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Tuesday, January 19, 2021

Depois da Ford, depois do automóvel


O fechamento das fábricas da Ford do Brasil já deu muita conversa. Infelizmente, nossas economias ainda precisam dos empregos da cadeia automobilística. Durante a minha vivência europeia, vi a mesma choradeira inúmeras vezes. Cada fábrica fechada gerava uma comoção nacional: gesticulações políticas, manifestações e caça aos culpados. E tudo isso aconteceu antes das mudanças estruturais no setor, tema deste artigo.

Até pouco tempo, a reorganização orgânica da indústria era a maior causa dos eventuais fechamentos. Falo da migração para países mais competitivos, do desmonte de plantas obsoletas ou da consolidação de unidades. No Brasil, conseguimos a proeza de perder a Ford para a Argentina. Na Europa, os países ocidentais perdem para os orientais, aqueles da antiga cortina de ferro, com mão de obra mais barata.

Todos esses movimentos de orientação econômica são fichinha perto do turbilhão de transformações que assolam o mundo do automóvel. Transformações aceleradas por uma conscientização mundial em relação às mudanças climáticas, que implicam em novos comportamentos e hábitos de compra.

Dois nomes, que dispensam apresentações, são ícones dessa história: Uber e Tesla. O primeiro, seguido por inúmeros outros atores, popularizou a cultura do compartilhamento. Não é difícil achar por perto alguém que tenha decidido abrir mão do carro. A tendência foi reforçada pela pandemia. Depois dela, nada será como antes.

A Tesla transformou aqueles protótipos de carros elétricos em algo realmente interessante de se dirigir, um objeto de desejo no primeiro mundo. Um trabalho recente do MIT mostra a superioridade dos carros elétricos em relação aos tradicionais. Eles podem ter um custo de aquisição mais alto, mas o custo total de uso é menor, sem contar o evidente impacto ambiental.

A demanda por automóveis vai crescer muito menos do que seus produtores gostariam e numa outra direção. As montadoras tradicionais estão correndo atrás. Porém, tal readaptação custará muitos empregos. A perda de centenas de milhares de postos de metalúrgicos será parcialmente compensada por mais empregos na área de tecnologia. Afinal, como disse um amigo, o Tesla é um computador sobre rodas.

A cereja do bolo é o carro autônomo, que acrescenta desafios tecnológicos e regulatórios, o que não muda o quadro acima. E ainda tem uma possibilidade extra, enquanto estivermos em casa ou no trabalho, nossos carros poderão sair sozinhos, fazendo um bico para o Uber.

A mudança será brutal. Melhor parar de chorar os mortos de ontem e de hoje. As fábricas existentes vão agregar cada vez menos valor na medida em que os novos componentes de altíssima tecnologia concentrem todas as margens da cadeia: o software, a bateria ou o motor elétrico.

Depois de alguns bilhões de dólares de pesquisa e desenvolvimento, a Apple deve lançar seu automóvel - elétrico e autônomo - a partir de 2024. Tudo indica que ele será produzido pela Hyundai. Essa briga de cachorro grande vai relegar ao Brasil a um papel ainda mais secundário. Não é apenas uma questão de tributos, subsídios, mão de obra ou câmbio.  

Talvez esse bonde já tenha sido perdido. Se o país não quiser perder o próximo, é melhor encarar o desafio da ciência e educação, preparando as próximas gerações para buscar o caminho da produção de tecnologia local.

 

Leitura complementar:

Diesel – Um post de 2015

Comparativo automóveis (MIT)

Acordo Apple & Hyundai

 

Foto: Na Bodega Bouza, periferia de Montevidéu, um Ford T no meio dos vinhedos. Foi a única forma de relacionar o texto com minhas fotos. 😉 Viagem feita no começo de 2020, antes da pandemia.

Saturday, November 21, 2020

GPS



Remexendo as coisas aqui em casa, achei um aparelho GPS abandonado há anos. Carreguei e liguei. Como ele não pôde receber o sinal dos satélites, então mostrou o lugar onde fora desligado pela última vez, a saída da minha garagem em Lyon (2010).

Graças à minha determinação em conhecer cada buraco a até 3 horas de Lyon, precisei muito dele. Eu tinha um GPS embutido no painel do carro, um luxo à época. Posteriormente, adquiri um outro, conforme relato a seguir. Houve um grande mercado de aparelhos GPS, derrubado pelos poderosos smartphones e suas fantásticas aplicações, tal qual o onipresente Waze.

Até meados de 2008, contava apenas com o GPS do carro. Foi na primavera daquele ano que parti para explorar a Franche-Comté. Chegar a Besançon é fácil, mas precisaria do GPS para visitar uma dúzia de atrações da vizinhança: a capela de Rondchamp (Le Corbusier), o Leão de Belfort (Bartholdi), a Salina Real (Ledoux), as diversas fortalezas de Vauban e assim por diante.

No dia seguinte à chegada, liguei o carro para começar a aventura. Ops, um probleminha! Naquela manhã fria, o carro pegou, mas o GPS empacou. Depois de alguma insistência, compreendi que ele só tinha o mapa do sul da França. Eu estava fora do mapa!

Fazendo um breve parêntesis, era impossível baixar um novo mapa online. Além disso, cada mapa extra era tão caro quanto um Tomtom carregado com a Europa inteira. Pouco depois da viagem, optei pelo Tomtom, mais fácil e intuitivo do que o GPS do carro.

Voltando à viagem. Sem o GPS, o jeito foi fazer como sempre foi feito. Comprei um mapa no posto e prestei atenção na paisagem e nas placas. Passei a dirigir observando e pensando, ao invés de seguir cegamente o dispositivo. Tudo funcionou com perfeição.  

Quando voltei ao Brasil, já estávamos na era do Waze. Embora o maior objetivo do aplicativo seja ganhar tempo – e isso funcionou super bem – acabamos viciados e dependentes do mesmo. Sempre tem uma desculpa para usá-lo: o trânsito, os radares, uma dúvida com relação ao caminho, etc.

E por que falar de GPS numa época em que estamos com os carros ociosos na garagem? Por duas razões. Primeiro, como disse no começo do post, em tempos de pandemia uma das minhas atividades é fazer ‘arqueologia em casa’. Foi assim que descobri o GPS.

A segunda razão, e mais importante, é que a pandemia propiciou uma convivência mais intensa e constante com minha esposa. Parte dessa interação foi ouvir inúmeras aulas dos cursos que ela tem feito desde o começo do ano, vários deles focados no envelhecimento.

Então, foi meio de penetra, que ouvi uma especialista em cognição falar da importância de se abandonar os aplicativos de direção para melhor estimular o cérebro. Deixe-o capturar as referências, processar as alternativas e encontrar os caminhos. Este pequeno exercício intelectual faz parte de um conjunto de estímulos essenciais para mantê-lo saudável. Embora não seja uma unanimidade, segundo diversos especialistas, tais estímulos somados às boas práticas de saúde podem até prevenir demências.

Percebendo que o trânsito de São Paulo está piorando, mas ainda longe dos piores dias do período anterior pré-pandemia, aproveitem para deixar o Waze desligado. #ficaadica

 


Foto: Outra tomada de Oia, do interior do hotel, se é que podemos falar de interior. Santorini, 2016.


Saturday, March 12, 2016

Pelas ruas

Plano de sábado: Ir ao centro de Bruxelas comer um “bar en croûte de sel”, passear por um pouco por lá e, na volta, entrar no cinema para assisitir “Spotlight”. Tudo isso sem carro.

Passar o sabadão sem carro é a minha vingança. Durante a semana, para sair de onde eu moro, uma densa região comercial e residencial, cruzo inúmeras faixas de pedestre. A maioria delas não tem sinal, ou seja, o pedestre tem prioridade total.

Considerando-se a multidão que anda pelas ruas do bairro, algumas delas são difíceis de atravessar. Nos horários de pico, é muito irritante.

Por isso, hoje, fiz questão de atravessá-las lentamente, com direito a paradinha no meio da faixa para ver se não deixei cair nada pelo caminho. Considero-me vingado.



A  200m do cinema, percebi uma movimentação diferente. Havia muitos policiais e a multidão protestava contra alguém. De longe, não entendia direito. Notei que terminava com “LA”. O meu subconsciente preparava-se para uma prévia das manifestações de domingo (13 de março).

Chegando mais perto, percebi que o vilão era outro. Tratava-se de Joseph Kabila, o “dono” do Congo, antiga colônia belga, ao qual os manifestantes referiam-se como assassino e corrupto.

O grupo prosseguiu pelas ruas do Matonge (bairro congolês de Bruxelas, pronuncia-se Matonguê) e eu fui ao cinema.  Não aderi à manifestação do #ForaKabila, mas espero que todos os amigos do Brasil estejam presentes nas nossas ruas, pedindo um #ForaDilma e #ForaPT.




Foto: Abadia de Mortemer, na Normandia. O conjunto do século XVII está bem preservado, enquanto que os prédios originais do século XII foram destruídos.