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Tuesday, October 27, 2020

Rótulo



Aconteceu no Balthazar, um renomado restaurante francês do Soho, em Nova Iorque. A história tem quase duas décadas, mas só foi revelada por Keith McNally, proprietário do restaurante, há poucos dias através da sua conta no Instagram. 

Era uma daquelas noites de casa cheia, algo comum no local, uma brasserie recomendada pelo Guia Michelin. Entre as festejadas mesas, duas delas têm as suas histórias entrelaçadas pelo acaso.

Numa das mesas, um jantar a dois. Um jovem casal, que não precisa de motivo especial para celebrar, curtindo sua refeição acompanhada de um vinho. Os jovens escolheram o vinho mais em conta da casa, um Pinot Noir de US$ 18 (vide nota 1).

Na outra mesa, um grupo de executivos de Wall Street. Possivelmente, celebravam alguma transação importante. Para acompanhar o jantar, escolheram o vinho mais caro da carta, um Château Mouton Rothschild, cuja garrafa custava US$ 2000 (nota 1).

A essa altura, o leitor astuto já pode ter antecipado o que o acaso preparou para as nossas duas mesas. Sim, seus vinhos foram trocados!

Um serviço de vinho razoável nunca permitiria uma troca de garrafas. Todavia, os clientes das duas mesas solicitaram que suas garrafas passassem por decanters (nota 2). O restaurante utilizou dois decanters idênticos, que foram trocados à hora do serviço. Não me perguntem a razão de passar o Pinot Noir pelo decanter (nota 3).

Quando a equipe do restaurante percebeu o engano, chamaram o dono. Depois daquele frio na barriga, Keith preferiu abrir o jogo com seus clientes. Enquanto que os vinhos trocados já estavam sendo apreciados nas duas mesas, ele foi lá e contou o ocorrido. Cada mesa acabou ficando com o vinho que havia começado. Ambas pagaram apenas US$ 18 e o restaurante arcou com o prejuízo.

A proposta deste post não é homenagear o restaurante nem seu dono pela sábia decisão. Aliás, feito o estrago, é isso o que esperaria de qualquer estabelecimento. O ponto mais interessante é que nenhuma das mesas percebeu a troca. Bebiam felizes. O casal divertia-se fazendo valer ao máximo aquele vinho presumidamente barato. Os executivos transbordavam de alegria com o vinho presumidamente sofisticado.

Quando Keith esteve à mesa dos executivos, um deles elogiou a "pureza" do vinho. Disse que desconfiou que fosse um Mouton Rothschild. Cá entre nós, ele deve ter tentado alguma saída honrosa. Se ele entendesse um pouquinho de vinhos perceberia a brutal diferença, não é mesmo?

Esta pequena desventura enológica teria sido mera casualidade? Talvez não. Se transformássemos tal situação num experimento, tenho quase certeza que teríamos inúmeros resultados semelhantes. A dura verdade é que muitos clientes nem gostam do que bebem. É um ritual de celebração e exibição. Tem muita gente que bebe rótulo.

Há estudos análogos sobre o comportamento do consumidor de cervejas focados no Brasil. Ficou evidenciado que, em degustações às cegas, o bebedor comum não consegue diferenciar as diferentes marcas de cerveja. Pior ainda, à mesa, faz questão de exibir o rótulo da marca consumida, mudando a posição da garrafa ou lata para dar-lhe mais visibilidade, quando necessário.

Os amantes do vinho que conheci, na sua maioria europeus, escolhem as garrafas com base nas suas preferências históricas (uva, vinícola, safra, regiões, etc) e na oportunidade de conhecer melhor os produtos locais, sempre com uma relação interessante de custo/benefício. Arriscar uma nova experiência? Claro, mas só depois de uma boa conversa com o sommelier.


E você, bebe vinhos ou rótulos?

 

Leitura adicional:

Post sobre vinho de 2009 – Açúcar dá cana!

Post sobre vinho de 2009 – Vinum Nostrum

Notas:

(1)    Preços de vinte anos atrás. Hoje, a garrafa mais barata custa US$45, e a mais cara, US$6800.

(2)    O decanter tem várias funções: separar as impurezas, permitir a oxidação e servir o vinho. Vejam o excelente artigo da revista Adega.

(3)    Por que um Pinot Noir de US$18 precisaria passar por um decanter? Não sei. O dono do restaurante diz que quem manda é o cliente. O sommelier é instruído para concordar mostrando um certo desconforto. Nas palavras de Keith: “By acquiescing one educates the customer” 

Fontes:

Decanter, Instagram, “Small Data” de Martin Lidnstrom, Adega

 

Foto: Última foto em Tréveris, Alemanha. Detalhe na praça central da cidade.

Thursday, June 18, 2015

Discurso de rei

Junho é mês de eventos na Europa. A razão é muito simples. Maio é mês de feriados e julho é mês de férias.

Além da concentração junina, há também um acúmulo de eventos às terças e quintas. Segunda e sexta são dias evitados pelos organizadores por razões óbvias. Quarta também, por que é feriado escolar (França) e muitos pais adotam um regime de trabalho especial, que permite acompanhar seus filhos.

Nesse contexto, terça-feira, dia 16, fui convidado para cinco eventos sobre a “revolução digital”. Confirmei presença em três e estive em dois. Ando fazendo overbooking de agenda. Na  véspera, decido o que vou encarar. (Já fui mais bonzinho!)

Só não quero mais encarar o discurso do presidente do Uber da França ou da Bélgica. Chega! Também não quero mais palestrantes, que tentam nos convencer de que é preciso mudar para o universo digital. Como disse o Jacques Attali, numa das palestras deste mês, não foi preciso convencer o mundo a adotar a TV há 50 anos. Nem  mesmo o telefone há 100 anos.

A palestra mais inusitada  deste mês repleto de colóquios não foi de nenhum bilionário fundador de start-up, nem de nenhum guru profissional. Foi um depoimento de um executivo que, ao invés de contar vantagem, confessou a sua impotência diante dessa transformação “vertiginosa” (sic).

Trata-se de um dirigente de uma vinícola de Sauternes. Elegante, francês perfeito e fala suave. Um verdadeiro nobre com humildade ímpar. Diante de blogs de vinhos que já são mais influentes do que a Wine Spectator, comerciantes virtuais cada vez mais poderosos, centenas de aplicativos e sites sobre o tema, ele  e os 10 funcionários da vinícola estão simplesmente perdidos.

Quase em tom de despedida, relembrou  os bons momentos vividos com seus clientes e visitantes, que vão pessoalmente ao Château. Ressaltou o privilégio de degustar os vinhos com tantos amigos e clientes, naquele clima especial que surge ao redor de um bom vinho. Bons tempos, hein!

Foi uma oportunidade de pensar revolução digital sob uma outra perspectiva. Isso sim é palestra inspiradora. Nosso executivo certamente não está só.  Ser um produtor de Sauternes não é para qualquer um, mas as transformações mencionadas por ele são implacáveis.

A propósito, o nobre palestrante é nobre mesmo.  Embora tenha apresentado-se como um mero gerente de château, uma rápida consulta ao Google confirmou o que desconfiava. O ilustre membro da Casa de Orleans é cheio de títulos honoríficos e pretendente ao “trono francês”.



Foto: A orangerie do Château de Seneffe, na Bélgica.

Sunday, August 3, 2014

Vem pra caixa!

Passeando por supermercados belgas e franceses, notei o avanço dos vinhos embalados em caixas, substituindo as tradicionais garrafas. Há poucos anos, os vinhos desses cubos de papelão tinham um mercado muito restrito. Eram os vinhos mais acessíveis e, por isso mesmo, vistos com ressalvas pelos apreciadores da bebida. Isso tudo mudou.

Mesmo sem saber, você já pode ter tomado vinho de caixa de passagem pela Europa. O “vinho da casa” de muitos restaurantes costuma ser um desses, como constatei em várias ocasiões. A novidade é que cada vez mais rótulos mais qualificados adotam a embalagem.

O cubo de papelão é bom para todo mundo. É menos embalagem para mais vinho (3 a 5 litros), mais prático (não quebra) e, principalmente, conserva melhor. Adeus às rolhas! Adeus às bombinhas de vácuo! A vantagem prática e econômica para os consumidores e produtores derruba qualquer preconceito. Para os últimos, é uma questão de sobrevivência.

No mundo encantado do vinho, uns poucos e renomados “châteaux” têm mais demanda do que a sua capacidade de produção. Novos ricos do Brasil, China, Índia e Rússia juntam-se aos americanos e outros abastados para pressionar o mercado de vinhos nobres. Com a demanda largamente superior à oferta, os preços vão às alturas, enchendo os cofres dessas poucas vinícolas.

A realidade da imensa maioria de produtores de vinho é muito diferente. Ali na gôndola, a briga é por centavos de euros. Nos supermercados, centenas de rótulos ocupam a faixa de 5 a 10 euros, valor pouco superior a um suco de fruta “premium”. Não precisa fazer muita conta para perceber que a margem é mínima.

Produzir vinho pode parecer muito charmoso, mas dá tanto dinheiro quanto cultivar bananas. Por essas e outras, o vinho em caixa ainda vai chegar à sua casa.


Leia também: Réquiem ao Baco (o primeiro post deste blog)


Fotos: Acima, fecho a série de fotos do imponente Guggenheim de Bilbao. Abaixo, uma gôndola da seção de vinhos do Carrefour de Lyon, onde estive neste sábado.


Sunday, December 11, 2011

Cheap Wine

Este ano, não estive em Lyon durante a festa do Beaujolais Nouveau. Aqui em São Paulo, muita gente pode encontrar a celebrada bebida - que para muitos não é vinho - em vários restaurantes, graças à Mistral, que trouxe um grande lote de Joseph Drouhin.

Em Lyon, a terceira quinta-feira de novembro é marcada pelos fogos de artifício, pelos restaurantes cheios e pelo intenso movimento no seu centro velho. A celebração do Beaujolais Nouveau toma conta da França.

Celebram por que americanos e japoneses vão comprar milhões de garrafas e isso é uma bela ajuda para as nem tão prósperos vinícolas do Beaujolais. Aqueles franceses, que amam o vinho, também celebram o fato da mal amada bebida deixar o país. Enfim, se o vinho não é bom, o marketing é de primeira.

Na celebração paulistana, o mais lamentável é o preço. Mesmo que eu e meus leitores possamos gastar 100 reais numa garrafa de Beaujolais Nouveau, convenhamos que há uma enorme discrepância de valores. Fiz uma pesquisa e vejam só os preços do Joseph Drouhin 2011:

- Na França (varejo): 6,50 euros (16 reais)
- Nos EUA (varejo): 10 dólares (18 reais)
- No Brasil, na distribuidora Mistral: 75 reais
- No Brasil, em restaurantes e lojas de vinho: Em torno de 90 a 100 reais.

A mágica da quintuplicação é muito comum para os vinhos europeus vendidos no Brasil. Beber vinho é ótimo, mas a gente acaba bebendo muito mais imposto!

Nos EUA, um artigo recente da Slate (Drink Cheap Wine) recomendou vinhos na faixa de 3 dólares para consumo diário. Sim, três dólares! Na própria França, as gôndolas do Carrefour e outros supermercados têm centenas de rótulos na faixa dos 5. Qual seria a faixa básica do consumo diário no Brasil?

Felizmente, nossos vizinhos do Mercosul têm produzido vinhos cada vez mais interessantes com as mais prestigiadas cepas europeias. Como a tributação dentro do Mercosul é diferenciada e o transporte é mais barato, a preços iguais, prefira sempre uma garrafa do Mercosul, que certamente possuirá mais vinho e menos impostos, margens, fretes, etc.

Considerando alguns dos produtos do Mercosul com a melhor relação custo-benefício, os 3 dólares da Slate viram 30-40 reais aqui no Brasil. Sem milagres! Vinhos do Velho Mundo ou de qualquer outro continente nessa faixa de preço merecem desconfiança. De qualquer forma, em se tratando de vinho, vale a máxima: Gosto não se discute.


Foto: Ainda em La Rochelle. A chuva deu uma folguinha, o sol quase apareceu. Imagem do porto velho da cidade, com as torres medievais: Tour de la Chaîne e Tour Saint-Nicolas.

Saturday, April 3, 2010

Enotas

Um expoente do meio artístico francês declarou à revista do Figaro, que um dos seus momentos inesquecíveis foi o aniversário de 800 anos da sua confraria. Oitocentos? Fui conferir.

Realmente, as confrarias de amantes do vinho proliferaram na França a partir de 1100, e várias delas ainda estão em atividade. A matéria do Figaro referia-se à "Jurade de Saint-Emilion", uma das mais tradicionais de Bordeaux. Em francês, os nomes "jurade", "commanderie" e "collège" substituem "confrérie".

O nome tem mesmo uma conotação religiosa pois, à época, religião misturava-se com tudo. As confrarias tiveram um papel político relevante. Formadas por homens livres, era uma forma de escape do controle dos senhores feudais. Com o declínio da Idade Média, elas integram-se ao aparelho do governo, através da administração de muitas das áreas vinícolas francesas. A ligação direta à Monarquia custou-lhes uma duradoura proibição após a Revolução.

Hoje, existem confrarias para todos os gostos. E nada como celebrar o amor ao vinho dentro da própria França, onde a seleção de vinhos espetaculares é imbatível.


Já nos EUA, o mundo do vinho teve uma péssima surpresa. O gigante americano E. & J. Gallo e mais alguns produtores franceses acabam de ser condenados na França e ainda aguardam a sentença norte-americana. O crime foi uma fraude digna do Paraguai. A Gallo tem uma linha de vinhos feitos com uvas francesas, vendidas no estilo americano. Ou seja, destaca-se a cepa, sem qualquer menção ao "terroir". O problema é que a demanda por Pinot Noir era maior do que a oferta. Gallo e seus parceiros não tiveram dúvidas, venderam Merlot e Syrah com o rótulo de Pinot Noir. Para um enófilo, um crime hediondo.


Foto: Páscoa no país basco francês. O tempo não ajuda, mas vim para Biarritz no feriado. Na foto, a antiga residencia imperial de Napoleão III, hoje um hotel de luxo.

Monday, December 21, 2009

Vinum Nostrum

No mundo do vinho francês, há uma grande pressão para a adoção da agricultura orgânica, evitando-se as peripécias bioquímicas, que fazem verdadeiros milagres, só comparáveis àqueles do marketing.

Como citei há meses,‭ ‬trapacear na produção de vinho dá cadeia.‭ A‬pesar de toda fiscalização,‭ ‬ainda há fraudes. Também há muitas coisas que não são ilegais, mas poderiam ser evitadas.‭ ‬A videira e o vinho recebem defensivos,‭ ‬fertilizantes,‭ ‬leveduras,‭ ‬bactérias,‭ ‬enxofre,‭ ‬acidulantes e ‭açúcar.‬ ‭A adição de tantas substâncias estranhas nega a própria essência do vinho francês, a cultura do "terroir". ‬Enfim,‭ ‬é muito espaço para criatividade. A indústria do vinho percebeu os abusos e está se ajustando.‭ ‬Melhor assim.

O vinho orgânico ainda é raro.‭ ‬Nessas feiras de vinhos tão comuns na França,‭ ‬pude encontrar alguns produtores.‭ ‬Eles confirmam o desafio de se seguir a cartilha do orgânico,‭ ‬mas o esforço é recompensado.‭ P‬roduz-se menos,‭ porém‬ com mais qualidade. No lançamento do Beaujolais Nouveau 2009, um produtor quase me convenceu. Após meia hora de conversa e muita degustação, eu acabei levando uns seis litros de suco de uva.

No Le Monde,‭ ‬li um artigo sobre um produtor da Borgonha que usa apenas cavalos na sua fazenda.‭ ‬Fazer uma máquina motorizada passear pelos vinhedos seria um crime,‭ ‬segundo ele.‭ ‬No seu site,‭ ‬há diversos equipamentos para videiras e cavalos. Exagero? Talvez, mas simboliza este movimento para um vinho mais artesanal.

Alguns vinicultores querem ir mais longe,‭ ‬incorporando o conceito de sustentabilidade,‭ ‬isto é,‭ ‬a plena responsabilidade com o meio ambiente e a sociedade em toda a cadeia do vinho, das videiras à distribuição do produto.‭ ‬Nada contra‭!

Se tudo isso é muito novo,‭ ‬vale lembrar que foi justamente a vinicultura que encontrou uma solução orgânica para uma das pragas mais devastadoras da história,‭ ‬a Filoxera. Qualquer pessoa que tenha feito pelo menos um curso de vinho conhece o assunto.‭

Filoxera é um pulgão de origem norte-americana que destruiu grande parte dos vinhedos do mundo em meados do século XIX.‭ ‬Combateram a praga com todos os inseticidas possíveis sem quaisquer resultados.‭ ‬A economia francesa sucumbiu. Os vinhedos mais prestigiados do mundo definharam. Até hoje não existe defensivo agrícola para a Filoxera.‭

A solução encontrada para salvar o vinho foi puramente empírica. A sua base científica seria publicada alguns anos mais tarde: A Teoria da Evolução de Darwin. Observou-se que as uvas americanas resistiam à Filoxera.‭ ‬Por que‭? ‬Como o inseto era natural da região,‭ ‬a convivência dos dois, insetos e vinhas, promoveu a chamada seleção natural.‭ ‬Ou seja,‭ ‬num passado muito remoto,‭ ‬havia videiras mais ou menos resistentes ao inseto.‭ ‬As menos resistentes foram extintas,‭ ‬as mais resistentes sobreviveram e se multiplicaram.‭ N‬o decorrer do tempo,‭ ‬os insetos foram selecionados pela capacidade de se alimentar das videiras; e essas pelos seus mecanismos de defesa.‭

Quando a Filoxera chegou acidentalmente à Europa, encontrou videiras que não passaram por esse longo processo, logo, sem defesas. Por isso, murcharam até morrer. ‭Como a seleção natural pode ter levado muitos séculos e não se conhecia a manipulação genética, ‬a única solução possível foi replantar as uvas americanas em quase todo o mundo.‭ ‬Feriu profundamente o orgulho dos franceses. Até hoje, toda videira francesa é plantada sobre uma americana. Solução 100% eficaz e natural.

In vino veritas: Charles Darwin é o verdadeiro Papai Noel.

Boas festas, um ótimo 2010 e saúde!



Foto: O Château de Suze-la-Rousse e as suas videiras. O castelo da Drôme (entre Lyon e a Provence) é sede da Universidade do Vinho.


Thursday, November 19, 2009

Entre taças e copas

Com a classificação para a Copa garantida, o povo foi às ruas comemorar. Fizeram muita bagunça. Evidentemente, estou falando sobre a classificação da Argélia.

A imprensa cobria a seleção da França, mas o povo estava preocupado com a Argélia. Aqui é assim mesmo, a França tem que rezar para não cruzar com Argélia, Tunísia ou Marrocos, para não ver a Marselhesa sendo vaiada em casa.

Eu não acompanhei a campanha de classificação da Argélia nem do Brasil. Só a da França. As imensas dificuldades desta seleção não significam que o time que tirou o Brasil da última Copa não possa aprontar de novo. Trata-se de uma equipe muito instável. Thierry Henry, num dia de muita inspiração, pode desequilibrar qualquer jogo, com ou sem mão na bola.

Ouvi barulhos e fogos quando acabou o jogo da Argélia. Não houve nada de especial após o jogo da França. O silêncio noturno só foi interrompido à meia-noite, quando os fogos de artifício em Lyon anunciavam a chegada do Beaujolais Nouveau 2009. A safra 2009 saiu bem acima da média. Agora resta saber se os japoneses e americanos vão comprar os mesmos volumes do passado. Na foto, o rótulo da garrafa que eu acabei de trazer do supermercado. Santé!

Sunday, August 30, 2009

Crônica toscana 4

A “flexibilidade” italiana permitiu o renascimento da sua indústria vinícola. Na França, um vinho como o Ornellaia, um dos mais prestigiados da Itália, jamais teria alguma chance, pois a classificação dos vinhos e das regiões produtoras é mais inflexível do que a constituição nacional.

Além do mais, a Itália joga no time dos vinhos tipo Bordeaux, fortes e encorpados, que vendem mais e contam com a benção de Robert Parker e da revista Wine Spectator, dois dos agentes mais influentes do mundo do vinho.

Eu experimentei de tudo na temporada toscana, na dose aprovada pelos médicos de uma taça por dia. Tá bom, duas!! Chianti, Brunello di Montalcino, Montepulciano e os super-toscanos. Depois de algum tempo na França, a minha preferência mudou para Borgonha ou Beaujolais. Questão de gosto.

Os vinhedos italianos (Bolgheri em especial), o hotel-villa no Chianti e os passeios pela Toscana relembravam o documentário Mondovino, imperdível para quem gosta ou não de vinho. O documentário fala dos bastidores do Ornellaia, dos conflitos entre grandes e pequenos e muitos outros temas do mundo do vinho. A parte que eu mais gosto são os depoimentos de produtores franceses e italianos, daquelas pequenas vinícolas que passam de pai para filho ao longo dos séculos. Para os interessados, o filme é encontrado nas melhores casas do ramo. A série completa com 10 DVD é mais difícil. http://www.youtube.com/watch?v=dHBPvgOO29M


Fotos: O Palazzo Pitti, a casa nova do Duque. Os Medici deixaram o Vecchio Palazzo e mudaram para este belo conjunto renascentista no século XVI. O Palácio abriga uma bela galeria (na prática são diversos museus) e possui belos jardins (Boboli). Acima, a fachada do palácio. Abaixo, um pedaço dos jardins, o anfiteatro. Os jardins são enormes, mas o terreno não é nada plano. Difícil de fotografar. Pior de tudo, não é bom nem para uma corridinha!

Monday, April 6, 2009

Açúcar dá cana!

Assim como os produtores de rosé, o mundo dos vinhos é difícil para muita gente, mesmo nas abençoadas terras da Gália. Um outro episódio recente vem de Beaujolais, região ao norte de Lyon, que tem abastecido este blog com diversas imagens.

Mais de 50 produtores locais foram condenados pelo terrível crime de se colocar açúcar no vinho a fim de aumentar o seu teor alcoólico. Na verdade, existe uma quantidade de açúcar tolerada e que não foi respeitada. Aqui na França, isto é jogo sujo. Açúcar dá cana!

O esquema envolvia muita gente: Produtores, comerciantes e distribuidores. Foram centenas de milhares de euros em multas e prisões (com sursis). Para os pequenos produtores, foi um golpe duro. Sofrendo com a concorrência de países que não respeitam as rígidas regras da França e com as péssimas condições climáticas daquele ano, buscaram a saída fácil. Pagaram caro.

Enfim, acredito que inúmeros pequenos produtores franceses vão dançar, por falta de competitividade. Não dá para competir com o novo mundo, quando o assunto é vinho comum. Resta à União Européia a opção de facilitar um pouco a vida deles através da desregulamentação.

A França, em particular, tem o privilégio de possuir as áreas vinícolas mais nobres do mundo. Os grandes e pequenos dos melhores terroirs não estão ameaçados, o vinho comum francês sim.


Foto: Ultimo domingo em Tournus, na Borgonha. A pequena cidade às margens do Saône é famosa pela abadia de Saint-Philibert (ao fundo) e por ter sido berço do artista Jean-Baptiste Greuze.

Sunday, April 5, 2009

A guerra dos rosés

De vez em quando, interrompo a série de posts sobre assuntos irrelevantes, para falar das coisas que realmente importam, dos grandes problemas da humanidade. Como por exemplo, a questão da produção de vinho rosé. Existem dois caminhos para produzí-lo. Ou melhor, existe um método de produção e outro de imitação.

O primeiro é o tradicional, seguido pelos produtores franceses (Provence, por excelência), através de um processo intermediário entre o do vinho branco e do tinto. O desafio é pegar o máximo do que as uvas tintas ofecem, mas sem a cor. Uvas como grenache, cinsault, etc.

O outro é a simples mistura de vinhos tintos e brancos. Graças às suas evidentes vantagens econômicas, foi adotado no novo mundo do vinho: EUA, Austrália e África do Sul.

Se a indústria vinícola francesa quer defender a tradição do bom e autêntico rosé, outros países europeus estão desistindo desta concorrência injusta. A União Européia quer regulamentar a mistura. Este tipo de debate é quente por aqui. Deram azar, pois a crise, o G20, a OTAN e tantas outras coisas têm ofuscado a manifestação dos produtores de rosé. Dá-lhe José Bové!

Enfim, é a mesma sina dos bons queijos, chocolates e tantas outras especialidades. O mercado é dominado pelos produtos mais competitivos. Aos melhores, um nicho.


Foto: Visão do topo da cidade de Saint-Bonnet-le-Château, no Loire.

Thursday, November 20, 2008

Réquiem ao Baco II



Se o prestígio do vinho tradicional francês continua nas alturas, os básicos estão perdendo muito terreno. Exceções como o Beaujolais Nouveau não compensam a queda de consumo daquele vinho do dia a dia. O IBGE - Instituto Birman de Geografia e Estatística - aponta as principais causas:

- Perda de poder aquisitivo: Fenômeno notório em toda a Europa. Um copo de vinho ou uma garrafa a mais faz diferença no final do mês. Aqui a classe média bebe cada vez mais água da torneira, o famoso "Château de la Pompe 2008".

- Campanhas anti-alcoólicas: Tema complexo, mas o brasileiro o conhece bem, graças à recente "lei-seca".

- Influências externas: Substituição do vinho por cerveja ou refrigerante por influência dos vizinhos do outro lado da Mancha, do Reno ou até do Atlântico. Vale o nefasto exemplo da amostra-grátis de presidente, o Sarkoca-Cola. A título de comparação, para os franceses isto é pior do que o Lula aparecer com a camisa da Seleção Argentina.

- Islamização: Não dá para negar que a grande (enorme) comunidade muçulmana magrebina da França é secular. Entretanto, parte desta população está dando cada vez mais importância aos princípios corânicos, entre os quais, a completa abstinência.

O assunto merece muito mais do que um post. Volto a ele em 2009. Por enquanto, deixemos a polêmica de lado e apreciemos a nova safra do Beaujolais Nouveau. Santé!

Réquiem ao Baco I


Mais uma vez, na terceira quinta-feira de novembro, festejamos o lançamento do Beaujolais Nouveau em todo mundo. Festa em Tokyo, New-York e até na França!

Num quadro de consumo interno decadente, é sempre um atenuante. Os enófilos mais ortodoxos comemoram a saída da França desta bebida parecida com vinho: "Abençoados os japoneses, americanos e outros ignorantes de mau gosto!"

De fato, as vinícolas do norte de Lyon comemoram o dinheiro mais fácil da indústria do vinho. Enquanto o produtor de um "vinho de verdade" deixa o seu produto estocado por alguns anos, o ciclo do Beaujolais Nouveau tem apenas um ano, representando um senhor reforço de capital de giro, ainda mais essencial em tempos de crise.

Nesta foto e na próxima, garrafas de Beaujolais Nouveau que acabei de comprar. Saúde!