Saturday, January 24, 2026

Tenebrosas transações

 


Quando cursava a faculdade, lá pelos idos dos anos 80, uma das coisas que se comentava, num tom de quase piada, era que o Lula seria um agente da KGB. Vale lembrar aos desmemoriados, ou aos mais jovens, que naquela época Lula era um novato em candidaturas a cargos executivos, concorrendo ao governo de São Paulo.

Voltando à anedota: só fui entender que aquilo não era exatamente uma piada muito tempo depois. O conceito de "agente" para a KGB não correspondia à imagem cinematográfica que associamos a um James Bond, ou talvez a um "Ivan Bondov".

A realidade era mais sutil. Havia milhares de agentes, uma rede imensa de pessoas que poderiam contribuir, mesmo que marginalmente, para a causa soviética. Muitas vezes, esses simpatizantes sequer sabiam que eram agentes. De qualquer modo, a teia era enorme, abarcando políticos, jornalistas, sindicalistas e quem mais pudesse ser útil.

Faço esse paralelo para olhar o crime organizado nacional de hoje, especialmente o PCC.

As grandes revelações recentes escancaram a capilaridade das suas operações. Fica evidente que nem todos os milhares de cidadãos envolvidos, ou mesmo arrastados, por essa máquina criminosa têm consciência de serem peças da engrenagem. Trata-se de uma rede vasta de parcerias, contratos, negociações, trocas de favores e apoio logístico.

O núcleo central, aquele ligado aos crimes de sangue e ao tráfico, usa o crachá do PCC. Mas existe uma camada superior, a dos "empresários inescrupulosos". Gente que não usa o crachá da facção, mas sabe muito bem que é peça-chave na grande lavanderia. Nomes que surgem em investigações e manchetes, como o de Mohamad Hussein Mourad ou o onipresente Daniel Vorcaro, ilustram como o dinheiro sujo busca o verniz da legalidade.

Além deles, há os políticos que fecham os olhos. Há as milhares de pessoas comuns arrastadas pelos malfeitores. E, por fim, temos nós, espectadores daquela cena descrita por Chico Buarque: "A nossa pátria-mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações".


Foto: Imagens da viagem do Carnaval de 2025 - Funchal, Ilha da Madeira.

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