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Monday, March 28, 2016

Dessa vez, foi perto

Depois de alguns bons dias sem escrever, estou de volta, diante do computador e de um monte de jornais acumulados na útima semana. Não poderia deixar de escrever sobre os eventos trágicos ocorridos aqui mesmo em Bruxelas. 

Assustou. A estação de metrô de Maelbeek fica a 2km de casa. O aeroporto é, sem dúvidas, um ponto de passagem obrigatório na nossa vida profissional.

Os amigos brasileiros, concentrados na nossa crise interna, provavelmente não perceberam os momentos que antecederam os atentados. Vou relembrá-los.

Na sexta-feira, 18 de março, enquanto o governo brasileiro pagava para que manifestantes fossem às ruas em seu apoio, a Bélgica anunciava a prisão de Salah Abdeslam, o cabeça dos atentados de Paris.

Anúncio com pompa e circunstância, presença de vários líderes europeus e recadinho de Obama. Show! Como disse o jornal belga Le Soir, a Bélgica salvava a sua honra.

A captura de Abdeslam foi o resultado de uma série de investidas da polícia a partir de novembro, resultando na prisão ou morte de vários dos seus cúmplices. Muitos cúmplices. A cada semana, o Le Soir atualiza o “organograma” da gangue de terroristas islâmicos do eixo Paris-Bruxelas. Não para de aumentar.

Reconheço todo o esforço e determinação da polícia belga e dos serviços de inteligência europeus. Porém, encontrar o inimigo público número um dentro de Bruxelas, tão próximo de sua própria moradia, mostra que tem algo de podre no Reino da Bélgica.

É por isso que a alegria tenha durado tão pouco, apenas 4 dias. Como os poucos sobreviventes da gangue cometeram atentados suicidas, acredita-se que não haja risco iminente de outros trágicos eventos. Talvez não nos próximos dias.

Os colegas e amigos belgas e franceses entendem que a vida não será mais a mesma. Os procedimentos de segurança chegaram para ficar. Acabou aquela praticidade de se chegar no trem a 5 minutos do embarque ou passar de um país para o outro sem qualquer controle.

As pessoas querem um Estado mais atento e vigilante. A discussão importante é sobre os limites dessa vigilância, tema que já inspirou vários posts deste blog.

Depois do choque e da dor, a Bélgica voltou para onde estava antes do dia 18. Caçando as suas bruxas, encontrando os culpados pelo policiamento frouxo e pelos erros de inteligência.

Se o terrorismo tem seus fundamentos na pobreza ou na desigualdade social, existe um fator manipulatório que transforma esse contingente de marginais em brutais criminosos. Os governos europeus têm que trabalhar em ambos os aspectos para erradicar esse mal.



Foto: Abadia de Mortemer, na Normandia. Cinco séculos separam as duas partes do conjunto.

Saturday, January 24, 2015

#JeSuisMusulman


Os atentados e as manifestações ficaram para trás, mas o debate continua por aqui. Não é para menos, a questão é muito complexa. Pouco fala-se da grande maioria fiel às causas republicanas,  o “x da questão” é a minoria discordante.

Uma minoria sem dúvidas. Porém, uma minoria de muitos milhares de jovens da periferia.  São aqueles que não respeitaram o minuto de silêncio em homenagem às vítimas, que aderiram às teorias conspiratórias ou que apoiaram explicitamente os terroristas.

É desse meio que saem inúmeros djihadistas. É desse meio que saem futuros terroristas. As periferias das grandes cidades são incubadoras do radicalismo. A França pergunta-se onde errou. Depois de gerações de imigrantes que lutaram pela integração, deparam-se com um sério revés, confrontando-se com a afirmação religiosa e a negação da democracia.

Como disse no primeiro post sobre o tema, misturam-se fatores econômicos, sociais, culturais, entre outros. Os holofotes estão na Educação. Com certeza, há alguma coisa errada nas escolas. Bem, eu não queria estar na pele dos professores, que dão aulas em salas onde  metade dos alunos chama-se Mohamed.

Circulando pelas ruas de Paris e Bruxelas, ainda percebemos o estado de alerta. Soldados e policiais estão em todos os lugares, sem contar o pessoal da inteligência. Para acompanhar um potencial terrorista, a França mobiliza um overhead de 20 a 25 agentes. A ameaça terrorista em si é capaz de sangrar ainda mais a já combalida economia.

Se existe um lado menos triste nesta história, é a visibilidade que ganhou o quase falido Charlie. Graças aos terroristas, suas caricaturas espalharam-se pelo mundo. Nunca a blasfêmia fez tanto eco. Maomé tem mesmo que chorar.



Foto: Um outro cantinho simpático de Bruxelas, perto de casa, o Egmont Park, que abriga a "brasserie" mostrada na foto.

Friday, December 26, 2014

Detetives

Agredeço a todos que escreveram sobre o meu último post. Não imaginava despertar tamanha solidariedade, era para ser um post apenas engraçadinho. Não fosse o furto, seria mais um daqueles posts sobre as greves europeias.

Ainda sobre o triste incidente, pensei várias vezes no desafio daqueles dois que invadiram meu apartamento para fazer a “limpeza”. O que roubar?

A pergunta parece simples, mas só ladrões experientes fazem as escolhas certas. Afinal, eles precisam carregar as coisas roubadas mantendo uma certa agilidade durante a fuga. Há uma combinação de fatores como valor de mercado, volume e peso.

Enquanto o policial belga caçava digitais no meu apartamento, eu pensava - caríssimos leitores, não pensem em Hercule Poirot. Jacques Clouseau é bem mais realista - Eu só queria entender o que tinha acontecido. 

Percebi que os bandidos revistaram todo apartamento, selecionaram o que interessava e, antes da saída, fizeram a triagem. Levaram tudo para a mesa de jantar e lá escolheram o que seria furtado.

- Entre um Blackberry e um aparelho de barbear da Gilette, optaram pelo último.
- Entre um vidrinho de perfume da Armani e um GPS, escolheram o frasquinho.
- Entre um leitor de livros Kindle e um porta moedas com alguns poucos euros, ficaram com o dinheirinho vivo. Será que eles não gostam dos meus livros? Snif snif...  

Enfim, os gatunos sabem das coisas ;-)

Como provavelmente não terei tempo para escrever um novo post nos próximos dias, deixo os meus votos de Boas Festas e Ótimo Ano Novo. E se der alguma coisa errada em 2015, que seja matéria prima para novos posts. Afinal, a gente perde um monte de coisas, mas não perde a piada.


Foto: Como “post cartão de Natal”, aí vai este GIF animado montado sobre fotos recentes da fonte de Evian Les Bains, ao pé dos Alpes e às margens do Lago Leman.

Saturday, December 20, 2014

Perdas e danos

Nas últimas semanas, percebi que greve é coisa profissional aqui na Bélgica. Não é algo para atrapalhar nossas vidas só um pouquinho, é parada geral mesmo!

Sabendo da greve geral prevista para o último dia 15, remanejei meus compromissos para Paris. Até aí, foi fácil.  O problema é que, antes da greve em si, há “ensaios”. O movimento começou em novembro, com episódios de greves parciais semanais.

Num desses dias de greve parcial, por exemplo, fui ao aeroporto a fim de embarcar para Lyon, onde ficaria uma semana. A mocinha do balcão: “Não estamos despachando malas, por que não veio ninguém para manuseá-las”. Perguntei se o vôo estava garantido, mas ela não soube informar :(

Felizmente, deu tudo certo. O maior contratempo foi entrar com uma mala – muito longe de ser de bordo – num avião tipo Embraer.

Novembro e dezembro foram meses de manifestações, reuniões da Comunidade Europeia e da OTAN. Tudo isso significa ter um gostinho do trânsito paulistano - só um gostinho - pois quase todos os órgãos internacionais e locais estão entre a minha casa e o trabalho.

É muito comum cruzar com policiais batedores que bloqueiam totalmente o trânsito para carros oficiais. Diplomatas e burocratas costumam usar os hotéis perto de casa. Alguns figurões precisam das avenidas só para eles, e olha que as avenidas já não são tão largas. A Polícia daqui parece ser especialista nisso. Aparentemente, só nisso.

Quem não fez greve nem corpo mole na última semana foram os bandidos. Não estou falando do padrão de bandidos brasileiros: sequestradores, assassinos e deputados. Falo de gatunos.

Enquanto estava em Lyon, um par deles fez uma limpa lá em casa. A lista de perdas é enorme, mas como a gente sempre diz, são perdas materiais. A sensação de chegar em casa e encontrar tudo revirado e jogado no chão não é nada agradável. Que seja a última vez!

A única contribuição da Polícia local para este breve relato foi a dedução de que eram dois furtadores. O “CSI Bruxelas” encontrou duas pegadas diferentes. Sabe até a marca dos sapatos. Por outro lado, depois de emporcalhar ainda mais o meu apartamento com pós pretos e brancos, não achou nenhuma digital.

A verdade é que esse tipo de crime é muito mais comum do que imaginava. Basta comentar o ocorrido entre colegas, que acabamos descobrindo quão comum são tais furtos. Se a Polícia local não pode ajudar, a maioria das pessoas já tem seus suspeitos: os ciganos. Segundo a sabedoria popular belga, são os únicos que levam os seus melhores jeans.

Ciganos ou não, tem alguém abafando por aí nesta noite de sábado em Bruxelas: Calça nova, camisa nova, casaco novo, tablet novo, celular novo, relógio novo e até perfume novo. Como consolo, só me resta escrever um post novo.


Foto: A Place des Jacobins em Lyon e seu abat-jour gigante na Fête des Lumières 2014. Eu estava lá, enquanto...

Thursday, January 9, 2014

A hora da caça

A explosão de violência no Maranhão é só uma face da migração da criminalidade do eixo Rio-São Paulo para o resto do país, especialmente para o Nordeste. Os índices relativos de homicídios das capitais nordestinas são dignos da Venezuela.

O quadro faz lembrar um capítulo da história da aventura humana, como conta Jared Diamond em "Armas, Germes e Aço".

Os homens primitivos espalharam-se pela Ásia e Europa a partir da África. Com as habilidades que os diferenciavam dos outros animais, tornaram-se exímios caçadores. Neste processo, as caças também evoluíam. Sobreviviam aquelas que tinham o reflexo da fuga, que não caíam nas armadilhas mais básicas e assim por diante. Ao longo de milênios, tal interação fez do homem um grande caçador e também permitiu a seleção dos animais mais espertos.

Em algum momento da história, nossos ancestrais entraram na Oceania e na América. Lá, os hábeis caçadores encontraram animais que jamais haviam convivido com o homem. Foi uma festa, pois caçá-los era muito fácil. Foram séculos de fartura e muito churrasco até a extinção completa dos grandes mamíferos dos dois continentes. A falta desses animais foi um dos fatores que condenaram ao atraso civilizações como as pré-colombianas e os aborígenes australianos, que não tinham animais de porte para puxar o arado, para o transporte e nem mesmo para uma alimentação correta.


Voltando ao século XXI. No Rio e em São Paulo, a polícia e os bandidos também evoluíram juntos. À cada ação de um lado, uma reação do outro lado. Após décadas jogando de caçador e caça, atingimos um certo equilíbrio. E o que acontece quando a bandidagem dessas cidades chega aos outros estados, onde encontra um corpo policial subdimensionado, despreparado e desequipado? A resposta é óbvia, a hora é da caça. Assim como é óbvio tudo que os governos devem fazer para reverter este quadro.

Nossos índices de violência são muito altos. Nem mesmo todo crescimento dos últimos anos não foi capaz de melhorá-los. Compreendo a visão humanista que norteia os partidos como PT e PSDB, mas clamo por uma ação mais enérgica. Sob o risco de que, amanhã, um espertalhão chegue ao Planalto prometendo apenas "colocar a ROTA na rua".


Foto: Última foto de San Diego, ainda no Balboa Park.

Saturday, August 17, 2013

Poltergeist

Alguns artigos estrangeiros celebram a queda da criminalidade no primeiro mundo. Bem, só podia ser lá fora, é óbvio! O mais interessante é que até mesmo a profunda crise não modifica a tendência. Segundo especialistas, o fenômeno deve-se a uma série de fatores como a vigilância onipresente, o envelhecimento da população, a eficácia das modernas técnicas de investigação, etc. Enfim, sob tais condições, o crime não compensa.

Já no terceiro mundo, o crime continua compensando. E muito. Em maio, escrevi o post "o crime da semana", sobre os eventos bárbaros que continuam nos chocar frequentemente. Convido você à sua releitura. Como será o próximo crime da semana?

Numa perspectiva histórica, Rio e São Paulo reduziram fortemente seus índices de criminalidade, mas ainda estão num patamar inaceitável. Em termos relativos, São Paulo é a capital menos violenta do Brasil. Nossos irmãos nordestinos, contudo, rivalizam com países em plena guerra civil. Suas taxas de homicídios são piores do que as iraquianas.

Uma das explicações mais comuns é que a bandidagem prosperou no Sudeste e invadiu o Norte e Nordeste, onde encontrou mais pobreza e uma polícia ainda mais despreparada. Atenção, eu disse "ainda mais"! Terreno perfeito para a explosão da violência. Se nós, paulistanos e cariocas, não admiramos nossas polícias, imaginem os outros!

Sonhamos com uma polícia preparada e competente, que investigue e solucione todos os crimes, independentemente das vítimas, seja um colunável ou o Amarildo. Sabemos que hoje é impossível. Desta forma, penso que quando se trata do "crime da semana", quando os holofotes da mídia estão sobre as 'otoridades', eles não deveriam falhar. É a chance de mostrar que a 'corporação' tem um pingo de seriedade.

A título de exemplaridade, para motivar os seus quadros e inspirar a confiança da população, esses crimes deveriam ser resolvidos. Que tragam especialistas de fora e usem os recursos mais modernos que a tecnologia proporciona!

Infelizmente, as polícias do Rio e São Paulo perdem essa oportunidade. Brindam-nos com histórias pouco críveis. Exemplos? No Rio, tivemos o poltergeist do Amarildo, quando vários dispositivos eletrônicos falharam simultaneamente. Em São Paulo, a história policial já nos trouxe personagens fantásticos como o Homem Invisível na Rua Cuba, o Homem Aranha no sequestro do Sílvio Santos e, mais recentemente, o malvado Chuckie, matador de famílias.


Foto: Um convento no centro de Bruges. Tranquilidade pura.

Saturday, May 21, 2011

DSK, uma semana depois

Não garanto que seja meu último post sobre o caso DSK, mas acho que vale a pena fazer um balanço do que li nos últimos dias. Para americanos e franceses, a cobertura foi um verdadeiro festival de horrores, com acusações de ambas as partes.

Os colunistas do Estadão, Gilles Lapouge e Gustavo Chacra, descreveram bem as diferenças básicas. Os americanos apresentaram DSK como um criminoso, antes de qualquer apuração. Além do mais, houve aquela humilhação tradicional das algemas, entre tantos outros rituais da cinematográfica polícia americana. Já os franceses pecaram pela rápida divulgação do nome da camareira do Sofitel e, principalmente, pela excessiva tolerância à investida do presidenciável, que pode ter cometido um crime gravíssimo.

Excelentes artigos sobre as diferenças culturais entre os dois povos apareceram em várias publicações. Surgiram motivos de monte para se reabrir uma temporada de deboches mútuos. O filósofo Bernard-Henri Lévy, entre outros, foi ironizado pela sua forte defesa da "presunção de inocência" de DSK.

Vamos deixar de lado as subjetividades culturais, sociais, comportamentais, sexuais, machistas e feministas. Foi no Economist que eu achei aquela pergunta que não quer calar. Afinal, se o incidente tivesse ocorrido em Paris, DSK estaria em cana?

Certamente não. Nem em Paris, nem em Roma, nem em São Paulo. Todo mundo sabe disso. Depois de alguns dias, o Le Monde finalmente reconheceu o banho de democracia dado pelos EUA, destacando a sua Polícia e Justiça como uma entidade realmente independente, a altura dos poderes político e econômico, e não subordinada a eles, ao contrário do Brasil e da própria França, suposto país da liberdade, igualdade e fraternidade. O Le Monde ainda separa o puritanismo anglo-saxão, tão ridicularizado pelos europeus, de um verdadeiro caso de polícia.

Enfim, a poeira baixou. DSK já saiu do FMI e, provavelmente, não sairá dos EUA tão cedo. O PS deve erguer a cabeça e buscar um novo candidato. Caberá ao povo francês fazer a sua escolha e, mais do que isso, inspirar-se no exemplo daqueles grandalhões, beligerantes e ignorantes do outro lado do Atlântico ;-)


Fotos: Voltando à França, uma foto de Annecy, na Savóia.