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Tuesday, July 21, 2020

Viajante



Já falei sobre muitas coisas neste blog e minhas viagens estão entre os temas recorrentes. Até mesmo a proposta de ilustrar cada post com uma fotografia tirada em algum lugar do mundo mantém a ligação deste blog com as viagens.

Graças à longa pausa deste blogueiro, acumulei um estoque de fotos capaz de ilustrar milhares de novos posts. No entanto, a minha maior inquietude é se e quando vamos voltar a viajar.

Por um golpe de sorte, comecei o ano com umas boas férias. Voltei ao Brasil quando o epicentro da pandemia se instalava na Europa e a situação saía do controle na Itália. Foi por pouco!

Não faltam ideias e convites de viagem para o próximo ano. Também não faltam dúvidas: será seguro? teremos vacinas? os brasileiros serão aceitos sem restrições? Acredito também que o setor aéreo passe por uma tremenda reestruturação, impactando nossos hábitos de turismo.

Minhas viagens pessoais e profissionais dos últimos vinte anos simbolizam um pouco desse mundo anterior à pandemia. Viagens para lá e para cá, malas quase sempre prontas, passaporte na mão, etc.

No começo, tudo parece charmoso. Acumulam-se milhas, sobe-se na hierarquia da fidelidade das companhias aéreas, hotéis, locadoras e trens. Mas quando você começa a reconhecer os comissários de bordo e ser tratado pelo nome em todo lugar, talvez já tenha viajado demais.

Enfim, aquela época em que cruzávamos o planeta para uma simples reunião pode ter acabado.  Deixei claro neste blog que sou contra um movimento brusco das empresas para acabar com seus escritórios e ficarem no 100% virtual. Já com relação às viagens, acredito que usar e abusar das telecomunicações parece razoável. Mesmo que seja apenas pelo bem do planeta.


Foto: Voltando à Viena, o majestoso palácio de Schönbrunn, residência de verão principal dos Habsburgos, de meados do século XVIII até o final da Segunda Guerra. 



Saturday, December 26, 2015

Elon Musk e Jeff Bezos

Final de ano é época de se fazer um “pit-stop” no Brasil. Escrevo este último post de 2015 em São Paulo. Daqui, a visão do ano que passou é muito negativa. Somos contaminados por tantos que querem sair do país, que temem o agravamento da crise ou, simplesmente, não aguentam mais esse mar de lama. Em janeiro, volto a falar dos problemas nacionais. Hoje, não.

Hoje é dia de falar sobre algo mais positivo. E se há algo que me impressionou neste final de ano, foi a corrida espacial entre os magnatas Elon Musk e Jeff Bezos. Seus últimos foguetes subiram ao espaço e retornaram à Terra.

Vale lembrar que o projeto da SpaceX, de Elon Musk, é bem mais ambicioso. Enquanto a SpaceX coloca satélites em órbita, a Blue Origin, de Jeff Bezos, faz vôos sub-orbitais, provavelmente destinados ao futuro turismo espacial.

O reaproveitamento dos foguetes chama a atenção como caminho ideal para o barateamento dos vôos espaciais. Num mundo que clama pela sustentabilidade, faz todo sentido. Entretanto, há controvérsias. Um foguete que vai e volta precisa levar muito mais combustível, pois seu pouso é controlado e consome muita energia. O balanço energético somado à inspeção minuciosa do aparelho a cada reaproveitamento geraria um benefício muito pequeno. Apenas simbólico.

Se Elon Musk e Jeff Bezos vão baratear ou popularizar os vôos espaciais, eu não sei. O bom dessa história toda é o seu empreendedorismo, a vontade de inovar, a disposição de assumir riscos e tudo isso sem mamar nas tetas do governo. Bem, prometi que não ia falar do Brasil.

Por incrível que pareça, existem muitos Elon Musk e Jeff Bezos por aí. O problema é que eles nem sempre encontram as mesmas oportunidades. Pelo contrário, só encontram dificuldades. Estados controladores, burocráticos e insaciáveis. Bem, prometi que não ia falar do Brasil.

Elon Musk e Jeff Bezos são dois visionários e jamais se acomodam. Como diria a velha propaganda do Bamerindus, são gente que faz! Gente que faz e alimenta nossos sonhos e esperanças por um mundo melhor. A todos vocês, boas festas e um grande 2016!



Foto:  Saudações do tocador de realejo da praça central de Antuérpia. Notem que o aparelho funciona com cartões perfurados.  Bem, também não vou falar sobre a história da computação.

Sunday, October 27, 2013

Festa 1


Celebrei meus 50 anos neste sábado. Pedi aos amigos que dispensassem presentes e trouxessem alimentos não perecíveis. O saldo da noite foi de 8 caixas de donativos, que serão entregues a um asilo.

A ideia de substituir presentes por doações tem dois aspectos. O primeiro é a promoção da filantropia, que dispensa comentários. O segundo é uma mensagem para se evitar o desperdício, o acúmulo excessivo de bens pouco úteis e o consumismo. A combinação dos dois é uma ação pela sustentabilidade.

Inspirados pelo meu convite, um grupo de executivos de TI fez uma ação solidária numa região muito carente da periferia de São Paulo.

Nosso amigo Jenner Lopes estava engajado em ações de apoio à Comunidade Fazendinha, Zona Norte de São Paulo. Ele e outros voluntários ajudaram a realocar uma família que morava em condições absolutamente precárias. Para piorar um dos filhos da D.Neilda é autista, exigindo cuidados especiais. A solução foi encontrar um terreno e construir uma casa para esta família.

Para felicidade de todos, o dinheiro dos voluntários acabou na época em que o grupo de executivos de TI procurava um projeto de solidariedade para encampar. Graças a essa ajuda, a nova casa está pronta e devidamente equipada.

Fiquei muito honrado com a iniciativa do grupo e a adesão de inúmeros outros participantes. Tenho quase certeza de que esse movimento não para mais.


Obrigado a todos que me cumprimentaram pessoalmente e virtualmente!  Obrigado a todos que se juntaram a essa ação solidária!



Foto: O bolo do cinquentão (Fotógrafa Tahia Macluf - Foto A2)

Sunday, November 25, 2012

Help!


Fim de ano. Eventos de confraternização, congestionamentos, presentes, etc. Uma loucura! Sorte ou azar, tenho uma viagem de duas semanas pela frente. Vou curtir um friozinho europeu e me ausentar de muitas dessas celebrações. O melhor de tudo será rever a Fêtes des Lumières em Lyon.


Você ainda pensa em fazer alguma ação de caridade nesse final de ano? Pois bem, em 2012, eu fiz muita coisa interessante e compartilho com vocês, apenas como sugestão.

Talvez aquele chavão "o importante não é dar o peixe, mas ensinar a pescar" esteja meio gasto, mas ainda é o melhor caminho. Aliás, tem sido o melhor caminho há muito tempo. No século XII, Maimônides estabeleceu uma hierarquia para as caridades. Desculpem-me, vai em inglês mesmo:

8.  Giving money, a loan, your time or whatever else it takes to enable an individual to be self-reliant.
7.  Giving when neither the donor nor the recipient is aware of the other's identity.
6.  Giving when you know who is the individual benefiting, but the recipient does not know your identity.
5.  Giving when you do not know who is the individual benefiting, but the recipient knows your identity.
4.  Giving before being asked.
3.  Giving cheerfully and adequately but only after being asked.
2.  Giving cheerfully but giving too little.
1.  Giving begrudgingly and making the recipient feel disgraced or embarrassed.

O nível máximo (o 8) é justamente o conceito de "ensinar a pescar". Pode ser compreendido também como estabelecer uma parceria ou associação. O princípio é fazer algo para que o receptor não volte à sua condição anterior. É por isso que contribui com algumas ações ligadas à inclusão digital, estímulo ao pequeno empreendedor, bolsas para formação técnica e assim por diante. Vejam minhas escolhas:


Projeto 100% - "O Projeto 100% é uma iniciativa privada de micro-intervenções que visam apoiar a educaçao e o desenvolvimento de famílias vivendo abaixo da linha da pobreza, apoiando principalmente as crianças para que no futuro se tornem indivíduos produtivos e preparados para seguir a carreira que preferirem". Além de tudo, é coordenado diretamente pela minha amiga Adriana Beal.

Kiva - Descobri este projeto recentemente e me parece uma ideia genial. Não se trata de doação, são empréstimos para pessoas pobres, sem acesso ao sistema bancário, que querem empreender. O Kiva faz a ponte entre quem pode emprestar e eles. Podemos ajudá-los com apenas 25 dólares!

EsperanSAP - De alguma forma, estou associado profissionalmente a este Instituto. O EsperanSAP não lida com pessoas abaixo da linha da pobreza, mas tem o potencial de dar uma especialização fantástica (nos produtos da SAP) para quem não teria acesso à tal formação. É mais uma forma de ajudar algumas pessoas e formar uma comunidade de profissionais forte.


Já comentei com vocês que compensei parte das minhas emissões de carbono pela Action Carbone, doei dinheiro e milhas para os Médicos Sem Fronteiras e ainda contribuo diretamente com o apoio direto a um atleta de origem muito humilde. Enfim, gostei muito do mix de projetos deste ano. Certamente, repetirei a dose em 2013 e convido vocês a aderirem.



Foto: De volta a Londres, num dos cantinhos charmosos da cidade, Little Venice, encontro dos canais Regent e Grand Union.

Thursday, August 9, 2012

Notas Olímpicas 1


A organização dos Jogos Olímpicos londrinos é notável. Assistí-los pela TV tem sido muito bom. Em tempos de HD e vários canais simultâneos, a experiência de acompanhá-los melhorou muito: Um festival de tomadas diferentes, câmera lenta e muitos outros recursos técnicos. Imperdível!

Pensando nos Jogos em si e considerando o esporte como um eixo de confraternização universal, acho que poderíamos melhorar as próximas edições. Pela paz e pela sustentabilidade.

Aí vão minhas reflexões:

1)  Sustentabilidade: É uma exigência básica para os dias de hoje. Significa deixar de fazer elefantes brancos que ganhem prêmios de arquitetura, mas construções que propiciem economia de energia, maximizando a iluminação e a ventilação natural. Dar preferência às cidades médias e não às megalópoles, permitindo uma melhor integração das sedes dos Jogos com os núcleos urbanos, sem o risco de colapso do transporte público. Zerar as emissões de carbono, considerando-se o deslocamento de todo público (não vale plantar árvores na Guatemala para compensar). Ideias não faltam.

2) Artes Marciais: Sei que o tema é polêmico. Meu saudoso "sensei" sempre enalteceu os valores espirituais do judô e eu acreditava piamente. Porém, confesso que não vejo nenhuma graça nesse jogo de agarra-e-solta-quimono que é o judô olímpico. Ainda assim, é melhor do que o chuta-chuta do taekwondo. Eu suprimiria todas as lutas das Olimpíadas: Judô, taekwondo, boxe, luta livre e greco-romana. Eu sei que são tradicionais, que têm toda uma tecnicidade, que são voltadas à defesa pessoal, que envolvem valores espirituais, etc, etc. Mas, em nome da era de Aquário, que caiam fora.

3) Quadro de Medalhas: A ênfase dada no quadro de medalhas não é muito compatível com o espírito olímpico. Devemos celebrar os melhores atletas, mas não fazer uma competição entre nações. Montar fábricas de medalhas não é difícil, basta desviar dinheiro da saúde e educação para o esporte. É só percorrer o quadro de medalhas, que vemos alguns países de terceira categoria fazendo "mais bonito" do que o Brasil. Uma nação deve permitir que seus cidadãos tenham pleno acesso ao esporte, como meio de saúde, recreação e educação. Medalhas não são nem meio nem fim.

4) Fair play: Os Jogos de 2012 estão chegando ao fim e o doping não roubou a cena. O COI certamente vai comemorar, mas fica uma leve desconfiança de que há novas técnicas por aí. O mais importante é manter a determinação de se combater o doping bem como todas as manipulações anti-esportivas. Em nome do fair play, deve-se aplicar penas cada vez mais rigorosas aos atletas e às delegações. A desclassificação sumária de oito jogadoras de badmington da China, Coreia e Indonésia foi excelente.


Foto: O templo mais importante de Bangkok é o "Templo do Buda de Esmeralda" (Wat Phra Si Rattana Satsadaram), um conjunto de prédios magníficos que ilustram este e os próximos posts.

Saturday, May 12, 2012

Compensação


Fiquem tranquilos, pois já compensei as emissões de carbono associadas à leitura deste post (e dos próximos), através da Action Carbone, da Fundação Good Planet. Agora, vocês podem ler mais relaxados ;-)

Muita gente anda compensando as suas emissões de carbono ou equivalente por aí. Tem várias ONGs sérias envolvidas no processo. Se todo mundo fizer o mesmo, salvamos o Planeta?

Obviamente, não. Mesmo considerando que todos os agentes envolvidos sejam honestos.

"Plantar árvores para compensar as emissões de gases de efeito estufa e não tomar ações concretas para reduzí-las na fonte é como pedir um refrigerante light para acompanhar um duplo cheese bacon" (Joel Makower)

Fico especialmente irritado quando uma empresa apresenta-se como "verde" graças ao seu programa de compensação através de reflorestamento. Enganação.

1 - O reflorestamento é um atenuante louvável, mas não pode compensar processos obsoletos, poluidores ou ineficientes. Cabe a todos nós revê-los, buscar caminhos alternativos e mais eficientes para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

2 - O mundo está trabalhando há anos com o conceito de sustentabilidade, que envolve muito mais do que as emissões de carbono. O Pacto do Milênio da ONU é uma boa referência para o assunto.

Enfim, da próxima vez que um fornecedor apresentar-se como "verde", por causa do bosque plantado por ele, ria!


Veja também: Saco! (13/10/2009)


Foto: Acima e abaixo, o Unity Temple (1908) de Frank Lloyd Wright, em Oak Park, nos arredores de Chicago. O arquiteto frequentava a Congregação Universalista e ainda habitava em Oak Park. Este arrojado projeto colocou FLW definitivamente no topo da arquitetura mundial do começo do século XX.



Saturday, August 20, 2011

Enquanto isso, no ar

Na última semana, o ator francês Gérard Depardieu foi objeto do escárnio generalizado, por ter urinado num corredor de avião. De acordo com a versão oficial, o incidente do vôo AF5010 deveu-se a um problema de próstata. Vamos acreditar na versão oficial e enviar votos de saúde ao eterno Obélix!

Alguns dias antes, a imprensa revelou um outro segredo dos vôos da AF. Quando DSK está a bordo, a companhia escala UM comissário para atendê-lo, afastando-o das comissárias. O passageiro é velho conhecido da companhia e possui um longo histórico de assédios.

Depois de muito voar por este mundo, garanto que, se DSK viajasse de United ou Delta, não haveria a menor preocupação com o assédio às aeromoças. Desculpem-me pela franqueza, mas a diferença entre as comissárias de empresas americanas e não americanas é gritante. Muitos brasileiros já perceberam, tanto é que criaram o termo "aerovelhas" para contrastar com as simpáticas e esbeltas "aeromoças". Mas, por que?

Nunca tinha parado para pensar. Uma vez, um conhecido arriscou: "Os americanos são maiores mesmo!". Sem comentários.

A ficha caiu recentemente. Por questões profissionais, percebi como a gestão de recursos humanos nos EUA exige uma série de cuidados para se garantir que os empregados não sejam discriminados. E isso é levado muito a sério. Deduzi que as companhias aéreas não poderiam escolher as suas profissionais com base na idade, peso, estado civil ou mesmo por um rostinho bonito.

De fato, é isso mesmo. Nos anos 70, as profissionais do ar se organizaram para assegurar seus direitos. A "Stewardesses for Women's Rights" existiu apenas por  4 anos, mas redefiniu o mercado de trabalho da categoria nos EUA através de uma série de ações legais e mobilizações. O mesmo não aconteceu no resto do mundo.

Veja este parágrafo da Wikipedia sobre o tema:

"Originally female flight attendants were required to be single upon hiring, and were fired if they got married, exceeded weight regulations, or reached age 32 or 35 depending on the airline. In the 1970s the group Stewardesses for Women's Rights protested sexist advertising and company discrimination, and brought many cases to court. The age restriction was eliminated in 1970. The no-marriage rule was eliminated throughout the US airline industry by the 1980s. The last such broad categorical discrimination, the weight restrictions, were eliminated in the 1990s through litigation and negotiations. By the end of the 1970s, the term stewardess had generally been replaced by the gender-neutral alternative flight attendant. More recently the term cabin crew or cabin staff has begun to replace 'flight attendants' in some parts of the world, because of the term's recognition of their role as members of the crew".

Enfim, é bom ser atendido por uma comissária bonitinha da Air France, Singapore Airlines ou TAM, mas por trás delas existe uma prática discriminatória, certamente não condizente com nossos manuais tão recentes de sustentabilidade.


Foto: A Rue de la liberté, eixo principal do núcleo histórico de Dijon.

Tuesday, January 12, 2010

Dilemas aéreos

Ryanair e Easyjet, as duas maiores companhias "low-cost" da Europa, estão fazendo um estrago no mercado. A irlandesa Ryanair transporta quase o mesmo número de passageiros da líder Air France-KLM, em torno de 70 milhões ao ano. A Easyjet, por sua vez, já ultrapassou a compatriota British Airways, atingindo 46 milhões.

A boa notícia é que o fenômeno low-cost está mesmo pressionando as companhias tradicionais. A má notícia é que as últimas deverão recorrer aos mesmos truques para baixar o seus preços. Eu digo truques, pois em várias comparações, ao considerarmos o custo total da viagem, a diferença pode não ser tão grande.

Eu usei a Easyjet algumas vezes. De férias ainda vai, mas a negócios é um mico. Enquanto que num vôo normal da AF, podemos chegar meia hora antes da partida, com a Easyjet há bem menos flexibilidade. Sem contar que os aeroportos usados pelas companhias low-cost são geralmente mais distantes dos grandes centros.

O ponto mais polêmico é a diferença de salários e encargos. Os sindicatos franceses acusam as campeãs do low-cost de "dumping social", mas a AF não perde tempo: Recruta seus efetivos cada vez mais fora da França. C'est la vie!

Lyon é um sinal desta invasão. A AF não cedeu espaço para a Easyjet no aeroporto. A Easyjet e as autoridades locais montaram um galpão pré-fabricado ao lado do aeroporto. Virou o novo terminal 3. Enquanto que o aeroporto fica às moscas, o galpão improvisado da Easyjet está fervilhando.


Foto: Tomada do Hôtel de Ville de Saint-Étienne, no Departamento do Loire. O meu programa na cidade foi a visita da recém inaugurada Cidade do Design. Porém, em frente do Hôtel de Ville, encontrei uma feira de carros bem interessante. Advinha aonde eu passei mais tempo?

Mais informações: http://www.citedudesign.com/

Monday, December 21, 2009

Vinum Nostrum

No mundo do vinho francês, há uma grande pressão para a adoção da agricultura orgânica, evitando-se as peripécias bioquímicas, que fazem verdadeiros milagres, só comparáveis àqueles do marketing.

Como citei há meses,‭ ‬trapacear na produção de vinho dá cadeia.‭ A‬pesar de toda fiscalização,‭ ‬ainda há fraudes. Também há muitas coisas que não são ilegais, mas poderiam ser evitadas.‭ ‬A videira e o vinho recebem defensivos,‭ ‬fertilizantes,‭ ‬leveduras,‭ ‬bactérias,‭ ‬enxofre,‭ ‬acidulantes e ‭açúcar.‬ ‭A adição de tantas substâncias estranhas nega a própria essência do vinho francês, a cultura do "terroir". ‬Enfim,‭ ‬é muito espaço para criatividade. A indústria do vinho percebeu os abusos e está se ajustando.‭ ‬Melhor assim.

O vinho orgânico ainda é raro.‭ ‬Nessas feiras de vinhos tão comuns na França,‭ ‬pude encontrar alguns produtores.‭ ‬Eles confirmam o desafio de se seguir a cartilha do orgânico,‭ ‬mas o esforço é recompensado.‭ P‬roduz-se menos,‭ porém‬ com mais qualidade. No lançamento do Beaujolais Nouveau 2009, um produtor quase me convenceu. Após meia hora de conversa e muita degustação, eu acabei levando uns seis litros de suco de uva.

No Le Monde,‭ ‬li um artigo sobre um produtor da Borgonha que usa apenas cavalos na sua fazenda.‭ ‬Fazer uma máquina motorizada passear pelos vinhedos seria um crime,‭ ‬segundo ele.‭ ‬No seu site,‭ ‬há diversos equipamentos para videiras e cavalos. Exagero? Talvez, mas simboliza este movimento para um vinho mais artesanal.

Alguns vinicultores querem ir mais longe,‭ ‬incorporando o conceito de sustentabilidade,‭ ‬isto é,‭ ‬a plena responsabilidade com o meio ambiente e a sociedade em toda a cadeia do vinho, das videiras à distribuição do produto.‭ ‬Nada contra‭!

Se tudo isso é muito novo,‭ ‬vale lembrar que foi justamente a vinicultura que encontrou uma solução orgânica para uma das pragas mais devastadoras da história,‭ ‬a Filoxera. Qualquer pessoa que tenha feito pelo menos um curso de vinho conhece o assunto.‭

Filoxera é um pulgão de origem norte-americana que destruiu grande parte dos vinhedos do mundo em meados do século XIX.‭ ‬Combateram a praga com todos os inseticidas possíveis sem quaisquer resultados.‭ ‬A economia francesa sucumbiu. Os vinhedos mais prestigiados do mundo definharam. Até hoje não existe defensivo agrícola para a Filoxera.‭

A solução encontrada para salvar o vinho foi puramente empírica. A sua base científica seria publicada alguns anos mais tarde: A Teoria da Evolução de Darwin. Observou-se que as uvas americanas resistiam à Filoxera.‭ ‬Por que‭? ‬Como o inseto era natural da região,‭ ‬a convivência dos dois, insetos e vinhas, promoveu a chamada seleção natural.‭ ‬Ou seja,‭ ‬num passado muito remoto,‭ ‬havia videiras mais ou menos resistentes ao inseto.‭ ‬As menos resistentes foram extintas,‭ ‬as mais resistentes sobreviveram e se multiplicaram.‭ N‬o decorrer do tempo,‭ ‬os insetos foram selecionados pela capacidade de se alimentar das videiras; e essas pelos seus mecanismos de defesa.‭

Quando a Filoxera chegou acidentalmente à Europa, encontrou videiras que não passaram por esse longo processo, logo, sem defesas. Por isso, murcharam até morrer. ‭Como a seleção natural pode ter levado muitos séculos e não se conhecia a manipulação genética, ‬a única solução possível foi replantar as uvas americanas em quase todo o mundo.‭ ‬Feriu profundamente o orgulho dos franceses. Até hoje, toda videira francesa é plantada sobre uma americana. Solução 100% eficaz e natural.

In vino veritas: Charles Darwin é o verdadeiro Papai Noel.

Boas festas, um ótimo 2010 e saúde!



Foto: O Château de Suze-la-Rousse e as suas videiras. O castelo da Drôme (entre Lyon e a Provence) é sede da Universidade do Vinho.


Sunday, December 20, 2009

Cop15

Sarkô voltou de Copenhagen ainda menor. A imprensa local está chamando o Cop15 de G2, criticando o papel marginal da Europa no encontro. Na prática, todo mundo perdeu. E o que importa não é a classe política, mas o planeta. A nossa Terra. Afinal, como diz o Monde, não temos um "Planeta B".

Teremos duas reuniões para buscar um novo acordo, Alemanha e México. Até lá, o mundo não vai acabar nem ficar mais quente, pois independentemente da classe política, a sociedade está cada vez mais vigilante e atuante. Há uma grande mobilização planetária para a redução do consumo de energia, para a energia limpa, para a reciclagem, etc.

Dá para fazer muita coisa sem depender dos nossos pequenos líderes, no âmbito das ONG, na esfera privada ou mesmo na pública, onde inúmeros políticos já aderiram à causa da sustentabilidade.

Embora a China e os Estados Unidos estejam em posições de confronto, isso não significa que as duas nações mais poderosas do planeta estejam paradas. Não é preciso comparar Obama com o seu antecessor. E a China, por sua vez, tem um programa gigantesco de remodelação da matriz energética, feito à sua maneira, mas melhor do que nada.

Enfim, 2010 está aí. Dificilmente a comédia de erros do Cop15 vai se repetir. Enquanto isso, façamos a nossa parte.


Foto: Em Lons-le-Saunier, a Rue du Commerce com suas famosas arcadas.

Thursday, November 5, 2009

Égalité

O espírito igualitário da Revolução Francesa ainda me surpreende no dia a dia. Anos-luz do que eu conheci no Brasil. Só tem um detalhe: Em 1789, a igualdade foi estabelecida entre brancos. Os revolucionários de todos os naipes não prepararam a nação modelo de república e democracia para os milhões de árabes que nela se abrigariam quase dois séculos depois.

Apesar dos esforços, os bolsões de pobreza estão por aí, nas periferias de Paris, Lyon e Marseille. Nada comparado com as favelas brasileiras, mas muito longe do ideal de igualdade de outrora. Os conflitos de rua de alguns anos atrás mostraram a ferida para o mundo inteiro. A ascensão de Obama também evidenciou que falta alguma coisa no sistema francês.

Ministérios não faltam. Tem o Comissariado da Diversidade e Igualdade de Oportunidades e o Ministério da Imigração e Identidade Nacional. Este último, por exemplo, lançou um debate público sobre o que é ser francês. Apesar das críticas, muita gente o tem apoiado. Com o grande contingente de imigrantes, a questão faz sentido. Antes explorada pelo governo, do que manipulada pela extrema direita.

Já o Ministério da Diversidade tem proclamado medidas cosméticas. A França acaba de impor o CV anônimo, no qual o nome, o sexo, a nacionalidade e a idade dos candidatos são omitidos. A eficácia desta medida é questionável. Politicagem!

Integração e igualdade de oportunidades estão entre os assuntos mais complexos da humanidade. Não há soluções perfeitas. O que importa é a real vontade de se integrar as populações marginalizadas, mas sem fisiologismo, aqueles agrados que rendem votos e apenas empurram o problema mais para frente.

Foto: A última foto de Bayeux, uma tomada da Catedral Notre-Dame, do século XI. A tapeçaria de Bayeux ficou exposta na Catedral durante oito séculos.

Thursday, October 29, 2009

Revoluções

Enquanto a revista do Figaro fala sobre Asterix, a do Le Monde fala das dez revoluções que acontecem na França. Eu as apresentaria de forma diferente, porém, não deixaria de concordar com quase tudo que foi escrito. Minha primeira reação foi compará-las com o que acontece no Brasil. Aí vão as notas e comentários sobre as revoluções francesas de 2009:

1) Separamos o lixo: Na França, a reciclagem está a caminho dos 70% do lixo total, um índice bem razoável. Depois que me acostumei a separar o lixo, fica difícil jogar uma garrafa PET e casca de banana no mesmo cesto. Para evitar aqueles comentários irônicos do meu post “Saco!”, as coletas do lixo comum, do reciclável e do vidro são independentes. Perfeito! Só não descobri aonde jogo as lâmpadas incandescentes.

2) Não precisamos mais possuir as coisas: Fenômeno mundial de transformação de certos produtos em serviços. A tendência é forte em tudo que é relacionado à tecnologia da informação e conhecimento, mas vai se replicando para outros setores da sociedade. Exemplo recente são as bicicletas públicas das cidades francesas: Pega-se numa esquina e deixa-se em outra.

3) Não vivemos sem conexão: Seja via celular ou micro, não dá para abrir mão do e-mail, SMS, redes sociais, etc. Existem 1,1 bilhão de pessoas conectadas à Internet. Ainda falta muita gente, mas isso já é 95% do PIB do planeta.

4) Largamos a TV: Pelo menos, na França, a audiência caiu brutalmente. Não faltam opções e, de alguma forma, o fenômeno está ligado ao item anterior. Considerando que todas as TVs do mundo estão sujeitas a uma certa manipulação, é uma vitória democrática.

5) Queremos tudo de graça: Eu até concordo com a tendência, mas talvez escrevesse de outra forma. A verdade é que quase ninguém tem pago por música. Muita gente não tem pago por filmes. E, logo mais, com a popularização dos leitores eletrônicos, não vão pagar por livros. E o jornalista do Le Monde que escreveu isso vai perder o empreguinho dele. O mundo está buscando um novo modelo de comercialização e remuneração do conteúdo cultural.

6) Largamos o carro: Só na Europa! A combinação de medidas que punem o uso do carro (e.g. pedágios urbanos) com o transporte público que funciona faz com que o carro seja um mico. Não é incomum encontrar europeus que não sabem dirigir. Quanto às Américas, ainda tem muito chão pela frente.

7) Comemos de maneira diferente: O governo francês promove o consumo de frutas e legumes. Ainda tem os produtos orgânicos, cuja oferta não para de crescer. Enfim, acho que é uma tendência mundial, mas andando em ritmos diferentes através do mundo.

8) Não enchemos mais o carrinho do supermercado: O hábito da grande compra semanal ou mensal no hipermercado tem diminuído muito. Não é bem por causa da crise, mas por que o varejo de proximidade cresceu e aprendeu ser competitivo. Enfim, é mais pratico e ecológico comprar perto de casa, sem grandes filas, mesmo que duas ou três vezes por semana, do que ir até o Carrefour da periferia. Parece algo bobo, mas afeta o dia a dia de quase todos.

9) Compramos mais usados: A credibilidade do mercado de segunda mão foi restaurada pela Internet. Por que não?

10) Voltamos ao centro das cidades: Já com alguns anos, a atratividade dos centros urbanos é maior do que a periferia, onde ficam os grande bolsões residenciais. O transporte acaba pesando no bolso de quem vem de longe. A tendência é limitada pela própria disponibilidade de imóveis nos já caros centros das cidades européias.


Foto: Um cantinho no centro de Bayeux, às margens do Aure. A cidade normanda foi uma das poucas que saíram intactas da Segunda Guerra.

Tuesday, October 13, 2009

Saco!

Não sei se os supermercados brasileiros ainda distribuem sacos plásticos para embalar as compras. Aqui, eles foram abolidos há uns bons anos. Quem os esquece tem a opção de comprar sacolas feitas para resistir a muitas viagens.

No começo eu achei um saco. Hoje, eu tenho sacolas "longa vida" do Carrefour, do Monoprix, do Casino, do Franprix, etc. Nunca cometi a indelicadeza de entrar no Monoprix com a sacola do Carrefour.

Acabar com os sacos plásticos foi a primeira atitude dos supermercados para se tornarem verdes. Eles tomam a iniciativa, mas o sacrifício é nosso!

Evidentemente, compreendemos e apoiamos a ação dos varejistas. Não vou nem entrar na efetiva contribuição desta ação, pois teria que recorrer a números de toda cadeia petroquímica, que nem tenho em mãos. Mesmo que seja simbólico, está bem, a gente aceita. Entretanto, eles não podem ficar só nisso.

Ser verde é uma parte mínima na busca pelo desenvolvimento sustentável. A contribuição dos super varejistas deveria ir mais além. Por exemplo:

- Deixar de ser o setor da economia campeão do subemprego
- Eliminar o excesso de junk-food das suas prateleiras
- Aumentar a oferta de produtos orgânicos e reduzir a de produtos de origem duvidosa
- Exigir que os fornecedores tenham os mesmos compromissos com a sustentabilidade
- Desenvolver fornecedores locais e, especialmente, pequenas e médias empresas
- Evitar a guerra suja nos produtos "low cost" com a utilização de ingredientes de segunda

Enfim, qualquer um desses temas é mais importante do que os sacos plásticos. Eu faço a minha parte, mas não estou convencido que os supermercados façam a sua.


Foto: Uma das melhores surpresas da Normandia foi a belíssima cidade de Honfleur. Porto situado no estuário do Sena, inspirou diversas obras de Monet, Courbet e Boudin. A cidade é próxima de Le Havre, segundo porto da França, depois de Marselha.

Sunday, September 13, 2009

Francamente 2

O governo francês reforçará os cofres públicos com a taxa carbono, que incide sobre o gás, a gasolina e outros combustíveis fósseis. O apelo do desenvolvimento sustentável certamente facilita a sua aceitação. Não tenham dúvidas de que a ideia espalhará pelo mundo!

O imposto será revertido em projetos de redução de emissão de gás carbônico, no nível doméstico, público e corporativo. Se funcionar, será ótimo, pois a França já possui uma matriz energética diferenciada. Entre as grandes nações, é a única que conseguiu a independência graças à energia nuclear.

Como exemplo prático, o governo já tem uma máquina bem azeitada para subsidiar investimentos residenciais na melhoria do isolamento térmico, modernização do aquecimento, implementação de energia solar, renovação de iluminação, etc. Este esforço será substancialmente reforçado.

Imposto à parte, o compromisso do país com a sustentabilidade e a redução de emissões é louvável. Em nome do planeta, peço que os governantes do mundo copiem isto. Quanto ao novo imposto, bem, vamos conversar um pouco melhor ;-)


Foto: O guindaste atrapalhou a bela foto do Duomo di Siena, do século XIII, no melhor estilo gótico característico da Toscana. Não seria difícil editar a foto e tirá-lo. Por princípio, eu não retoco nenhuma foto, apenas reduzo a resolução.