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Friday, January 15, 2021

A vida antes e depois do Whatsapp


 

Após a recente divisão da nossa era em antes e depois do Coronavírus, estamos diante de um novo marco histórico: o antes e depois do Whatsapp. A fuga de muitos usuários e grupos para outras ferramentas parece inevitável. O mundo não será mais o mesmo!

O Facebook desperdiçou uma oportunidade histórica. O Whatsapp é o app mais importante das nossas vidas. Nele, amamos, trabalhamos, brincamos, compramos, aprendemos, vendemos, divertimo-nos, reclamamos, etc.

Essa promiscuidade digital tem as suas armadilhas, mas está tudo ali, num só app! Dá para passar um dia sem e-mail ou qualquer outro software, menos ele. O Whatsapp fez sucesso em muitos lugares do mundo, em especial no Brasil: aqui, é tudo nele!

Sempre tive três queixas com relação ao produto:

  1. Conquistando esta posição dominante, deveria ter alguns recursos para melhor organizar os contatos e grupos.  A tal mistura de assuntos sempre foi um incômodo. 
  2. questão de segurança deveria ser tratada com mais seriedade, tendo em vista que a usurpação de perfis Whatsapp é um golpe muito comum no Brasil. Uma praga! 
  3. O tema da vez, o famigerado compartilhamento de dados com o Facebook, despertou uma reação exagerada de muitos. Acredito que, diante do tesouro representado pelo Whatsapp, o Facebook poderia ter sido menos afoito e buscado alternativas de monetização. Afinal, não é todo dia que aparece um app tão essencial nas nossas vidas.

Não podemos deixar de reconhecer o esforço da plataforma em frear o compartilhamento excessivo de ‘fake news’ e similares. Ficaram tão focados no assunto, que menosprezaram essa fuga em massa.

Manterei a conta no Whatsapp e acessarei o Signal e o Telegram com menos frequência. Enfim, acabarei usando mais aplicativos. Muitos farão o mesmo, mas, como diz o filósofo Martinho da Vila, a vida vai melhorar.

O inconveniente do Whatsapp é que ele abriga o Brasil inteiro. Todo mundo está lá e faz inúmeros acessos diários. Sem chances de desligá-lo ou ignorá-lo. A existência de outras plataformas vai tirar aquela expectativa de resposta imediata.

Finalmente, poderemos tocar nossas vidas e, quando necessário, dizer:

- “Não olhei o Signal hoje”

- “Tive que reinstalar o Telegram”

- “Agora, só acesso o Whatsapp no final do dia”

 Ufa, que alívio!


Um ótimo 2021 a todos vocês!



Foto: Fechando a série de Santorini de 2016. O passeio de barco é essencial para ver a ilha sob uma perspectiva diferente e visitar a boca do vulcão submerso.

Wednesday, December 16, 2020

Polo é o novo black-tie



O costume de mandar minhas camisas para serem lavadas por especialistas vem de longa data. Foi assim no Brasil, na França e na Bélgica. Em abril de 2009, comentei neste blog sobre um evento inusitado: o furto sofrido pela lavanderia em Lyon.

Desde o meu retorno ao Brasil, minha esposa administra o assunto. Todo começo de ano, ela fecha um pacote de camisas. Pagamos antecipado e a lavanderia vai deduzindo as entregas semanais. A gente ganha no valor unitário e perde com a antecipação. Mas a questão não é financeira, é de praticidade.

No começo do ano, poucos dias antes do confinamento, minha esposa ainda perguntou se as minhas novas atividades profissionais exigiriam o mesmo pacote de camisas, calculado com a base de uma por dia. Respondi: “Claro! Vou encontrar clientes e parceiros. Já tenho almoços agendados para o mês de março inteiro!”. Ela fechou com a lavanderia.

Em março, ainda usava camisas diariamente. Aí, vendo o que acontecia do outro lado do Zoom, comecei usar camisas polo. Depois, mudei para as melhores camisetas. Em abril, já estava usando as camisetas mais básicas, daquelas que comprava de dúzias na Europa.

Em tempos de ‘work from home’, as camisas polo são o novo black-tie

Termino 2020, com um baita crédito na lavanderia, mas trabalhar de calção e camiseta não tem preço.

 

Leitura complementar:

Furto à lavanderia (2009)

Compra de T-shirts (2009)

 

Foto: Praia vermelha de Santorini (2016)


Wednesday, December 2, 2020

Macapá


Durante a forte tempestade de ontem, houve um problema com o fornecimento de energia. Foram boas horas sem luz. Um dia de Macapá num bairro nobre de São Paulo.

Os habituais cortes de energia programados para o final de semana são fichinha. No domingão, sempre tem coisa melhor para fazer. Porém, um corte inesperado numa terça-feira em tempos de “work from home” é uma baita sacanagem.

De repente, toda aquela parafernália eletrônica comprada para melhorar nossas “lives” não serve para nada. A gente se vira com o smartphone mesmo. Aliás, onde andam meus poderosos carregadores de celular? Faz meses que não preciso deles! 😉

Um bom smartphone comporta tudo o que precisamos fazer: calls, leituras, anotações, etc. Passar muitas horas com ele pode ser divertido. Porém, quando é por obrigação, a coisa é diferente.

As horas passavam e eu acreditando na volta iminente da energia. A uma determinada altura, já estava de olho na tomada do hall social, ligada ao gerador do condomínio. Ela garantiu o celular até a hora de dormir.

Ao cair da tarde, a preocupação era outra. Comer é fácil, afinal o iFood está aí para isso. Minha esposa, no entanto, teve outra ideia. Levar alguns equipamentos da cozinha para o hall social, onde usaríamos aquela tomada. Felizmente, não tem detector de fumaça por lá. O resultado foi um delicioso jantar à luz de velas.

Noite adentro, a energia do computador ainda sustentou uma luminária com tomada USB por um par de horas. Minha esposa escrevia a sua monografia e eu aproveitava a luminosidade para ler um livro no Kindle com mais conforto. Rendeu uma centena de páginas. Poderia ter rendido mais se o capítulo do livro em questão fosse menos indigesto.

A energia voltou durante a madrugada, tempo limite para não comprometer o que estava na geladeira. A gente se vira muito bem. Nada comparável aos nossos irmãos do Amapá, que sofreram o apagão dos apagões.

 

Foto: Monastério de Perissa em Santorini (2016).

 


Saturday, November 21, 2020

GPS



Remexendo as coisas aqui em casa, achei um aparelho GPS abandonado há anos. Carreguei e liguei. Como ele não pôde receber o sinal dos satélites, então mostrou o lugar onde fora desligado pela última vez, a saída da minha garagem em Lyon (2010).

Graças à minha determinação em conhecer cada buraco a até 3 horas de Lyon, precisei muito dele. Eu tinha um GPS embutido no painel do carro, um luxo à época. Posteriormente, adquiri um outro, conforme relato a seguir. Houve um grande mercado de aparelhos GPS, derrubado pelos poderosos smartphones e suas fantásticas aplicações, tal qual o onipresente Waze.

Até meados de 2008, contava apenas com o GPS do carro. Foi na primavera daquele ano que parti para explorar a Franche-Comté. Chegar a Besançon é fácil, mas precisaria do GPS para visitar uma dúzia de atrações da vizinhança: a capela de Rondchamp (Le Corbusier), o Leão de Belfort (Bartholdi), a Salina Real (Ledoux), as diversas fortalezas de Vauban e assim por diante.

No dia seguinte à chegada, liguei o carro para começar a aventura. Ops, um probleminha! Naquela manhã fria, o carro pegou, mas o GPS empacou. Depois de alguma insistência, compreendi que ele só tinha o mapa do sul da França. Eu estava fora do mapa!

Fazendo um breve parêntesis, era impossível baixar um novo mapa online. Além disso, cada mapa extra era tão caro quanto um Tomtom carregado com a Europa inteira. Pouco depois da viagem, optei pelo Tomtom, mais fácil e intuitivo do que o GPS do carro.

Voltando à viagem. Sem o GPS, o jeito foi fazer como sempre foi feito. Comprei um mapa no posto e prestei atenção na paisagem e nas placas. Passei a dirigir observando e pensando, ao invés de seguir cegamente o dispositivo. Tudo funcionou com perfeição.  

Quando voltei ao Brasil, já estávamos na era do Waze. Embora o maior objetivo do aplicativo seja ganhar tempo – e isso funcionou super bem – acabamos viciados e dependentes do mesmo. Sempre tem uma desculpa para usá-lo: o trânsito, os radares, uma dúvida com relação ao caminho, etc.

E por que falar de GPS numa época em que estamos com os carros ociosos na garagem? Por duas razões. Primeiro, como disse no começo do post, em tempos de pandemia uma das minhas atividades é fazer ‘arqueologia em casa’. Foi assim que descobri o GPS.

A segunda razão, e mais importante, é que a pandemia propiciou uma convivência mais intensa e constante com minha esposa. Parte dessa interação foi ouvir inúmeras aulas dos cursos que ela tem feito desde o começo do ano, vários deles focados no envelhecimento.

Então, foi meio de penetra, que ouvi uma especialista em cognição falar da importância de se abandonar os aplicativos de direção para melhor estimular o cérebro. Deixe-o capturar as referências, processar as alternativas e encontrar os caminhos. Este pequeno exercício intelectual faz parte de um conjunto de estímulos essenciais para mantê-lo saudável. Embora não seja uma unanimidade, segundo diversos especialistas, tais estímulos somados às boas práticas de saúde podem até prevenir demências.

Percebendo que o trânsito de São Paulo está piorando, mas ainda longe dos piores dias do período anterior pré-pandemia, aproveitem para deixar o Waze desligado. #ficaadica

 


Foto: Outra tomada de Oia, do interior do hotel, se é que podemos falar de interior. Santorini, 2016.


Monday, November 16, 2020

Peneira


Estamos mal acostumados. Um pequeno atraso na apuração das eleições provocou críticas, insinuações e teorias conspiratórias. Os derrotados nunca perdem a oportunidade de desacreditar a nossa sólida Justiça Eleitoral. Na realidade, os incidentes de domingo mostram que a opção brasileira para automação das eleições é a melhor possível.

O nosso sistema de votação é reconhecido internacionalmente como seguro. As urnas e o sistema de contagem não são conectados à Internet, limitando muito a ação de hackers, que assolam organizações públicas e privadas ao redor do planeta.

Há duas queixas comuns contra o sistema. A primeira, vinda do próprio governo, é o custo de manutenção do mesmo. Que bom que estejam preocupados com isso, afinal ele é pago por todos nós. A segunda, vinda de diversos ativistas pela democracia, é a falta de algum registro físico do voto, como a sua impressão no momento votação. Mesmo sem este recurso, as eleições são perfeitamente auditáveis, urna por urna.

O problema ocorrido com o aplicativo da Justiça Eleitoral, aquele usado para a justificar a ausência, confirma que, se houver alguma vulnerabilidade, ela será explorada. Nossas autoridades têm estudado um novo sistema pela Internet. Aprendemos que talvez seja melhor segurar a solução atual, cara e confiável, por mais algum tempo.

Fazendo um paralelo com a indústria de transformação, onde trabalhei por muito tempo, que tem, entre seus desafios, colocar o máximo de automação digital no parque fabril. Apesar do custo elevado, as tecnologias de última geração permitem ganhos de produtividade e níveis de eficiência fantásticos.

Mesmo diante de tamanha evolução, vários engenheiros especializados começam a questionar o saldo do investimento. Os ganhos trouxeram ameaças jamais imaginadas. Hoje, qualquer indústria pode estar na mira de um grupo de hackers do outro lado do mundo. O alto custo da vigilância cibernética não estava na conta inicial.

Temos visto uma sequência de ataques a diversos órgãos federais, além daquele comentado acima. Não há muita transparência do governo para tal. Uns dizem que estão com problema de vírus, outros desconversam. Já é hora de tratar do assunto como gente grande!

Não é vergonha ser hackeado. Grandes e excelentes empresas privadas são atacadas o tempo todo. Crime é esconder quando os dados pessoais são comprometidos. E pelas informações sobre nós cidadãos, que são comercializadas na Internet, ouso dizer que temos uma grande peneira na máquina pública nacional.

Junto com a pandemia, vários grupos de hackers estrangeiros industrializaram os ataques. Todo dia tem uma nova vítima. Para abortar esta série de ataques aos órgãos públicos, o governo precisa fazer o mesmo que tantos outros países, deixar as armas tradicionais de lado e investir na cibersegurança: boas práticas, infraestrutura e um bom contingente de funcionários especializados.

 

Foto: Mais uma tomada da costa de Oia, em Santorini (2016).

 

Friday, November 6, 2020

Conversas republicanas


 

A maior parte dos parentes e amigos que moram nos EUA votou no Biden. Ainda assim, tenho uns poucos amigos fiéis ao Partido Republicano. Neste post, selecionei extratos das conversas com eles, que tomaram conta do meu Whatsapp nesta semana de suspense.

Felizmente, entre eles, nenhum fanático. Votam no Partido Republicano, apesar do Trump. Um deles declarou: “também não gosto do homem Donald”. Ao comentar sobre o festival de falsas denúncias e a possível judicialização das eleições, foi mais longe: “Trump acabou.”

Comentei que a alternância de poder norte-americana é bastante saudável. Respeito muito os dois séculos de tradição democrática do país. Nada contra um programa conservador, que é tão legítimo como outro qualquer. O problema maior é aquilo que veio junto, o Donald.

Um dos amigos ainda defende seu legado econômico: “as políticas e o sucesso econômico desfrutado por tantos que não foram tão abençoados antes.” Pena que a pandemia tenha levado boa parte deste sucesso, sem contar o saldo de mortos.

Todos eles reconhecem o maior equilíbrio do futuro presidente. Disse um deles: “pelo menos, com o Biden as coisas serão mais calmas.” Entretanto, temem que os radicais venham junto: “Biden é a tromba do elefante sob a tenda”.

Pensando com meus botões, quem são os tais radicais? A turma do Bernie Sanders? Os comunistas dos Estados Unidos? Um outro amigo explicita: “o perigo é a Kamala!”

Kamala, com todo respeito, é uma competente mulher do sistema, longe de parecer uma revolucionária incendiária, que queira destruir as bases da América.

Daqui do Brasil, reconheço que é fácil dar palpites no país dos outros. Não moro nos EUA e, obviamente, ignoro muito do que acontece por lá. Os últimos presidentes republicanos dos EUA foram Bush pai, Bush filho e Trump. Os últimos democratas, Clinton e Obama. Precisa dizer alguma coisa?

O mais próximo dos amigos compreende a situação e termina com espírito republicano: “não importa o que aconteça, estaremos por aqui e de olho no futuro.”

Não é necessário enumerar os infindáveis defeitos do Trump. É impensável como alguém como ele tenha ido tão longe. Os Estados Unidos têm problemas sérios para resolver e precisam de um líder com mais empatia e vontade política de servir a todos. Chega de dividir a nação.

70 milhões de americanos votaram no Partido Republicano, apesar do Donald. Não são todos loucos, fascistas ou ultraconservadores. São dezenas de milhões de trabalhadores que, de alguma forma, tiveram importantes perdas nas últimas décadas. Biden não pode ignorá-los. É um senhor desafio. 

Boa sorte Joe Biden!

 

Foto: Final da tarde em Oia, Santorini, Grécia. Uma multidão vai para o extremo da ilha para assistir ao por do sol (maio, 2016).

Friday, October 30, 2020

Hotel boutique

 


No ano de 2016, o meu retorno para o Brasil já estava agendado para o final de julho. Aproveitei o primeiro semestre para passear bastante. Não desperdicei nenhum dos feriados, sobretudo aqueles do generoso mês de maio: Trabalho, Armistício de 1945, Ascensão e Pentecostes.

- O que faremos no feriado prolongado de cinco dias? – indagou minha esposa.

- Vamos ver se tem algum lugar legal, que a gente não conheça, no máximo a 3 horas de vôo daqui (de Bruxelas). – Respondi de imediato.

Estávamos em casa, então, no computador, abri uma janela para procurar passagens e outra para procurar hotéis. Em menos de dez minutos, disse: Vamos para Santorini, na Grécia!

Abri uma terceira janela e busquei imagens de Santorini no Google. Mostrei as fotos para minha esposa, que ficou instantaneamente encantada e ansiosa pela viagem.

O vôo era da TUI, uma operadora alemã que fazia a rota Bruxelas-Santorini, com uma escala em outra ilha grega. O hotel parecia ser um daqueles com status de “boutique”, mas com preço bem razoável. Não perdi muito tempo na reserva, pois tinha várias viagens para organizar.

Meu colega Thierry, apaixonado pela Grécia, ensinou algumas palavras. A dica mais importante era a pronúncia correta da localidade de Santorini onde estava o hotel: Oia, pronuncia-se “ía”.

Essa viagem foi um pouco depois dos atentados no aeroporto de Bruxelas, que ainda estava um caos. Felizmente, deu tudo certo. Já relatei o episódio do aluguel de carro em Santorini no post “A mãe do taxista”.

A principal rua de Oia é fechada para carros. Do estacionamento até o hotel não deu 100m. Não vimos o hotel em si, apenas uma placa com seu nome. Fomos na sua direção.

Apesar da beleza do cenário, era tudo um pouco estranho. Uma coisa é ver a cidade no mapa, outra é andar por lá. Diversos hotéis não têm estruturas visíveis ao nível da rua, eles são construídos no terreno em declive.

Diante da suposta entrada do hotel, identifiquei-me ao suposto atendente. Instantes depois, aparece um garçom com duas taças de champagne. Pera aí, servir champagne antes mesmo de entrar no hotel?!

A extrema gentileza chamou a minha atenção. E como, daquele ponto, não via o hotel em si, pensei que estivesse caindo numa cilada. Sim, um golpe! Disse para minha esposa grudar nas malas.

Só relaxei na medida em que descíamos as infindáveis escadas barranco abaixo. Também percebi que aquilo era mesmo um hotel boutique. Cada quarto parecia ser cavado na rocha com terraço e piscina privativos. A paisagem de Santorini ao fundo deixava o cenário espetacular.

Estava aliviado. Porém, a essa altura, já estava com outra pulga atrás da orelha: quanto tinha pago pelo hotel? Lembrava-me de um preço bem razoável. Quando vi o tamanho do quarto, o incômodo deixou de ser um simples incômodo e passou a ser uma certeza. Disse para minha esposa: Fiz alguma grande cagada na reserva do hotel!

Preferi nem olhar a reserva. Daí em diante, sabiamente, desencanei. Passei a aproveitar o lugar deslumbrante. Só fui conferir a reserva na véspera do checkout, quando confirmei a minha suspeita. O que eu pensava que fosse o preço da estadia completa era o preço de uma diária!

Aquele deslize transformou-se num dos nossos melhores cinco dias. Uma viagem inesquecível. Além das doces lembranças, guardei a conta do hotel boutique como souvenir.

 

Leitura complementar:

Post de 2016 – A mãe do taxista

 

Foto: Acima, visão panorâmica Oia, a partir de um dos inúmeros terraços. Abaixo, entrando no hotel. 

Ufa! Até que enfim consegui casar o texto com as fotos. 







Sunday, May 8, 2016

A mãe do taxista



Abril e maio são meses de feriados e congressos. Em abril, fui ao Brasil por uns poucos dias, quatro dias na Bahia e mais três em São Paulo. As viagens continuam pelas próximas semanas.

A caminho do Brasil, chamei um táxi para ir até o aeroporto de Bruxelas. Quando o motorista viu nossas quatro malas, perguntou se estávamos de mudança. Taxista de bom humor e pouca gentileza!

Argumentou que as malas não cabiam no seu porta-malas e nem se dispôs a tentar encaixá-las. Eu não quis perder tempo, aceitei o fato e pedi a sua ajuda para chamar um outro táxi. Ele continuava resmungando.

Finalmente, pedi que levasse minha esposa e metade das malas. Eu mesmo coloquei-as no porta-malas. Daí em diante, quase tudo certo, exceto o fato de ter cobrado 5 euros pelo tempo perdido com a discussão.

Já deixei de formalizar reclamações de valores bem maiores, mas esse caso não poderia passar em branco. Reclamei à central de táxis. Não é pelos 5 euros, mas pela grosseria. Para falar a verdade, nem usei o crédito que recebi de volta (10 euros). O importante é que o motorista foi expulso da companhia.



No último feriado de maio, aluguei um carro numa ilha do Mediterrâneo. Ao contrário da prática mais comum, lá, entregam o carro com tanque vazio. O pacato funcionário da locadora disse que havia combustível suficiente para se chegar ao próximo posto. Também disse que uma batidinha a mais no carro não seria motivo de estresse. Cool!

Com o ponteiro no limite da reserva e o posto que não chegava, este blogueiro que faz as coisas certinhas entrou em pânico. Se a prática local é andar com o cheiro de óleo, essa não é minha praia.

Finalmente, o posto. O homem da locadora disse que 10 euros de gasolina dava para fazer a ilha de cabo a rabo. O carro deveria ser entregue com combustível no mesmo nível da retirada e que ele não devolvia a gasolina excedente. Entretanto, este blogueiro muito prudente não quis passar aperto de novo e colocou 15 euros de gasolina. Obviamente sobrou. Devolvi o carro com um oitavo de tanque.

O homem da locadora nem se preocupou em disfarçar. Na nossa frente, meteu um tubo flexível no tanque e passou a gasolina excedente para um outro carro. Assim, poderia entregar o carro para o próximo cliente com o combustível no limite da reserva, como manda a tradição local.


Um grande Dia das Mães a todas as mães deste mundo! 
(inclusive às mães do taxista e do cara da locadora)


Foto: Château de Balleroy, mais um visitado no último verão.

Wednesday, October 17, 2012

No reino da Dinamarca


2014 só lembra a Copa do Mundo no Brasil? Espero que não. Será no período desta tão festejada competição, que o mundo se lembrará do centenário do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, que deflagrou a I Guerra Mundial. Podemos dizer que, com as duas grandes guerras, este triste período da história recente terminou há apenas 67 anos, ceifando a vida de 70 milhões de pessoas.

Deixei para escrever este post aqui, na Europa. Mesmo sabendo da cessão do Prêmio Nobel da Paz à União Europeia (UE) ainda no Brasil, optei por esperar alguns dias, para conversar com as pessoas e ler os jornais locais.

O Nobel da UE foi alvo de escárnio e protestos. É compreensível em face da enorme crise vivida pelo continente. É justamente aí que entra o prêmio. Antes que muitos se deixem seduzir pelos discursos oportunistas, que aquela memória curta interfira no pensamento coletivo, que o desespero se transforme numa crítica generalizada a todas as instituições, lembremo-nos do que foi conquistado. O projeto europeu é antes de tudo um projeto de paz, tendo a integração econômica como meio.

A piada é fácil. Entretanto, essa não foi a primeira e nem será a última crise. A Grécia não foi o primeiro e nem será o último país à beira do abismo. O Nobel serve de puxão de orelha na Alemanha e outros, para que se empenhem com mais determinação na solução da crise. O projeto de união monetária, que inclui alguns países da UE, foi no mínimo ousado. Talvez, errado.

O Nobel e as futuras celebrações em torno do centenário dos episódios chaves das duas grandes guerras são essenciais para lembrar às novas gerações do sombrio passado não tão remoto. Felizmente, a paz é um dos valores mais prezados num continente tão traumatizado pela guerra. Por isso, a grande maioria reconhece o mérito da honrosa premiação.

Bernard Tapie mencionou no Figaro de hoje um discurso de Mitterrand no Parlamento Europeu: “Durante a sua história, a França já fez guerra com todos seus parceiros do bloco, exceto a Dinamarca. Bem, sem dúvidas, é um pouco tarde para se entrar em guerra contra os dinamarqueses...”


Foto: Um cantinho de paz no Castelo de Windsor, o “Moat Garden”.

Monday, August 13, 2012

Notas Olímpicas 3


Ainda é muito cedo para se avaliar os resultados dos Jogos para a cidade de Londres. Certo é que a Grã-Bretanha mostrou que tinha um projeto olímpico, transformando-se numa potência esportiva. Vale notar que essa importante ascensão começou bem antes. Vejam a evolução do seu total de medalhas de 2000 a 2012: 28->30->47->65.

Jogos Olímpicos nem sempre dão certo. O exemplo grego é trágico. O país não digeriu o custo do investimento, não virou uma potência olímpica e tampouco transformou a sua capital. Não é fácil fazer algo pior do que Atenas 2004!

Os jogos de Barcelona 1992 não fizeram da Espanha uma campeã olímpica, mas alavancaram o progresso e o turismo da capital catalã. O renascimento de Barcelona através dos Jogos é um dos melhores exemplos de legado olímpico.

Como nem tudo é perfeito, houve um efeito social perverso. A valorização imobiliária acabou expulsando muita gente para a periferia. Se fosse no Brasil, as encostas do Montjuic estariam devidamente ocupadas ;-)

E os jogos do Rio em 2016?

Em termos esportivos, estamos no pior dos mundos. Melhoramos o nosso desempenho, passando de 15 para 17 medalhas. Porém, nesse período, nosso o governo colocou 100 milhões a mais no bolso do COB. Eu escrevi A MAIS! Aparentemente, o Irã, a Coreia do Norte e o país do Borat foram mais sábios.

Se o investimento em medalhas é duvidoso por si só, pior é gastar e nem obtê-las. A conversa entre Dilma e os dirigentes do COB não será das mais amistosas.

Fica a esperança de uma grande contribuição das Olimpíadas para o Rio de Janeiro. É claro que o investimento direto na infraestrutura da cidade é um real benefício, o difícil é alavancar os bilhões que vão para o circo olímpico. Deixo a reflexão para o leitor.


Foto: Outra tomada do conjunto do "Templo do Buda de Esmeralda" em Bangkok, Tailândia.

Friday, June 22, 2012

Euro 2012

Pelo bem do esporte, nos torneios europeus, é melhor se evitar quaisquer metáforas históricas ou abstrações que fujam da prática desportiva. Depois de tanto sangue derramado, nada como a competição saudável para confraternizar e semear a paz.

A imprensa europeia costuma resistir às piadas fáceis nesses tempos de Euro 2012 - a Copa do Mundo sem o Brasil e a Argentina. Ou melhor, resistia. A partida desta noite (quartas de final) entre Grécia e Alemanha está tirando a imprensa da linha.

As graves circunstâncias econômicas que abalam o continente opõem claramente os dois países. Dizem por aí: “Se a Alemanha quer tirar a Grécia do Euro, a Grécia pode tirar a Alemanha da Euro”.

Para um país economicamente arrasado, a partida desta noite é simbólica. Um comentarista grego prefere lembrar a Batalha de Creta (1941). Os nazistas tomaram a ilha grega, mas com o custo de mais de 3200 mortos. O futebol grego não é grande coisa, mas com este espírito heroico, o jogo promete.

Estou acompanhando a Euro 2012 na Europa, onde os jogos são transmitidos à noite. Nesta semana, estive num importante evento de informática. O coquetel / jantar de abertura foi simultâneo às partidas França X Suécia e Inglaterra X Ucrânia.

Alguém já disse que o europeu não é tão ligado no futebol quanto o brasileiro? A organização do evento trouxe duas TVs de grande formato, que ficaram em dois cantos do imenso salão. Quando os jogos começaram, metade do público dividiu-se entre ambos.

Entre tantas nacionalidades, inclusive coadjuvantes ucranianos e suecos, como era de se esperar, os ingleses foram os mais ruidosos. Não só torciam pela Inglaterra, como se manifestavam contra a França, mesmo estando em Paris. Os franceses estavam excessivamente intimidados pela derrota perante a medíocre Suécia. O Le Monde diz tudo: “La débâcle de Kiev”.

Aproveitei boa parte do jogo para comer e conversar com uma panelinha de brasileiros da Brasscom e Softex, que promoviam a nossa informática aqui na Europa. Mais comia do que conversava. Afinal, eu fui lá para comer, conversar ou assistir ao jogo?


Foto: Centro de Chicago.

Wednesday, May 30, 2012

Geography for dummies

Há poucos anos, a Turquia implorava para entrar na União Europeia. Queria seguir os passos de outros países do velho mundo, que desfrutavam de certa prosperidade (PIGS). Entrar na Zona do Euro seria o máximo!

O ex-presidente Sarkozy, no entanto, estava determinado a barrar os planos turcos. Muito antes do agravamento da crise, ele disse: "A Turquia não entra na União Europeia, por que não é um país europeu".

A Turquia agradece à geografia de conveniência do Sarkozy. O país se salvou das ingerências de Bruxelas e a sua arquirrival Grécia está em plena desintegração. Se não fossem as divergências em torno do genocídio armênio, o ex-presidente seria um ídolo na Turquia.

Nesta semana, Angela Merkel mostrou que geografia não é seu forte. Numa sala de aula, ela foi convidada a mostrar a cidade de Hamburgo num mapa mundi. Seu raciocínio foi lógico, localizaria primeiro Berlim e, depois, a sua cidade natal. O problema é que ela procurou por Berlim na Rússia. Alertada pela professora, exclamou: "O que? A Rússia? Tão perto?". Os alunos gargalhavam.

Decepcionante. Seria estresse? Ignorância? Ato falho? Difícil de se explicar. Se no seu mapa mental, Berlim está dentro da Rússia, onde estaria a adorada Grécia? Talvez, no Irã.

Quando se fala de geografia, é claro que ninguém supera George W. Bush. Entre algumas das suas célebres citações:

"Do you have blacks, too? (2001, para FHC)
"Border relations between Canada and Mexico have never been better" (2001)
"Wow! Brazil is big!" (2005, para Lula) 


Fotos: Acima e abaixo, a famosa Robie House de Hyde Park, na periferia de Chicago. A casa de 1909 é considerada símbolo da escola arquitetônica liderada por Frank Lloyd Wright, primeiro estilo genuinamente americano.



Saturday, February 11, 2012

Meu enésimo post sobre greves

Vocês têm o direito de pensar que este blogueiro também estava em greve. Não faltam boas causas. Não faltam bons e maus exemplos. No meu caso, a longa ausência deveu-se a coisas mais mundanas como viagens, agenda lotada, horas perdidas no trânsito de SP, etc.

Ideias não faltam, mas ainda hesito em enviar um texto a partir do telefone. Nem que seja para escrever um parágrafo, ainda prefiro me sentar diante do obsoleto micro, escolher uma foto e fazer tudo com calma. Pelo menos no meu blog.

Hoje é dia de greve geral no Egito e na Grécia. Os gregos têm bons motivos para fazer uma greve geral. Mas, cá entre nós, você confia num país que marca greve geral para sexta e sábado? Fica algo entre um feriadão forçado e uma greve que não atrapalha tanto. Na dúvida, não compre títulos gregos!

A França entende mais de greve. Normalmente, é no meio da semana, de terça a quinta. Sem colher de chá! Greve é algo tão sério, que a última paralisação da Air France não foi uma reivindicação por salários ou melhores condições de trabalho. A polêmica maior é em torno do aviso prévio para as próximas greves. Pode?

Em se tratando de greves, a pérola foi a greve dos desempregados, ocorrida na França em 2010. Parece piada. Desempregado em casa ninguém percebe, mas quando eles resolvem não fazer nada no meio de uma avenida importante, atrapalham bastante! Só não faço piada com as greves das PM (Bahia e Rio), por que meu blog ainda é muito família.


Foto: A escultura "Forever Marilyn" enfeitando uma esquina de Chicago. Merece duas fotos, acima e abaixo.



Sunday, November 27, 2011

Alemanha contra rapa

Conforme escrito no último post, Portugal, Itália, Grécia e Espanha (PIGS) continuam em maus lençóis, e a Alemanha é o centro das atenções.

Muito provavelmente, Angela Merkel empurraria a questão do Euro com a barriga, não fosse a punição imposta pelo mercado. Ao encontrar os primeiros percalços na emissão dos seus próprios títulos, a poderosa Alemanha encontra-se tão fragilizada quanto seus vizinhos. Enfim, os alemães começam a perceber que estão no mesmo barco. Até a Economist usou a surrada metáfora da orquestra do Titanic.

O interessante é a inversão. De uma hora para outra, os PIGS viraram vítimas e a disciplinada Alemanha é vista como grande vilã. Apesar da irresponsabilidade fiscal dos PIGS, a forma de atuação do Banco Central Europeu – imposta pela Alemanha – coloca todo continente em risco. A Alemanha não pode mais insistir na punição dos países gastadores sem correr riscos.

Os alemães estão contrariados. Para eles, as cigarras se deram bem e as formigas dançaram. Antes dos dominós começarem a cair, as economias europeias já estavam estagnadas, enquanto que a Alemanha estava em melhor forma. Independentemente de quaisquer outros fatores, a origem de todos os males é a própria moeda única, que ameaça formigas e cigarras. Restarão apenas alguns pulgões.


Desde o começo da crise, os políticos europeus aproveitavam cada oportunidade para culpar o mercado financeiro. Diziam que a Europa não se inclinaria aos especuladores. Com o tempo, o discurso foi amenizado. O mercado, esta entidade culpada de tantos males, permitiu as operações para salvar a Grécia, amenizar a situação da Espanha e ainda foi o único a “peitar” a Alemanha. Se há algum pingo de sensatez nesta história, está no famigerado mercado.


Alemanha contra todos. Alguém já viu isso antes? Seria uma mera circunstância econômica ou fruto da mesma sequência histórica que levou aos conflitos do passado, das diferenças entre as perspectivas católica e protestante, de Roma contra os povos germânicos, etc. Para pensar.


Foto: Uma outra tomada da charmosa Saint-Martin-de-Ré.

Saturday, November 19, 2011

O dono da bola da vez

Cansado da crise europeia? Eu também. Revendo meu próprio blog, percebi que o primeiro post sobre a crise grega foi de março de 2010. Àquela época, já se falava do possível efeito dominó, iniciado na Grécia e demais "PIGS".

Quando escrevi aquele post, ainda morava na Europa, onde o assunto já dominava o noticiário. Confesso que acreditava numa certa solidariedade ao povo grego, numa preocupação em se evitar a desintegração social no coração da Europa. Hoje, tenho certeza absoluta de que a dupla Merkozy só queria livrar a cara e salvar seus bancos.

De fato, caminhamos para o pior dos cenários. Lá se vão dois anos sem crescimento, dois anos de sofrimento para os gregos e a crise está apenas começando. A economia italiana está em cheque e todos pagam altas taxas de juros para rolar suas dívidas. Até a França, detentora da nota máxima AAA, paga cada vez mais juros.

Até pouco tempo, a discussão maior era se a Grécia deveria dar o calote ou não. Agora, com economias bem mais significativas em jogo, a Alemanha está no centro do debate.

O mundo clama para que o Banco Central Europeu tenha uma atuação menos amarrada, injetando mais dinheiro na Economia e resgatando os países em dificuldade, mesmo com o risco inflacionário. A Alemanha, que emprestou a solidez do Marco ao Euro e tem uma trágica memória neste terreno, é radicalmente contra.

Vocês podem reparar no noticiário recente, as atenções viraram para a Alemanha. Apesar da sua virtude e disciplina, ela terá que ser solidária com seus vizinhos vagabundos, que ainda juntam dinheiro para comprar Mercedes.

Dois artigos:
The German problem
O Decálogo da Crise Europeia


Foto: Passeando por Saint-Martin-de-Ré, principal núcleo da Île de Ré. As casas podem parecer humildes, mas valem muito. A Ilha é sempre citada pelos críticos do Imposto sobre Fortuna. A valorização imobiliária transformou os seus antigos habitantes em milionários. O problema é que eles não tinham caixa para pagar o imposto. A saída foi vender e se mudar. Justo?

Sunday, June 19, 2011

Chiropa

Excluir a Grécia da Eurolândia era o cenário a se evitar. Temia-se uma convulsão social, a implosão de um país no seio da Europa e a virtual contaminação do continente, uma cesta cheia de frutos podres. Em algum momento, pensou-se que, ao invés de separar os podres, talvez fosse mais fácil separar os bons. Engano.

A Alemanha não pode mais sair do Euro. Mesmo com a economia mais saudável, seu superávit é feito em cima dos demais países europeus. Se tivesse moeda própria, um novo Marco, sua valorização acabaria com a competitividade do país. A opção é insustentável.

Já os gregos estão protestando de forma cada vez mais intensa. Se as coisas continuarem assim, todo o esforço europeu terá sido em vão, pois o caos se aproxima, com ou sem Euro, com ou sem Dracma.

Enquanto Angela Merkel hesitava, Sarkozy sempre foi claro. Quis salvar a Grécia para privilegiar seus amigos e financiadores de campanha, que fazem muito dinheiro por lá: Banqueiros e fabricantes de armas. O bom senso prevaleceu, Merkel e Sarkozy flexibilizaram as suas posições para fazer um novo pacotão de auxílio.

No final das contas, quem salva a Grécia, Portugal e Irlanda não é nem a Alemanha nem a França, mas ninguém menos do que a China, que vai comprar mais títulos europeus. Como a China tem muita bala, acredito que os problemas serão empurrados com a barriga.

Talvez a Europa faça como os EUA, que se amarrou com a economia chinesa, algo que alguns chamam de Chimérica. Agora é a vez da Chiropa. A China, que já tinha um marido bêbado e perdulário, arrumou um amante da mesma categoria. Não há consenso sobre onde isso vai parar. Xie Xie!


Foto: No centro de Baume-les-Messiers, na região da Franche-Comté.


PS: Artigo de Niall Ferguson, de 2005, para quem quiser ir mais longe: Our Currency, Your Problem

Saturday, June 4, 2011

Ainda sobre o Zidane da Economia

As notícias da Europa não têm graça. A Alemanha promete que vai abandonar a energia nuclear mais uma vez, a Grécia jura que agora vai apertar o cinto para valer e a Espanha diz que o seu pepino é confiável. Por essas e outras, ainda não tem assunto melhor do que DSK.

Na última semana, o que mais chamou a atenção foi o penthouse do Tribeca ocupado por DSK, considerado suntuoso demais para um socialista. Eu não estranharia tanto. Afinal, se o petista Palocci é o “Pelé da Economia”, DSK pode muito bem ser o Zidane da Economia, não é mesmo?

De fato, quem banca o DSK é a sua esposa, Anne Sinclair, que tem uma visão bastante arrojada sobre o matrimônio. Diz ela: “Enquanto ele me seduz e eu posso seduzi-lo, isso me basta”.

O escândalo DSK chacoalhou a sociedade francesa. Há uma série de debates sobre o machismo, o feminismo, o assédio, o papel da mulher, os vícios do poder, etc. Explodem as denúncias de assédio. Enfim, há males que vem para o bem. (Desculpem-me por esta conclusão tão profunda e original)

Nos últimos dias, trabalhei em Lyon e provoquei conversas sobre o tema com diversas pessoas. Os sentimentos de cada um são diferentes, do lamento à vergonha. Mas, ninguém é indiferente.

A próxima segunda-feira, quando se comemora o “dia-D”, será um momento crucial para o destino de DSK. Ele deve se apresentar à Justiça americana declarando-se inocente ou reconhecendo a culpa.

Em meio a tantas especulações filosóficas - no melhor estilo francês, a pérola da última quinzena foi o lançamento do novo modelo do Citroën DS4 (a pronúncia francesa é D-S-K-tre). O slogan da campanha: “O poder de dizer não”.


Para finalizar, uma historinha sobre DSK:

DSK chega ao FMI. No seu pescoço, próximo ao colarinho da camisa impecável, percebe-se um pedaço de calcinha. Passando pelos quadros da instituição e cumprimentando seus funcionários, o executivo escandaliza mais uma vez. Entre risos e indignação, a sede do FMI para. Todos falam da calcinha colada no pescoço do chefe. Uma hora depois, finalmente, um dos seus assessores mais próximos o alerta: "O Sr. está com um pedaço de calcinha no seu pescoço". DSK responde: "Não liga, é só um emplastro. Estou tentando parar".


Foto: A última tomada de Annecy, na Savóia.

Wednesday, May 19, 2010

Especuladores e manipuladores

Os bons jornalistas dizem que o mercado financeiro salvou a Europa. Os políticos, por sua vez, usam aquele discurso dúbio, de caráter manipulatório, responsabilizando os famigerados especuladores pela crise.

Infelizmente, esta tática encontra algum eco. Sabemos que o mercado financeiro merece um pacote de controles e boas práticas. Porém, os principais culpados por esta grave crise são alguns governos irresponsáveis. Mesmo na Europa, o continente mais bem educado do planeta, existe uma grande massa manipulável. Não faz nem um século que acabou a II Guerra!

Eu selecionei algumas manifestações da seção de cartas do Le Monde, um jornal, de certa maneira, elitizado:


"Nessa situação, em que o euro é atacado pela especulação, eu constato a falta de decisões dos políticos submissos ao poder das finanças" (François)

"Os cidadãos têm realmente a impressão que os verdadeiros mestres do jogo político são os famosos mercados" (Michel)

"Os homens políticos não estão a altura da situação de urgência que nós vivemos, eles perderam o controle em favor dos mercados, dos quais são maionetes" (Jean François)

"Que sistema brutal este capitalismo. Quando vamos domesticá-lo?" (Sylvio)

"Na origem da crise, os americanos não somente se permitem julgar a saúde de um país europeu, como destruí-lo com tal anúncio...Os EUA estão em guerra econômica contra a Europa" (Vincent)

"Já é tempo de repensar todo sistema financeiro mundial e, principalmente, o ultraliberalismo que nos conduz ao desastre" (Jacques)



Foto: O porto de Hendaye, última cidade do país basco francês, fronteira com a Espanha.



Monday, May 10, 2010

Aprendiz de feiticeiro

Agora é festa. A Europa conseguiu estancar a crise criada pela Grécia. Sarkô até que se saiu bem. Muito melhor do que Angela Merkel. Coitadinha! Ela estava indo tão bem, mas caiu numa cilada.

Protegido pelo mandato de cinco anos, Sarkô, que está no fundo do poço, ainda tem tempo para se recuperar. A questão grega deu-lhe alguns pontos no quesito liderança internacional, porém ressuscitou um dos seus inimigos mais importantes.

Quando assumiu a Presidência, o pequeno príncipe mandou um dos seus rivais aos EUA, para presidir o FMI. Trata-se de Dominique Strauss-Kahn (DSK), um carismático líder do PS. Em Washington, DSK seria seduzido pelo status proporcionado pelo cargo, ficaria longe da França e cairia no esquecimento. Não deu certo.

Nesta crise, o FMI teve um papel fundamental diante da hesitação européia. Sim, o FMI salvou a Eurolândia e tirou a Grécia do caos. O programa do Laurent Ruquier deste sábado ironizou: DSK garantiu seu lugar junto aos deuses do Olimpo.

A França não precisa de um deus, apenas alguém para enfrentar Sarkô em 2012. Já Sarkô, apesar de ter ressuscitado um morto, ainda tem muito o que aprender.


Foto: Mais uma em Saint-Jean-de-Luz, mostrando o seu porto. As casas ao fundo pertencem a uma outra cidade, Ciboure.

Saturday, May 1, 2010

Moedas e dominós

Definitivamente, o mundo está mudado. Há poucos anos, no efeito dominó que derrubava a economia mundial, a peça do Brasil sempre caía. Não importava onde a crise começava, que o Brasil e seus camaradas estavam sempre entre as vítimas. Agora não.

A partir deste domingo, o mundo começa salvar a Grécia, pois se esta peça cair, o estrago na Europa será considerável. Portugal, Espanha, Itália e Irlanda são os próximos da lista. Veja o meu post de 25/2/2010: 'PIGS'.

Na Europa, a divisão é clara. Os alemães não gostam da ideia de ajudar um país desorganizado e mal administrado. São minoria. Todo o resto da Europa, com economias debilitadas, prefere conter o efeito dominó.

Acho que não veremos o renascimento do dracma algum dia. Temo que não possa dizer o mesmo do marco alemão.

Para minha surpresa, muita gente confunde União Européia (UE) com Zona do Euro (no bom sentido). A UE é uma grande conquista da humanidade, que fomenta a paz e a integração do continente. Nem todos os países da UE aderiram ao Euro. Precisamente, 16 dos 27 membros da UE integram a chamada Eurolândia. Se a UE é uma unanimidade, o euro desperta uma grande divisão entre os economistas.


Foto: Bayonne em dia de festa. A banda estava vestida com cores africanas, mas o som era europeu.