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Wednesday, July 23, 2025

PIX - A teta secou. Agora, vem a treta.



O governo norte-americano vai investigar se o PIX representa uma concorrência desleal para as empresas americanas de pagamentos. Será que eles têm razão?

A combinação da proliferação de bancos digitais com o PIX foi uma arma poderosa para resolver um problema brasileiro crônico: a desbancarização. Mais do que isso, resolveu com categoria — deu meios para que todos tivessem acesso aos serviços financeiros mínimos, permitindo realizar suas transações pessoais, seus bicos e os pequenos negócios da economia informal.

Ressalto isso porque é justamente o que eu esperaria de uma política pública: o governo não distribui peixes para todos, mas entrega anzóis e iscas em abundância.

A crítica poderia vir do argumento de que bancamos todas essas transações com o erário público. Mas a verdade é que o valor de dinheiro público investido na construção e manutenção do PIX é irrisório comparado com grandes projetos de tecnologia ou mesmo diante dos valores movimentados pelo Governo.

Antes do PIX, o caso de sucesso mais próximo foi o da Índia (2016), que enfrentou uma pobreza ainda mais severa e obteve resultados impressionantes: incluiu milhões no sistema financeiro, reduziu a informalidade; aumentou a arrecadação ao a evasão fiscal e estimulou o empreendedorismo informal. 

Enfim, mesmo eu — que não sou fã da mão pesada do Estado — reconheço: o PIX é infraestrutura. Mais do que isso, é um instrumento de inclusão muito mais eficiente e eficaz do que muitos outros benefícios sociais.

Resta aos incumbentes adaptarem a sua oferta. Há outras formas de oferecer serviços diferenciados. Tá com pena da Visa ou da Mastercard? A vida dos negócios é assim mesmo — especialmente em tempos de rupturas e transformações sucessivas.


Foto: Cecilienhof, local da famosa conferência de Potsdam, uma evento marcante do pós-guerra. Em Potsdam, Alemanha (abril de 2024).


Friday, November 6, 2020

Conversas republicanas


 

A maior parte dos parentes e amigos que moram nos EUA votou no Biden. Ainda assim, tenho uns poucos amigos fiéis ao Partido Republicano. Neste post, selecionei extratos das conversas com eles, que tomaram conta do meu Whatsapp nesta semana de suspense.

Felizmente, entre eles, nenhum fanático. Votam no Partido Republicano, apesar do Trump. Um deles declarou: “também não gosto do homem Donald”. Ao comentar sobre o festival de falsas denúncias e a possível judicialização das eleições, foi mais longe: “Trump acabou.”

Comentei que a alternância de poder norte-americana é bastante saudável. Respeito muito os dois séculos de tradição democrática do país. Nada contra um programa conservador, que é tão legítimo como outro qualquer. O problema maior é aquilo que veio junto, o Donald.

Um dos amigos ainda defende seu legado econômico: “as políticas e o sucesso econômico desfrutado por tantos que não foram tão abençoados antes.” Pena que a pandemia tenha levado boa parte deste sucesso, sem contar o saldo de mortos.

Todos eles reconhecem o maior equilíbrio do futuro presidente. Disse um deles: “pelo menos, com o Biden as coisas serão mais calmas.” Entretanto, temem que os radicais venham junto: “Biden é a tromba do elefante sob a tenda”.

Pensando com meus botões, quem são os tais radicais? A turma do Bernie Sanders? Os comunistas dos Estados Unidos? Um outro amigo explicita: “o perigo é a Kamala!”

Kamala, com todo respeito, é uma competente mulher do sistema, longe de parecer uma revolucionária incendiária, que queira destruir as bases da América.

Daqui do Brasil, reconheço que é fácil dar palpites no país dos outros. Não moro nos EUA e, obviamente, ignoro muito do que acontece por lá. Os últimos presidentes republicanos dos EUA foram Bush pai, Bush filho e Trump. Os últimos democratas, Clinton e Obama. Precisa dizer alguma coisa?

O mais próximo dos amigos compreende a situação e termina com espírito republicano: “não importa o que aconteça, estaremos por aqui e de olho no futuro.”

Não é necessário enumerar os infindáveis defeitos do Trump. É impensável como alguém como ele tenha ido tão longe. Os Estados Unidos têm problemas sérios para resolver e precisam de um líder com mais empatia e vontade política de servir a todos. Chega de dividir a nação.

70 milhões de americanos votaram no Partido Republicano, apesar do Donald. Não são todos loucos, fascistas ou ultraconservadores. São dezenas de milhões de trabalhadores que, de alguma forma, tiveram importantes perdas nas últimas décadas. Biden não pode ignorá-los. É um senhor desafio. 

Boa sorte Joe Biden!

 

Foto: Final da tarde em Oia, Santorini, Grécia. Uma multidão vai para o extremo da ilha para assistir ao por do sol (maio, 2016).

Tuesday, October 27, 2020

Rótulo



Aconteceu no Balthazar, um renomado restaurante francês do Soho, em Nova Iorque. A história tem quase duas décadas, mas só foi revelada por Keith McNally, proprietário do restaurante, há poucos dias através da sua conta no Instagram. 

Era uma daquelas noites de casa cheia, algo comum no local, uma brasserie recomendada pelo Guia Michelin. Entre as festejadas mesas, duas delas têm as suas histórias entrelaçadas pelo acaso.

Numa das mesas, um jantar a dois. Um jovem casal, que não precisa de motivo especial para celebrar, curtindo sua refeição acompanhada de um vinho. Os jovens escolheram o vinho mais em conta da casa, um Pinot Noir de US$ 18 (vide nota 1).

Na outra mesa, um grupo de executivos de Wall Street. Possivelmente, celebravam alguma transação importante. Para acompanhar o jantar, escolheram o vinho mais caro da carta, um Château Mouton Rothschild, cuja garrafa custava US$ 2000 (nota 1).

A essa altura, o leitor astuto já pode ter antecipado o que o acaso preparou para as nossas duas mesas. Sim, seus vinhos foram trocados!

Um serviço de vinho razoável nunca permitiria uma troca de garrafas. Todavia, os clientes das duas mesas solicitaram que suas garrafas passassem por decanters (nota 2). O restaurante utilizou dois decanters idênticos, que foram trocados à hora do serviço. Não me perguntem a razão de passar o Pinot Noir pelo decanter (nota 3).

Quando a equipe do restaurante percebeu o engano, chamaram o dono. Depois daquele frio na barriga, Keith preferiu abrir o jogo com seus clientes. Enquanto que os vinhos trocados já estavam sendo apreciados nas duas mesas, ele foi lá e contou o ocorrido. Cada mesa acabou ficando com o vinho que havia começado. Ambas pagaram apenas US$ 18 e o restaurante arcou com o prejuízo.

A proposta deste post não é homenagear o restaurante nem seu dono pela sábia decisão. Aliás, feito o estrago, é isso o que esperaria de qualquer estabelecimento. O ponto mais interessante é que nenhuma das mesas percebeu a troca. Bebiam felizes. O casal divertia-se fazendo valer ao máximo aquele vinho presumidamente barato. Os executivos transbordavam de alegria com o vinho presumidamente sofisticado.

Quando Keith esteve à mesa dos executivos, um deles elogiou a "pureza" do vinho. Disse que desconfiou que fosse um Mouton Rothschild. Cá entre nós, ele deve ter tentado alguma saída honrosa. Se ele entendesse um pouquinho de vinhos perceberia a brutal diferença, não é mesmo?

Esta pequena desventura enológica teria sido mera casualidade? Talvez não. Se transformássemos tal situação num experimento, tenho quase certeza que teríamos inúmeros resultados semelhantes. A dura verdade é que muitos clientes nem gostam do que bebem. É um ritual de celebração e exibição. Tem muita gente que bebe rótulo.

Há estudos análogos sobre o comportamento do consumidor de cervejas focados no Brasil. Ficou evidenciado que, em degustações às cegas, o bebedor comum não consegue diferenciar as diferentes marcas de cerveja. Pior ainda, à mesa, faz questão de exibir o rótulo da marca consumida, mudando a posição da garrafa ou lata para dar-lhe mais visibilidade, quando necessário.

Os amantes do vinho que conheci, na sua maioria europeus, escolhem as garrafas com base nas suas preferências históricas (uva, vinícola, safra, regiões, etc) e na oportunidade de conhecer melhor os produtos locais, sempre com uma relação interessante de custo/benefício. Arriscar uma nova experiência? Claro, mas só depois de uma boa conversa com o sommelier.


E você, bebe vinhos ou rótulos?

 

Leitura adicional:

Post sobre vinho de 2009 – Açúcar dá cana!

Post sobre vinho de 2009 – Vinum Nostrum

Notas:

(1)    Preços de vinte anos atrás. Hoje, a garrafa mais barata custa US$45, e a mais cara, US$6800.

(2)    O decanter tem várias funções: separar as impurezas, permitir a oxidação e servir o vinho. Vejam o excelente artigo da revista Adega.

(3)    Por que um Pinot Noir de US$18 precisaria passar por um decanter? Não sei. O dono do restaurante diz que quem manda é o cliente. O sommelier é instruído para concordar mostrando um certo desconforto. Nas palavras de Keith: “By acquiescing one educates the customer” 

Fontes:

Decanter, Instagram, “Small Data” de Martin Lidnstrom, Adega

 

Foto: Última foto em Tréveris, Alemanha. Detalhe na praça central da cidade.

Thursday, September 17, 2020

Netflix


 

Tenho falado bastante sobre a Netflix nas aulas, palestras e ‘lives’. São vários os motivos além da sua óbvia posição competitiva na indústria do entretenimento:

  1. Está entre as empresas que mais alavancam a ciência de dados e este é um tema chave nos eventos que tenho realizado sobre o Futuro da Inovação Corporativa.
  2. Tem um estilo de gestão inovador, que é tema do livro A regra é não ter regras, do seu fundador Reed Hastings e da prestigiada acadêmica Erin Meyer.
  3. Tem uma história inusitada, transitando pelo o físico e digital como poucas. Começou distribuindo DVDs (físico), passou para o streaming (digital) e, depois, passou a produzir suas próprias séries e filmes (físico e digital).

Dependendo do público, o começo da história da Netflix já não tem mais graça. Muitos não viveram a época do aluguel de vídeo (VHS, DVD e Blu-ray). Para essa geração, o nome Blockbuster não significa muita coisa.

Blockbuster? Voltando um par de décadas no tempo, a mítica locadora era parada obrigatória antes dos finais de semana. Aquelas megalojas eram uma atração em si. Era difícil ficar só nos vídeos.   

A Netflix, por sua vez, nasceu diferente. Lançou o conceito de assinatura de DVDs, com um catálogo online e envio/devolução pelo correio. Um negócio de nicho que funcionou muito bem, sem qualquer ameaça à poderosa Blockbuster.

O surgimento do Youtube chamou a atenção dos seus fundadores para a divulgação de vídeo em streaming. Em 2007, a Netflix começou a distribuir os filmes neste formato. O resto é história. 

Com um sucesso incrível, arrasou a Blockbuster e catapultou sua base de 6 milhões de assinantes para os quase 200 milhões atuais. Se escrevi este post é porque estou lendo o livro mencionado acima e também li um artigo sobre a manutenção do antigo modelo de negócio. Sim, a Netflix ainda manda DVDs pelo correio, precisamente para 2 milhões de assinantes americanos.

O negócio é irrisório perto do streaming, mas seus assinantes são fiéis e têm bons argumentos:

  1. O catálogo de filmes oferecido em DVD é muito maior do que em streaming.
  2. Independência de uma internet confiável, algo que pode ser um problema nos rincões dos EUA. Fato confirmado com colegas americanos aposentados, que saíram das metrópoles e foram para a zona rural.
  3. A experiência (imagem e som) é geralmente melhor.

A maior ressalva desta base de assinantes é com o serviço postal norte-americano, que tem atrasado frequentemente a entrega dos DVDs.

Enfim, o negócio pode ser pequeno para a Netflix, pode parecer obsoleto diante dos olhos dos leitores cosmopolitas, mas representa 300 milhões de dólares por ano de faturamento. Um belo negócio e que ainda cativa seus clientes!


Foto: Uma outra imagem do centro de Pula na Ístria (Croácia), balneário de verão que faz a diversão de alemães, russos e outros.


Leituras complementares:

A cultura Netflix – A gestão e a cultura da Netflix

Netflix e IA – Como a Netflix usa a ciência de dados

O dilema da redes – Meu último post sobre um documentário essencial

 

Thursday, September 3, 2020

Polarização


Como entusiasta da tecnologia da informação, fico empolgado com o seu impacto em quaisquer coisas, nos negócios, na ciência, na educação e em tantas outras áreas.  

E por que não na política? Os impactos são evidentes. O cidadão conectado e integrado tem mais condições de participar, protestar, apoiar, cobrar, etc. Os resultados são visíveis, desde a primavera árabe às recentes campanhas eleitorais.

Uma dúvida que paira no ar é se a intensificação da polarização, tão presente em inúmeros países, seria fruto dessa era digital. Não fico à vontade para discorrer sobre o assunto, pois precisaria de um conhecimento histórico muito maior para tal. Conhecemos bem o que vivemos hoje, mas qual era a sensação de um semelhante há 50, 100 ou 200 anos? Por isso, resolvi chamar os universitários. 

Recorri ao Quora, aquele serviço de perguntas e respostas, povoado por acadêmicos, curiosos e palpiteiros. A pergunta foi: A polarização política é um problema crescente em todo o mundo. Será que vivemos um momento sem precedentes na história mundial? Tenho a impressão de que a era digital contribuiu para isso, principalmente por causa da inclusão de milhões, antes excluídos de qualquer debate. Estou certo?

Todas as respostas obtidas até 3/9/20 estão logo abaixo no seu idioma original (inglês).

Muitas delas são categóricas em dizer que a polarização é algo antigo e que a sociedade esteve até mais dividida em outros momentos da história. Vale ler as respostas pela quantidade de exemplos. Neste sentido, a tecnologia da informação possui um papel marginal.

Vários concordam que, de alguma forma, a era das redes sociais contribui ou amplia esse efeito. Milhões de pessoas foram incluídas num debate com pouca moderação, ficando à mercê de políticos e influenciadores, que não hesitam em usar polarização como estratégia retórica.

Um aspecto interessante é a percepção da polarização, que é diferente de pessoa para pessoa. O meu caro leitor talvez nem esteja incomodado com o assunto. Entretanto, aqueles que acompanham e interagem intensamente ainda incorrem no risco de ficarem presos na própria bolha, sem dúvidas, um dos efeitos mais perversos das redes sociais.

Caro leitor, fique à vontade para colocar a sua opinião na rede social em que você leu este post ou no próprio Quora.

 

Foto: Outra tomada do Lago Bled (Eslovênia), agora, com a sua marca registrada, a pequena ilha.   


Leitura complementar:

Eco (2013) - Quando falei sobre o efeito bolha em 2013.

Pew Research (2014) - Estudo sobre a evolução da polarização nos EUA. Algo comprovado.

 

Respostas: 

Nancy Roberts

Some of the problem is no doubt perception. A greater part of our day, each of us, is now spent online and consuming opinion “news” and information. Add to that the competition among news outlets for eyeballs and advertising dollars, and that all becomes overheated rhetoric. Try an experiment - drop your consumption of the Internet and for that matter “news” altogether for a few days. My guess is you’ll perceive a lot less polarization unless it’s your habit to discuss politics with friends and neighbors every day. When I think back to how much of their day my parents spent consumed with national and international news, as opposed to the neighborhood, school, and local news - or none at all as compared to their daily round of chores, activities, social occasions, reading books, family and relaxation time - it’s no wonder their day to day stress came more from whether the laundry was done or one of us kids had acted up or the car needed servicing as opposed to whether Trump or Biden was the worst person in the world and was literally Hitler.

Mark Gould

The answer is far more complicated than that. Yes, the digital age includes more people in any discussion/debate about politics. However, the major reasons for polarization have to do with the multiplicity of media outlets that now exist. When I grew up, Americans turned to three TV networks for news. These were ABC, NBC, and CBS. Today, there are far more sources of news both on the internet and on television. As the number of sources multiplied, news began to be presented with particular political viewpoints. For example, FOX slants news in a conservative fashion. MSNBC slants in a liberal fashion. What I believe goes on is that people deliberately shop for a news source that tells them what they want to hear. There are so many sources today that almost everyone with every viewpoint can find the source they want to listen too. This causes all of us to retreat into our own corners and seek out those who think like we do rather than to engage in a real debate where some might change their opinions after an open and frank discussion. That is the real reason today for political polarization. What is most depressing to me is that I do not see how this is going to change and I fear the repercussions of so much polarization for our country.

John Metcalfe

Not at all although it is a feature of political rhetoric to paint the current circumstances as if the crisis afoot is the biggest crisis of all. 40 years ago, Thatcher and Reagan were painted as extremists, they kept winning and their countries went onwards and upwards. The pattern is repeated ad infinitum.

Andrew Jackson

Yes, we do but the digital age has not suddenly enfranchised anyone. All that has happened is that audience has grown. The comments that Facebook contributor xyz makes are no longer just heard by 5 fellow workers but by 50 self-selected individuals all with the same viewpoint. In effect, the decline of reading Newspapers has resulted in bigots not having their viewpoint challenged. A consequence of this is extremism, populism, and the rise of hatred.

Paul Trejo

I disagree. As someone who witnessed the 1960’s first-hand, my opinion is that the sixties were just as divisive as today. The Cuban Missile Crisis has no correlate today. In world history? No way. World War 2 was more divisive. So was World War 1. So was the Civil War. So were the French and American Revolutions. No — this is not an unprecedented moment in world history. The Internet and Mass Media have almost NOTHING to do with it. People are naturally divisive and have been since the start of recorded history. It’s even throughout the Bible.

Tom Appich

My view is that the polarization is due, at least in part, to the pace of change that the world is experiencing today. Much of that arises from the digital age, but it is also because of the end of the bipolar world, split between communism and democracy. The older world was dangerous but stable. Since 1991, it’s been a free-for-all.

Rafael Marcus

Political polarization it’s a very old problem. The problems of today are as many as before, but the digital age introduced new channels of communication with better availability and ease of use for everyone. If one follows the chat rooms media, will be very easy to see that the groups are divided by subjects and points of view (moral, political, etc.). There isn’t much new, but the speed and ease of use. The people were divided during the French revolution (1789) or the Bolshevik revolution (1917) The French revolution was caused by the lack of food, caused by the French money spent to help the anti-British American revolution and the refusal of the French nobility to pay taxes to help the economic situation of the hungry French population. In 1917 in Russia the soldiers were sent to fight the war with broken shoes and not enough food because of the existent corruption and embezzlement of public money. During both revolutions, the result was the killing of a lot of people, guilty and not guilty for the socioeconomic situation. During the different historic periods, the mediums of communication evolved from pictures on the cave walls to papyrus, the printing press, photography, film, electronic media, and so on. Every one of these new media channels brought more people into the circles of people of knowledge. Regardless of the period people communicated through gossip and meeting in the middle of the village or in the pub after work or during the weekend. Talking, reading, and writing it’s what differentiate the humans from other animals.

Alain Mellaerts

It’s the sign on the wall of change. The ancient regimes are under stress. It’s very hard to generalize but dictatorships and liberal democracies are under pressure. Everybody is a member of the media; Ideas can be easily spread and revolutions coordinated thanks to the digital age. A bit like the effect of printed books and the reformation in the 16th century. The extremer parts of our societies, left, right, religious zealots…, are pulling the carpet their way causing cracks in the fabric. Add a virus, global warming, a refugee crisis, and social unrest, the stage is set. Change is in the air.

 Brent Cooper

Polarization has always existed but it seems much more intense today. Clearly, there are certain groups and organizations that profit from polarization and are doing everything in their power to make it happen. Unfortunately, in the US most of it comes from our political leaders who see polarization as a means to seize and retain power. Certain parties engage in class warfare not to make a point but to created hatred and distrust so as to stay in power. They use issues like race, abortion to try to divide Americans. There are so many issues Americans could work together on but it is not happening because certain people don’t want it to happen. Healthcare is such an issue because it affects everyone. At some time, people will wake up and start directing the political dialogue instead of letting the politicians direct it.

Weijiu Wu

Well, we always live in an unprecedented moment in world history. People in the 40s live in unprecedented times as they experience the greatest war the world has ever witnessed. People in the 50s’ live in unprecedented time as they experience the start of the cold war. People in the 60s live in unprecedented time as they experience the worldwide human rights movement and the space race. Yadi yada. You get the point. It's not that we are special and live in a special time, its just human institutions are inherently unstable, especially world politics, as there’s no centralized world government to coordinate the actions of individual nations. The US achieved world hegemony, and as a result, achieved some sort of shallow world order. As the US becomes increasingly weak internally with continued power and wealth disparity between the elite and the populace, that shallow world order that revolves around the US is breaking down, causing disintegration and polarization of the world.

 Michael Wardell

Democracy is predicated on compromise, horse-trading, and what some might see as corruption. Indeed, compromise is a corruption of two or more opposing ideas. I wouldn’t worry about the government that follows the wrong path. We do that all the time. I would be concerned about the absence of corrective feedback. That is a flaw associated with dictatorships led by strongmen. For us, corrective feedback comes in the form of elections. For so long as we have an honest procedure to choose the direction of our government, and as long as we are willing to tolerate results that go against our favor, we can avoid the fates of countries that just won’t listen. The example of the USSR springs to mind.

 Don Tracy

Maybe in some indirect way but the digital age is not the primary reason. The overall controlling source of polarization comes from international capitalism, financial centers, and corporate power. Those forces demand control of the masses and manage mass psychology by propaganda like the ad agencies of Madison Avenue. The gigantic amounts of money and wealth can buy everything needed to do exactly their bidding. A polarized population is a controlled population who are unable to ever unify in solidarity thereby never becoming a threat to the ruling class. Good luck people.

Monday, August 3, 2020

Big Tech





Na última semana, os principais executivos de quatro das Big Tech (Apple, Amazon, Google e Facebook) foram convocados para depor no Congresso norte-americano por suspeitas de práticas anticoncorrenciais.

As audiências estão longe de serem vistas como algo burocrático. Além das práticas comerciais supostamente abusivas, o contexto é delicado. Somam-se à pandemia, as manifestações, o ano eleitoral e até mesmo as ainda não digeridas eleições de 2016.

A pandemia foi um acelerador de negócios para os gigantes do mundo digital. O valor das quatro empresas acima com a Microsoft alcança 5 trilhões de dólares, representando quase 20% do índice S&P da bolsa norte-americana. Nunca houve tamanha concentração de valor.

Por outro lado, a discussão sobre fake news, manipulação e influência nas redes está mais quente do que nunca. Faz-se necessária uma resposta da sociedade para que possamos garantir o pleno funcionamento das democracias. Nos Estados Unidos, durante as primárias democratas, a campanha do “break them up” (quebrem as Big Tech) obteve adesões importantes - Elizabeth Warren e Bernie Sanders.

Os conservadores, por sua vez, ressentem-se de um viés progressista das redes sociais, que supostamente seriam mais rigorosas com as fake news criadas por eles. Os conflitos pessoais de Donald Trump com cada uma das empresas acima são um capítulo a parte.

O cerne da discussão está nas seguintes práticas: 1) A Amazon é acusada de abusar de seu papel de varejista e de plataforma que hospeda vendedores de terceiros; 2) A Apple é acusada de usar injustamente sua influência sobre a App Store para bloquear rivais e forçar os aplicativos a pagar altas comissões; 3) O Facebook é acusado de buscar o monopólio das redes sociais; 4) A Alphabet, empresa mãe do Google, é questionada por causa do domínio do Google em publicidade on-line, pesquisa e software para smartphone.

Os congressistas norte-americanos trouxeram muitas evidências das práticas acima. Acredito que o meu caro leitor, assim como eu, não esteja surpreso com as mesmas.  Portanto, imagino que as audiências continuem por algum tempo.

O mundo da tecnologia já proporcionou processos antitruste, por exemplo, com a IBM e a Microsoft no banco dos réus. Entretanto, o calendário político parece incompatível com o econômico e tecnológico. Os processos são tão lentos, que acabam perdendo sentido. A tecnologia evolui, surgem alternativas de mercado e as empresas adotam comportamentos corretos. Se os processos da IBM e Microsoft não chegaram ao final esperado, parece-me que a longa temporada sob pressão pública valeu à pena. O caminho foi mais importante do que o destino.

Muitos políticos de diversos matizes ideológicos, num espírito revanchista e punitivo, estão afoitos para quebrar essas empresas, o que levaria alguns anos e teria eficácia duvidosa. O mundo não precisa de que as Big Tech passem de 5 para 20. O mundo precisa de regulação, precisa de leis para 2021.

Fecho o post com um texto de Zachary Karabell para a revista Wired: “O que precisamos agora é de um novo marco regulatório baseado nas questões atuais: privacidade, quem possui e lucra com dados, concorrência e inovação. Esses devem ser os pontos de partida para o desenvolvimento da política, no lugar do foco no tamanho ou número de empresas de tecnologia. Precisamos perguntar quais regras protegeriam os consumidores, garantiriam a inovação contínua e permitiriam a concorrência, sem criar problemas adicionais e não intencionais. A resposta não se parece com as que foram desenvolvidas há mais de 100 anos; e adaptar os desafios atuais para aquele molde do século passado só pode piorar as coisas. Quebrar as Big Tech tem a virtude de soar simples, e todos os vícios de serem simplistas. Temos problemas reais que precisam de pensamento criativo; os regulamentos do passado, que não funcionaram tão bem mesmo assim, não são uma resposta”.

 

Foto: E por falar em Congresso, eis o Parlamento Húngaro, cartão postal de Budapeste. Foto tirada no verão europeu de 2016.


Tuesday, June 6, 2017

O homem da salsicha


Assim que surgiu a nossa última crise, viajei para a Europa. Pelo menos fui poupado do noticiário. Um pouco menos de náuseas não faz mal a ninguém!

Vocês provavelmente conhecem aquela máxima sobre a política: “As leis, assim como as salsichas, deixam de inspirar respeito na medida que conhecemos como são feitas”. Atribuída por muitos anos a Otto von Bismarck, sua autoria foi revista após uma vasta pesquisa. O poeta norte-americano John Godfrey Saxe é o verdadeiro autor da famosa citação.

A imagem que sempre fiz do Michel Temer é de rei dos bastidores. O cara que mantém a base coesa, resolve as crises, acalma um ou outro dissidente, facilita os acordos, etc. É o homem que sabe como funciona a política. Permitam-me a metáfora, é o homem da salsicha!

Nunca acreditei na honestidade do Temer, só esperava que pudesse segurar as pontas até 2018. De preferência, com meia dúzia de ministros competentes, que pudessem colocar pelo menos uma roda da economia nos trilhos.

No meu país, faria um acordão. Temer trocaria seu mandato pelas reformas, uma punição mais branda e um sucessor acima de qualquer suspeita. Porém, no nosso Brasil, diante de tantos interesses conflitantes, é difícil imaginar o que vai acontecer.

Os acadêmicos norte-americanos, responsáveis pela pesquisa da origem da máxima citada acima, encontraram uma citação pública de março de 1869:

 “Como disse o poeta John Godfrey Saxe - As leis, assim como as salsichas, deixam de inspirar respeito na medida que conhecemos como são feitas - e nós achamos que é a mesma coisa com os processos de impeachment” (*)



Foto: Passeando por Quimper, a capital do departamento Finistére, na Bretanha.


(*) Nota do blogueiro: Em 1868, os EUA passaram pelo processo impeachment de Andrew Johnson. O Presidente que sucedeu Abraham Lincoln foi absolvido. Imagino que alguma coisa tenha inspirado o autor.


Sunday, May 28, 2017

Lavagem


Em maior ou menor grau, a corrupção existe em todos os lugares. A luta contra este mal, assim como todos os demais crimes comuns, é um desafio dos tempos modernos. Na impossibilidade de erradicá-los, deveríamos tornar a vida da bandidagem mais difícil.

O principal ponto comum entre o mafioso e o político desonesto é a necessidade da lavagem do dinheiro ganho ilegalmente. Como já não se pode confiar na Suíça ou no Panamá, o jeito é mesmo apelar para o acúmulo das boas e velhas notas de papel moeda.

Não é difícil imaginar que inúmeros bandidos possuam grandes estoques de dinheiro em papel. Roubá-los é muitas vezes mais fácil do que desová-los. Bastariam algumas regras a mais para transformar essa dinheirama num verdadeiro mico. Ninguém deveria fazer negócios vultosos com papel moeda!

Comprar um imóvel com cédulas de 100 dólares? Nem pensar. Comprar uma Ferrari com notas de 100 euros? Também não. Pagar a conta do jantar com dinheiro num restaurante caríssimo? Não. Depositar ou sacar muito dinheiro?  Cada vez menos, pois os bancos deveriam apertar o controle.

Com a adesão maciça da sociedade aos meios eletrônicos, o fim do papel moeda é um debate real no primeiro mundo. Aqueles que guardam dinheiro embaixo do colchão que nos desculpem, mas a causa é nobre.

A Europa quer eliminar a nota de 500 euros. Por enquanto, a sua circulação é restrita e monitorada.  Os Estados Unidos já extinguiram todas as notas superiores a 100 dólares há algum tempo. O motivo é justamente o exposto acima, só serve para bandidos!

Se algo serve de lição para nós brasileiros, é o exemplo da Índia, país supostamente tão corrupto como o nosso. Em 2016, seu governo removeu de circulação as duas notas mais elevadas (500 e 1000 rúpias). Os cidadãos comuns, como eu e você, puderam simplesmente depositar as poucas notas que possuíam nas suas contas bancárias. Já os bandidos, sonegadores e políticos corruptos tiveram que fazer uma ginástica monumental para fugir dos limites e controles instalados. Não resolve, mas atrapalha.

Mexer com o papel moeda é apenas uma das técnicas para atrapalhar a vida dos fora da lei. Antes de pensarmos nos meios para se combater a corrupção e a criminalidade, reconheço que é preciso encontrar alguém disposto a fazê-lo. Ninguém à vista na Terra Brasilis.


Foto: Continuando a série sobre a Bretanha, chegando ao porto de Belle-Île-en-Mer.

Sunday, February 21, 2016

Verdun

Além dos sinais de fraqueza da economia mundial, há algo de ruim no ar. Revendo os jornais belgas e franceses dos últimos dias, tive que fazer algum esforço para encontrar boas notícias.

Até mesmo no noticiário esportivo, o destaque é para a última tendência em fraudes no ciclismo, o uso de bicicletas motorizadas. Flagaram um motor escondido no quadro da bicicleta de uma atleta belga.

A mídia destaca o centenário da Batalha de Verdun, episódio marcante da Primeira Guerra, quando o exército francês deteve o avanço alemão, com um saldo de 300 mil mortos e 400 mil feridos em 300 dias de combate.

Ao longo dos próximos anos, teremos muitos outros centenários. Não faltarão oportunidades para lembrarmos das barbáries das duas grandes guerras. O propósito principal dessas lembranças é servir de estímulo para que jamais se repitam.

Nesta última semana, tive a impressão que o mundo faz de tudo ao contrário, ou seja, tenta cair nas mesmas armadilhas do passado. Continuamos a semear a cizânia e a flertar com os conflitos. O discurso da desunião e da intolerância ganha espaço.

A discussão sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) é bem representativa. A adesão à UE tem sido usada como “bode”  por frentes políticas de quase todos os países do bloco. Obviamente, todos perderiam com a possível redução da UE, gerando um círculo vicioso que culminaria com a sua extinção. Terminaria assim a esperança de uma paz duradoura.

A Rússia, mesmo sofrendo com os baixos preços do petróleo, continua investindo bilhões para salvar um país que já morreu.  Ao invés de planejar sua retirada da Síria, ela investe ainda mais nessa operação militar descabida. Basta um pequeno incidente fronteiriço com a Turquia (membro da OTAN) para acender uma faísca de consequências imprevisíveis.

Não estou acompanhando as primárias dos EUA, mas o nível dos discursos que ecoam na Europa não é nada inspirador. Evidentemente, a paz e a prosperidade mundial ainda dependerão da boa vontade dos EUA por mais alguns bons anos.

A proposta não foi escrever um post pessimista, mas traduzir um pouco das preocupações latentes. Entre erros e acertos, os atuais líderes das principais potências - Obama, Merkel, Hollande e Cameron - são bons, mas ameaçados em seus países pelo discurso da discórdia. A concertação entre eles é fundamental para controlar essas ameaças.


Foto: A caminho da Bretanha, fiz algumas paradas no interior da França durante as últimas férias de verão.  Nessa foto, a charmosa Lyons-la-Forêt, na Normandia.

Saturday, December 26, 2015

Elon Musk e Jeff Bezos

Final de ano é época de se fazer um “pit-stop” no Brasil. Escrevo este último post de 2015 em São Paulo. Daqui, a visão do ano que passou é muito negativa. Somos contaminados por tantos que querem sair do país, que temem o agravamento da crise ou, simplesmente, não aguentam mais esse mar de lama. Em janeiro, volto a falar dos problemas nacionais. Hoje, não.

Hoje é dia de falar sobre algo mais positivo. E se há algo que me impressionou neste final de ano, foi a corrida espacial entre os magnatas Elon Musk e Jeff Bezos. Seus últimos foguetes subiram ao espaço e retornaram à Terra.

Vale lembrar que o projeto da SpaceX, de Elon Musk, é bem mais ambicioso. Enquanto a SpaceX coloca satélites em órbita, a Blue Origin, de Jeff Bezos, faz vôos sub-orbitais, provavelmente destinados ao futuro turismo espacial.

O reaproveitamento dos foguetes chama a atenção como caminho ideal para o barateamento dos vôos espaciais. Num mundo que clama pela sustentabilidade, faz todo sentido. Entretanto, há controvérsias. Um foguete que vai e volta precisa levar muito mais combustível, pois seu pouso é controlado e consome muita energia. O balanço energético somado à inspeção minuciosa do aparelho a cada reaproveitamento geraria um benefício muito pequeno. Apenas simbólico.

Se Elon Musk e Jeff Bezos vão baratear ou popularizar os vôos espaciais, eu não sei. O bom dessa história toda é o seu empreendedorismo, a vontade de inovar, a disposição de assumir riscos e tudo isso sem mamar nas tetas do governo. Bem, prometi que não ia falar do Brasil.

Por incrível que pareça, existem muitos Elon Musk e Jeff Bezos por aí. O problema é que eles nem sempre encontram as mesmas oportunidades. Pelo contrário, só encontram dificuldades. Estados controladores, burocráticos e insaciáveis. Bem, prometi que não ia falar do Brasil.

Elon Musk e Jeff Bezos são dois visionários e jamais se acomodam. Como diria a velha propaganda do Bamerindus, são gente que faz! Gente que faz e alimenta nossos sonhos e esperanças por um mundo melhor. A todos vocês, boas festas e um grande 2016!



Foto:  Saudações do tocador de realejo da praça central de Antuérpia. Notem que o aparelho funciona com cartões perfurados.  Bem, também não vou falar sobre a história da computação.

Sunday, March 1, 2015

Petróleo barato

De uma maneira geral, todos sabem quem ganha e quem perde com o petróleo barato. Os consumidores norte-americanos e europeus ganham. A China e o Japão ganham. A Rússia, a Venezuela e os países árabes da OPEP perdem. E o Brasil, ganha ou perde? Quem sabe?

Não tenho acompanhado as notícias de perto para arriscar um palpite. O preço do combustível ao consumidor nunca acompanhou as oscilações internacionais. A Petrobrás sempre foi usada como um braço do governo (não só para roubar). A autosuficiência é uma história antiga, mas cada ano tem uma desculpa diferente para se importar petróleo ou exportar excedentes a preço de banana.

A verdade é que, independentemente das razões, boa parte do mundo comemora a baixa do combustível. As combalidas economias europeias ganham fôlego. Os EUA solidificam a retomada. E o Brasil, mais uma vez, fica de fora.

Ninguém sabe quanto tempo vai durar essa fase de baixa. Apesar de estar ancorada no crescimento da extração de gás nos Estados Unidos, a queda provém de uma decisão da Arábia Saudita, no sentido de preservar seu mercado ou “quebrar concorrentes”, como arriscam alguns jornalistas.

Em briga de elefantes, sobra para a grama. O nosso pré-sal, por enquanto, é grama. E se o petróleo permanecer barato, o projeto do pré-sal torma-se inviável. Mais um rombo bilionário na breve história do petróleo brasileiro. Incompetência e corrupção andam sempre juntas.





Foto:  Passeio de final de semana em Antuérpia. Na bela Grand-Place, céu azul e temperatura próxima de zero.

Saturday, January 24, 2015

#JeSuisMusulman


Os atentados e as manifestações ficaram para trás, mas o debate continua por aqui. Não é para menos, a questão é muito complexa. Pouco fala-se da grande maioria fiel às causas republicanas,  o “x da questão” é a minoria discordante.

Uma minoria sem dúvidas. Porém, uma minoria de muitos milhares de jovens da periferia.  São aqueles que não respeitaram o minuto de silêncio em homenagem às vítimas, que aderiram às teorias conspiratórias ou que apoiaram explicitamente os terroristas.

É desse meio que saem inúmeros djihadistas. É desse meio que saem futuros terroristas. As periferias das grandes cidades são incubadoras do radicalismo. A França pergunta-se onde errou. Depois de gerações de imigrantes que lutaram pela integração, deparam-se com um sério revés, confrontando-se com a afirmação religiosa e a negação da democracia.

Como disse no primeiro post sobre o tema, misturam-se fatores econômicos, sociais, culturais, entre outros. Os holofotes estão na Educação. Com certeza, há alguma coisa errada nas escolas. Bem, eu não queria estar na pele dos professores, que dão aulas em salas onde  metade dos alunos chama-se Mohamed.

Circulando pelas ruas de Paris e Bruxelas, ainda percebemos o estado de alerta. Soldados e policiais estão em todos os lugares, sem contar o pessoal da inteligência. Para acompanhar um potencial terrorista, a França mobiliza um overhead de 20 a 25 agentes. A ameaça terrorista em si é capaz de sangrar ainda mais a já combalida economia.

Se existe um lado menos triste nesta história, é a visibilidade que ganhou o quase falido Charlie. Graças aos terroristas, suas caricaturas espalharam-se pelo mundo. Nunca a blasfêmia fez tanto eco. Maomé tem mesmo que chorar.



Foto: Um outro cantinho simpático de Bruxelas, perto de casa, o Egmont Park, que abriga a "brasserie" mostrada na foto.

Tuesday, February 25, 2014

Neymar

Demoraram, mas acordaram. A blogosfera e a imprensa finalmente perceberam que o caso  Neymar não é apenas um escândalo catalão. Aleluia!

Desde o primeiro dia, soube que fomos lesados. Nós?! Claro, não se rouba o governo, roubamos uns aos outros. Acho que não preciso explicar isso para o leitor deste blog.

A sonegação do craque deve ser da ordem de dezenas de milhões de reais. Muitos políticos já foram crucificados por muito menos. São dois pesos e duas medidas?

Se quisermos ser um país sério, a regra deve valer para todos: estrelas do esporte, astros da televisão e até os mais renomados profissionais liberais.

A verdade é que existe uma classe de celebridades, acima do bem e do mal, que sonega descaradamente. Relação trabalhista vira contrato empresarial, CPF vira CNPJ, salário vira royalty, o banco da esquina vira banco uruguaio, etc. Tudo na maior cara de pau!

O povão entendeu com muito custo a injustiça da Copa. Talvez não entenda o caso Neymar. De qualquer modo, quem carrega nas costas a maior parte da carga tributária não é o povão, somos nós. Sim, vamos pagar tudo o que o Neymar sonegou. E existem vários Neymars por aí.


Foto: Museu Marítimo de Amsterdam (ótimo programa) e a réplica do velho Amsterdam.

Sunday, February 16, 2014

Alçapão

Fico perplexo com algumas bobagens que circulam pela Internet. Artigos falsos ou imagens manipuladas passam por milhões e muitos desses são bem intencionados. Ainda pior, são meus amigos no Facebook!

Poucas dicas são suficientes para poupar qualquer um do constrangimento de espalhar notícias falsas. Por exemplo, se encontrar uma matéria dizendo que a Dilma quer revogar a Lei da Gravidade, não repasse de imediato. Desconfie! Se a matéria for atribuída ao Globo, vá ao site do mesmo e confira. Senão, use o Google e busque “Dilma Revogação Lei da Gravidade”.

Redistribuir informações diretamente das páginas de fontes consagradas oferece menos riscos. Evite aqueles blogs quase desconhecidos ou textos copiados e colados no Facebook. Mesmo com todos os cuidados, o risco de retransmissão de algo ruim sempre existe.

Recentemente, também fui vítima de um golpe jornalístico. Nos primeiros dias de Sochi, a NBC publicou um “scoop”. Sua matéria alertava que, chegando-se à sede dos Jogos, todo celular era instantaneamente "hackeado”. Retransmiti a matéria pelo Twitter. Eu e milhares de pessoas.

Achei a notícia interessante, pois serve de alerta para o potencial de bisbilhotagem possibilitado pela tecnologia, sobretudo quando está nas mãos de um governo muito mais bandido do que aquele que patrocina a NSA. 

Os smartphones realmente podem ser violados dessa forma. Já foi o tempo em que para ter seu celular invadido era necessário baixar um aplicativo podre ou clicar num endereço suspeito. Basta receber um torpedo camarada e PUFF, já era! Se você for escolhido como alvo dos hackers, a invasão pode vir pelo wifi, bluetooth ou pela porta dos fundos. 

Ficou preocupado? Ótimo, era isso mesmo que eu queria. Siga os conselhos do seu consultor de TI preferido e não transforme seu aparelho num repositório de intimidades. 

Voltando aos Jogos. Alguns jornalistas mais sérios perceberam os erros e a manipulação escancarada da NBC. Nas horas seguintes, todos desmentiam - e eu também - o alçapão digital de Sochi. 

Entretanto, não devemos nos iludir: 1) A Rússia monitora tudo o que se passa em Sochi de uma forma muito mais brutal do que a NSA. 2) Usando a velha máxima dos computadores, celular seguro é celular desligado.


Foto: Outra cena de Amsterdam.

Thursday, January 9, 2014

A hora da caça

A explosão de violência no Maranhão é só uma face da migração da criminalidade do eixo Rio-São Paulo para o resto do país, especialmente para o Nordeste. Os índices relativos de homicídios das capitais nordestinas são dignos da Venezuela.

O quadro faz lembrar um capítulo da história da aventura humana, como conta Jared Diamond em "Armas, Germes e Aço".

Os homens primitivos espalharam-se pela Ásia e Europa a partir da África. Com as habilidades que os diferenciavam dos outros animais, tornaram-se exímios caçadores. Neste processo, as caças também evoluíam. Sobreviviam aquelas que tinham o reflexo da fuga, que não caíam nas armadilhas mais básicas e assim por diante. Ao longo de milênios, tal interação fez do homem um grande caçador e também permitiu a seleção dos animais mais espertos.

Em algum momento da história, nossos ancestrais entraram na Oceania e na América. Lá, os hábeis caçadores encontraram animais que jamais haviam convivido com o homem. Foi uma festa, pois caçá-los era muito fácil. Foram séculos de fartura e muito churrasco até a extinção completa dos grandes mamíferos dos dois continentes. A falta desses animais foi um dos fatores que condenaram ao atraso civilizações como as pré-colombianas e os aborígenes australianos, que não tinham animais de porte para puxar o arado, para o transporte e nem mesmo para uma alimentação correta.


Voltando ao século XXI. No Rio e em São Paulo, a polícia e os bandidos também evoluíram juntos. À cada ação de um lado, uma reação do outro lado. Após décadas jogando de caçador e caça, atingimos um certo equilíbrio. E o que acontece quando a bandidagem dessas cidades chega aos outros estados, onde encontra um corpo policial subdimensionado, despreparado e desequipado? A resposta é óbvia, a hora é da caça. Assim como é óbvio tudo que os governos devem fazer para reverter este quadro.

Nossos índices de violência são muito altos. Nem mesmo todo crescimento dos últimos anos não foi capaz de melhorá-los. Compreendo a visão humanista que norteia os partidos como PT e PSDB, mas clamo por uma ação mais enérgica. Sob o risco de que, amanhã, um espertalhão chegue ao Planalto prometendo apenas "colocar a ROTA na rua".


Foto: Última foto de San Diego, ainda no Balboa Park.

Wednesday, January 1, 2014

2014 - Prólogo

2014 já estava destinado a ser um ano do esporte, especialmente para nós brasileiros. É quase certo que não daremos muita bola para os Jogos Olímpicos de Inverno, mas o clima de Copa do Mundo por aqui deve ter poucos similares no planeta.

Os últimos acontecimentos garantirão que o esporte cumprirá seu papel de grande circo. Em 2014, acompanharemos as recuperações do Anderson Silva e do Michael Schumacher, além dos esforços para se realizar algum campeonato brasileiro de futebol.

As eleições gerais ficam num segundo plano. Talvez seja melhor assim. Como escrevi em "Eco", não adianta dizer para vocês que o governo da Dilma é ruim, por que vocês já sabem. Não adianta dizer que estamos sendo roubados, por que vocês já sabem. As eleições do ano que vem podem expelir um ou outro "ficha suja", mas, no geral, não devem mudar o quadro político.

Nesses dias entre Natal e Ano Novo, percebi como é difícil derrotar qualquer presidenciável herdeiro de Lula. Os inúmeros críticos do PT são unânimes em relação à sua fraqueza ética. No resto, há divisão. O PT agrada e desagrada à esquerda, assim como agrada e desagrada à direita.

Um esquerdista puro provavelmente está furioso com a recente onda de privatizações. Também não aprecia a forte influência do lobby religioso no governo. Já o direitista não suporta o tamanho da máquina governamental nem a extensão dos programas sociais.

Face ao programa frankensteniano do PT, tanto a direita como a esquerda têm dificuldades de se opor totalmente. Não dá para ser coerente. Além do mais, as escolhas de Lula e Dilma  estão alinhadas à opinião pública. Talvez seja por isso que os candidatos da oposição sejam tão facilmente pulverizados. A oposição deve procurar um outro caminho. Por enquanto, só um candidato do PT poderia bater o próprio PT.

Finalmente, lembro de mais um assunto sério de 2014, o centenário do início da Primeira Guerra Mundial. Levantei o tema em 2012 no post "No Reino da Dinamarca". Voltarei a ele antes da Copa ;-)


Post de 17/10/2012 - "No Reino da Dinamarca"


Foto: O "Botanical Building" do Balboa Park em San Diego.

Sunday, December 22, 2013

ET


Há poucos dias, um colega postou um texto sobre ETs no Facebook e recebeu um comentário irônico deste blogueiro. Neste post, esclareço a minha posição sobre um tema que, com frequência, mistura coisas sérias e não tão sérias, ciência com crendices.

Pela dimensão do Universo, acredito que seja muito difícil não haver alguma forma de vida além da Terra. Que sejam simplesmente bactérias, em algum lugar, a vida existe. Isso, para mim, é quase certo.

Uma coisa é perguntar se há vida lá fora, outra é perguntar se nos encontraremos algum dia. Pelo imensidão do Universo e considerando que ele continua em expansão, muito provavelmente, nunca encontremos outros seres.

Do nosso lado, o melhor que fazemos hoje é rastrear sinais vindos de outros mundos. Notem que esses sinais foram emitidos há milhares de anos, o que tem suas limitações. Nós mesmos começamos a exportar “ondinhas” detectáveis lá fora há pouco mais de um século.

Pensando no contrário, poderíamos imaginar uma civilização muito mais evoluída, capaz de cruzar o espaço - desafiando o nosso conhecimento atual – para nos brindar com uma visita? Sim, por que não?

A vida que conhecemos é fruto de uma sucessão de eventos ao longo de milhões de anos. Nesse contexto, mil anos, por exemplo, não é nada. Comparem o que existia de tecnologia em 1014 com 2014. Dá para extrapolar para 3014? Certamente haverá tecnologias que julgamos impossíveis hoje.

Por isso, não descarto que sejamos visitados por ETs algum dia. Só teimo em acreditar que eles atravessem o Universo para visitar Varginha e Roswell. Isso sim é brincadeira!


A todos vocês, boas festas e um 2014 de outro planeta!



Foto: Pôr do sol na praia de Coronado, em San Diego.

Thursday, December 19, 2013

Escolhas


Alguns assuntos que foram notícias durante a semana mostram como a nossa sociedade é complexa. Na mão dos líderes daqui e dali, não existem decisões óbvias.
  • Um dos debates paulistanos é a circulação de táxis nos corredores de ônibus. A sua proibição traz benefícios evidentes para a maior fluidez dos coletivos. Por outro lado, acredito que um sistema de táxi rápido e competitivo complementa o próprio transporte coletivo. É essencial para os negócios da cidade e pode ser um fator de peso numa decisão de se abandonar o carro próprio.
  • Há três anos, fiz um post satirizando a demora na decisão de compra dos novos caças da FAB. Outra questão difícil, cada alternativa tinha seus prós e contras. A opção sueca agrada aos militares. O Lula tinha uma visão mais política dessa compra. Concordo com ele, pois uma parceria com a França ou Estados Unidos poderia ser muito mais ampla, envolvendo trocas mais importantes do que apenas os aviões.
  • O governo desconversa quando é questionado sobre o pedido de asilo do Snowden. De fato, a coisa parece não ter sido formalizada corretamente. Snowden pode ser um “mico”, mas também pode trazer um pouco mais de brilho e protagonismo ao Brasil no debate global sobre privacidade.  Não seria ruim para os EUA. Afinal, qualquer coisa é melhor do que deixá-lo sob a guarda do democrático e honesto Putin.
  • Ainda sobre o Snowden, é difícil de acreditar que o assunto não esteja na pauta diária da Casa Branca. Quando escrevi meus posts sobre o caso, não imaginava um estrago tão grande. Há uma série de repercussões negativas internas e externas, gerando desgastes e perdas econômicas. Os EUA devem negociar com Snowden? Ó dúvida cruel! Acho que sim. Tudo indica que tenha revelações ainda mais bombásticas e não esteja blefando. Bem, neste caso ainda é preciso encontrar uma saída honrosa para o pessoal de Washington.

Enfim, neste post mostrei quatro decisões difíceis. Nenhuma seria isoladamente certa ou errada. Talvez não façam sentido sozinhas, estão inseridas dentro de um contexto, associadas a outras escolhas. Ao final, julgaremos Haddad, Dilma e Obama pelo “conjunto da obra”. Como disse Camus: “A vida é a soma das nossas escolhas”.


Foto: Jardim japonês do Parque Balboa em San Diego.

Saturday, December 14, 2013

Santos e humanos


Impressionado com a unanimidade em torno de Nelson Mandela? Difícil achar algum artigo fazendo críticas a este grande personagem do nosso tempo. Gostei muito de um artigo de Adam Roberts, republicado no Estadão. Começa assim: “Devemos lembrar do maior ícone da luta contra o apartheid na África do Sul como uma figura humana calorosa e poderosa, um homem político e pragmático, mas não como um santo”.

Mandela está longe de ser um santo. Vê-lo dessa forma seria uma espécie de fuga. Seria messianismo ou, como diz o Arnaldo Jabor, o Sebastianismo luso-brasileiro. Seria acreditar que as grandes mudanças dependem exclusivamente de um salvador. Um convite a se aceitar qualquer situação, por pior que seja, por que somente o salvador poderá resolvê-la.

Nada disso. Mandela cometeu inúmeros erros. No seu governo, houve inúmeros casos de corrupção, compadrio e outras coisas tão comuns por aqui. Há também o escandaloso descaso com a AIDS e a eterna acusação de peleguismo pelos negros mais radicais. Nada disso tira o seu grande mérito. É um ser humano como todos nós, que também erra e tem seus vícios, mas fica para a história como aquele que possibilitou o fim de uma das maiores vergonhas do planeta. O homem certo, na hora certa, no lugar certo.


Obama desceu do pedestal e também mostrou seu lado mais humano. Acho que não houve malícia naquela animada conversa entre ele e os líderes do Reino Unido e da Dinamarca. Aquele momento tão à vontade provocou uma reação também muito humana da Michelle. Infelizmente - ou felizmente - as câmeras registraram tudo. Parodiando o velho ditado: O marido da primeira-dama não basta ser honesto, precisa parecer honesto.


E quem precisa parecer um pouco mais honesto é o governo brasileiro. Não falo de nenhum escândalo recente de corrupção, falo da possibilidade de se adiar a obrigatoriedade de uso de freios ABS e airbags a partir de janeiro de 2014. O Brasil já está atrasado nesse quesito e essa medida propiciará que muitas vidas sejam salvas. Conforme a resolução de 2009, a indústria já está preparada para o fim dos carros sem freios ABS e airbags. A essa altura do campeonato, trocar muitas vidas humanas por alguns décimos de inflação é imoral. O governo poderia até fazer suas contas, mas sem contar para ninguém!


Foto: Para quem gosta da temática militar, a visita ao Midway é um dos programas de San Diego. 

Saturday, December 7, 2013

Mandíbula


Agora ninguém mais segura, entramos no clima de Copa do Mundo. Com a realização do sorteio das chaves, a elite do pensamento nacional começa uma longa fase de conjecturas. Logo mais, aparecerão os "bolões". Aqueles nos quais você coloca toda sua sapiência e conhecimento futebolístico, mas, no final, quem ganha não sabe nem o que é impedimento.

Não tenho nada contra o mundo mágico futebol. Pelo contrário. Só espero que sobre algum espaço na mídia para se continuar tentando melhorar o país, investigando e denunciando.

Nos últimos dias, cheguei à conclusão que a imprensa deve dar mais espaço ao ex-presidente Lula. Deixem-no falar. Dêem-lhe cordas. A história recente do país só tem a ganhar.

A mídia assinalou muito bem três lapsos recentes de Lula. O primeiro foi o escandaloso "estamos juntos", dito pelo telefone ao presidiário José Dirceu. Dispensa comentários.

No segundo, talvez menos espetacular, disse "a lei só vale para o PT", reconhecendo que o STF, liderado pelo lunático Joaquim Barbosa, aplicou a lei.

Ontem, ao receber o título de doutor honoris causa da UFABC (!), dirigiu-se a Dilma e esbravejou: “Depois que ele se forma doutor, não espere que ele ficará agradecido. Ele vai para a rua fazer manifestação contra você”. Lula finalmente reconheceu que as manifestações também foram contra o governo petista, contrariando todo o esforço dos seus companheiros.

Enfim, deixem o Lula falar! Atos falhos podem não ser aceitos como provas criminais, entretanto a sociedade clama por esclarecimentos sobre seus laranjas, filhos e amantes. O Brasil sempre sonhou ter um líder como Madiba, mas ganhou mesmo uma grande mandíbula.


Foto: Montagem com algumas fotos tiradas no zôo de San Diego, um dos melhores e maiores parques do gênero do mundo.