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Friday, July 10, 2020

Ilustre desconhecido



A pandemia forçou muitas escolas a descobrirem a educação a distância. Algumas delas fizeram a transição às pressas, passando simplesmente a despejar aquele conteúdo dado em classe pela rede. Outras foram ainda mais longe, agrupando classes e demitindo professores.

Eu já fiz um curso de extensão on-line com 30 mil participantes. Curso de extensão é uma coisa, educação básica é outra. Não se brinca com educação. Voltarei a falar sobre esse assunto tão importante, mas eu queria mesmo é fazer o gancho para o meu curso, feito em 2014, conforme prometi neste blog.

Entre 2013 e 2014, testei muitos cursos on-line da plataforma Coursera. Desisti de quase todos. Não era fácil manter o interesse e a atenção. Entre vários ensaios com programas de Harvard, Stanford e similares, acabei escolhendo um curso da Universidade Hebraica de Jerusalém com um desconhecido professor, chamado Yuval Noah Harari. Sim, à época, um ilustre desconhecido.

Achei o título do curso bastante ambicioso: ‘Uma breve história da humanidade’. Pensei comigo: esse professor deve estar sonhando, abordar a História inteira num único curso, como assim? Só depois de tê-lo concluído - com excelente nota por sinal – percebi que ele tinha razão. Não era apenas uma ótima visão da história da humanidade, como talvez a melhor de todas. Quem leu os seus livros publicados depois, pode confirmar minha percepção.

Se fiquei espantado ao dividir o curso com 30 mil alunos, hoje, um curso dele deve atrair alguns múltiplos dessa quantia. ‘Sapiens’ ainda estava para ser publicado em inglês naquele final de 2014. Ninguém poderia imaginar que o professor se transformaria num dos historiadores mais prestigiados do planeta nos meses seguintes.

Durante o curso, a cada domingo, recebia um pacote de vídeos do Youtube, meras gravações das falas do professor, sem ilustrações ou quaisquer efeitos especiais. Mesmo assim, algumas vezes, acordava ansioso para baixá-los. Naqueles dias lúgubres, quando o céu cinzento e a garoa constante dominavam a paisagem de Bruxelas, assistia tudo no próprio domingo.

Uma vez, vi a distribuição geográfica dos participantes. Percebi que havia muitos oriundos dos nem tão queridos vizinhos de Israel, um fato que nos enche de esperança e otimismo. Enquanto o discurso dos seus governos é cheio de ódio, numa interpretação manipulatória do Islã, milhares de cidadãos do bem de seus países preferem aprender história com um professor israelense, homossexual e ateu.

O Moleskine tomado inteiramente pelas minhas notas de aula está no meu eterno depósito, a casa do meu pai. Bem, mas isso é assunto para outro post.



Foto: Já que o post menciona a Universidade Hebraica de Jerusalém, escolhi a foto mais ilustrativa possível da cidade, quando da minha última visita, em janeiro de 2018.

Monday, August 15, 2016

Olímpicas

Mais uma vez, aproveitei o verão europeu para tirar umas férias. Pela Europa Central, cruzei várias vezes com grupos da juventude católica, que foram ao encontro do Papa em Cracóvia. Ainda mais frequentes foram os encontros com os grupos de turistas asiáticos. Tudo indica que um pouco do fluxo dedicado à Europa Ocidental foi desviado para lá, por conta do risco de atentados.

No meu celular tem um aplicativo de SOS com números de emergência e alertas específicos para cada país. O aplicativo usa a geolocalização para saber quando estou num novo país. Cada vez que entro na Bélgica, Brasil ou França, recebo inúmeras advertências. Na Croácia, Eslovênia e Hungria, nenhum alerta. Portos seguros para as férias.

Nesses três países, entre um passeio e outro, pude acompanhar os Jogos Olímpicos pela TV e jornais locais. Entendia tudo! ;-)

Esses canais locais concentram-se nos seus representantes e equipes, com algum espaço para as estrelas olímpicas (Biles, Bolt, Phelps, etc) e pouco espaço para fofocas. Enfim, muitos dos incidentes esmiuçados pela imprensa brasileira pouco repercutiram no exterior.

A câmera que cai, a piscina verde e os assaltos aos atletas ficarão no folclore olímpico. Se houve algum evento relevante, não tem nada a ver com o Brasil. Falo da posição do COI com relação à Rússia. Isso sim é um desastre. A gente já sabe como funciona o COI, faltam culhões e sobram milhões.

Passada metade da competição, o desempenho esportivo do Brasil é patético. Não que as medalhas sejam importantes, mas o dinheiro alocado para obtê-las faz disso um escândalo. Apenas mais um.

Espero mesmo que não haja nenhum incidente importante e que os próximos dias sejam de encantamento esportivo e organizacional. Assim como vocês, estarei torcendo pelo Brasil. E que consigamos resultados mais expressivos, muito provavelmente nos esportes coletivos.


Foto: Belle-Île-en-Mer, como o próprio nome diz, um belo refúgio na costa da Bretanha.

Saturday, February 27, 2016

Pudor

Estive num ótimo spa nos arredores de Bruxelas. Um lugar bem equipado com restaurante, saunas, massagens, piscinas internas e externas. O sol foi generoso neste sábado e mesmo com uma temperatura próxima de zero, deu para ficar na piscina externa, muito bem aquecida por sinal.

Logo depois da recepção do spa, há um imenso vestiário. Homens e mulheres trocam-se ali mesmo. Enquanto vestia meu calção de banho, percebi que uma garota estava constrangida em fazer o mesmo. Envergonhada, a mocinha preferiu usar a única cabine disponível.

Saindo do vestiário, há duas portas. Cada uma leva para um complexo distinto de piscinas, saunas e solários. A porta da esquerda leva para a ala dos nudistas. A porta da direita, para a ala daqueles que usam roupa de banho. Eu e minha esposa abrimos a porta da direita. Já a mocinha envergonhada, a porta da esquerda.



Num dia do último verão, quando os dias são bem mais longos, cheguei do trabalho e abri a janela do quarto para ver como estavam nossas plantas. Será que apareceu alguma nova flor?

Entre um vaso e outro, um movimento na janela do vizinho chamou a minha atenção. Uma adolescente nua pulava freneticamente sobre a cama, como se fosse um pula-pula. Havia uma outra moça no quarto, que assistia à exibição. A brincadeira acabou quando elas perceberam que eram observadas pelo autor deste blog.

Dias depois, encontrei as duas entrando no prédio. Estavam acompanhadas da família e devidamente vestidas. Põe vestidas nisso, estavam de xador.


Foto: Mais uma tomada do centro da charmosa Lyons-la-Forêt.

Sunday, November 22, 2015

Estado de Sítio

Bruxelas viveu um final de semana sob estado de sítio, com a polícia e o exército espalhados pela cidade. Aqui no meu bairro, tenho cruzado com inúmeros homens fortemente armados desde sexta-feira.

Tinha ingressos para um show ontem à noite, mas o espetáculo foi cancelado. Por ironia, estava em Paris no final de semana passado, onde também não pude fazer o meu programa cultural.

Mesmo sem saber da anulação do show de ontem, confesso que estava preocupado. Vou ou não vou? A ameaça terrorista está sendo levada tão a sério entre a França e a Bélgica, que a tradicional Fête des Lumières de Lyon foi cancelada.

Após uma semana de debates intensos, fiquei muito satisfeito ao perceber que o meu último post, escrito ainda sob o impacto da tragédia, foi bem razoável na análise, apesar da sua brevidade.

No quadro externo, há um amplo entendimento de que é preciso atacar militarmente o Exército Islâmico, cortar suas fontes de financiamento e inibir seu poder de recrutamento, entre outras ações.

No quadro interno, as discussões são mais intensas. Há obviedades como reforçar a vigilância e a inteligência, porém, a unanimidade para por aí. Apesar dos últimos atentados, muitos ainda preferem um pleno respeito às liberdades individuais e à igualdade. Nada de sair prendendo uns barbudos perigosos por aí.

Não tinha percebido duas coisas no momento dos ataques. A primeira é o grau de perversidade dos terroristas. Esses monstros costumam circular entre a Europa e o Oriente Médio quando e como querem. Entretanto, fizeram questão de deixar um rastro associado à entrada de refugiados. Por que dar um presentinho desses aos “irmãos” sírios, que viram as portas fecharem-se em vários países nos últimos dias? Os terroristas sabem que a questão dos refugiados é um debate que divide a Europa. Pegaram na ferida.

A outra coisa que deixei escapar foi o papel da Bélgica. Quer dizer, eu, o povo e o governo belga. Se o Oriente Médio é a universidade do terrorismo, a Bélgica é a sua pós-graduação. A Bélgica dormiu no ponto e permitiu a criação de guetos favoráveis à radicalização. Os rastros dos últimos atentados graves ocorridos na França passam por Bruxelas.

Num final de semana em que pude ler todos os jornais, encontrei sábias palavras de uma executiva belga e muçulmana no L’Echo de sábado: “A Bélgica paga hoje o preço de uma pesada herança deixada por aqueles que preferiram a política do avestruz e do clientelismo com fins puramente eleitorais”.

Já escrevi sobre isso nos posts que sucederam outros atentados. É o mesmo comunitarismo denunciado na França. Políticos abrem mão da laicidade para fazerem concessões à comunidade islâmica a fim de obter seus votos. 

Quanto mais enraizado estiver o islamismo radical, mais difícil combatê-lo.  Não vai ser fácil recuperar toda essa juventude! Só resta esperar por uma semana de paz por aqui. Por aqui, pois na Síria vai cair muita bomba!



Foto: Acima e abaixo, fotos tiradas no último domingo na Praça da República de Paris, lugar que concentra as homenagens às vítimas desses atentados.


Saturday, January 24, 2015

#JeSuisMusulman


Os atentados e as manifestações ficaram para trás, mas o debate continua por aqui. Não é para menos, a questão é muito complexa. Pouco fala-se da grande maioria fiel às causas republicanas,  o “x da questão” é a minoria discordante.

Uma minoria sem dúvidas. Porém, uma minoria de muitos milhares de jovens da periferia.  São aqueles que não respeitaram o minuto de silêncio em homenagem às vítimas, que aderiram às teorias conspiratórias ou que apoiaram explicitamente os terroristas.

É desse meio que saem inúmeros djihadistas. É desse meio que saem futuros terroristas. As periferias das grandes cidades são incubadoras do radicalismo. A França pergunta-se onde errou. Depois de gerações de imigrantes que lutaram pela integração, deparam-se com um sério revés, confrontando-se com a afirmação religiosa e a negação da democracia.

Como disse no primeiro post sobre o tema, misturam-se fatores econômicos, sociais, culturais, entre outros. Os holofotes estão na Educação. Com certeza, há alguma coisa errada nas escolas. Bem, eu não queria estar na pele dos professores, que dão aulas em salas onde  metade dos alunos chama-se Mohamed.

Circulando pelas ruas de Paris e Bruxelas, ainda percebemos o estado de alerta. Soldados e policiais estão em todos os lugares, sem contar o pessoal da inteligência. Para acompanhar um potencial terrorista, a França mobiliza um overhead de 20 a 25 agentes. A ameaça terrorista em si é capaz de sangrar ainda mais a já combalida economia.

Se existe um lado menos triste nesta história, é a visibilidade que ganhou o quase falido Charlie. Graças aos terroristas, suas caricaturas espalharam-se pelo mundo. Nunca a blasfêmia fez tanto eco. Maomé tem mesmo que chorar.



Foto: Um outro cantinho simpático de Bruxelas, perto de casa, o Egmont Park, que abriga a "brasserie" mostrada na foto.

Monday, January 12, 2015

#JeSuisJuif


Apesar de todas as vítimas dos atentados ocorridos em Paris, no meu último post, falei mais do Charlie Hebdo para ajudar o leitor deste blog a entender melhor o ocorrido. Diante de tamanha demonstração de solidariedade, ainda fico surpreso com aqueles que não compreenderam o espírito do jornal. E são muitos.

Na sua linha libertária, ele ataca qualquer tipo de autoritarismo e extremismo, com o intuito de defender as liberdades individuais. Por exemplo, é um grande combatente de qualquer forma de racismo e tem como alvo preferencial a extrema direita francesa.

É um jornal de esquerda. Aquela  esquerda de 68, inocente e irresponsável, como tanto se repetiu nos últimos dias. E a religião como fica?

Quem luta pelas liberdades individuais e pelo Estado laico luta pelo direito de qualquer um exercer a sua religião. O Charlie, no fundo, é um grande aliado das minorias religiosas. Simples assim. A questão é que ele segue a tradição francesa de ser anti-clerical. Defende os praticantes, mas não o aparelho religioso em si. Viva os católicos, abaixo o Vaticano! Viva os muçulmanos, abaixo os aiatolás!

Se existe algo de sagrado neste mundo é a vida humana. Quanto mais pessoas acreditarem nisso, menor será a nossa disposição para fazer guerras ou atentados. Na medida em que alguns colocam símbolos ou mitos acima de uma vida humana, a disposição para a barbárie aumenta. O princípio do Charlie é que todas as pessoas merecem respeito e não suas crenças. É por isso que sentem-se tão à vontade para atacar símbolos e mitos.

O Charlie não nasceu ontem. A crítica dura aos extremismos e, em particular, às arbitrariedades do Clero, faz parte da laicidade francesa há algumas décadas, agradando gregos e troianos. Ou melhor, cristãos, judeus, e muçulmanos. Afinal, o que aconteceu?

Honestamente, desconheço todos os fatores que criaram as correntes islâmicas radicais nas periferias das cidades europeias. Arriscaria a dizer que, se todos tivessem empregos, certamente teriam menos tempo para ouvir pregações extremistas. O fator econômico tem um peso com certeza, mas está associado a muitos outros.

O outro fenômeno recente é que esse extremismo islâmico incorporou o antissemitismo. Também desconheço as suas reais razões. Solidariedade à causa palestina é conversa pra boi dormir. Acredito mais na linha de que Israel seja uma pedra no sapato de muita gente. Gente que financia o terror, gente que odeia o Ocidente, gente que detesta a democracia. Precisa falar mais?

Os jornalistas se foram. A vida continua. O Charlie Hebdo está de volta mais forte.

Os judeus se foram. A vida continua. A terceira maior população judaica do planeta está de volta, senão mais forte, com a proteção de quase 5 mil policiais.

Muito triste.

Hoje, tive uma boa conversa com um executivo muçulmano. Comentei que conhecia alguns judeus franceses considerando a saída do país. Ele deu o recado: “Diga a eles que sair é dar a vitória aos terroristas. Eles devem ficar para ajudar a França”. Recado dado ;-)

Para fechar, gostei muito da fala do primeiro ministro, Manuel Valls, mostrando respeito e o verdadeiro espírito republicano:  “A França sem os judeus da França não é mais a França”.



Foto:  Um dos poucos bairros verticais de Bruxelas, na proximidade da estação de trem (Norte).

Saturday, January 10, 2015

#JeSuisCharlie



Estou na França há alguns dias e pude acompanhar de perto os trágicos eventos: os atentados, as perseguições, as manifestações, os debates, os discursos, etc. Só me resta escrever um post sobre o assunto e passar na banca para comprar a edição especial do Charlie Hebdo na próxima quarta-feira, se é que vai sobrar algum exemplar.

O Charlie foi mencionado uma vez neste blog. Para quem não se lembra, foi “um post para maiores”

O cartunista do Le Monde, Plantu, frequenta mais este blog. A razão é simples, eu assinava o Le Monde e comprava o Charlie Hebdo muito raramente. O Charlie tem seus méritos, mas existem outros tablóides satíricos por aqui.

A França construiu uma sólida tradição laica ao longo do último século. A imprensa, representada especialmente pelos jornais satíricos, tem sido grande vigilante deste valor francês. É por isso mesmo que os jornais como Charlie eram muito críticos a qualquer forma de fanatismo religioso, disparando farpas contra o Vaticano e o Islã com muita frequência.

A essa altura, vocês já devem estar familiarizados com o tipo de crítica feita pelo Charlie, pois seus desenhos rodaram o mundo. Ou melhor, quase todo o mundo, pois mexer com religião ainda é tabu. Nos Estados Unidos, a maioria dos jornais não reproduziu os cartuns do Charlie, apesar de ter manifestado solidariedade desde a primeira hora. 

Se os petistas reclamam da “mídia reacionária”, não imaginam o que seria deixar a equipe do Charlie passar uma temporada no Brasil. O Charlie e seus congêneres pegam muitíssimo mais pesado. Fez bobagem? Falou besteira? Lá vem um cartun para desmontar qualquer um. Aliás, o próprio Charlie Hebdo foi criado após a extinção de uma outra publicação, que não respeitou nem o funeral do “intocável” De Gaulle.

O Charlie já havia sofrido um atentado e vivia sob ameaça permanente, mas não deixou de ridicularizar o fanatismo islâmico. Corajoso. Bravo. Heroico. Quantos já não se curvaram?

Se os cartunistas franceses são os guardiões dos valores republicanos mais profundos, os políticos decepcionam. E como! Para garantir os votos da comunidade muçulmana, eles fazem concessões, facilitando o comunitarismo. A laicidade tão cara ao francês corre risco. Fala-se muito da islamofobia. Fala-se pouco da islamofilia.

A questão do terrorismo islâmico interno é complexa. Atentados como esses alimentam o preconceito contra a comunidade árabe. Se já é difícil para um cristão branco conseguir algum emprego, o jovem filho de imigrantes da periferia fica ainda mais sem perspectiva. Abraçar a religião com fervor pode ser visto como salvação. Um círculo vicioso.

É notório que a rejeição ao “amálgama” foi unânime. Essa é a expressão que os franceses usam para a possível generalização associando terroristas e muçulmanos.  Nem a Marine Le Pen entrou nessa.

Qualquer um sabe que a enorme maioria da comunidade islâmica é composta de pessoas do bem, como qualquer um de nós. Ela também é uma grande vítima das suas ovelhas negras. Discutir se ela de alguma maneira faz parte da luta contra o radicalismo é um assunto polêmico.

Para fechar este post, retomo o desfecho dos eventos, com a morte dos terroristas. Se não fosse assim, estaria zombando do governo francês. Assim como no Brasil, onde as prisões são academias do crime, na França, elas são a universidade do terrorismo islâmico. Deixar esses animais na cadeia seria de extrema irresponsabilidade. Só não perguntem por que eles não se mataram depois dos atentados. Bem, já não se faz mais terroristas islâmicos como antigamente.



Foto: Continuando a série de fotos descompromissadas de Bruxelas editadas pelo Google, uma tomada do parque “Trois Fontaines” (precisamente em Vilvoorde), com destaque para seu restaurante, que serve de alternativa à cantina do trabalho.

Sunday, May 18, 2014

#bringbackourgirls

O sequestro das estudantes nigerianas causou grande comoção mundial. O grupo terrorista Boko Haram finalmente conseguiu a sua glória. Glória?! Como assim?

Para os bons observadores, os terroristas islâmicos do norte da Nigéria aparecem regularmente nos jornais: sequestros, assassinatos, igrejas incendiadas, etc. Tudo em doses homeopáticas, assim ninguém liga.

Nem o próprio governo da Nigéria liga. Diga-se de passagem, um governo muito mais corrupto e incompetente do que o nosso. Sim, isso é possível!

Provavelmente, se os terroristas tivessem sequestrado uma garota por dia durante um ano, não estaríamos falando sobre eles. Na nossa lógica ocidental, o Boko Haram cometeu um erro. Conseguiu nos unir contra eles. Serão caçados e exterminados mais uma vez. Mais uma vez, por que, segundo o governo da Nigéria, eles já haviam sido eliminados!

Atacar um grupo assim é muito complicado. Como outros fanáticos, veneram o martírio, fazendo da sua morte a maior das vitórias. Como disse um jornalista nigeriano, podemos matar seus homens, mas não suas ideias.

Os 15 minutos de fama do Boko Haram proporcionam muita exposição às suas ideias absurdas.  O que é absurdo para nós, cola muito bem em outras regiões miseráveis do planeta. Enfim, para nosso desespero, esse tipo de grupo terrorista parece sempre ganhar.

A miséria absoluta somada ao descaso do governo e à trágica história de rivalidades tribais da Nigéria forma uma mistura explosiva. A interpretação tortuosa do Corão é só a centelha. 


Foto: Enfim praia, em San Sebastian.

Saturday, February 1, 2014

Mariazinha e Joãozinho

Meu plano para a última semana era uma convenção em Lisboa. Graças às raríssimas greves dos controladores de vôos europeus, acabei passando a semana em Paris. Se não pude fugir do frio, pelo menos pude matar as saudades das coisas de lá.

As capas das revistas de fofocas ainda ilustravam as novidades da vida amorosa do presidente. A imprensa mais séria sabe que o francês separa muito bem a vida pública e a vida privada dos políticos. De qualquer modo, como em todo lugar, a oposição sempre tira uma casquinha.

O assunto mais quente por lá é outro. Se você está incomodado com o beijo gay da novela, se você não está à vontade com a regulamentação do casamento gay ou foi um daqueles contrários a cartilha anti-homofóbica do governo brasileiro, prepare-se! A França vai mais longe.

Para construir uma igualdade de gêneros mais sólida, o governo francês começou uma rigorosa revisão de todo material didático desde o ensino básico. É o programa "ABCD da igualdade", em fase experimental para 600 classes.

A proposta é remover do currículo quaisquer estereótipos associados à masculinidade e feminilidade. Nada de mostrar menino de calça e camisa azul brincando de carrinho. Nada de menina de vestido vermelho brincando de boneca. Piadinha de Joãozinho e Mariazinha, então, nem pensar!

Com tamanha neutralidade, os diversos tipos transgêneros também saem ganhando, com a eliminação do preconceito potencial pela raiz. A turma de descontentes é a mesma que foi às ruas contra o casamento gay: extrema direita e grupos religiosos. Dessa vez, no entanto, foram mais eficazes. Montaram uma campanha contra a proposta educacional e, mais assustador, começaram a tirar seus filhos das escolas, um dia por mês.

A campanha para confundir a opinião pública acusa o governo de incorporar a "teoria do gênero" na educação. Segundo ela, os papéis masculinos e femininos são frutos de uma construção social e não das diferenças biológicas originais. Assim como o boicote às aulas foi coordenado pelas redes sociais, os boatos sobre a adoção da tal teoria também espalharam-se pelo mesmo meio. Da extrema-direita para o centro foi rapidinho. Confusão generalizada.

Tolerância e igualdade são ambições da sociedade francesa e de muitas outras. Já essa teoria do gênero talvez seja arrojada demais. Resta ao governo francês explicar a sua intenção e repelir as acusações da direita. Enquanto isso, bem que eles podiam tirar do material básico livros como "Papai usa vestido". Ou não?


Foto: Cenas de Amsterdam no último verão.

Wednesday, January 15, 2014

Blasfêmia


O especial de Natal do “Porta dos Fundos” despertou a fúria de diversos grupos cristãos. O tema não é novo neste blog. Nos tempos de Europa, comentei várias vezes sobre as reações de grupos religiosos aos cartunistas mais ousados.

De uma forma geral, acho positivo que os humoristas não encarem religião como tabu e utilizem-na como mote para suas criações. Se existem limites, que sejam delineados pelo bom senso e não por burocratas.

Muita gente já inspirou-se na Bíblia para fazer rir, por exemplo, Mel Brooks (A História do Mundo) e Monty Python (A vida de Brian). Cá entre nós, na maioria dos filmes do gênero, a piada já está quase pronta!

Uma das técnicas mais comuns para se fazer graça com história ou religião é recriar o passado com referências do presente, sejam nos costumes, na linguagem ou na tecnologia. No vídeo em questão, o presente trazido por Melquior não era mirra, mas uma outra erva. Num outro quadro, Maria diz: “Esse Império Romano é um ovo”. Já no final, Jesus diz para Tibério: “Você tem a maior mão de fada”.

Até aí tudo bem. O debate esquenta ao se afrontar um dogma da religião. É o que acontece, por exemplo, quando algum cartunista europeu faz uma representação de Maomé. Já a trupe brasileira fez piada com a maternidade de Maria. Apesar de ter gostado de grande parte do vídeo, reconheço que isso seria dispensável. Justamente por ser uma piada tão fácil, beira o mau gosto. Por outro lado, não concordaria com a sua censura.

Os tais grupos cristãos tiveram o mesmo comportamento dos petistas. Até ironizarem Lula e Dilma, o “Porta dos Fundos” era um grupo genial. Depois, virou um grupo tucano. Há poucas semanas, o grupo avacalhou alguns costumes islâmicos e ninguém falou nada.

Esse é o problema de quem leva religião muito a sério. Toda religião possui seus mitos e dogmas. Nem todos acreditam em tudo, mas respeitam. O problema começa quando alguns acham que as suas crenças são mais verdadeiras do que as dos outros.  

E se o “Porta dos Fundos” pisou na bola fazendo piada com Maria, coube a ninguém menos do que Deus a fala mais inspirada do polêmico vídeo, que serve de resposta aos tais grupos cristãos e a outros fanáticos. No final do primeiro quadro, diante de um José incrédulo de que a história do seu filho Jesus seja convincente, Deus diz: “Querido, isso aí relaxa. O pessoal acredita em qualquer coisa. Vai por mim”.



Foto: Abrindo uma série de fotos de Amsterdam tiradas em agosto de 2013.

Wednesday, January 1, 2014

2014 - Prólogo

2014 já estava destinado a ser um ano do esporte, especialmente para nós brasileiros. É quase certo que não daremos muita bola para os Jogos Olímpicos de Inverno, mas o clima de Copa do Mundo por aqui deve ter poucos similares no planeta.

Os últimos acontecimentos garantirão que o esporte cumprirá seu papel de grande circo. Em 2014, acompanharemos as recuperações do Anderson Silva e do Michael Schumacher, além dos esforços para se realizar algum campeonato brasileiro de futebol.

As eleições gerais ficam num segundo plano. Talvez seja melhor assim. Como escrevi em "Eco", não adianta dizer para vocês que o governo da Dilma é ruim, por que vocês já sabem. Não adianta dizer que estamos sendo roubados, por que vocês já sabem. As eleições do ano que vem podem expelir um ou outro "ficha suja", mas, no geral, não devem mudar o quadro político.

Nesses dias entre Natal e Ano Novo, percebi como é difícil derrotar qualquer presidenciável herdeiro de Lula. Os inúmeros críticos do PT são unânimes em relação à sua fraqueza ética. No resto, há divisão. O PT agrada e desagrada à esquerda, assim como agrada e desagrada à direita.

Um esquerdista puro provavelmente está furioso com a recente onda de privatizações. Também não aprecia a forte influência do lobby religioso no governo. Já o direitista não suporta o tamanho da máquina governamental nem a extensão dos programas sociais.

Face ao programa frankensteniano do PT, tanto a direita como a esquerda têm dificuldades de se opor totalmente. Não dá para ser coerente. Além do mais, as escolhas de Lula e Dilma  estão alinhadas à opinião pública. Talvez seja por isso que os candidatos da oposição sejam tão facilmente pulverizados. A oposição deve procurar um outro caminho. Por enquanto, só um candidato do PT poderia bater o próprio PT.

Finalmente, lembro de mais um assunto sério de 2014, o centenário do início da Primeira Guerra Mundial. Levantei o tema em 2012 no post "No Reino da Dinamarca". Voltarei a ele antes da Copa ;-)


Post de 17/10/2012 - "No Reino da Dinamarca"


Foto: O "Botanical Building" do Balboa Park em San Diego.

Wednesday, July 24, 2013

Clicando o Papa

Um post sobre o Papa? Sobre religião? Nada disso! Aproveito a vinda do Papa para compartilhar duas imagens que vi numa apresentação recente. As imagens são autoexplicativas. Dá para perceber o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos.

Ambas as fotografias foram tiradas na Basílica de São Pedro (Vaticano). Acima, uma foto de 2005, quando do falecimento de João Paulo II. Abaixo, uma foto deste ano, quando da posse de Francisco. Notaram a diferença? ;-)


Atenção, as fotos não são minhas (sou um daqueles que vai a Roma e não vê o Papa), são da Associated Press, respectivamente de Luca Bruno e Michael Sohn. Também foram publicadas no fotoblog da NBC.

Sunday, September 23, 2012

Fúria


O post anterior parece ridículo diante da explosão de fúria islâmica contra o filme e o cartoon ocidentais. Enquanto gastamos nosso tempo discutindo as sutilezas do "politicamente correto", esforçando-nos para evitar constrangimento desnecessário a quaisquer minorias, do outro lado do mundo, as coisas ainda são bem diferentes.

Aprendemos a respeitar a liberdade, a democracia e sobretudo a igualdade. O respeito ao ser humano prevalece sobre o respeito às crenças e seus personagens mitológicos. Devemos respeitar as religiões, não por que elas mereçam, mas por que seus seguidores merecem. É sutil, mas é diferente.

Ninguém faz guerra por religião. Pouquíssimos se ofendem realmente quando sua religião é criticada. Porém, a religião continua sendo o instrumento de manipulação favorito dos ditadores, terroristas, políticos oportunistas, extremistas, etc.

Leitura adicional:
É o amor!
Why is the Arab world so easily offended?
Exploiting the Prophet


Foto: Fachada sul da Hampton Court, palácio situado na periferia de Londres. Esta ala foi construída durante os reinados de Guilherme III e Maria II, no final do século XVII, assinada por um dos grandes arquitetos da época Sir Christopher Wren.

Sunday, March 11, 2012

É ou não é?

Na última semana, um vídeo oficial da Comunidade Europeia provocou grande polêmica. Veja aqui. É racista ou não? Alguns dizem que o filme abusa dos estereótipos. Outros, que seria "apenas" politicamente incorreto. A voz dos descontentes pesou e o filme não será mais divulgado.

Não sei se chineses, indianos e brasileiros sentiram-se ultrajados. A representação do continente por uma mulher branca foi infeliz, trata-se de um certo desrespeito às próprias minorias que vivem no continente.

E a campanha eleitoral da França? Racista ou não? Marine Le Pen, líder da extrema direita, acusou que a carne consumida em Paris provém de animais abatidos segundo os rituais muçulmanos e judaicos. A resposta de Sarkozy veio a altura da sua opositora. O desesperado Presidente mandou que toda carne halal ou kasher seja muito bem identificada para que nenhum francês tenha dúvidas do que consuma. Imaginem só, um cristão comendo uma carne dessas! Cruz credo!

Ontem, um cronista brasileiro lembrou do aniversário do tsunami que devastou parte da costa japonesa. Comentando sobre o que já havia sido reconstruído, aclamava o povo japonês: Unido, determinado, organizado, etc. A mensagem de uma certa superioridade foi explícita. Diz ele: "Que povo!"

Racista ou não? A Nação japonesa pode funcionar melhor do que a brasileira, mas nenhum povo é melhor do que outro. O acidente de Fukushima só não foi o maior acidente nuclear da história por muito pouco. Um povo "superior" não faria usinas tão vulneráveis, não acumularia uma história de corrupção e escândalos na gestão do seu parque nuclear e talvez soubesse gerenciar melhor uma crise daquela magnitude. Enfim, somos solidários, torcemos pelo Japão, mas somos tão bons quanto eles.


Foto: No Navy Pier, em Chicago. A roda-gigante moderna homenageia o local que testemunhou a primeira delas, durante a Exposição Universal de 1893. À época, a ideia foi uma construção que rivalizasse com a Torre Eiffel, apresentada na edição parisiense de 1889.

Saturday, February 18, 2012

Qual é o programa de domingo?

Plantu, o cartunista do Le Monde, já foi tema deste blog em setembro de 2010. Assim como ironiza políticos e personalidades da vida pública, o autor não poupa as religiões. No post de 2010, coloquei o desenho que despertou mais críticas até então, aquele com Jesus distribuindo preservativos.

Foi um outro desenho de 2010, que, finalmente, colocou Plantu no banco dos réus. Agora, são os católicos conservadores da França contra Plantu. Mais uma vez, compartilho o desenho com vocês (vide abaixo). O seu título é "Pedofilia: O papa toma posição". Era época de eleições regionais na França e o garotinho diz: "Ainda que tenha que ser enrabado no domingo, é melhor ir votar".

O argumento dos católicos tradicionalistas para atacar a liberdade de expressão é tão ridículo como aqueles de quaisquer conservadores de outros credos. É bem verdade que alguns extremistas preferem acertar as contas fora dos tribunais.


Foto: No Millennium Park, o Pritzker Pavillion, projetado por Frank Gehry, palco de grandes concertos e shows musicais em Chicago.

Sunday, October 10, 2010

Para maiores

A Europa continua em alerta vermelho face às ameaças terroristas. França, Inglaterra e Alemanha estão no grau máximo vigilância. Considerando-se que os terroristas costumam preparar as suas ações por meses, deduzo que esperariam mais alguns dias, até que o nível de alerta baixasse. Não precisa ir muito longe, para se concluir que a vigilância permanente é a única saída. Pelo menos, a "mise-en-scène" é didática.

Semana que vem, temos mais uma greve geral por aqui. Estarei em Lyon, mas um pouco longe do centro. Meu ‘Plano B’ será levar um par de tênis. Uma hora de corrida é suficiente para se atravessar a cidade.

A cena hilária da semana foi o lapso da ex-ministra Rachida Dati. Num programa de televisão, ao invés de falar inflação, pronunciou felação. Talvez, ela tenha visto a charge publicada no semanário Charlie Hebdo, onde o pequeno Sarkô está bem encaixado entre as pernas e sob o manto de Bento XVI. Alguém diz ao Papa: ‘Não se preocupe, ele é maior’.

Sarkozy foi a Roma para agradar os católicos praticantes franceses, que representam menos de 15% da população. É muito pouco, mas o cara está desesperado.

Em matéria de religião, a imprensa francesa, fiel defensora da laicidade, não poupa ninguém. Voltando ao tema do post anterior, o editorial do Monde (capa de 8/10/10) comenta o impacto do assunto aborto no Brasil: “O Brasil, primeira nação católica do mundo, tem seus arcaísmos e tabus, que nós podemos, segundo o ponto de vista de cada um, aceitar ou criticar. O aborto faz parte deles. É lamentável que este grave problema da sociedade, ao invés de suscitar um verdadeiro debate, seja usado como máquina de guerra eleitoral”. O Monde está certo. Mas, a vontade de abortar a Dilma é tanta...


Foto: O Rathaus de Viena em dia de festa.

Tuesday, October 5, 2010

Primeiro turno


Comparando com o quadro desenhado há um mês, não podemos reclamar do resultado das eleições. Só o fato de ter um segundo turno já é fantástico. Fora do Brasil, fala-se muito na eleição presidencial, deixando-se muita coisa importante de lado. Afinal, ser governador não é tão ruim assim!

Nas semanas que antecederam as eleições, a imprensa francesa deu grande destaque às conquistas brasileiras dos Anos Lula. Revistas e programas especiais em todos os lugares. Normalmente, jogando confete. A biografia da Dilma ganhou notoriedade e a sua vitória no primeiro turno foi dada como certa.

A ascensão de Marina Silva também foi bastante festejada na Europa, onde os verdes detêm uma grande força política. Vale lembrar que um típico ecologista europeu certamente se chocaria com algumas das posições da candidata, sobretudo pela sua oposição ao aborto. Lamento dizer, mas ecologista evangélico e esquerdista católico são conceitos estranhos por aqui.

Finalmente, surgiram algumas notas esporádicas sobre o fenômeno Tiririca. Contundo, não li nada que fosse mais a fundo no nosso sistema eleitoral e explicasse o porquê dos palhaços puxadores de votos.

Com ou sem Tiriricas, a base governista no Congresso é enorme. Assustadora, talvez. E ainda teremos a temporada de compras de deputados, que vai engordá-la ainda mais. Se a Dilma ganhar, fará o que quiser. Se o Serra ganhar, será mais difícil. Não impossível. Pois quem se vende para o PT, também se vende para os tucanos.

Volto a São Paulo para o segundo turno.



Foto: Mais uma tomada do belíssimo Belvedere, em Viena.

Sunday, September 26, 2010

Plantu

O cartunista do Le Monde passou pelo Brasil nos últimos dias. Jean Plantureux, mais conhecido como Plantu, tem alguns dos seus desenhos expostos no Sesc Vila Nova (SP) até 30 de outubro.

Tenho acompanhado a sua obra há alguns anos, afinal suas charges estão invariavelmente na capa do jornal. Se o seu foco principal é a política francesa, alguns temas são acessíveis aos brasileiros. Um deles é religião.

Plantu não poupa a sua ironia mesmo com assuntos que são considerados delicados a oeste do Atlântico. Cutucou Maomé com vara curta. Para surpresa geral, foi o desenho abaixo que despertou a maior polêmica da sua carreira, gerando milhares de protestos contra o Le Monde. A ira não era de franceses, mas de cristãos norte-americanos. Plantu foi ameaçado e dado como morto na Wikipedia.

Nota: O desenho foi feito depois da crise da reintegração dos bispos negacionistas ao Vaticano. Jesus distribui camisinhas na África. O bispo nega a existência da AIDS e o Papa...Coitado do Papa!


Foto: O Parlamento austríaco em Viena. O prédio em estilo clássico grego é no mínimo majestoso. A estátua a sua frente representa Palas Atena.

Tuesday, June 15, 2010

Gália profunda

Sempre digo aos meus colegas franceses, que o país precisa de um banho de capitalismo. Eles não gostam e defendem o aparato social desenvolvido durante as últimas décadas. Por outro lado, acenam com um voto cada vez mais à direita, garantindo a reeleição do Sarkô, apesar dos seus abissais índices de popularidade.

De alguma forma, o povo sabe que o remédio para a França não está mais no ideário socialista. Além de tudo, a fogueira das vaidades do PS incomoda mais do que o estilo esnobe do Sarkô e seu ridículo casamento de fachada. A mobilização da direita para a eleição presidencial já começou.

Depois das festas gigantes organizadas pelo Facebook, a última moda francesa são os mega eventos, regados a vinho e porco. Mais precisamente, sopa de porco ou salsichão. Segundo os organizadores, é a restauração do melhor tradição gaulesa. A intenção é aberta e declarada: Muçulmanos de fora. Os ultralaicos e a extrema direita estão juntos contra a islamização de alguns bairros das metrópoles francesas.


Foto: Dia de festa na cidade mais charmosa da Alsácia, Riquewihr. Até a guarda napoleônica desfila na principal rua da cidade, a onipresente General de Gaulle.

Saturday, February 6, 2010

Bons ventos

No subúrbio parisiense de Drancy, uma situação inusitada. O Imam da grande comunidade islâmica apela frequentemente por proteção policial. A ameaça vem dos próprios muçulmanos. Hassen Chalghoumi tem 36 anos e representa o melhor do Islã.

Vejamos alguns dos pontos que provocam a ira de uma minoria entre os seus próprios correligionários:

- Apoia o banimento da burca
- Defende do diálogo do Islã com outras religiões
- Quando das manifestações contra Israel, durante a campanha de Gaza, denunciou o tom das críticas, que denotavam um certo antissemitismo
- Manifesta solidariedade com a comunidade judaica pela Shoah (Holocausto)
- Propôs um conselho islâmico para formar um grupo de princípios (fatwa) para orientar a adequação do muçulmano à vida republicana

O leitor deste blog deve se perguntar: Como esse cara ainda está vivo? Eu também não sei! A verdade é que a comunidade de Drancy está mais pacífica e com muito menos incidentes de intolerância. Infelizmente, Hassen é uma exceção.

Citando Bernard-Henry Lévy, um dos intelectuais mais renomados da França: "A contradição principal dos nossos tempos, a verdadeira guerra de civilização, não é o conflito entre o Ocidente e o Islã, mas entre o Islã e o Islã; no seio do Islã, a luta de morte entre o Islã democrático e o Islã integrista. E eu adiciono sobretudo que esta luta não é uma questão religiosa, mas política."

Um outro filósofo havia comentado o assunto de uma forma diferente. Assim como as sociedades de herança cristã passaram por um processo de secularização, chega a vez das sociedades islâmicas. Elas resistem, e muito. Todo esse conjunto de conflitos que se espalham pelo mundo representariam o canto do cisne do Islã. (Mas como canta esse cisne!)


Foto: Acima, o núcleo urbano de Roussillon, base da minha estada na Provence em outubro último. A tonalidade vermelha domina o casario. Do amarelo ao vermelho, todas as casas são pintadas com tintas feitas do ocre local. Abaixo, a fonte do ocre, a menos de 1km do centro.