A explosão de violência no Maranhão é só uma face da migração da criminalidade do eixo Rio-São Paulo para o resto do país, especialmente para o Nordeste. Os índices relativos de homicídios das capitais nordestinas são dignos da Venezuela.
O quadro faz lembrar um capítulo da história da aventura humana, como conta Jared Diamond em "Armas, Germes e Aço".
Os homens primitivos espalharam-se pela Ásia e Europa a partir da África. Com as habilidades que os diferenciavam dos outros animais, tornaram-se exímios caçadores. Neste processo, as caças também evoluíam. Sobreviviam aquelas que tinham o reflexo da fuga, que não caíam nas armadilhas mais básicas e assim por diante. Ao longo de milênios, tal interação fez do homem um grande caçador e também permitiu a seleção dos animais mais espertos.
Em algum momento da história, nossos ancestrais entraram na Oceania e na América. Lá, os hábeis caçadores encontraram animais que jamais haviam convivido com o homem. Foi uma festa, pois caçá-los era muito fácil. Foram séculos de fartura e muito churrasco até a extinção completa dos grandes mamíferos dos dois continentes. A falta desses animais foi um dos fatores que condenaram ao atraso civilizações como as pré-colombianas e os aborígenes australianos, que não tinham animais de porte para puxar o arado, para o transporte e nem mesmo para uma alimentação correta.
Voltando ao século XXI. No Rio e em São Paulo, a polícia e os bandidos também evoluíram juntos. À cada ação de um lado, uma reação do outro lado. Após décadas jogando de caçador e caça, atingimos um certo equilíbrio. E o que acontece quando a bandidagem dessas cidades chega aos outros estados, onde encontra um corpo policial subdimensionado, despreparado e desequipado? A resposta é óbvia, a hora é da caça. Assim como é óbvio tudo que os governos devem fazer para reverter este quadro.
Nossos índices de violência são muito altos. Nem mesmo todo crescimento dos últimos anos não foi capaz de melhorá-los. Compreendo a visão humanista que norteia os partidos como PT e PSDB, mas clamo por uma ação mais enérgica. Sob o risco de que, amanhã, um espertalhão chegue ao Planalto prometendo apenas "colocar a ROTA na rua".
Foto: Última foto de San Diego, ainda no Balboa Park.
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Thursday, January 9, 2014
Monday, December 21, 2009
Vinum Nostrum
No mundo do vinho francês, há uma grande pressão para a adoção da agricultura orgânica, evitando-se as peripécias bioquímicas, que fazem verdadeiros milagres, só comparáveis àqueles do marketing.
Como citei há meses, trapacear na produção de vinho dá cadeia. Apesar de toda fiscalização, ainda há fraudes. Também há muitas coisas que não são ilegais, mas poderiam ser evitadas. A videira e o vinho recebem defensivos, fertilizantes, leveduras, bactérias, enxofre, acidulantes e açúcar. A adição de tantas substâncias estranhas nega a própria essência do vinho francês, a cultura do "terroir". Enfim, é muito espaço para criatividade. A indústria do vinho percebeu os abusos e está se ajustando. Melhor assim.
O vinho orgânico ainda é raro. Nessas feiras de vinhos tão comuns na França, pude encontrar alguns produtores. Eles confirmam o desafio de se seguir a cartilha do orgânico, mas o esforço é recompensado. Produz-se menos, porém com mais qualidade. No lançamento do Beaujolais Nouveau 2009, um produtor quase me convenceu. Após meia hora de conversa e muita degustação, eu acabei levando uns seis litros de suco de uva.
No Le Monde, li um artigo sobre um produtor da Borgonha que usa apenas cavalos na sua fazenda. Fazer uma máquina motorizada passear pelos vinhedos seria um crime, segundo ele. No seu site, há diversos equipamentos para videiras e cavalos. Exagero? Talvez, mas simboliza este movimento para um vinho mais artesanal.
Alguns vinicultores querem ir mais longe, incorporando o conceito de sustentabilidade, isto é, a plena responsabilidade com o meio ambiente e a sociedade em toda a cadeia do vinho, das videiras à distribuição do produto. Nada contra!
Se tudo isso é muito novo, vale lembrar que foi justamente a vinicultura que encontrou uma solução orgânica para uma das pragas mais devastadoras da história, a Filoxera. Qualquer pessoa que tenha feito pelo menos um curso de vinho conhece o assunto.
Filoxera é um pulgão de origem norte-americana que destruiu grande parte dos vinhedos do mundo em meados do século XIX. Combateram a praga com todos os inseticidas possíveis sem quaisquer resultados. A economia francesa sucumbiu. Os vinhedos mais prestigiados do mundo definharam. Até hoje não existe defensivo agrícola para a Filoxera.
A solução encontrada para salvar o vinho foi puramente empírica. A sua base científica seria publicada alguns anos mais tarde: A Teoria da Evolução de Darwin. Observou-se que as uvas americanas resistiam à Filoxera. Por que? Como o inseto era natural da região, a convivência dos dois, insetos e vinhas, promoveu a chamada seleção natural. Ou seja, num passado muito remoto, havia videiras mais ou menos resistentes ao inseto. As menos resistentes foram extintas, as mais resistentes sobreviveram e se multiplicaram. No decorrer do tempo, os insetos foram selecionados pela capacidade de se alimentar das videiras; e essas pelos seus mecanismos de defesa.
Quando a Filoxera chegou acidentalmente à Europa, encontrou videiras que não passaram por esse longo processo, logo, sem defesas. Por isso, murcharam até morrer. Como a seleção natural pode ter levado muitos séculos e não se conhecia a manipulação genética, a única solução possível foi replantar as uvas americanas em quase todo o mundo. Feriu profundamente o orgulho dos franceses. Até hoje, toda videira francesa é plantada sobre uma americana. Solução 100% eficaz e natural.
In vino veritas: Charles Darwin é o verdadeiro Papai Noel.
Boas festas, um ótimo 2010 e saúde!
Foto: O Château de Suze-la-Rousse e as suas videiras. O castelo da Drôme (entre Lyon e a Provence) é sede da Universidade do Vinho.
Saturday, February 14, 2009
Fanatismo 1
Na Europa, a Teoria da Evolução Natural é aceita por cerca de 80% da população. A minoria relutante constitui-se de fanáticos de todas as religiões. Em alguns redutos islâmicos nas periferias das grandes cidades, os pais ensinam aos filhos: "Na escola você diz que acredita. Aqui em casa, a Ciência e a História são diferentes".
Algumas notas saíram sobre países onde muitas pessoas acreditam no creacionismo. São lugares altamente desenvolvidos como Paquistão, Indonésia e Malásia. Obviamente, nenhuma surpresa.
Decepcionante mesmo é o índice de rejeição a Darwin nos Estados Unidos. Há uma grande correlação estatística entre os creacionistas americanos e aqueles que não votaram em Obama. (Alguém precisa de mais explicações?) A recente administração Bush mostra que o fanatismo cristão não é coisa do passado.
Foto: Ainda no vilarejo de Saint-Maurice-sur-Loire. Atrás da casa típica, a torre que restou do antigo castelo.
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