o profundo, e se os temas são tão interessantes a ponto de fazer você querer ouvir o próximo episódio.

Para encaixar este projeto na minha agenda, estabeleci alguns princípios:

1. Usar apenas ferramentas simples e acessíveis, sem exigir conhecimento profissional ou aprofundado.

2. Garantir que a edição fosse fácil e rápida.

3. Fazer uma divulgação limitada.

É claro que, mesmo usando ferramentas simples, paguei as licenças de software devidas. Até hoje, foram 118 episódios publicados no Spotify.

A parte mais empolgante desse trabalho é o projeto como um todo — desde a busca pelo “prompt” ideal até a escolha dos elementos visuais, vinhetas e sons que enriquecem o podcast. Apesar de cada episódio exigir um trabalho manual e, muitas vezes, várias checagens, o ponto central é um serviço do Google que produz a maior parte do áudio — aqueles 80% do trabalho feitos com 20% do esforço. Chegar aos 100% é outra história.

A ferramenta NotebookLM funciona muito bem em inglês, mas a geração de áudio em português ainda tem suas limitações. Por isso, a produção de Um nó chamado Brasil foi um desafio!

Enfim, convido novamente todos a darem uma chance a esses projetos:

Em português:

Um nó chamado Brasil

Pulsar

DeepCast (em breve será removido)

Gotas de Transformação (uma nova edição será lançada a partir de setembro)

Em inglês:

Bridge

Pulse

The DeepCast (versão inglesa do DeepCast, muito mais profunda)


A sua opinião é fundamental para aprimorar ainda mais este trabalho.


Foto: Palácio Sanssouci, o antigo refúgio de verão de Frederico o Grande, ainda em Potsdam. Alemanha (abril de 2024).


Wednesday, July 23, 2025

PIX - A teta secou. Agora, vem a treta.



O governo norte-americano vai investigar se o PIX representa uma concorrência desleal para as empresas americanas de pagamentos. Será que eles têm razão?

A combinação da proliferação de bancos digitais com o PIX foi uma arma poderosa para resolver um problema brasileiro crônico: a desbancarização. Mais do que isso, resolveu com categoria — deu meios para que todos tivessem acesso aos serviços financeiros mínimos, permitindo realizar suas transações pessoais, seus bicos e os pequenos negócios da economia informal.

Ressalto isso porque é justamente o que eu esperaria de uma política pública: o governo não distribui peixes para todos, mas entrega anzóis e iscas em abundância.

A crítica poderia vir do argumento de que bancamos todas essas transações com o erário público. Mas a verdade é que o valor de dinheiro público investido na construção e manutenção do PIX é irrisório comparado com grandes projetos de tecnologia ou mesmo diante dos valores movimentados pelo Governo.

Antes do PIX, o caso de sucesso mais próximo foi o da Índia (2016), que enfrentou uma pobreza ainda mais severa e obteve resultados impressionantes: incluiu milhões no sistema financeiro, reduziu a informalidade; aumentou a arrecadação ao a evasão fiscal e estimulou o empreendedorismo informal. 

Enfim, mesmo eu — que não sou fã da mão pesada do Estado — reconheço: o PIX é infraestrutura. Mais do que isso, é um instrumento de inclusão muito mais eficiente e eficaz do que muitos outros benefícios sociais.

Resta aos incumbentes adaptarem a sua oferta. Há outras formas de oferecer serviços diferenciados. Tá com pena da Visa ou da Mastercard? A vida dos negócios é assim mesmo — especialmente em tempos de rupturas e transformações sucessivas.


Foto: Cecilienhof, local da famosa conferência de Potsdam, uma evento marcante do pós-guerra. Em Potsdam, Alemanha (abril de 2024).


Thursday, May 22, 2025

Espiões entre nós


 

Este post é inspirado em dois casos recentes que ilustram como funciona o mundo da espionagem. A analogia do iceberg não vale para esse universo, pois a pontinha visível é ainda muito menor. De vez em quando, a gente vê uma lasquinha e fica imaginando o tamanho e a sofisticação das redes de espionagem a serviço de países - seja para inteligência ou, mais comum nos dias de hoje, para criminalidade de Estado.

Quem não está acostumado com filmes e livros de espionagem até estranha, mas essas descobertas não surpreendem. Afinal, a arte imita a vida. Ou é o contrário?

A primeira descoberta foi a utilização do Brasil como base na formação de agentes russos. Os espiões fazem um estágio por aqui, onde constroem uma nova vida, que será amplamente rastreada com relacionamentos e documentos. Tudo isso é essencial para que, numa nova fase, o espião possa atuar em outro país com uma ficha “limpa” e cheia de vínculos comprováveis com o Brasil. Essa prática envolve anos de preparação e milhões em investimento para criar uma biografia perfeita - emprego, família, redes sociais, tudo cuidadosamente forjado.

Enquanto a Rússia segue a receita da KGB, investindo no longo prazo, a Coreia do Norte é mais direta. Como foi recentemente descoberto, desenvolveram uma máquina de infiltração de profissionais de TI em empresas ocidentais. Apesar dos currículos terrivelmente falsos, a onda de trabalho remoto pós-pandemia e o eterno déficit de profissionais de TI fizeram com que as empresas ocidentais baixassem a guarda e contratassem inúmeros espiões.

A TI tem acesso privilegiado a muitos dados e, quando não os tem, sabe o caminho para encontrá-los. O caminho para os norte-coreanos acessarem dados sensíveis não é muito longo. Daí em diante, é a mesma estratégia dos cibercriminosos: comercializar os dados, extorquir o proprietário das informações — ou ambos.

Quando se fala em espionagem, muitos ainda imaginam agentes com disfarces elaborados, gadgets mirabolantes e missões de tirar o fôlego. Mas a realidade, como sempre, mostra que o mundo das sombras é muito pragmático e, em certos aspectos, até mais inquietante do que qualquer roteiro cinematográfico.

Rússia e Coreia do Norte exploram vulnerabilidades gritantes. No Brasil, a facilidade de acesso a documentos legítimos é a brecha perfeita para quem precisa desaparecer de um país e surgir oficialmente em outro. No setor de tecnologia, a combinação de escassez de talentos e processos de recrutamento pouco rigorosos abre as portas para qualquer um que apresente um perfil convincente — mesmo que fabricado.

Enfim, são lembretes de que os espiões não estão apenas na tela de cinema ou atrás de celebridades e estadistas, mas podem ser seu colega de trabalho, seu vizinho, etc. Como escrevi recentemente no caso do INSS, onde houver uma fragilidade, haverá alguém para explorá-la. Portanto, é dever de todo cidadão e profissional encontrar e denunciar as pontas soltas do sistema.



Foto: Navegando pelas águas do Elba de Praga a Berlim (abril de 2024).