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Friday, July 10, 2020

Ilustre desconhecido



A pandemia forçou muitas escolas a descobrirem a educação a distância. Algumas delas fizeram a transição às pressas, passando simplesmente a despejar aquele conteúdo dado em classe pela rede. Outras foram ainda mais longe, agrupando classes e demitindo professores.

Eu já fiz um curso de extensão on-line com 30 mil participantes. Curso de extensão é uma coisa, educação básica é outra. Não se brinca com educação. Voltarei a falar sobre esse assunto tão importante, mas eu queria mesmo é fazer o gancho para o meu curso, feito em 2014, conforme prometi neste blog.

Entre 2013 e 2014, testei muitos cursos on-line da plataforma Coursera. Desisti de quase todos. Não era fácil manter o interesse e a atenção. Entre vários ensaios com programas de Harvard, Stanford e similares, acabei escolhendo um curso da Universidade Hebraica de Jerusalém com um desconhecido professor, chamado Yuval Noah Harari. Sim, à época, um ilustre desconhecido.

Achei o título do curso bastante ambicioso: ‘Uma breve história da humanidade’. Pensei comigo: esse professor deve estar sonhando, abordar a História inteira num único curso, como assim? Só depois de tê-lo concluído - com excelente nota por sinal – percebi que ele tinha razão. Não era apenas uma ótima visão da história da humanidade, como talvez a melhor de todas. Quem leu os seus livros publicados depois, pode confirmar minha percepção.

Se fiquei espantado ao dividir o curso com 30 mil alunos, hoje, um curso dele deve atrair alguns múltiplos dessa quantia. ‘Sapiens’ ainda estava para ser publicado em inglês naquele final de 2014. Ninguém poderia imaginar que o professor se transformaria num dos historiadores mais prestigiados do planeta nos meses seguintes.

Durante o curso, a cada domingo, recebia um pacote de vídeos do Youtube, meras gravações das falas do professor, sem ilustrações ou quaisquer efeitos especiais. Mesmo assim, algumas vezes, acordava ansioso para baixá-los. Naqueles dias lúgubres, quando o céu cinzento e a garoa constante dominavam a paisagem de Bruxelas, assistia tudo no próprio domingo.

Uma vez, vi a distribuição geográfica dos participantes. Percebi que havia muitos oriundos dos nem tão queridos vizinhos de Israel, um fato que nos enche de esperança e otimismo. Enquanto o discurso dos seus governos é cheio de ódio, numa interpretação manipulatória do Islã, milhares de cidadãos do bem de seus países preferem aprender história com um professor israelense, homossexual e ateu.

O Moleskine tomado inteiramente pelas minhas notas de aula está no meu eterno depósito, a casa do meu pai. Bem, mas isso é assunto para outro post.



Foto: Já que o post menciona a Universidade Hebraica de Jerusalém, escolhi a foto mais ilustrativa possível da cidade, quando da minha última visita, em janeiro de 2018.

Monday, July 18, 2016

"No limits"

A última passagem por São Paulo rendeu duas multas. Depois de algum tempo fora, esqueci-me do rodízio e também não percebi os novos limites de velocidade. Paciência!

Dirigir devagar dentro do perímetro urbano é razoável. É uma tendência mundial. Não é razoável ter tamanha diversidade de limites, 30 km/h, 40, 50, 60, 70, etc, estabelecidos ao gosto da burocracia. Imaginem só a economia que poderíamos fazer com menos sinalização!

Na Bélgica, onde também se anda devagar, usa-se o princípio da exceção. Há uma regra conhecida por todos e só as exceções são indicadas. Ou seja, na falta de sinalização, vale o limite de 50 km/h dentro da cidade. Já na autoestrada, o limite é de 120 km/h. Só há placas para sinalizar as exceções, como naqueles trechos próximos às obras.

Falando francamente, só descobri tudo isso há poucos meses. Pensei que a ausência de placas nas estradas significasse “no limits”, algo tipo “Autobahn”. Apesar do mal entendido, não levei nenhuma multa.


As duas multas são fatos pitorescos. Tem coisa muito mais grave. Desde que saí do Brasil pela primeira vez, em 2007, o aumento de preços tem sido constante. Na semana passada, passei por uma situação boba, um pouco constrangedora para mim e que ilustra a tal inflação.

Andava pelas ruas de SP bem à vontade, sem celular e sem documentos. A ideia era passar no supermercado para comprar meia dúzia de itens. Levei uma nota de 50 reais na expectativa de gastar uns 20 e voltar com troco. Vocês devem estar imaginando o que aconteceu. Se não foi a minha primeira vez, não me lembro de outras ocasiões.  Quando percebi que a conta passaria dos 50 reais, tive que pedir para o caixa estornar dois artigos. Vexame :(



Foto: A fachada mais conhecida de Vannes, Bretanha, com o famoso casal esculpido em pedra por volta do século XVI.

Friday, July 15, 2016

Pé frio?


Para quem possa interessar: declaro que, nesta quinta-feira, 14 de julho de 2016, estava em São Paulo - SP.

Pode parecer bobagem, mas para quem esteve em Paris e Bruxelas no momento das respectivas tragédias, fica aquela dúvida, seria eu um pé frio?

O serviço de inteligência portuguesa, depois de meses cruzando terabytes de dados de passagens aéreas e estadias em hotéis, estava chegando perto de colocar o meu nome na lista de suspeitos de terrorismo internacional. Felizmente, pararam a investigação para comemorar o título da Eurocopa.

Por falar em futebol, realmente tive meu momento de Mick Jagger até as quartas de final do torneio europeu. Os times pelos quais torcia perdiam. Porém, dei uma dentro com relação a Portugal. Depois da sua campanha pífia na primeira fase, disse que estava com pinta de campeão.

Fiquei mais tranquilo mesmo com relação a ser ou não ser um pé frio quando cheguei ao Brasil. Após um verão belga com chuva todos os dias e resfriado por algumas semanas, fui brindado com um generoso inverno paulistano, quando finalmente pude vestir camiseta, calção e chinelos. Ufa!

Estou aliviado. E vocês podem ficar tranquilos. Na próxima semana, volto para a Europa ;-)


Foto: Junto às muralhas de Vannes, na Bretanha.

Saturday, June 25, 2016

Serventia da casa

Uma boa parte dos almoços lá na cantina do trabalho é continuação da reunião da manhã ou introdução àquela da tarde. De vez em quando, obviamente, aparece uma conversa mais amena.

Muitas vezes, meus colegas comentam sobre seus filhos. Graças ao programa da União Europeia (UE), o  Erasmus, a maioria deles está estudando fora da Bélgica. Estudos esses que podem levar a um emprego no exterior, novos estudos num terceiro país ou até mesmo um casamento, quem sabe. Parece-me uma das melhores iniciativas da UE para se forjar uma verdadeira geração de europeus. Não foi à toa que os jovens ingleses preferiram o “remain”.

Ontem foi dia de greve geral na Bélgica. Voltar para casa de carro foi sofrível. O bom e velho rádio foi meu companheiro, quando pude ouvir a cobertura do “Brexit”. A rádio transmitia depoimentos de belgas sobre o episódio histórico. Mais decepcionante do que a decisão dos britânicos, foi ouvir tantos comentários simpáticos aos mesmos. A Bélgica é um dos maiores beneficiários da UE, por hospedar a maior parte da sua máquina burocrática. Sem dúvidas, uma fonte de riquezas para este pequeno reino. Dá para imaginar o que se passa nos outros países.

Alguns amigos brasileiros ficaram perdidos nesse debate sobre a saída do Reino Unido da UE. Os mais atentos perceberam o tipo de gente que apoia o “Brexit”. Gente da pior espécie. Fascistas, comunistas, demagogos e outros extremistas. Como em outros episódios históricos, estão aproveitando-se das pessoas mais sofridas e fazendo da UE um bode expiatório. Este belo projeto de paz e prosperidade enfrenta uma armadilha. Armadilha maior, no entando, enfrentará o Reino Unido. Afinal, para escoceses, galeses e norte-irlandeses, Londres é Bruxelas.


Foto: Finalmente, na Bretanha, objetivo das férias do verão passado. Foto de Vannes.

Sunday, June 12, 2016

Temporada de greves

Estou escrevendo este texto no trem. O mesmo trem que trouxe os torcedores ingleses de Marseille e que leva os belgas para Lyon. É tempo de Euro 2016!

Euro 2016 só para alguns, pois eu estou indo trabalhar. Aliás, nem os maquinistas estão trabalhando. Para minha sorte, peguei um dos poucos trens confirmados para hoje.

Que os maquinistas franceses não respeitem a Euro 2016, dá até para se aceitar. Mas eles não suspenderam a greve nem quando boa parte do país estava debaixo d’água. Isso é demais! Entre trilhos inundados e trens inoperantes, a França passou por alguns difíceis.

Os maquinistas belgas foram mais solidários. Respeitaram um longo período de luto após os atentados e fizeram apenas alguns poucos dias de greve. Do lado belga, não há nenhuma reivindicação especial, é só para não perder o hábito. Sindicalista profissional não precisa de bons motivos para cruzar os braços.

Amanhã, tenho uma reunião importante em Lyon. Sacrifiquei metade do meu domingão para poder pegar esse trem e garantir minha presença amanhã logo cedo. Um outro colega belga, cansado das greves, está encarando 6 horas e meia de estrada. Outros escolheram ir de avião, evitando-se a Air France, que tem greve anunciada para as próximas horas.

Entre greves belgas, francesas, muita chuva e um trânsito infernal, não é preciso dizer que enfrentamos dias de caos por aqui. Felizmente, consegui movimentar-me entre Bruxelas, Paris e Lyon escolhendo os bons trens e aviões. Sorte!

Só fui supreendido por um temporal parisiense, daquelas chuvas de verão paulistanas. Estava a 200m do hotel com um guarda-chuva portátil. Achei que dava. E deu! Deu para ficar encharcado.  A noite inteira e o secador de cabelos não foram suficientes para secar a calça, o paletó e os sapatos.

O legado desses dias de caos e um frio fora de época foi um refriado, que virou gripe, que virou sinusite. Chamei um médico, que chegou em casa rapidinho para fazer o diagnóstico e receitar os medicamentos. Deve ter vindo a pé.



Foto: Ainda das férias do verão passado, no caminho para a Bretanha, passagem pelos Jardins de Giverny, famosa residência de Claude Monet.

Sunday, May 8, 2016

A mãe do taxista



Abril e maio são meses de feriados e congressos. Em abril, fui ao Brasil por uns poucos dias, quatro dias na Bahia e mais três em São Paulo. As viagens continuam pelas próximas semanas.

A caminho do Brasil, chamei um táxi para ir até o aeroporto de Bruxelas. Quando o motorista viu nossas quatro malas, perguntou se estávamos de mudança. Taxista de bom humor e pouca gentileza!

Argumentou que as malas não cabiam no seu porta-malas e nem se dispôs a tentar encaixá-las. Eu não quis perder tempo, aceitei o fato e pedi a sua ajuda para chamar um outro táxi. Ele continuava resmungando.

Finalmente, pedi que levasse minha esposa e metade das malas. Eu mesmo coloquei-as no porta-malas. Daí em diante, quase tudo certo, exceto o fato de ter cobrado 5 euros pelo tempo perdido com a discussão.

Já deixei de formalizar reclamações de valores bem maiores, mas esse caso não poderia passar em branco. Reclamei à central de táxis. Não é pelos 5 euros, mas pela grosseria. Para falar a verdade, nem usei o crédito que recebi de volta (10 euros). O importante é que o motorista foi expulso da companhia.



No último feriado de maio, aluguei um carro numa ilha do Mediterrâneo. Ao contrário da prática mais comum, lá, entregam o carro com tanque vazio. O pacato funcionário da locadora disse que havia combustível suficiente para se chegar ao próximo posto. Também disse que uma batidinha a mais no carro não seria motivo de estresse. Cool!

Com o ponteiro no limite da reserva e o posto que não chegava, este blogueiro que faz as coisas certinhas entrou em pânico. Se a prática local é andar com o cheiro de óleo, essa não é minha praia.

Finalmente, o posto. O homem da locadora disse que 10 euros de gasolina dava para fazer a ilha de cabo a rabo. O carro deveria ser entregue com combustível no mesmo nível da retirada e que ele não devolvia a gasolina excedente. Entretanto, este blogueiro muito prudente não quis passar aperto de novo e colocou 15 euros de gasolina. Obviamente sobrou. Devolvi o carro com um oitavo de tanque.

O homem da locadora nem se preocupou em disfarçar. Na nossa frente, meteu um tubo flexível no tanque e passou a gasolina excedente para um outro carro. Assim, poderia entregar o carro para o próximo cliente com o combustível no limite da reserva, como manda a tradição local.


Um grande Dia das Mães a todas as mães deste mundo! 
(inclusive às mães do taxista e do cara da locadora)


Foto: Château de Balleroy, mais um visitado no último verão.

Wednesday, March 30, 2016

Patrimônio

Aos amigos que passam por Bruxelas, costumo oferecer os imperdíveis tours em Bruges e Gante. Já perdi a conta dos dias passados nestas cidades, mas afirmo que vou sempre com imenso prazer. O passeio em ambas as cidades é adaptável “ao gosto do freguês”: Com ou sem barco, com ou sem entrada em museus, com ou sem as “obras-primas”.

Alguns brasileiros chegam aqui com a memória do filme Os Caçadores de Obras-Primas (2014), que destaca justamente duas notáveis obras de arte em exibição nessas cidades. Vale conferir  a Madonna de Bruges (Michelangelo) e o Retábulo de Ghent  (Jan van Eyck) para entender porque os nazistas tanto fizeram para roubá-las.

O filme não é nenhum clássico, mas levanta uma questão interessante. Até que ponto colocamos vidas em risco para salvar um patrimônio cultural? Como arbitrar entre pinturas, esculturas ou edifícios e vidas humanas? A resposta não é simples.

Com a reconquista de Palmira pelas tropas de Assad, fala-se num esforço mundial para se reconstruir o que foi um grande patrimônio da humanidade. Há muitos meses que penso em Palmira. Só não escrevi antes em respeito às centenas de milhares de vítimas da Guerra da Síria.

Colocamos alguns bilhões para restaurar os danos causados pelo Exército Islâmico às ruinas de Palmira ou resolvemos os problemas dos refugiados? Como arbitrar?

Palmira foi condenada há muito tempo. Se os Assad não fossem ditadores sanguinários, poderiam ter feito desse incomparável sítio arqueológico uma “mina de ouro”. A renda seria suficiente para garantir a sua preservação, prosseguir nas escavações e ainda sobraria um troco para a família. Assad, pai e filho, no entanto, preferiram ver estrangeiros fora do seu país.

O Exército Islâmico destroçou Palmira e saqueou os tesouros do Iraque. O Taliban destruiu os Budas gigantes do Afeganistão. A Al-Qaida arrasou Tombuctu. O terrorismo islâmico não é brincadeira, destrói o passado e aterroriza o presente para que não haja futuro.



Foto: Nas férias do verão passado, à caminho da Bretanha, pit-stop às margens do Sena.

Monday, March 28, 2016

Dessa vez, foi perto

Depois de alguns bons dias sem escrever, estou de volta, diante do computador e de um monte de jornais acumulados na útima semana. Não poderia deixar de escrever sobre os eventos trágicos ocorridos aqui mesmo em Bruxelas. 

Assustou. A estação de metrô de Maelbeek fica a 2km de casa. O aeroporto é, sem dúvidas, um ponto de passagem obrigatório na nossa vida profissional.

Os amigos brasileiros, concentrados na nossa crise interna, provavelmente não perceberam os momentos que antecederam os atentados. Vou relembrá-los.

Na sexta-feira, 18 de março, enquanto o governo brasileiro pagava para que manifestantes fossem às ruas em seu apoio, a Bélgica anunciava a prisão de Salah Abdeslam, o cabeça dos atentados de Paris.

Anúncio com pompa e circunstância, presença de vários líderes europeus e recadinho de Obama. Show! Como disse o jornal belga Le Soir, a Bélgica salvava a sua honra.

A captura de Abdeslam foi o resultado de uma série de investidas da polícia a partir de novembro, resultando na prisão ou morte de vários dos seus cúmplices. Muitos cúmplices. A cada semana, o Le Soir atualiza o “organograma” da gangue de terroristas islâmicos do eixo Paris-Bruxelas. Não para de aumentar.

Reconheço todo o esforço e determinação da polícia belga e dos serviços de inteligência europeus. Porém, encontrar o inimigo público número um dentro de Bruxelas, tão próximo de sua própria moradia, mostra que tem algo de podre no Reino da Bélgica.

É por isso que a alegria tenha durado tão pouco, apenas 4 dias. Como os poucos sobreviventes da gangue cometeram atentados suicidas, acredita-se que não haja risco iminente de outros trágicos eventos. Talvez não nos próximos dias.

Os colegas e amigos belgas e franceses entendem que a vida não será mais a mesma. Os procedimentos de segurança chegaram para ficar. Acabou aquela praticidade de se chegar no trem a 5 minutos do embarque ou passar de um país para o outro sem qualquer controle.

As pessoas querem um Estado mais atento e vigilante. A discussão importante é sobre os limites dessa vigilância, tema que já inspirou vários posts deste blog.

Depois do choque e da dor, a Bélgica voltou para onde estava antes do dia 18. Caçando as suas bruxas, encontrando os culpados pelo policiamento frouxo e pelos erros de inteligência.

Se o terrorismo tem seus fundamentos na pobreza ou na desigualdade social, existe um fator manipulatório que transforma esse contingente de marginais em brutais criminosos. Os governos europeus têm que trabalhar em ambos os aspectos para erradicar esse mal.



Foto: Abadia de Mortemer, na Normandia. Cinco séculos separam as duas partes do conjunto.

Saturday, March 12, 2016

Pelas ruas

Plano de sábado: Ir ao centro de Bruxelas comer um “bar en croûte de sel”, passear por um pouco por lá e, na volta, entrar no cinema para assisitir “Spotlight”. Tudo isso sem carro.

Passar o sabadão sem carro é a minha vingança. Durante a semana, para sair de onde eu moro, uma densa região comercial e residencial, cruzo inúmeras faixas de pedestre. A maioria delas não tem sinal, ou seja, o pedestre tem prioridade total.

Considerando-se a multidão que anda pelas ruas do bairro, algumas delas são difíceis de atravessar. Nos horários de pico, é muito irritante.

Por isso, hoje, fiz questão de atravessá-las lentamente, com direito a paradinha no meio da faixa para ver se não deixei cair nada pelo caminho. Considero-me vingado.



A  200m do cinema, percebi uma movimentação diferente. Havia muitos policiais e a multidão protestava contra alguém. De longe, não entendia direito. Notei que terminava com “LA”. O meu subconsciente preparava-se para uma prévia das manifestações de domingo (13 de março).

Chegando mais perto, percebi que o vilão era outro. Tratava-se de Joseph Kabila, o “dono” do Congo, antiga colônia belga, ao qual os manifestantes referiam-se como assassino e corrupto.

O grupo prosseguiu pelas ruas do Matonge (bairro congolês de Bruxelas, pronuncia-se Matonguê) e eu fui ao cinema.  Não aderi à manifestação do #ForaKabila, mas espero que todos os amigos do Brasil estejam presentes nas nossas ruas, pedindo um #ForaDilma e #ForaPT.




Foto: Abadia de Mortemer, na Normandia. O conjunto do século XVII está bem preservado, enquanto que os prédios originais do século XII foram destruídos.

Friday, March 4, 2016

Encontros

Meus leitores do Brasil ainda estão comemorando o encontro de um ex-político com o japonês da Federal. Nessas horas, é difícil falar de outra coisa, mas vou arriscar.

Começo de ano tem festa do cinema em vários países, fechando com o Oscar. Aqui na Bélgica, o vencedor do “Magritte du Cinéma”, como melhor filme do ano, foi “O Novíssimo Testamento”.

O filme começa assim: Deus existe e mora em Bruxelas. Entre os destaques, a atuação do astro belga, Benoît Poelvoorde. O filme tem momentos inspiradores intercalados com o pastelão típico do ator, que faz o papel de Deus. Sem spoilers, pois o filme está em cartaz em São Paulo.

Para os amigos do Brasil, vale relembrar quem é o ator tão conhecido no mundo francofônico. Em “Asterix nos Jogos Olímpicos”, foi Brutus. Em “Coco antes de Chanel”, foi  o amante e protetor da futura estilista. Clíque aqui, caso essas dicas não sejam suficientes.

Assisti ao filme “O Novíssimo Testamento” no avião, voltando do Brasil para a Europa. Como minha esposa dormiu no vôo, o filme foi nosso assunto nos dias seguintes, quando contava a história em pedacinhos.

Num desses dias, recebemos um casal de amigos para jantar. Tocaram o interfone. De dentro de casa, destravei a primeira e a segunda porta. Mesmo conhecendo o caminho até nosso apartamento, o casal estava demorando demais. Destravei as portas mais uma vez e nada. Resolvi descer para ver o que acontecia.

Lá embaixo, nossos amigos não conseguiam passar pela segunda porta. Um outro casal havia espalhado um monte de malas e bloqueado a segunda porta. Tinham um cachorro também. Nossos amigos educadamente esperavam.

Chamou-me atenção o jeito estabanado do homem que procurava a chave da porta entre as malas e pacotes. Era de uma graça familiar. Observei melhor e reconheci a figura.

Sim, era ele. Deus em pessoa. Fiquei impressionado. Por um momento, esqueci-me completamente do casal de amigos.

Deus existe, mora em Bruxelas e é meu vizinho.


Foto: Última foto na bela Lyons-la-Forêt.

Saturday, February 27, 2016

Pudor

Estive num ótimo spa nos arredores de Bruxelas. Um lugar bem equipado com restaurante, saunas, massagens, piscinas internas e externas. O sol foi generoso neste sábado e mesmo com uma temperatura próxima de zero, deu para ficar na piscina externa, muito bem aquecida por sinal.

Logo depois da recepção do spa, há um imenso vestiário. Homens e mulheres trocam-se ali mesmo. Enquanto vestia meu calção de banho, percebi que uma garota estava constrangida em fazer o mesmo. Envergonhada, a mocinha preferiu usar a única cabine disponível.

Saindo do vestiário, há duas portas. Cada uma leva para um complexo distinto de piscinas, saunas e solários. A porta da esquerda leva para a ala dos nudistas. A porta da direita, para a ala daqueles que usam roupa de banho. Eu e minha esposa abrimos a porta da direita. Já a mocinha envergonhada, a porta da esquerda.



Num dia do último verão, quando os dias são bem mais longos, cheguei do trabalho e abri a janela do quarto para ver como estavam nossas plantas. Será que apareceu alguma nova flor?

Entre um vaso e outro, um movimento na janela do vizinho chamou a minha atenção. Uma adolescente nua pulava freneticamente sobre a cama, como se fosse um pula-pula. Havia uma outra moça no quarto, que assistia à exibição. A brincadeira acabou quando elas perceberam que eram observadas pelo autor deste blog.

Dias depois, encontrei as duas entrando no prédio. Estavam acompanhadas da família e devidamente vestidas. Põe vestidas nisso, estavam de xador.


Foto: Mais uma tomada do centro da charmosa Lyons-la-Forêt.

Monday, December 7, 2015

Fantasma

O Brasil passa por uma fase difícil e a tensão deve aumentar ainda mais com a abertura do processo de impeachment. Não sei se será o golpe decisivo na corruptocracia instaurada pelo PT, mas é suficiente para alimentar nossas esperanças.

Diante de um Brasil que anda para trás e continua afundando na lama, os problemas dos outros países parecem menores. Só que não!

A crise dos refugiados e os recentes atentados de Paris potencializaram a ameaça que pairava no ar. Ontem, no primeiro turno das eleições regionais francesas, o Front National (FN), partido de extrema direita, abocanhou quase 30% dos votos.

As estrelas do partido são a filha (Marine) e a neta (Marion) do velho fascista Jean-Marie Le Pen. As caras são novas (e inexperientes), mas seus ideais são os mesmos. A vitória do FN é uma combinação da grande abstenção, do voto de protesto, do desemprego, do repúdio aos imigrantes e da descrença na Europa, entre outros.

Para não apavorar meus leitores, saibam que o sistema eleitoral francês ainda oferece alguma defesa contra a ameaça extremista. Nesses dias entre o primeiro e segundo turno, os partidos ainda podem retirar e fundir suas listas.

Ou seja, para se evitar a vitória do FN, os dois principais partidos da França - Socialista (PS) e Republicanos (LR) - terão de fazer algum sacrifício. Por exemplo, o PS anunciou hoje a retirada da sua lista de três regiões lideradas pelo FN. Em outras palavras, ele libera seus eleitores para votarem nos rivais Republicanos e ainda fica de fora da vida política da região nos próximos anos. Que castigo!

Acredito que os entendimentos políticos e a mobilização popular acabarão limitando o estrago do FN. Entretanto, fica uma dura advertência à classe política francesa. É melhor se mexer e atacar de frente os problemas do país! Com essa vitória, mesmo que parcial, o FN vai ganhar mais palanque para espalhar seu discurso raivoso. A ameaça continua no ar.


Foto: Última foto do Parque da Cambre em Bruxelas

Tuesday, December 1, 2015

Aula

Fazia um bom tempo que eu não entrava numa universidade. Em outubro, tive o prazer de dar uma aula numa escola de referência, a Solvay Brussels School. Trata-se da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade Livre de Bruxelas.

O nome Solvay não é por acaso, a Escola foi criada a partir de uma doação de Ernest Solvay, fundador do Grupo Solvay, do qual a Rhodia tornou-se parte em 2011.

Uma semana antes da aula, notei que um aluno da Escola deixava  pegadas digitais ao recolher informações sobre mim. De fato, ele fora incumbido de fazer a apresentação do palestrante para seus colegas. Achei a iniciativa muito boa. Poupou-me um tempão. Além do mais,  essa nova geração é capaz de fazer apresentações muito melhores do que as minhas.

Lá da frente do anfiteatro, avistava mais de 150 meia-cabeças. Digo meia pois, invariavelmente, os seus Macs eram mais visíveis do que seus rostos. Um espião lá do fundo do auditório revelou aquilo que eu desconfiava. Muitos aproveitavam  o tempo para colocar o Facebook em dia. Tinha até um jogando paciência. Felizmente, para o bem da Bélgica e para minha satisfação pessoal, havia dezenas tomando nota dos meus comentários.

O coordenador do curso estava tão contente com a minha participação, que nem se preocupou com a forma da aula. Acabei usando e abusando do Powerpoint. Fazendo uma autocrítica, mesmo que seja algo comum no mundo corporativo, acho que a nova geração merece coisa melhor.

Apesar da platéia eminentemente francofônica, assim como todas as demais aulas daquele curso, minha apresentação foi em inglês. Bem, pelo menos o apresentador e os alunos estão no mesmo nível.  Cada um com seu sotaque :-)

O  mais interessante foi falar sobre transformação digital para a moçada. Eles nasceram conectados e sabem muito bem como usar as novas tecnologias. Não é à toa que várias empresas lançam programas de “reverse coaching”, onde os mais jovens orientam os mais experientes nos desafios do mundo digital.

Ao final dessas duas intensas horas de apresentação, não faço a menor ideia do que eles aprendeream. Eu aprendi muito.



Foto: Domingão outonal no parque da Cambre, em Bruxelas.

Sunday, November 29, 2015

Outono

O foco está na COP21 sediada em Paris. Para proporcionar a segurança necessária aos governantes do mundo inteiro, a cidade foi praticamente bloqueada. Em paralelo às discussões sobre o clima, os mesmos protagonistas tentarão achar uma solução para a crise síria. A recente derrubada do avião russo pela Turquia não ajuda em nada.

Hoje pela manhã, cruzei mais uma vez com aquele, que inspirou o post  “Popular e Ladrão”. Sim, o Erdogan esteve por aqui para uma nova reunião de cúpula entre a Europa e a Turquia. A Europa quer que ele pare de despejar refugiados sírios nas praias gregas, que ele pare de escoar o petróleo do Estado Islâmico e ajude a combatê-los. O último pedido do Erdogan para aceitar o pleito europeu foi de 3 bilhões de dólares, a cabeça do Assad e um pau nos curdos. Assim fica difícil.

O presidente francês ganhou algum prestígio ao liderar a nação depois da tragédia. Pelo menos, ele serve para alguma coisa! A solidariedade internacional com a França não foi suficiente para formar uma coalizão de combate ao Estado Islâmico. Hollande ouviu alguns nãos durante a semana:  Obama, Putin e Merkel, entre outros.

Bruxelas teve uma semana de exceção, como descrevi no último post. A vida voltou ao normal depois de alguns dias sob estado de sítio. Paira no ar aquela pergunta que não quer calar. Se a situação não mudou e dois dos terroristas estão soltos por aí, então há algo de errado: ou o estado de sítio não deveria ter sido decretado ou não deveria ter sido relaxado. Mistério.

A imprensa francesa não tem perdoado a leniência belga com relação aos muçulmanos radicais. Entre todas as críticas, achei a do Le Monde a mais dura. O seu editorial de 24 de novembro diz: “esse Estado sem nação pode virar uma nação sem Estado”.

Vale uma explicação. A Bélgica é tida como um Estado sem nação, por ser uma federação que agrupa flamengos, valões e alemães. Diante do radicalismo islâmico, todos erraram. O momento é de rara união, evitando-se acusações mútuas. Entretanto, ao longo dos últimos anos, o assunto foi deixado de lado para não afetar o frágil acordo que mantém a Bélgica unida.

Essa história de nação sem Estado lembrou-me do Brasil. Nosso Estado não está desaparecendo, mas apodrecendo rápido. Fiquem tranquilos, pois a cura passa pela prisão em massa de petralhas, como – felizmente - está acontecendo.



Foto: No final de semana anterior aos atentados, pude passear no Parque da Cambre, aqui em Bruxelas, curtindo a paisagem de outono.

Sunday, November 22, 2015

Estado de Sítio

Bruxelas viveu um final de semana sob estado de sítio, com a polícia e o exército espalhados pela cidade. Aqui no meu bairro, tenho cruzado com inúmeros homens fortemente armados desde sexta-feira.

Tinha ingressos para um show ontem à noite, mas o espetáculo foi cancelado. Por ironia, estava em Paris no final de semana passado, onde também não pude fazer o meu programa cultural.

Mesmo sem saber da anulação do show de ontem, confesso que estava preocupado. Vou ou não vou? A ameaça terrorista está sendo levada tão a sério entre a França e a Bélgica, que a tradicional Fête des Lumières de Lyon foi cancelada.

Após uma semana de debates intensos, fiquei muito satisfeito ao perceber que o meu último post, escrito ainda sob o impacto da tragédia, foi bem razoável na análise, apesar da sua brevidade.

No quadro externo, há um amplo entendimento de que é preciso atacar militarmente o Exército Islâmico, cortar suas fontes de financiamento e inibir seu poder de recrutamento, entre outras ações.

No quadro interno, as discussões são mais intensas. Há obviedades como reforçar a vigilância e a inteligência, porém, a unanimidade para por aí. Apesar dos últimos atentados, muitos ainda preferem um pleno respeito às liberdades individuais e à igualdade. Nada de sair prendendo uns barbudos perigosos por aí.

Não tinha percebido duas coisas no momento dos ataques. A primeira é o grau de perversidade dos terroristas. Esses monstros costumam circular entre a Europa e o Oriente Médio quando e como querem. Entretanto, fizeram questão de deixar um rastro associado à entrada de refugiados. Por que dar um presentinho desses aos “irmãos” sírios, que viram as portas fecharem-se em vários países nos últimos dias? Os terroristas sabem que a questão dos refugiados é um debate que divide a Europa. Pegaram na ferida.

A outra coisa que deixei escapar foi o papel da Bélgica. Quer dizer, eu, o povo e o governo belga. Se o Oriente Médio é a universidade do terrorismo, a Bélgica é a sua pós-graduação. A Bélgica dormiu no ponto e permitiu a criação de guetos favoráveis à radicalização. Os rastros dos últimos atentados graves ocorridos na França passam por Bruxelas.

Num final de semana em que pude ler todos os jornais, encontrei sábias palavras de uma executiva belga e muçulmana no L’Echo de sábado: “A Bélgica paga hoje o preço de uma pesada herança deixada por aqueles que preferiram a política do avestruz e do clientelismo com fins puramente eleitorais”.

Já escrevi sobre isso nos posts que sucederam outros atentados. É o mesmo comunitarismo denunciado na França. Políticos abrem mão da laicidade para fazerem concessões à comunidade islâmica a fim de obter seus votos. 

Quanto mais enraizado estiver o islamismo radical, mais difícil combatê-lo.  Não vai ser fácil recuperar toda essa juventude! Só resta esperar por uma semana de paz por aqui. Por aqui, pois na Síria vai cair muita bomba!



Foto: Acima e abaixo, fotos tiradas no último domingo na Praça da República de Paris, lugar que concentra as homenagens às vítimas desses atentados.


Saturday, November 7, 2015

Sanfona

Quando voltei da minha primeira expatriação, estava com 10kg a mais. Digamos que quatro anos de gastronomia francesa justificam esse ganho de massa. Foi por uma boa causa!

A história se repete. O “efeito Bélgica” parece ser ainda mais devastador. A combinação de cerveja, waffle, chocolate e fritas farão os 10kg em muito menos de 4 anos e isso não é uma boa causa, é uma tragédia!

Antecipando o esperado “efeito sanfona”,  tenho procurado academias perto de casa desde que cheguei em Bruxelas. Não achava nenhuma comparável às melhores academias paulistanas. Dá para imaginar alguém limpando os aparelhos após cada utilização por aqui? Nem pensar. E aquele exército de monitores prontos para ajudar? Muito menos.

Entre as minhas tentativas, conheci uma academia tocada por uma só pessoa. Parece cômico, mas a questão da mão de obra na Bélgica é ainda mais complicada do que na França. Também estive numa outra com instalações muito semelhantes às brasileiras. Os aparelhos e máquinas podem ser os mesmos, mas falta o principal: gente.

Há pouquíssimo tempo, encontrei uma academia excelente bem ao lado de casa. Ao longo dos últimos 18 meses, passei diante dela um monte de vezes e não reparei. Possivelmente, uma parte de mim não queria mesmo encontrá-la ;-)

Já estou inscrito. Na próxima vez que pisar no Brasil ainda estarei acima do peso. Quem sabe, em abril, estarei mais próximo daquele que saiu do país há 18 meses.

Em São Paulo, fazia academia com assiduidade. Nunca tive nenhuma ambição esportiva, era a forma mais interessante de fugir do trânsito.

Na minha plenitude esportiva, boa parte do tempo da academia era dividido entre a leitura do jornal, o lanchinho e o banho. No tempo que sobrava, eu queimava umas calorias.


Foto: Mais uma tomada do Château de Belœil, a partir dos seus jardins.

Sunday, November 1, 2015

Roubadinha

Tenho usado a Internet para reservar hotéis, restaurantes e espetáculos. Nesse mundo virtualizado, espera-se que nossas opiniões sejam compartilhadas, construindo (ou não) a reputação de cada local ou evento.

O grande problema é receber inúmeras mensagens semanais de serviços como o Trip Advisor. Desisti! A avaliação pode ser simples, mas ignorar tais mensagens é ainda mais simples. Tenho ignorado até mesmo as avaliações das corridas do Uber e do e-cab (aplicativo de táxi usado por aqui).

Como escolho meus programas com algum critério, dificilmente caio numa roubada. Sempre que precisei “gritar”, usei o Twitter.  Foi rápido e atingiu o objetivo.

Se consegui evitar uma grande roubada, houve “roubadinhas”. O Trip Advisor foi privado de fatos como os que seguem.


Numa cidadezinha da Provence, escolhi um restaurante muito bem localizado, razão pela qual muitos outros turistas fazem a mesma coisa. Sem muita fome, pedi uma salada caprese. O cardápio indicava um preço de 30 euros. Parece caro, mas é aceitável naquele local e na alta temporada. A surpresa viria logo mais com a chegada do prato: Um tomate inteiro e uma bola de mozarela. Olhei para minha esposa e disse: Será que lavaram o tomate?


Aqui em Bruxelas, tem um restaurante estrelado que usa e abusa de trufas. Havia reservado um jantar por lá há algum tempo, aproveitando-me de uma promoção. O espetacular jantar foi um menu-degustação com vários pratos. Em alguns momentos, o garçom ofereceu trufas raladas da mesma forma como se serve queijo parmesão em restaurantes de massa. Entretanto, teria sido mais simpático avisar que cada uma dessas raladinhas custava 20 euros!


E por falar em parmesão, tem um italiano perto de casa. Na última temporada, o tiramisu, minha sobremesa favorita, fazia parte do cardápio. Como sempre, estava animado para degustá-lo, mesmo que fosse pela enésima vez. Quanta decepção! O criativo chef desmontou a tradicional receita italiana, separando o mascarpone, a bolacha, o café e os demais componentes. Horrível! Felizmente, a heresia gastronômica foi excluída do cardápio desta temporada.


Foto: Voltando à Bélgica, uma tomada do Château de Belœil, onde estive um mês atrás.

Sunday, October 11, 2015

Popular e ladrão

O hotel vizinho nem é tão caro, mas é classudo. Seu edifício suntuoso é o endereço preferido dos dirigentes estrangeiros em Bruxelas. Sempre que ando pela Avenue Louise e passo por ele, dou uma olhada para ver qual é a celebridade do momento.

Apesar das longas comitivas, dos jornalistas e curiosos, não há muito barulho. Até mesmo a Dilma não chamou a atenção. Pensei num panelaço solo, mas nossos horários não coincidiram.

Há alguns dias, presenciei uma exceção. A frente do hotel estava repleta de gente. Havia farta distribuição de balões vermelhos e brancos. A charmosa Avenue Louise e a Place Stéphanie foram ocupadas. Até o trânsito de bondes e carros foi  interrompido pela multidão. Quem poderia quebrar a tranquilidade do nosso cantinho? Quem seria tão poderoso?

Tais dúvidas pairavam na cabeça da minha esposa. Estava ao seu lado e pude esclarecer. Disse que o Erdogan, o presidente turco, estava na cidade. Ainda acrescentei : “Ele é o Lula da Turquia, popular e ladrão”.

Para comparar o Brasil e a Turquia, melhor ler a crônica do Guga Chacra. A presença do Erdogan em Bruxelas é importante, pois trata-se de um ator chave numa região tão desestabilizada: refugiados, Síria, curdos, Estado Islâmico, etc. Tudo passa pela Turquia.

Juntar o fã clube para o presidente não foi difícil. A comunidade turca na cidade é muito grande. Assim como acontece no Brasil, encontrar algumas centenas de admiradores de um líder populista é fácil. Não precisa nem pagar.

Dias depois, estive num evento de informática europeu. A maioria dos participantes era do Reino Unido, mas havia uns gatos pingados de outros países. Tive oportunidade de conversar com um executivo turco.

Nem falamos de informática. Já cheguei dizendo que encontrei o Erdogan ao lado de casa.  Ele emendou com as novidades de Istambul. Tudo que ele contou parecia exatamente com a história recente do Brasil, tomado pela gangue do PT.

Preferia ter encerrado a nossa conversa com um tom mais positivo, mas não pude. Contei as coisas que estavam acontecendo no Brasil. Pelo menos ele apreciou a minha sinceridade.


Foto: Ainda na Abadia de Sénanque, a turista curtindo a paisagem. Além do visual, o aroma da lavanda.

Friday, September 18, 2015

Recorrência

Durante o verão europeu, renovei alguns documentos belgas. Apesar dos avanços da máquina pública, de vez em quando, as ortodoxias burocráticas podem surpreender.

A prefeitura de Bruxelas solicitou-me um atestado de bom comportamento. E onde é que se tira o tal atestado? Na própria prefeitura. Pelo jeito, o pessoal do segundo andar não fala com o do primeiro.

Na ocasião, a recepcionista  perguntou: “Por que o Sr. precisa disso?” Respondi que era um pedido do pessoal do andar de cima! Como bom paulistano, falei fazendo mímica, apontando para o andar acima com o dedo indicador.

A situação hilária é incompreensível, pois está tudo no mesmo prédio e é bem informatizado. Para se inventar um Poupatempo belga só seria preciso um pouco de boa vontade. Mas isso não foi o pior.

A moça ainda solicitou a apresentação do documento de identidade, cuja renovação era o próprio objetivo do meu périplo. Felizmente, o documento ainda tinha alguns dias de validade. Caso contrário, seria vítima de uma recorrência burocrática, condenado a passar o resto dos meus dias entre o primeiro e o segundo andar.

Recorrência burocrática existe mesmo. Um exemplo não incomum acontece com muitos expatriados, quando os fiscos dos países envolvidos disputam o campeonato mundial de ganância tributária. Bem, isso é uma outra história.

E por falar em extravagâncias regulamentares, retomo a questão do Uber, tema de um post de março, que continua fazendo barulho em todo o mundo.

Há alguns anos, uma comissão liderada pelo Jacques Attali fez um relatório com sugestões para dinamizar a economia francesa. Uma delas era a desregulamentação do setor de táxis. Não existia o Uber, mas uma clara percepção de que nesse setor há pouca oferta, pouca concorrência e um potencial razoável para criação de empregos.

Que cada ortodoxia regulatória encontre o seu Uber! Ainda existirão alguns nichos de resistência como os taxistas e a prefeitura de Bruxelas. Felizmente, eles caminham para ser exceções.


Foto: O imponente prédio da Fundação Louis Vuitton, projeto de Frank Gehri, inaugurado em 2014. Paris não dorme no ponto. Apesar da falta de táxis e dos banheiros sujos, não faltam atrações.

Sunday, June 21, 2015

Waterloo


Passou 2014 e não escrevi  aquele prometido post sobre o centenário da Primeira Guerra. Para falar a verdade, não li tudo o que queria sobre o tema e acabei deixando o assunto de lado. Nesses dias, comemorou-se mais uma data histórica, o bicentenário da Batalha de Waterloo, que representa o fim do perído napoleônico. Dessa vez, não deixo passar em branco.

Quando o assunto é Waterloo, a França faz picuínha. Atrapalha a comemoração dos outros e ainda não envia seus representantes oficiais ao cenário da batalha. O governo faz feio, mas a imprensa foi magnânime. Fez intensa cobertura de um fato histórico tão importante para a formação da Europa. Hollande não foi. Mas eu fui!

Fui eu e mais 60 mil! Como os campos de Waterloo são afastados do centro de Bruxelas, tive meu momento paulistano ao dividir a estrada com 20 mil carros. Imagino que as centenas de milhares de homens e cavalos que lá chegaram, duelaram e pereceram há 200 anos causaram menos impacto do que todos esses automóveis.

A  Batalha de Waterloo é muito apropriada para ser reconstituída.  Foi uma das últimas batalhas à moda antiga, com tropas inimigas emparelhadas, aproximando-se até aquele sanguinário “mano a mano”. O outro aspecto peculiar é que esta batalha realmente ocorreu numa área pequena, viabilizando a reconstituição com muito realismo.

O lado menos interessante do excesso de realismo é a fumaça. Estava atrás da artilharia de Wellington. A fumaça excessiva dos canhões atrapalha bastante a visão. Considerando-se a precisão das armas de fogo da época, entendo que os canhões tinham mais um efeito moral do que letal.

Veio gente de todo mundo assistir ao espetáculo. Os ingleses eram maioria entre os estrangeiros. Óbvio. Um casal de ingleses perguntou: “Você veio do Brasil só para assistir ao show?” Não é bem assim J

Se a reconstituição deste ano foi especial, o evento ocorre todos os anos. Fica a dica!



Fotos do espetáculo da reconstituição da batalha de Waterloo. Acima,  detalhe da artilharia inglesa no meio da fumaça. Abaixo, visão geral do "batalhódromo" atrás da linha inglesa. Mais abaixo, Wellington observa o avanço da infantaria francesa.