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Friday, September 12, 2025

Bye Bye Bayeux (*)



Existem obras de arte que, de fato, transcendem a condição de objetos valiosos: são verdadeiras cápsulas do tempo. Falo da Tapeçaria de Bayeux, que tive a honra de visitar em 2009, quando da viagem à Normandia, como registrado no meu blog.

Por quase mil anos, esta relíquia, um bordado de 70 metros, permaneceu na Normandia. Agora, ela se prepara para sua jornada a Londres, gerando polêmica e fascínio em igual medida.

Apenas como uma breve recapitulação, a tapeçaria narra os eventos da conquista normanda da Inglaterra em 1066. Liderados por Guilherme, o Conquistador, os normandos — descendentes de vikings que se estabeleceram na França — invadiram a ilha, desafiando o rei anglo-saxão. A história culmina na épica e decisiva Batalha de Hastings, onde o destino de duas nações foi selado. Mais do que um simples registro, a tapeçaria é uma peça de propaganda, meticulosamente bordada para glorificar a vitória normanda e justificar a ascensão de Guilherme ao trono inglês.

Sua importância histórica é inestimável. Ela é uma das fontes mais ricas para entendermos não apenas os eventos militares, mas também a vida cotidiana, a arquitetura e as vestimentas do século XI.

Agora, com o seu lar, o museu de Bayeux, fechado para uma grande reforma, a tapeçaria será exposta em uma nova casa temporária: o British Museum, em Londres. Bastante simbólico, considerando o tema da tapeçaria e a proximidade do milênio do nascimento de Guilherme, o Conquistador.

Este empréstimo, uma cortesia do presidente Emmanuel Macron, faz parte de um acordo que visa reforçar as relações culturais entre França e Reino Unido. E é aqui que surge a polêmica. O empréstimo de um artefato tão antigo e frágil é uma decisão arriscada. Afinal, depois de quase mil anos, a tapeçaria está fragilizada e não precisa de muito para que o bordado rasgue, quebre ou esfacele.

Muitos argumentam que o risco de danos é alto demais, questionando se o apelo de uma exibição em solo inglês justifica a remoção da obra de seu lar centenário. É um debate que coloca a preservação rigorosa contra o desejo de compartilhar a história com o mundo, permitindo que uma nova geração a contemple de perto. Independentemente dos desafios técnicos do transporte, a tapeçaria merece um local apropriado e ser apreciada por todos.


Imagens – Acima, Museu da Tapeçaria de Bayeux (foto de 2009), que será submetido a uma grande reforma. Abaixo, um trecho da Tapeçaria de Bayeux através do seu site oficial.

(*) Título emprestado do jornal Libération de 5/9/25.

Outras informações e imagens - Site oficial da Tapeçaria de Bayeux


Saturday, June 25, 2016

Serventia da casa

Uma boa parte dos almoços lá na cantina do trabalho é continuação da reunião da manhã ou introdução àquela da tarde. De vez em quando, obviamente, aparece uma conversa mais amena.

Muitas vezes, meus colegas comentam sobre seus filhos. Graças ao programa da União Europeia (UE), o  Erasmus, a maioria deles está estudando fora da Bélgica. Estudos esses que podem levar a um emprego no exterior, novos estudos num terceiro país ou até mesmo um casamento, quem sabe. Parece-me uma das melhores iniciativas da UE para se forjar uma verdadeira geração de europeus. Não foi à toa que os jovens ingleses preferiram o “remain”.

Ontem foi dia de greve geral na Bélgica. Voltar para casa de carro foi sofrível. O bom e velho rádio foi meu companheiro, quando pude ouvir a cobertura do “Brexit”. A rádio transmitia depoimentos de belgas sobre o episódio histórico. Mais decepcionante do que a decisão dos britânicos, foi ouvir tantos comentários simpáticos aos mesmos. A Bélgica é um dos maiores beneficiários da UE, por hospedar a maior parte da sua máquina burocrática. Sem dúvidas, uma fonte de riquezas para este pequeno reino. Dá para imaginar o que se passa nos outros países.

Alguns amigos brasileiros ficaram perdidos nesse debate sobre a saída do Reino Unido da UE. Os mais atentos perceberam o tipo de gente que apoia o “Brexit”. Gente da pior espécie. Fascistas, comunistas, demagogos e outros extremistas. Como em outros episódios históricos, estão aproveitando-se das pessoas mais sofridas e fazendo da UE um bode expiatório. Este belo projeto de paz e prosperidade enfrenta uma armadilha. Armadilha maior, no entando, enfrentará o Reino Unido. Afinal, para escoceses, galeses e norte-irlandeses, Londres é Bruxelas.


Foto: Finalmente, na Bretanha, objetivo das férias do verão passado. Foto de Vannes.

Saturday, December 14, 2013

Santos e humanos


Impressionado com a unanimidade em torno de Nelson Mandela? Difícil achar algum artigo fazendo críticas a este grande personagem do nosso tempo. Gostei muito de um artigo de Adam Roberts, republicado no Estadão. Começa assim: “Devemos lembrar do maior ícone da luta contra o apartheid na África do Sul como uma figura humana calorosa e poderosa, um homem político e pragmático, mas não como um santo”.

Mandela está longe de ser um santo. Vê-lo dessa forma seria uma espécie de fuga. Seria messianismo ou, como diz o Arnaldo Jabor, o Sebastianismo luso-brasileiro. Seria acreditar que as grandes mudanças dependem exclusivamente de um salvador. Um convite a se aceitar qualquer situação, por pior que seja, por que somente o salvador poderá resolvê-la.

Nada disso. Mandela cometeu inúmeros erros. No seu governo, houve inúmeros casos de corrupção, compadrio e outras coisas tão comuns por aqui. Há também o escandaloso descaso com a AIDS e a eterna acusação de peleguismo pelos negros mais radicais. Nada disso tira o seu grande mérito. É um ser humano como todos nós, que também erra e tem seus vícios, mas fica para a história como aquele que possibilitou o fim de uma das maiores vergonhas do planeta. O homem certo, na hora certa, no lugar certo.


Obama desceu do pedestal e também mostrou seu lado mais humano. Acho que não houve malícia naquela animada conversa entre ele e os líderes do Reino Unido e da Dinamarca. Aquele momento tão à vontade provocou uma reação também muito humana da Michelle. Infelizmente - ou felizmente - as câmeras registraram tudo. Parodiando o velho ditado: O marido da primeira-dama não basta ser honesto, precisa parecer honesto.


E quem precisa parecer um pouco mais honesto é o governo brasileiro. Não falo de nenhum escândalo recente de corrupção, falo da possibilidade de se adiar a obrigatoriedade de uso de freios ABS e airbags a partir de janeiro de 2014. O Brasil já está atrasado nesse quesito e essa medida propiciará que muitas vidas sejam salvas. Conforme a resolução de 2009, a indústria já está preparada para o fim dos carros sem freios ABS e airbags. A essa altura do campeonato, trocar muitas vidas humanas por alguns décimos de inflação é imoral. O governo poderia até fazer suas contas, mas sem contar para ninguém!


Foto: Para quem gosta da temática militar, a visita ao Midway é um dos programas de San Diego.