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Wednesday, December 16, 2020

Polo é o novo black-tie



O costume de mandar minhas camisas para serem lavadas por especialistas vem de longa data. Foi assim no Brasil, na França e na Bélgica. Em abril de 2009, comentei neste blog sobre um evento inusitado: o furto sofrido pela lavanderia em Lyon.

Desde o meu retorno ao Brasil, minha esposa administra o assunto. Todo começo de ano, ela fecha um pacote de camisas. Pagamos antecipado e a lavanderia vai deduzindo as entregas semanais. A gente ganha no valor unitário e perde com a antecipação. Mas a questão não é financeira, é de praticidade.

No começo do ano, poucos dias antes do confinamento, minha esposa ainda perguntou se as minhas novas atividades profissionais exigiriam o mesmo pacote de camisas, calculado com a base de uma por dia. Respondi: “Claro! Vou encontrar clientes e parceiros. Já tenho almoços agendados para o mês de março inteiro!”. Ela fechou com a lavanderia.

Em março, ainda usava camisas diariamente. Aí, vendo o que acontecia do outro lado do Zoom, comecei usar camisas polo. Depois, mudei para as melhores camisetas. Em abril, já estava usando as camisetas mais básicas, daquelas que comprava de dúzias na Europa.

Em tempos de ‘work from home’, as camisas polo são o novo black-tie. 

Termino 2020, com um baita crédito na lavanderia, mas trabalhar de calção e camiseta não tem preço.

 

Leitura complementar:

Furto à lavanderia (2009)

Compra de T-shirts (2009)

 

Foto: Praia vermelha de Santorini (2016)


Sunday, April 26, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 4

Mudando de assunto, mas ficando na lavanderia, um sinal dos novos tempos. O custo de se lavar uma T-shirt básica é - bem - maior do que o custo de uma camiseta nova. Enquanto os serviços são prestados pela mão de obra local, sujeita aos caprichos mencionados no post anterior, as mercadorias novas vêm da China. 

Embora tenha comprado um montão de camisetas, não as tratei como produtos descartáveis. Mesmo que a vantagem econômica seja real, parece um desperdício de recursos. 

Trata-se de uma questão de sustentabilidade, que vai muito longe. Em condições iguais, seria melhor sustentar decentemente uma família européia ou mandar mais alguns centavos para uns três escravos chineses?   


Foto: Ontem, em mais uma incursão pela Borgonha, visitei a região de La Clayette. Na foto, o castelo do século XIV, localizado no centro da cidade. 

Friday, April 24, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 3

O problema das lavanderias é o mesmo dos restaurantes, dos salões de beleza, do pequeno comércio e assim por diante. A grande parte dos seus funcionários recebe o SMIC, o salário mínimo francês:  Cerca de 1000 euros líquidos (1300 brutos).

O salário de 1000 euros é um paradoxo. Consegue desagradar empregados e patrões. Ele é insuficiente para o padrão de custo de vida local e caro para o dono de um pequeno negócio (não esqueçam dos encargos acrescentados aos 1300).  Evidentemente, ele não tem nada a ver com o de salário mínimo brasileiro. 

Talvez fosse melhor um SMIC menor, gerando mais empregos e bem menos desembolso com seguro desemprego, que aqui é bem generoso. Pois é, a França está cheia de artifícios que amortecem os efeitos catastróficos da mesma crise que joga milhões de americanos na sarjeta. 

Entretanto, o capricho keynesiano é uma trava ao dinamismo da economia. A França está condenada ao eterno marasmo. 


Foto: Voltando a Crémieu, estava devendo a foto lá do alto, de onde se avista o mercado e a cidade.

Thursday, April 23, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 2

Passei por três lavanderias. A primeira foi excelente, mas o seu dono fecha a loja muito cedo, não abre nos finais de semana e fecha durante o mês de agosto inteiro. No Brasil, a gente aprende que só o cliente tem o direito de ser folgado. Mudei.

A segunda foi a "5 à Sec", mencionada no post anterior. Era boa e barata. Deu no que deu.

Finalmente, a lavanderia atual, tocada por um simpático casal de terceira idade. Qualidade e tratamento de primeira, preços competitivos. O segredo é não ter funcionários. São só os dois e o sócio mais confiável do homem: O cachorro.


Foto: Uma outra tomada da milenar Saint-Victor-sur-Loire.

Wednesday, April 22, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 1


Inaugurando a minha série de conversas de lavanderia, começo com um fato inusitado, algo que jamais pude imaginar antes da mudança para Lyon. Acostumado a lavar boa parte da roupa fora de casa, chegando aqui, não tive duvidas: deixei as máquinas de lavar e secar desligadas e terceirizei completamente a tarefa.

Um dia, a moça da '5 à Sec' avisou que houvera um furto na loja e minhas roupas tinham sumido. "Quel surprise!" O meu acerto foi direto com a seguradora, o que causou uma longa espera e uma pequena perda. Não gostei do incidente e mudei de lavanderia.

A pequena história ilustra que os assaltos são raros por aqui. Já os furtos, nem tanto. O furto foi possível porque as lavanderias são tocadas por apenas uma ou duas pessoas. Basta uma ida ao toilete que o negócio fica desguarnecido.  Uma operação minimalista, assim como qualquer pequeno negócio em solo gaulês.


Foto: De alguns finais de semana atrás, em Saint-Victor-sur-Loire, com foco no seu centrinho de 1000 anos. A vila medieval fica na periferia de Saint Etienne.