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Saturday, November 21, 2020

GPS



Remexendo as coisas aqui em casa, achei um aparelho GPS abandonado há anos. Carreguei e liguei. Como ele não pôde receber o sinal dos satélites, então mostrou o lugar onde fora desligado pela última vez, a saída da minha garagem em Lyon (2010).

Graças à minha determinação em conhecer cada buraco a até 3 horas de Lyon, precisei muito dele. Eu tinha um GPS embutido no painel do carro, um luxo à época. Posteriormente, adquiri um outro, conforme relato a seguir. Houve um grande mercado de aparelhos GPS, derrubado pelos poderosos smartphones e suas fantásticas aplicações, tal qual o onipresente Waze.

Até meados de 2008, contava apenas com o GPS do carro. Foi na primavera daquele ano que parti para explorar a Franche-Comté. Chegar a Besançon é fácil, mas precisaria do GPS para visitar uma dúzia de atrações da vizinhança: a capela de Rondchamp (Le Corbusier), o Leão de Belfort (Bartholdi), a Salina Real (Ledoux), as diversas fortalezas de Vauban e assim por diante.

No dia seguinte à chegada, liguei o carro para começar a aventura. Ops, um probleminha! Naquela manhã fria, o carro pegou, mas o GPS empacou. Depois de alguma insistência, compreendi que ele só tinha o mapa do sul da França. Eu estava fora do mapa!

Fazendo um breve parêntesis, era impossível baixar um novo mapa online. Além disso, cada mapa extra era tão caro quanto um Tomtom carregado com a Europa inteira. Pouco depois da viagem, optei pelo Tomtom, mais fácil e intuitivo do que o GPS do carro.

Voltando à viagem. Sem o GPS, o jeito foi fazer como sempre foi feito. Comprei um mapa no posto e prestei atenção na paisagem e nas placas. Passei a dirigir observando e pensando, ao invés de seguir cegamente o dispositivo. Tudo funcionou com perfeição.  

Quando voltei ao Brasil, já estávamos na era do Waze. Embora o maior objetivo do aplicativo seja ganhar tempo – e isso funcionou super bem – acabamos viciados e dependentes do mesmo. Sempre tem uma desculpa para usá-lo: o trânsito, os radares, uma dúvida com relação ao caminho, etc.

E por que falar de GPS numa época em que estamos com os carros ociosos na garagem? Por duas razões. Primeiro, como disse no começo do post, em tempos de pandemia uma das minhas atividades é fazer ‘arqueologia em casa’. Foi assim que descobri o GPS.

A segunda razão, e mais importante, é que a pandemia propiciou uma convivência mais intensa e constante com minha esposa. Parte dessa interação foi ouvir inúmeras aulas dos cursos que ela tem feito desde o começo do ano, vários deles focados no envelhecimento.

Então, foi meio de penetra, que ouvi uma especialista em cognição falar da importância de se abandonar os aplicativos de direção para melhor estimular o cérebro. Deixe-o capturar as referências, processar as alternativas e encontrar os caminhos. Este pequeno exercício intelectual faz parte de um conjunto de estímulos essenciais para mantê-lo saudável. Embora não seja uma unanimidade, segundo diversos especialistas, tais estímulos somados às boas práticas de saúde podem até prevenir demências.

Percebendo que o trânsito de São Paulo está piorando, mas ainda longe dos piores dias do período anterior pré-pandemia, aproveitem para deixar o Waze desligado. #ficaadica

 


Foto: Outra tomada de Oia, do interior do hotel, se é que podemos falar de interior. Santorini, 2016.


Sunday, June 12, 2016

Temporada de greves

Estou escrevendo este texto no trem. O mesmo trem que trouxe os torcedores ingleses de Marseille e que leva os belgas para Lyon. É tempo de Euro 2016!

Euro 2016 só para alguns, pois eu estou indo trabalhar. Aliás, nem os maquinistas estão trabalhando. Para minha sorte, peguei um dos poucos trens confirmados para hoje.

Que os maquinistas franceses não respeitem a Euro 2016, dá até para se aceitar. Mas eles não suspenderam a greve nem quando boa parte do país estava debaixo d’água. Isso é demais! Entre trilhos inundados e trens inoperantes, a França passou por alguns difíceis.

Os maquinistas belgas foram mais solidários. Respeitaram um longo período de luto após os atentados e fizeram apenas alguns poucos dias de greve. Do lado belga, não há nenhuma reivindicação especial, é só para não perder o hábito. Sindicalista profissional não precisa de bons motivos para cruzar os braços.

Amanhã, tenho uma reunião importante em Lyon. Sacrifiquei metade do meu domingão para poder pegar esse trem e garantir minha presença amanhã logo cedo. Um outro colega belga, cansado das greves, está encarando 6 horas e meia de estrada. Outros escolheram ir de avião, evitando-se a Air France, que tem greve anunciada para as próximas horas.

Entre greves belgas, francesas, muita chuva e um trânsito infernal, não é preciso dizer que enfrentamos dias de caos por aqui. Felizmente, consegui movimentar-me entre Bruxelas, Paris e Lyon escolhendo os bons trens e aviões. Sorte!

Só fui supreendido por um temporal parisiense, daquelas chuvas de verão paulistanas. Estava a 200m do hotel com um guarda-chuva portátil. Achei que dava. E deu! Deu para ficar encharcado.  A noite inteira e o secador de cabelos não foram suficientes para secar a calça, o paletó e os sapatos.

O legado desses dias de caos e um frio fora de época foi um refriado, que virou gripe, que virou sinusite. Chamei um médico, que chegou em casa rapidinho para fazer o diagnóstico e receitar os medicamentos. Deve ter vindo a pé.



Foto: Ainda das férias do verão passado, no caminho para a Bretanha, passagem pelos Jardins de Giverny, famosa residência de Claude Monet.

Sunday, November 22, 2015

Estado de Sítio

Bruxelas viveu um final de semana sob estado de sítio, com a polícia e o exército espalhados pela cidade. Aqui no meu bairro, tenho cruzado com inúmeros homens fortemente armados desde sexta-feira.

Tinha ingressos para um show ontem à noite, mas o espetáculo foi cancelado. Por ironia, estava em Paris no final de semana passado, onde também não pude fazer o meu programa cultural.

Mesmo sem saber da anulação do show de ontem, confesso que estava preocupado. Vou ou não vou? A ameaça terrorista está sendo levada tão a sério entre a França e a Bélgica, que a tradicional Fête des Lumières de Lyon foi cancelada.

Após uma semana de debates intensos, fiquei muito satisfeito ao perceber que o meu último post, escrito ainda sob o impacto da tragédia, foi bem razoável na análise, apesar da sua brevidade.

No quadro externo, há um amplo entendimento de que é preciso atacar militarmente o Exército Islâmico, cortar suas fontes de financiamento e inibir seu poder de recrutamento, entre outras ações.

No quadro interno, as discussões são mais intensas. Há obviedades como reforçar a vigilância e a inteligência, porém, a unanimidade para por aí. Apesar dos últimos atentados, muitos ainda preferem um pleno respeito às liberdades individuais e à igualdade. Nada de sair prendendo uns barbudos perigosos por aí.

Não tinha percebido duas coisas no momento dos ataques. A primeira é o grau de perversidade dos terroristas. Esses monstros costumam circular entre a Europa e o Oriente Médio quando e como querem. Entretanto, fizeram questão de deixar um rastro associado à entrada de refugiados. Por que dar um presentinho desses aos “irmãos” sírios, que viram as portas fecharem-se em vários países nos últimos dias? Os terroristas sabem que a questão dos refugiados é um debate que divide a Europa. Pegaram na ferida.

A outra coisa que deixei escapar foi o papel da Bélgica. Quer dizer, eu, o povo e o governo belga. Se o Oriente Médio é a universidade do terrorismo, a Bélgica é a sua pós-graduação. A Bélgica dormiu no ponto e permitiu a criação de guetos favoráveis à radicalização. Os rastros dos últimos atentados graves ocorridos na França passam por Bruxelas.

Num final de semana em que pude ler todos os jornais, encontrei sábias palavras de uma executiva belga e muçulmana no L’Echo de sábado: “A Bélgica paga hoje o preço de uma pesada herança deixada por aqueles que preferiram a política do avestruz e do clientelismo com fins puramente eleitorais”.

Já escrevi sobre isso nos posts que sucederam outros atentados. É o mesmo comunitarismo denunciado na França. Políticos abrem mão da laicidade para fazerem concessões à comunidade islâmica a fim de obter seus votos. 

Quanto mais enraizado estiver o islamismo radical, mais difícil combatê-lo.  Não vai ser fácil recuperar toda essa juventude! Só resta esperar por uma semana de paz por aqui. Por aqui, pois na Síria vai cair muita bomba!



Foto: Acima e abaixo, fotos tiradas no último domingo na Praça da República de Paris, lugar que concentra as homenagens às vítimas desses atentados.


Tuesday, September 22, 2015

Volks

Os executivos da Volkswagen confessaram sua culpa num dos maiores escândalos de todos os tempos da indústria automobilística. São milhões de carros envolvidos, podendo acarretar numa multa bilionária à montadora alemã.

Imaginem vocês se a Volkswagen fosse gerida pelo PT. Claro, eles negariam tudo até o fim. Vejamos os depoimentos dos executivos da montadora:

Ludwig Ignatius, famoso ex-presidente da montadora declarou: “Isso não significa nada”. 

Joseph Genuine, executivo aposentado do grupo, disse que tudo isso é uma perseguição da mídia à montadora, afirmando que todas as outras montadoras também trapaceiam. 

Ruy Falke, chefe das comunicações da VW, foi mais direto, acusando o antigo presidente da casa, Ferdinand Heinrich Cardosen. Segundo Falke, o analista que desenvolveu o software para trapacear os testes de emissões foi contratado naquela gestão.

Outro executivo da montadora, Ludwig Merkadanten, responsável pela P&D, afirma com certeza absoluta: “Foi apenas um bug”.

Ciente de que o caso deve escalar até a Suprema Corte, Richard Lewandowski, jurista e presidente do Clube dos Amigos da VW, menospreza a ameaça à montadora. Argumenta: “A teoria do domínio do fato, criada pelos nobres conterrâneos Hans Welzel e Claus Roxin, não pode ser aplicada nesse caso”. Ainda segundo Lewandowski, o analista que desenvolveu o software é o único culpado.

Johann Vaccarius, ex-diretor financeiro do grupo, esnoba a provável multa de 18 bilhões dólares. Está pronto para convidar todos aqueles que possuam um automóvel da marca para pagar uma fração dessa quantia.


Foto: A vista do Museu da Confluência, em Lyon.

Sunday, September 20, 2015

Circo

Domingo passado, fui a um espetáculo do Cirque du Soleil, em turnê por Bruxelas. Sou um dos inúmeros admiradores do grupo canadense. Além de gostar das exibições, fico impressionado com a performance empresarial da trupe. Quem diria que uma companhia circense pudesse faturar um bilhão de dólares?

O fato inusitado do show do último domingo não foi nenhuma novidade do mundo da acrobacia, do malabarismo ou da palhaçada. Vocês sabem que um errinho ou outro sempre aparece nos shows do Cirque du Soleil. Faz parte. Entretanto, dessa vez, o grupo de acrobatas falhou três vezes seguidas no mesmo número. Sim, três vezes. Ai que dó...

Vocês também sabem o que acontece nessas horas. A plateia fica ainda mais ligada aos artistas. Desperta-se uma incrível solidariedade. Os aplausos são muito mais intensos. Aplausos que significam muitas mensagens como valeu o esforço, continuem tentando, você merecem, comprendemos a dificuldade ou estamos com vocês.

É interessante como nem sempre os erros são encarados da mesma maneira. Tomemos, por exemplo, a Dilma, que não acerta uma, nem sem querer. Seus erros não despertam a menor compaixão. A cada dia que passa, ela fica mais detestável.

Pensei com meus botões nas razões dessa diferença, e aí vão algumas alternativas:

a) Porque ela erra demais e a gente não aguenta mais
b) Porque ela não trabalha no circo, mas faz a gente de palhaço
c) Porque os seus erros custam muito caro para nós
d) Porque ela nem é capaz de perceber os próprios erros  
e) E mesmo que percebesse, jamais os assumiria 
f) Pedir desculpas então, nem pensar! 

Não precisa escolher nenhuma alternativa. É um pouco de tudo. Fora Dilma!


Foto: O Museu da Confluência de Lyon, inaugurado em janeiro deste ano. O projeto arquitetônico audacioso é assinado pelo escritório austríaco Coop Himmelb(l)au . As dificuldades técnicas da sua realização somadas às características do solo causaram um enorme atraso. Qualquer hora eu conto mais sobre isso.

Saturday, May 2, 2015

Crônica ferroviária


Tirando as greves, são raros os momentos em que o sistema ferroviário europeu não funciona como um reloginho. 

Em 2007, passei um sufoco. Houve uma sequência de atrasos por motivos técnicos nas minhas viagens entre Paris e Lyon. Atraso, segundo a companhia francesa, é algo superior a 20 minutos. O resto está dentro da variabilidade. Recebi várias indenizações naquele verão.

Numa das viagens, um problema técnico exigiu a redução da velocidade do trem. Parece pouca coisa, entretanto, sair de 330 km/h para 150 km/h representou um atraso de quase 2h. Nunca cheguei tão atrasado a um evento. Por sorte, havia outros convidados de Lyon no mesmo trem e a organização do evento administrou o imprevisto.  

Depois de 2007, nunca mais tive uma sequência tão azarada. Nesses últimos dias, no entanto, as greves belgas pregaram uma peça em muitos colegas. Houve também problemas técnicos. 

Na última sexta, voltando para Bruxelas e devidamente sentado na poltrona do Thalys, recebi vários SMS: “atraso estimado de 15 minutos” ; “atraso estimado de 30 minutos”; “atraso estimado de 45 minutos”; etc. A tabuada do 15 foi até 165! 

Teve de tudo nessas quase 2 horas: troca de trem, ar condicionado desligado e bar fechado. O que mais me impressionou é que ninguem fez um piu. Todos bem comportados, sem reclamação, sem aumentar do volume de voz, etc. Coisa de belga mesmo.

Os momentos mais próximos de stress nos vagões franco-belgas ocorrem quando alguém pega o lugar do outro. Nessas situações, geralmente tem um estrangeiro envolvido. Seja aquele perdido no trem ou aquele que não sabe que os passageiros frequentes podem mesmo sentar-se onde quiser. Já vi muitos brasileiros estressando-se à toa.

E por falar em brasileiros, enquanto escrevi esta crônica ferroviária, lembrei do nosso ex-futuro-trem-bala ligando Rio e São Paulo. Alguma notícia?



Foto: Domínio Real de Mariemont, a uma hora de casa, um lugar bacana para um domingão ensolarado. 

Saturday, December 20, 2014

Perdas e danos

Nas últimas semanas, percebi que greve é coisa profissional aqui na Bélgica. Não é algo para atrapalhar nossas vidas só um pouquinho, é parada geral mesmo!

Sabendo da greve geral prevista para o último dia 15, remanejei meus compromissos para Paris. Até aí, foi fácil.  O problema é que, antes da greve em si, há “ensaios”. O movimento começou em novembro, com episódios de greves parciais semanais.

Num desses dias de greve parcial, por exemplo, fui ao aeroporto a fim de embarcar para Lyon, onde ficaria uma semana. A mocinha do balcão: “Não estamos despachando malas, por que não veio ninguém para manuseá-las”. Perguntei se o vôo estava garantido, mas ela não soube informar :(

Felizmente, deu tudo certo. O maior contratempo foi entrar com uma mala – muito longe de ser de bordo – num avião tipo Embraer.

Novembro e dezembro foram meses de manifestações, reuniões da Comunidade Europeia e da OTAN. Tudo isso significa ter um gostinho do trânsito paulistano - só um gostinho - pois quase todos os órgãos internacionais e locais estão entre a minha casa e o trabalho.

É muito comum cruzar com policiais batedores que bloqueiam totalmente o trânsito para carros oficiais. Diplomatas e burocratas costumam usar os hotéis perto de casa. Alguns figurões precisam das avenidas só para eles, e olha que as avenidas já não são tão largas. A Polícia daqui parece ser especialista nisso. Aparentemente, só nisso.

Quem não fez greve nem corpo mole na última semana foram os bandidos. Não estou falando do padrão de bandidos brasileiros: sequestradores, assassinos e deputados. Falo de gatunos.

Enquanto estava em Lyon, um par deles fez uma limpa lá em casa. A lista de perdas é enorme, mas como a gente sempre diz, são perdas materiais. A sensação de chegar em casa e encontrar tudo revirado e jogado no chão não é nada agradável. Que seja a última vez!

A única contribuição da Polícia local para este breve relato foi a dedução de que eram dois furtadores. O “CSI Bruxelas” encontrou duas pegadas diferentes. Sabe até a marca dos sapatos. Por outro lado, depois de emporcalhar ainda mais o meu apartamento com pós pretos e brancos, não achou nenhuma digital.

A verdade é que esse tipo de crime é muito mais comum do que imaginava. Basta comentar o ocorrido entre colegas, que acabamos descobrindo quão comum são tais furtos. Se a Polícia local não pode ajudar, a maioria das pessoas já tem seus suspeitos: os ciganos. Segundo a sabedoria popular belga, são os únicos que levam os seus melhores jeans.

Ciganos ou não, tem alguém abafando por aí nesta noite de sábado em Bruxelas: Calça nova, camisa nova, casaco novo, tablet novo, celular novo, relógio novo e até perfume novo. Como consolo, só me resta escrever um post novo.


Foto: A Place des Jacobins em Lyon e seu abat-jour gigante na Fête des Lumières 2014. Eu estava lá, enquanto...

Sunday, August 3, 2014

Vem pra caixa!

Passeando por supermercados belgas e franceses, notei o avanço dos vinhos embalados em caixas, substituindo as tradicionais garrafas. Há poucos anos, os vinhos desses cubos de papelão tinham um mercado muito restrito. Eram os vinhos mais acessíveis e, por isso mesmo, vistos com ressalvas pelos apreciadores da bebida. Isso tudo mudou.

Mesmo sem saber, você já pode ter tomado vinho de caixa de passagem pela Europa. O “vinho da casa” de muitos restaurantes costuma ser um desses, como constatei em várias ocasiões. A novidade é que cada vez mais rótulos mais qualificados adotam a embalagem.

O cubo de papelão é bom para todo mundo. É menos embalagem para mais vinho (3 a 5 litros), mais prático (não quebra) e, principalmente, conserva melhor. Adeus às rolhas! Adeus às bombinhas de vácuo! A vantagem prática e econômica para os consumidores e produtores derruba qualquer preconceito. Para os últimos, é uma questão de sobrevivência.

No mundo encantado do vinho, uns poucos e renomados “châteaux” têm mais demanda do que a sua capacidade de produção. Novos ricos do Brasil, China, Índia e Rússia juntam-se aos americanos e outros abastados para pressionar o mercado de vinhos nobres. Com a demanda largamente superior à oferta, os preços vão às alturas, enchendo os cofres dessas poucas vinícolas.

A realidade da imensa maioria de produtores de vinho é muito diferente. Ali na gôndola, a briga é por centavos de euros. Nos supermercados, centenas de rótulos ocupam a faixa de 5 a 10 euros, valor pouco superior a um suco de fruta “premium”. Não precisa fazer muita conta para perceber que a margem é mínima.

Produzir vinho pode parecer muito charmoso, mas dá tanto dinheiro quanto cultivar bananas. Por essas e outras, o vinho em caixa ainda vai chegar à sua casa.


Leia também: Réquiem ao Baco (o primeiro post deste blog)


Fotos: Acima, fecho a série de fotos do imponente Guggenheim de Bilbao. Abaixo, uma gôndola da seção de vinhos do Carrefour de Lyon, onde estive neste sábado.


Monday, January 28, 2013

Saída


Não sou frequentador de casas noturnas, mas a crônica é oportuna.

Foi uma baladinha regada a rock e vinho há alguns anos. A casa noturna ficava no centro velho de Lyon, onde os prédios têm 300 anos ou mais. Daqueles que, na hora da venda, o corretor diz: "Não dou nem 250".

O problema era mais embaixo, pois a pista e palco ficavam no sub-solo. Pensamento coletivo: "Vamos às catacumbas". O corredor mal iluminado e estreito desembocava numa escada em curva com degraus irregulares. Pior que isso, só molhado. Bem, estava  molhado. Alguém na minha frente disse: "Se eu beber, não consigo mais sair daqui". Retruquei: "Me contento em conseguir sair sóbrio daqui".

Chegamos cedo lá embaixo. Havia apenas 30 pessoas. A minha preocupação crescia pois, uma hora depois, éramos 300 e aumentando. Falar em pânico seria exagero, estava tenso. E, felizmente, a tensão teve um fim. Quando alguns amigos começaram a reclamar do calor, alguém sugeriu: "Então vamos ficar mais perto da porta". Porta, que porta?!

O ceguinho aqui não tinha reparado. Numa das paredes, junto à pista e ao palco, havia um grande portal. Discreto como a porta de uma igreja. Dava direto para a rua de trás. Passava uma boiada por aquela saída. Agora sim, a minha noite começava.


Foto: O porto de Nice.

Saturday, January 19, 2013

O lance


Escrevi três vezes sobre ciclismo neste blog. Não por simpatia ao esporte, mas por que estava na França e fui contaminado pelo prestígio do "Tour de France". Nos três posts, falei de doping.

Também escrevi o que muitos diziam sobre Lance Armstrong. Leiam o post de 2010. Além de se manter impune por anos, o atleta ganhou vários processos contra aqueles que se atreveram a desmascará-lo. A gente sabe que, falar é uma coisa, provar é outra.

Essa habilidade de se trapacear de forma escancarada e continuar inabalável não é estranha aos brasileiros. Infelizmente, temos uma verdadeira escola por aqui, sobretudo na política. O caso do Mensalão foi um raro exemplo, no qual a blindagem política e jurídica não funcionou.

Armstrong não era apenas um atleta. Era um herói e não só nos Estados Unidos. Construiu sua carreira e imagem de forma a desacreditar as insinuações de trapaça. Construiu uma teia de bons relacionamentos e montou a sua própria blindagem legal.

O pior de tudo é que grande parte da imprensa nunca deu bola para as constantes denúncias e preferiu explorar o seu lado de celebridade. O melhor de tudo é que alguns poucos não desistiram da busca da verdade. Daqui para frente, a desgraça do ciclista terá pelo menos um fim educativo.


Foto: Mais uma para fechar as fotos da renovação da área da Confluences em Lyon.

Friday, January 4, 2013

LinkedIn, no cravo e na ferradura


O endosso de competências (skills and expertise endorsement) é um ótimo exemplo de aproveitamento do potencial de uma rede social. De vez em quando, o LinkedIn manda uma mensagem solicitando a validação de uma determinada competência de um dos nossos contatos. Fulano é especialista em pirotecnia? Beltrano domina o esperanto? Basta um clique para confirmar.

Um só clique! Não incomoda nem toma tempo. Quando dezenas de pessoas endossam uma competência de alguém, seu perfil no LinkedIn tem muito mais valor. Afinal, cada um escreve o que quer e acredita quem quiser. Se Ciclano se declarar especialista em físico-química do solo marciano e obtiver endosso de 100 pessoas, certamente ele tem algum talento ;-)

O furo do LinkedIn são as pesquisas usadas para fazer avaliações de 360 graus. Sim, já respondi a algumas. Não basta apenas um clique e, se bem feita, pode exigir muito mais de 5 minutos. Nada contra a oferta deste recurso, mas o seu uso indiscriminado perturba.

Não reclamo do incômodo gerado pela multiplicação dessas avaliações 360 graus. O problema é a sua eficácia. Já é difícil fazer uma boa avaliação das pessoas que trabalham conosco, imaginem dos contatos de uma rede social. Muito provavelmente, o feedback obtido fica nas obviedades de pouca utilidade, a menos que o receptor do feedback tenha um problema de auto-estima.

Raramente, teremos uma resposta útil, que nos faça corrigir algum comportamento, crescer ou até mesmo repensar uma carreira. Para se colocar o dedo na ferida ou dar uma chacoalhada necessária é preciso estar bem mais próximo. Aliás, nesse tipo de coisa, a rede social não substitui uma boa e sincera conversa.


Foto: Um conjunto de prédios novos na região das Confluences, em Lyon.

Saturday, December 29, 2012

2012 - Epílogo


O português estava atrasado para sua reunião das 10 horas. Apressado e esbaforido, finalmente, entra no elevador.  Diz o ascensorista: Qual andar? O português responde: Qualquer um, já errei de prédio mesmo!

A piada pode parecer absurda, mas encontra paralelos na vida real. São aqueles erros em cima de erros, decisões infundadas, arbitrariedades, precipitações, etc. Vão desde as situações mais corriqueiras até as decisões profissionais mais importantes. Portanto, cuidado!


Já tive meu dia de português. Havia um evento de informática às 9 horas num famoso hotel parisiense. Estava uns poucos minutos atrasado. Entrei no saguão do hotel e notei a aglomeração em torno da recepção do evento. Sem perder tempo, fui para lá pegar meu crachá. Para minha surpresa, não estava lá. A recepcionista foi gentil e fez um provisório para que eu não perdesse a abertura.

As primeiras palestras foram bem razoáveis, mas uma dúvida pairava no ar. Por que estava assistindo àquelas apresentações, interessantes mas distantes do meu foco de atuação? No intervalo, a ficha caiu. Percebi que havia dois eventos de TI no mesmo hotel. Evidentemente, encontrei meu crachá na recepção do outro evento.

Já no evento correto, assisti a outras apresentações. O tema era mais relevante, mas eram apenas alguns casos expostos a fim de se alavancar vendas de consultorias locais. Muito chato. Ainda pior, estou no "mailing" deles até hoje. Voltei para o evento "errado", pois era mais instrutivo e divertido.


Mesmo que 2013 seja o ano errado, que todos nós sejamos sábios para aproveitar as peças pregadas pelo destino da melhor maneira possível. Feliz Ano Novo!



Foto: Conforme comentado no post "Lumières", de 21/12, publicarei algumas imagens da área de Lyon totalmente renovada. Conhecida como Confluences, trata-se da parte sul da "península" delimitada pelos rios Rhône e Saône. Pelas fotos, vocês terão a impressão de um verdadeiro laboratório arquitetônico.

Monday, December 24, 2012

Revista do cinema S2/2012


Ao longo do segundo semestre, comentei sobre cinema em quatro posts. As produções de Hollywood "Argo" e "Ted" mereceram posts exclusivos. Abordei o argentino "Elefante Branco" e fiz justiça a "Intocáveis", filme francês que já alcançou os 50 milhões de espectadores no mundo inteiro.

Dois filmes em cartaz merecem menção. Gosto de "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada" e estou pronto para os dois próximos filmes. Entretanto, depois de "O Senhor dos Anéis", me parece mais um caça-níqueis. Não surpreende. Não encanta.

"A Vida de Pi", de Ang Lee, é justamente o oposto. O uso de 3D e computação gráfica deu mais um salto. O filme é muito bom. Poderia ser melhor, se fosse mais aberto e não tentasse induzir demais a interpretação do público. Não vou falar mais, para não estragar. Imperdível.

Fora do cinemão, gostei do brasileiro "Gonzaga: De Pai pra Filho". Filme muito bem feito e com Brasil na medida certa.

Entre as muitas produções francesas que assisti, destaco "Le prénom" e "Le magasin des suicides". Se aparecerem no circuito nacional nos próximos meses, não percam. O primeiro tem jeitão de teatro. O debate familiar sobre o nome de um filho vindouro viaja pela História e Literatura e descamba nos conflitos pessoais. O segundo é uma animação musicada. Muito criativa e bem feita, apesar do desfecho bem bobinho.

Se não me engano, "The Angel's Share", de Ken Loach, só apareceu nos festivais ou num circuito muito reduzido. O filme merece estar entre os melhores do semestre. À época, escrevi no Twitter que desafiava os brasileiros a abrir mão da legenda. De fato, o pronunciado sotaque escocês faz parte do filme.

E por falar em Escócia, terra da infância de James Bond, fecho esta revista com "Operação Skyfall". Devo reconhecer que sempre considerei os filmes de 007 muito ruins, daqueles que nem justificam os nossos preciosos 120 minutos. Skyfall está bem longe disso.

Mais uma vez, Boas Festas!


Foto: Em noite de Fête des Lumières (Lyon), a estátua equestre de Luís XIV na Praça Bellecour. Ao fundo, a roda gigante e um restinho de fogos de artifício.

Friday, December 21, 2012

Lumières 2012


Fazia algum tempo que não passava um final de semana completo em Lyon. Dessa vez, não tive como escapar, pois a "Fête des Lumières" coincidia com minha passagem pela cidade. A festa está consagrada como o melhor evento de Lyon, atraindo gente da Europa inteira. A iluminação da Catedral de Saint-Jean é um dos seus pontos altos. Se você estiver lendo este texto num computador, veja ao lado algumas fotos que tirei da Catedral de Saint-Jean.

Várias cidades europeias têm usado recursos de projeção digital como espetáculos culturais. Em abril, assisti a um ótimo show nos Invalides (Paris). Taí uma ótima dica para São Paulo, que não tem nenhuma beleza natural, mas poderia fazer um esforço para ficar mais atraente.

O pouco tempo distante de Lyon foi suficiente para que pudesse encontrar muitas novidades. A mais impressionante foi a reconstrução da área conhecida como Confluence. É mais ou menos o que São Paulo quer fazer na Santa Ifigênia: Demolir a cracolândia e reconstruí-la por completo. Foi um dos maiores canteiros de obras da Europa enquanto morava na cidade. Está quase pronto, só falta mesmo o grande Museu. Lyon fez.

Nas últimas duas semanas, me desconectei do Brasil. Não vi os momentos finais do mensalão nem as denúncias mais recentes contra o lulismo. Em compensação, mergulhei nos assuntos europeus e franceses. Por lá, além da eterna crise, fala-se da fraqueza de Hollande, do casamento gay e da mudança de Gérard Depardieu para a Bélgica.

Cá entre nós, enquanto muitos outros saíram de fininho, Depardieu assumiu publicamente a sua indignação contra a gula do fisco francês com a sua alíquota de IR de 75%. Apesar da perseguição aos traidores da Gália, há algum apoio ao veterano ator. Depardieu fará uma boa economia de impostos. Entretanto, duro mesmo é sair do seu apartamento parisiense - à venda por 50 milhões de euros - e ir morar numa cidadezinha belga. Sem glamour, sem vida cultural e com chuva quase todo dia :(

Interrompo a série de fotos de Londres para compartilhar algumas dessas novidades de Lyon. Acima, o dragão estilizado que decorava uma das ruas centrais de Lyon. Volto ainda em 2012 com novos posts e a revista de cinema do segundo semestre. Boas Festas!

Saturday, July 28, 2012

Hotel 2


2008 foi meu ano de hotel. Passei 80% das noites daquele ano fora de casa - à época, em Lyon. Já no começo de 2009, era "Platinum" e "Diamond" em vários dos quase inúteis programas de fidelidade das companhias hoteleiras.

Felizmente, foram viagens bem organizadas, com uma certa antecipação e duração média de uma semana. Digo isso, pois 80% das noites pulando de um hotel para o outro poderia estressar qualquer um.

Foi justamente no período 2008-2009, que experimentei três vezes a sensação de acordar e não saber onde estar. Abrir os olhos e não reconhecer o lugar. É estranho, mas não é ruim. Possivelmente, devo ter dormido muito bem. Como uma pedra.

Eram feriados, quando eu fugia para não ficar em Lyon, onde tudo fechava. Preferia aproveitar para conhecer algum canto da França ou da Europa. A sequência de viagens e o cansaço natural devem ter propiciado as condições para dormir daquela forma e levar alguns segundos a mais para reconhecer onde estava.

Precisaria de muitas páginas para contar momentos pitorescos passados em hotéis ao longo dos últimos anos. Como por exemplo:

- Um dia de poltergeist em Punta del Este: Em cerca de 20 minutos, queimaram-se duas luminárias, a TV e a fonte do meu computador. A essa altura, nem arrisquei a pegar o telefone para pedir ajuda.

- A sinfonia do amor em Londres: Não estava num motel, mas num classudo hotel londrino. E justo na noite na qual precisava dormir bem, os casais dos quartos vizinhos estavam inspiradíssimos e sonoros. Quarto da direita, quarto da esquerda e o de cima também. Pegar o telefone para reclamar? Não, isso é sacanagem!

- Dia de DSK às aversas em Paris: Foram vários, sobretudo em Paris. Naqueles poucos segundos exatamente antes ou depois do banho, quando estamos desprevenidos, o quarto é invadido por algum funcionário do hotel. Me lembro de três situações em que os invasores eram mulheres. O pior de tudo é que elas nunca mais ligaram nem mandaram e-mail... Snif... Snif...


Foto: Última tomada no Templo de Mármore de Bangkok.

Sunday, February 19, 2012

Além do sashimi 1

Um colega de Cingapura trouxe a esposa para passar uma semana na França. Por conhecer melhor Lyon e Paris, fui seu anfitrião. Foram vários passeios e refeições.

Eles estavam naquela fase de namoro com a "crème brûlée". Era a mesma sobremesa toda noite! Um dia, em Paris, fomos a um restaurante japonês. Na hora da sobremesa, fechamos a conta no "japa" e mudamos para um francês autêntico. Eu também tive a minha fase "crème brûlée" há muitos anos.

O que me faz escrever este texto não foi a sobremesa, mas o restaurante japonês. A comida agradava, enquanto o serviço deixava a desejar. Estava incomodado por não proporcionar um ótimo jantar ao casal, tão habituado às melhores mesas de Tóquio, Seul e Xangai.

De repente, a esposa do colega chamou uma garçonete. Levantou a voz e deu-lhe um esporro. Um daqueles humilhantes, inaceitáveis nos dias de hoje. Era mandarim, não entendi nada. O serviço melhorou e a gente fingiu que não aconteceu nada. Tenho certeza que elas se entenderam.

Os amigos de Cingapura perceberam que todos os empregados do restaurante eram chineses. Daí, a intimidade. Na França, eu sempre tentei fugir dos restaurantes japoneses dirigidos por chineses, porém eles são a maioria.

Meu colega veio à França várias vezes e passamos por muitos restaurantes japoneses. Na sua opinião, até hoje, o melhor de todos foi um restaurante japonês kosher, frequentado pelos judeus sefaraditas de Lyon ;-)


Foto: Um belo barco diante do Navy Pier, no Lago Michigan. Os passeios de barco pelo lago e pelo rio estão entre ps melhores de Chicago.

Saturday, December 17, 2011

Confraternizando

Durante os últimos quatro anos, estive fora de São Paulo neste período pré-natalino, tão cheio de eventos de confraternização. Até há pouco, dizia que tinha saudades dessa agitação toda. Pois é, já passou!

A última semana de novembro e as duas primeiras semanas de dezembro são repletas de festas. Somam-se a elas, as atividades de fechamento do ano, as compras, a preparação das férias, etc. Enfim, um período tenso e com trânsito ainda mais caótico, mesmo com as escolas encerrando suas atividades. Aliás, o trânsito acaba limitando a possibilidade de se comparecer a dois ou três eventos por noite. Convites não faltam.

Um grupo de amigos executivos finalmente tomou uma sábia decisão. Marcamos um primeiro evento de confraternização para abril. Mais uns dois eventos ao longo do ano e assim, quem sabe, escaparemos desse período caótico em 2012.

Enquanto estive em Lyon, o período passava em branco. A primeira semana de dezembro é igual a terceira de setembro ou a segunda de março. Nada de especial. No começo, perguntava: É assim mesmo ou eu é que não sou convidado? Descobri que é assim mesmo. Essa coisa de confraternizar, trocar presentinhos, receber brindes é exagerada no Brasil. Lá fora é muito mais leve e discreto.

Felizmente, Lyon tinha a Festa das Luzes (Fête des Lumières), que animava o começo do inverno. O único ensaio de confraternização é a festa de Reis no começo de janeiro.

Depois dessas últimas três semanas, de tão pouco dormir e muito comer, bateu uma saudade da tranquilidade de lá.


Foto: Última tomada de La Rochelle. A imagem da cidade está muito associada ao PS. Sendo uma das principais cidades da região de Poitou-Charentes, presidida pela Segolène Royal, tem sediado muitas reuniões do partidinho.

Sunday, September 18, 2011

Whatsinaname?

A proliferação das redes wifi domésticas é tão grande que ofuscou a discussão sobre a abertura do sinal para vizinhança. A abertura em prol da inclusão foi defendida por muitos, mas desaconselhada por advogados.

Por onde ando, constato que quase todas as redes usam algum padrão de segurança. Bem, confesso que não testei a qualidade das senhas. Deixo isso para os "engenheiros sociais".

Uma discussão mais atual diz respeito aos nomes das redes. Nomes como "No Free Wi-Fi 4 U" ou "Connect to this if you want a virus" eram bem comuns como formas de se afastar os vizinhos aproveitadores. Porém, muita gente aproveitou para passar um recado mais explícito. Eis alguns casos reais documentados nos EUA:

- "stoplettingyourdogshitonmylawn"
- "wecanhearyouhavingsex"
- "partyatapartment564comeandbringbeer"
- "turndownyourmusic"
- "needaman"

Há também mensagens com conotação política: "killhealthcare", "betterthanbush" e "palinsux". Além das religiosas: "jesussaves", "godisfake" e "endofdays".

Um debate animado pela Slate questionava se mandar um recado para o vizinho dessa forma é melhor do que a abordagem direta. Minha resposta: Depende. Mas tenho certeza de que, na próxima vez que for batizar a sua rede, será mais criativo. Enquanto isso, veja se não tem nenhum recado da vizinhança para você.


Foto: Outra de Lyon, tirada em junho último. As estufas do parque da Tête d'Or, onde costumo correr e raramente levo a máquina fotográfica.

Sunday, September 11, 2011

Amigo Schyzo

Eu nunca tive perfis falsos nas redes sociais, apenas perfis de teste. É diferente. Explico melhor.

No LinkedIn, usei um nome fictício para navegar anonimamente. Há alguns anos, estava recrutando e naveguei pelo site procurando candidatos. Passei os perfis mais interessantes para um headhunter, pois não poderia abordar tais pessoas diretamente. Era prudente não deixar rastro em meu nome.

No Twitter, usei o perfil para conhecer melhor a ferramenta. Também fiz simulações para ver como funcionam os serviços que medem a influência do tuiteiro. Foi um experimento.

No Facebook, mais ou menos na mesma linha, quis entender melhor como o site prioriza as atualizações, sugere contatos, dirige anúncios, etc. Assim como no Twitter, testei bastante o princípio da reciprocidade ("você me segue, eu te sigo"). Enfim, ciência pura ;-)

Como o Brasil ainda não sabe se vai para uma linha mais restritiva ou liberal, com relação ao uso da Web, me antecipei e apaguei tudo.

Foi uma pena. Deveria ter repassado o material para algum estudioso. Mesmo dando o nome de Schyzo para o meu perfil de teste, vieram centenas - eu disse centenas - de mensagens do tipo: "Que legal que você aceitou o meu convite"; "qualquer hora vamos nos encontrar"; "temos os mesmos interesses"; "você tem um amigo por aqui"; "te espero aqui no Rio"; "como eu posso ajudá-lo?"; etc. Baseado no princípio da reciprocidade, o Schyzo conquistou muito mais "amigos" do que eu.


Foto: Desde que mudei de Lyon, quando retorno a cidade, costumo ficar hospedado nos arredores da antiga estação de trem de Brotteaux, que hoje abriga diversos restaurantes.

Friday, December 24, 2010

Cons & schmucks

E por falar em humor, volto à melhor comédia do cinema francês dos últimos anos, "Le dîner de cons", tema de um post de julho de 2009. À época, eu antecipava que Sasha Baron Cohen estava no time que adaptava o filme para Hollywood. De fato, Sasha produziu "Dinner for schmucks" e a estrela do filme é Steve Carell, no papel de idiota. O filme já estreou em quase todo mundo, menos no Brasil. Talvez, estejam dando mais tempo para o pessoal fazer download ilegal do mesmo.

Daquele post em diante, revi diversas vezes algumas das cenas mais hilárias do filme francês. Felizmente, também tive a oportunidade de assistir a peça original de Francis Veber no teatro da Bourse du Travail em Lyon. Esta sala é tão perto de onde morava que, no intervalo da peça, voltei para casa a fim de usar o meu próprio toilette.

A peça e o filme francês são muito próximos. O impagável Jacques Villeret protagonizou ambos e ficou eternizado como o melhor imbecil de todos os tempos. Coitado, morreu de desgosto. A comédia francesa prima pelos diálogos, pelo jogo de palavras e pela exploração da idiotice alheia com uma certa elegância.

Já a recente versão americana é tudo menos elegante. Algumas cenas de Steve Carell são realmente engraçadas, mas o filme é uma palhaçada com tipos muito exagerados. Na versão original, o famoso jantar dos idiotas é mencionado, mas fica na imaginação do espectador. A versão americana o coloca no clímax do filme, conforme mostra o clipe. A cena é grotesca.

Recomendo assistir ao DVD brasileiro "Jantar dos malas" (versão francesa legendada) e dispensar a adaptação americana, a ser lançada como "Um jantar para idiotas". Se estiver em Portugal, o encontrará como "Jantar de palermas". A única grosseria no filme francês é o título. Segundo os filólogos mais conceituados, "con" é muito mais ofensivo que "schmuck", palavra que ilustra uma contribuição do iídiche para a cultura norte-americana.


Foto: As fotos dos próximos posts, ainda são da Borgonha, um pouco mais ao norte, perto de Dijon. Começamos pelo belíssimo Château de Bussy-Rabutin.