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Saturday, March 20, 2010

Um trocadinho para o ônibus

As noites de Lyon geralmente terminam em agradáveis caminhadas. Nas históricas ruas do centro da cidade, estacionamento é coisa rara. Se São Paulo é difícil, aqui é impossível. Um desses sábados, fui de carro. Cinco minutos para chegar ao centro, uma hora para estacionar.

O melhor mesmo é o transporte público. Porém, quando a noitada vai além do jantar, ele nos deixa na mão, pois encerra seus serviços antes de 1:00. Sorte minha poder ir e voltar a pé. Tirando os dias muito frios ou quentes, tem sido um hábito que certamente deixará saudades quando voltar a São Paulo.

Um episódio trivial ilustra bem o contraste entre os hábitos paulistanos e lionenses. Após um jantar na famosa Rue Mercière, caminhava de volta para casa, quando passei diante do "Nicolas Le Bec", um restaurante de duas estrelas em franca ascensão. Fui lá poucas vezes, sempre por razões profissionais. Posso confirmar que as duas estrelas são bem merecidas e que um jantar ali sai em torno R$ 600 por pessoa.

Por estar no centro de Lyon, mesmo um restaurante desse nível não oferece serviço de manobrista. Cruzei com um casal que acabara de jantar no Le Bec. A 50m do restaurante, eu já estava de olho na porta, observando o ritual de despedida entre o "chef" e os seus clientes. A 1m do casal, eles me abordaram e perguntaram: "O Senhor poderia nos informar onde fica o ponto de ônibus mais próximo?"

Indiquei o ponto de ônibus. Só espero que eles ainda tenham algum trocado para pagar o ônibus.



Estarei em convenção durante uma semana, provavelmente, sem novos posts. Encerro com um brinde à minha quarta primavera na cidade. Até!



Foto: Ainda da minha safra de fotos da viagens 2009, uma foto de Riom, na perferia de Clermont-Ferrand, região da Auvergne. A parte intramuros é um pouco cinzenta, mas nem por isso pouco interessante.

Sunday, August 9, 2009

Protestante da corte

A confirmação da hispânica Sonia Sotomayor na Corte Suprema é outro marco histórico da democracia norte-americana. Mais uma mulher, mais uma católica e, ainda por cima, hispânica!

Há algumas décadas, uma Corte Suprema de maioria católica talvez fosse tão inimaginável como um presidente negro. Havia uma cota informal de no máximo um católico e um judeu. Literalmente, o judeu e o católico da corte.

Hoje, são seis católicos, dois judeus e apenas um protestante. Embora a reviravolta se afaste da proporcionalidade à população norte-americana de maioria protestante, tudo indica que, do ponto de vista ideológico, o equilíbrio está garantido. Quatro mais liberais, quatro mais conservadores e um juiz indefinido (um tucano?), que provavelmente vai decidir as questões mais polêmicas.

Nenhum artigo que eu li manifestou preocupação importante com a configuração da corte em si, mas com o próprio histórico da juíza Sotomayor. Ficaremos de olho!


Foto: Um bistrô escondido entre as árvores à beira do rio Aillier, em Vichy, numa foto de maio último.

Thursday, July 2, 2009

A burca da discórdia - Epílogo

Encerrando esta série de posts e longe de querer chegar à alguma conclusão, destaco que a discussão em que a França mergulha é apenas simbólica, pois são poucas as mulheres que usam a burca. Importante mesmo é a vontade de se discutir abertamente, de se impor limites ao radicalismo ou de se afirmar os valores do país.

Os conflitos da sociedade laica com o Islã voltarão com mais força. Não com o Islã como um todo, mas com a sua ala mais radical, aquela que prolifera nas pobres periferias. Só a plena integração sócio-econômica dessas comunidades vai garantir a boa convivência entre todos.

Neste cenário ainda distante, não há espaço para fanatismo, nem para o uso da religião como instrumento de manipulação. Também não são as regras da Bíblia nem do Corão que imperam, mas apenas as da Constituição.


Foto: Château de La Palice, na região de Auvergne. A foto foi tirada na volta de Vichy. O castelo é outro daqueles que resistem, sendo ocupado pela mesma família (de Chabannes) desde 1430. O nome da cidade é Lapalisse.

Friday, May 15, 2009

Procura-se um craque 3

Mudando de assunto, mas ainda atrás de um craque, vou ao encontro de um ás no volante: O mal falado Barrichello. Pé de chinelo para alguns, burrinho para outros. Pelo menos, o Brasil fala dele. Na Europa ele é completamente ignorado. Uma nulidade.

A Brawn faz dobradinha: Jenson e seu companheiro vencem. Falam sobre uns dez pilotos e pulam o Rubinho. No último GP, entretanto, Rubinho foi lembrado com um certo escárnio, pelo papel que desempenha na F1.

Sem querer discutir as suas supostas qualidades como piloto, ele vem exercendo uma das melhores profissões do mundo há alguns anos. Ele é pago para não ganhar. Não precisa correr riscos em ultrapassagens arriscadas e não precisa dirigir no limite do carro. Basta chegar atrás de um europeu. Não tenho nada contra o Rubinho, mas preferia que ele fosse argentino.


Foto: Outra tomada do Château de Busset, a partir dos jardins. 

Monday, May 11, 2009

Procura-se um craque 2

Enquanto a estrela de Juninho se apaga, um outro brasileiro chama a atenção, pelo menos por 90 minutos, na final da  Copa da França (equivalente à Copa do Brasil). O piauiense Eduardo dos Santos foi o herói do jogo na histórica conquista do Guingamp, um time bretão da segunda divisão!

O brasileiro de 28 anos que passou pelo Flamengo do Piauí, Joinville e Grasshopper (Suíça) está longe de ser candidato ao status de Juninho. Assim como ele, são centenas de brasileiros, conhecidos ou não, espalhados pelos times europeus de todas as categorias. Só o Lyon conta com quatro brasileiros: Cris, Ederson, Fábio e Juninho. São todos de bom nível, mas ainda falta muito para se alcançar a elite do futebol europeu.


Foto: Na proximidades de Vichy, uma agradável surpresa, o Château de Busset, do século XIII. Um castelo privado explorado atualmente como hotel. 

Procura-se um craque 1

E por falar em futebol, Lyon está um pouco triste. Este ano o Olympique Lyonnais não será o campeão francês. Depois dos sete títulos consecutivos (isso é que é ser hepta de verdade), o OL perdeu o encanto. Ou terá sido apenas o Junhinho Pernambucano?

Líder da equipe do OL durante todos estes magníficos anos, o craque está ficando velho ou desmotivado. Suas atuações são irregulares e o time, que não tem tantos craques assim, mostra sua dependência em relação ao brasileiro. O OL quer um substituto à altura. Se possível, melhor. 

O time foi recentemente humilhado na Copa da UEFA e mostrou que não está no mesmo patamar dos melhores da Europa, como Manchester United, Chelsea e o seu mais recente algoz, o  Barcelona.

A receita dos super times de futebol é muito simples. Você pode buscar os craques em qualquer lugar do mundo, mas a viagem sempre começa por Moscou. банда разбойников!
 

Foto: Mais um dos chalés para os convidados de Napoleão III, nas imediações do parque do mesmo nome, em Vichy.

Sunday, May 10, 2009

Egocracia 4

Já estava deixando de lado o François Bayrou, que cunhou o título desta série de posts. Egocracia não é apenas um atributo sarkoziano.  De uma forma geral, de grande parte dos políticos, empresários e tantos outros representantes da sociedade. Uma boa forma de se referir à vaidade, à ambição e à falta de espírito público tão comuns atualmente. Assim como Bayrou, penso que Sarkô comporta-se como se estivesse numa republiqueta. 

O discurso pela ética na política não é suficiente. A imprensa cobra uma posição de Bayrou: Direita ou esquerda. Pois é, usando as metáforas futebolísticas do Lula, não é fácil marcar o incansável Sarkô, que joga dos dois lados sem quaisquer entraves ideológicos. Se ao menos o juiz apitasse quando o Sarkô põe a mão na bola...


Foto: Termas históricas de Vichy, edifício com clara inspiração oriental.

Saturday, May 9, 2009

Egocracia 3

A melhor massagem no ego que Sarkô poderia receber é a capa da Economist, publicação ícone do liberalismo econômico. O artigo da edição de 9-15 de maio (“Vive la différence”) fala sobre muitas das coisas que venho comentando neste blog, sobretudo do dirigismo francês e como ele ajuda a superar a crise atual. Embora o modelo não tenha sido criado por Sarkô, que foi eleito para “americanizar” a França, a revista mostra um pódio com ele na posição mais alta.

A matéria menciona dois indicadores em que a França se destaca em relação às nações do primeiro mundo: Expectativa de vida ligeiramente superior e distribuição de renda bem mais uniforme. Entretanto, para os discípulos de Adam Smith, o problema é sempre o mesmo, o que resolve o problema em tempo de vacas magras, não ajuda na hora das vacas gordas.


Foto: Opera e Palácio de Congressos de Vichy, situado no belo edifício do século XIX. Com mais de um século entre gênios como Verdi e Puccini, tem na temporada de 1940 a pior das lembranças, quando foi local da assembléia que deu plenos poderes ao regime de Pétain.

 

 

Wednesday, May 6, 2009

Egocracia 2

Duas recentes estatísticas francesas são aparentemente contraditórias. Enquanto os índices de popularidade de Sarkozy não param de cair, as primeiras pesquisas sobre a sua sucessão indicam que, se a eleição fosse hoje, ele seria reeleito.

Para explicar o aparente paradoxo, tenho alguns palpites:

- Muitos não gostam do Sarkô - o egocrata por definição - mas, ainda assim, consideram-no um político competente: Realizador, bom gestor, capaz de realizar mudanças, etc. 

- A oposição está em frangalhos. O PS continua desunido e o independente e solitário Bayrou faz um estrago considerável dividindo os votos. Coisa que nem a eleição em dois turnos resolve.

-  A crise e o descontentamento afetam todas as instituições, presidente e oposição inclusos. A pesquisa eleitoral pode apresentar maior ou menor índice de abstenção/indecisão, mas sempre um ganha.


Foto: O famoso Pavilhão Sévigné,  antiga sede do governo Pétain, para vergonha geral da nação. A origem da mansão é do século XVII. O local foi reformado e modificado ao longo do tempo. 


Tuesday, May 5, 2009

Egocracia 1

Na França, existem políticos de direita (da extrema direita até a centro-direita), políticos de esquerda (da extrema esquerda até a centro-esquerda) e um político de centro. Eu disse um! Trata-se de François Bayrou, um homem respeitado que tentou construir uma alternativa centrista, mas que ainda é visto com desconfiança. Candidato forte ao terceiro lugar das eleições presidenciais (de novo), certamente vai interferir na disputa.

Se Bayrou é considerado "em cima do muro" por muitos, pelo menos, quando o assunto é Sarkô, ele solta o verbo e assume posição. Eu achei muitíssimo interessante o termo que ele usou ao se referir ao atual governo francês: Egocracia.


Fotos: Acima e abaixo, dois chalets integrados ao Parque Napoleão III, em Vichy. Estas casas do século XIX recebiam os seus convidados.



Monday, May 4, 2009

Vichy

Passei o feriado em Vichy. Sem conotações ideológicas, por favor! 

A minha primeira incursão pela região da Auvergne foi por turismo e repouso. Vichy foi a minha base e uma surpresa muito agradável. 

A diferença entre Vichy e as estâncias brasileiras é o grau de sofisticação, afinal por lá passaram nobres e poderosos, especialmente aqueles ligados a Napoleão III. Foi este que solicitou a reforma da cidade, ao mesmo tempo que Haussmann remodelava Paris. Jardins, chalets e prédios suntuosos enriqueceram a cidade das águas milagrosas.

Nos posts seguintes, fotos de Vichy e de outros locais da Auvergne. O melhor de tudo foi passear pelos parques de Vichy, visitar os chalets e correr às margens do Allier. 


Fotos: Acima, uma extremidade do parque Napoleão III, com o Aillier ao fundo. Abaixo, a tradicional fonte dos Celestinos.