Thursday, October 29, 2009

Revoluções

Enquanto a revista do Figaro fala sobre Asterix, a do Le Monde fala das dez revoluções que acontecem na França. Eu as apresentaria de forma diferente, porém, não deixaria de concordar com quase tudo que foi escrito. Minha primeira reação foi compará-las com o que acontece no Brasil. Aí vão as notas e comentários sobre as revoluções francesas de 2009:

1) Separamos o lixo: Na França, a reciclagem está a caminho dos 70% do lixo total, um índice bem razoável. Depois que me acostumei a separar o lixo, fica difícil jogar uma garrafa PET e casca de banana no mesmo cesto. Para evitar aqueles comentários irônicos do meu post “Saco!”, as coletas do lixo comum, do reciclável e do vidro são independentes. Perfeito! Só não descobri aonde jogo as lâmpadas incandescentes.

2) Não precisamos mais possuir as coisas: Fenômeno mundial de transformação de certos produtos em serviços. A tendência é forte em tudo que é relacionado à tecnologia da informação e conhecimento, mas vai se replicando para outros setores da sociedade. Exemplo recente são as bicicletas públicas das cidades francesas: Pega-se numa esquina e deixa-se em outra.

3) Não vivemos sem conexão: Seja via celular ou micro, não dá para abrir mão do e-mail, SMS, redes sociais, etc. Existem 1,1 bilhão de pessoas conectadas à Internet. Ainda falta muita gente, mas isso já é 95% do PIB do planeta.

4) Largamos a TV: Pelo menos, na França, a audiência caiu brutalmente. Não faltam opções e, de alguma forma, o fenômeno está ligado ao item anterior. Considerando que todas as TVs do mundo estão sujeitas a uma certa manipulação, é uma vitória democrática.

5) Queremos tudo de graça: Eu até concordo com a tendência, mas talvez escrevesse de outra forma. A verdade é que quase ninguém tem pago por música. Muita gente não tem pago por filmes. E, logo mais, com a popularização dos leitores eletrônicos, não vão pagar por livros. E o jornalista do Le Monde que escreveu isso vai perder o empreguinho dele. O mundo está buscando um novo modelo de comercialização e remuneração do conteúdo cultural.

6) Largamos o carro: Só na Europa! A combinação de medidas que punem o uso do carro (e.g. pedágios urbanos) com o transporte público que funciona faz com que o carro seja um mico. Não é incomum encontrar europeus que não sabem dirigir. Quanto às Américas, ainda tem muito chão pela frente.

7) Comemos de maneira diferente: O governo francês promove o consumo de frutas e legumes. Ainda tem os produtos orgânicos, cuja oferta não para de crescer. Enfim, acho que é uma tendência mundial, mas andando em ritmos diferentes através do mundo.

8) Não enchemos mais o carrinho do supermercado: O hábito da grande compra semanal ou mensal no hipermercado tem diminuído muito. Não é bem por causa da crise, mas por que o varejo de proximidade cresceu e aprendeu ser competitivo. Enfim, é mais pratico e ecológico comprar perto de casa, sem grandes filas, mesmo que duas ou três vezes por semana, do que ir até o Carrefour da periferia. Parece algo bobo, mas afeta o dia a dia de quase todos.

9) Compramos mais usados: A credibilidade do mercado de segunda mão foi restaurada pela Internet. Por que não?

10) Voltamos ao centro das cidades: Já com alguns anos, a atratividade dos centros urbanos é maior do que a periferia, onde ficam os grande bolsões residenciais. O transporte acaba pesando no bolso de quem vem de longe. A tendência é limitada pela própria disponibilidade de imóveis nos já caros centros das cidades européias.


Foto: Um cantinho no centro de Bayeux, às margens do Aure. A cidade normanda foi uma das poucas que saíram intactas da Segunda Guerra.

Post a Comment