Wednesday, January 15, 2014

Blasfêmia


O especial de Natal do “Porta dos Fundos” despertou a fúria de diversos grupos cristãos. O tema não é novo neste blog. Nos tempos de Europa, comentei várias vezes sobre as reações de grupos religiosos aos cartunistas mais ousados.

De uma forma geral, acho positivo que os humoristas não encarem religião como tabu e utilizem-na como mote para suas criações. Se existem limites, que sejam delineados pelo bom senso e não por burocratas.

Muita gente já inspirou-se na Bíblia para fazer rir, por exemplo, Mel Brooks (A História do Mundo) e Monty Python (A vida de Brian). Cá entre nós, na maioria dos filmes do gênero, a piada já está quase pronta!

Uma das técnicas mais comuns para se fazer graça com história ou religião é recriar o passado com referências do presente, sejam nos costumes, na linguagem ou na tecnologia. No vídeo em questão, o presente trazido por Melquior não era mirra, mas uma outra erva. Num outro quadro, Maria diz: “Esse Império Romano é um ovo”. Já no final, Jesus diz para Tibério: “Você tem a maior mão de fada”.

Até aí tudo bem. O debate esquenta ao se afrontar um dogma da religião. É o que acontece, por exemplo, quando algum cartunista europeu faz uma representação de Maomé. Já a trupe brasileira fez piada com a maternidade de Maria. Apesar de ter gostado de grande parte do vídeo, reconheço que isso seria dispensável. Justamente por ser uma piada tão fácil, beira o mau gosto. Por outro lado, não concordaria com a sua censura.

Os tais grupos cristãos tiveram o mesmo comportamento dos petistas. Até ironizarem Lula e Dilma, o “Porta dos Fundos” era um grupo genial. Depois, virou um grupo tucano. Há poucas semanas, o grupo avacalhou alguns costumes islâmicos e ninguém falou nada.

Esse é o problema de quem leva religião muito a sério. Toda religião possui seus mitos e dogmas. Nem todos acreditam em tudo, mas respeitam. O problema começa quando alguns acham que as suas crenças são mais verdadeiras do que as dos outros.  

E se o “Porta dos Fundos” pisou na bola fazendo piada com Maria, coube a ninguém menos do que Deus a fala mais inspirada do polêmico vídeo, que serve de resposta aos tais grupos cristãos e a outros fanáticos. No final do primeiro quadro, diante de um José incrédulo de que a história do seu filho Jesus seja convincente, Deus diz: “Querido, isso aí relaxa. O pessoal acredita em qualquer coisa. Vai por mim”.



Foto: Abrindo uma série de fotos de Amsterdam tiradas em agosto de 2013.
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