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Thursday, September 10, 2020

O dilema das redes




 

Fiz alguns posts recentes sobre redes sociais, fake news e manipulação. A proposta deste blog não é mergulhar nesses temas, mas chamar a atenção dos leitores e, eventualmente, mostrar outras referências.

Nesta semana, a Netflix lançou o documentário “O dilema das redes”, que consegue ser bastante didático. Se você ainda tem dúvidas sobre o aspecto mais nefasto das mídias sociais, vale à pena investir pouco mais de 90 minutos.

Já mencionei em aulas e palestras aquela máxima conhecida nos meios da tecnologia: se você não está pagando pelo produto, então você é o produto. Pela cara de surpresa das pessoas, sinto que muita gente ainda precisa de esclarecimentos. Eis a oportunidade!

O documentário passa pelos temas recentemente comentados neste blog: efeito bolha, manipulação, fake news, polarização, etc. Também explica o mecanismo da criação da dependência tecnológica e seu consequente impacto comportamental.

Os inúmeros depoimentos que enriquecem o filme não vieram de revolucionários ou sonhadores. A maioria vem de ex-profissionais do Facebook, Google e outras empresas. As poucas referências acadêmicas mencionadas no documentário são respeitadas. Por exemplo, acompanho a Profa. Shoshana Zuboff (Harvard) desde os anos 80, quando publicou “In the age of the smart machine”.

Um aviso aos apressados: assistam o filme até o fim, pois os depoimentos que acompanham os créditos têm um valor prático inestimável.

Para quem quiser ir mais longe, na próxima semana, será lançado um livro muito esperado sobre o assunto: The Hype Machine de Sinan Aral, que aprofunda os mesmos conceitos abordados no filme.

Vale lembrar que tanto o filme como o livro focam nos aspectos negativos das mídias sociais. A proposta não é combater a tecnologia, as empresas ou seus executivos. A ideia é fazer a sociedade compreender os seus malefícios para que juntos possamos aperfeiçoar os seus modelos e a sua governança.


Foto: Na última etapa das férias de verão de 2016, mais descanso num resort da Ístria (Croácia). A foto mostra o anfiteatro romano de Pula (século I).


Leitura complementar:

Eu, você e o Mark (2020) - Post recente sobre o Facebook

Eco (2013) - Quando falei sobre o efeito bolha em 2013.

The social dilemma - Site dos organizadores do documentário.

 


Thursday, August 6, 2020

Eu, você e o Mark

No último post, falei sobre o imbróglio envolvendo as gigantes da tecnologia, as Big Tech. Embora as práticas anticompetitivas sejam o tema comum entre elas, os problemas estão longe de ser do mesmo tamanho.

Ousando uma enorme simplificação, diria que a Apple merece um puxão de orelha. O Google e a Amazon talvez mereçam o dobro. Seria algo como a dizer: joguem limpo, pois estamos de olho! 

Já com o Facebook, é uma outra história. Acredito que esteja numa enrascada. Por mais que o congressista norte-americano se esforce, será difícil desconectar a concentração de mercado das questões de manipulação das redes sociais (fake news & cia), que são ameaças reais à democracia. Sem querer menosprezar a questão econômica, acredito que seja muito menos complexa do que a sociopolítica. Até porque ninguém sabe como lidar com isso.

O assunto está em pauta em todo mundo. Depois das evidências de interferências em todas as eleições recentes, com mais ou menos impacto, uma resposta da sociedade é imperativa. O problema é o arbítrio entre o controle necessário e a liberdade de expressão e privacidade.

Felizmente, existem alguns caminhos no horizonte. O próprio “PL das fake news” nacional inclui bloqueio de envios em massa, suspensão de contas, controle de robôs, remoção de conteúdo, moderação, responsabilização, etc. Segundo os especialistas que o acompanham, está longe da perfeição, mas já é um grande avanço.

Um dos maiores pesquisadores do assunto, Sinan Aral (MIT), acrescenta que é preciso muita atenção ao modelo econômico das mídias sociais. Segundo ele, fake news são antes de tudo caça-níqueis, notícias criadas para atrair cliques, com ou sem o intuito manipulatório. Num artigo publicado na Science, ele demonstra que as fake news espalham mais simplesmente porque são mais fresquinhas. É o efeito Tostines.

O suposto monopólio do Facebook não é tão ruim. Afinal, uma rede social é boa, quando encontramos todo mundo por lá. Foi no Facebook, que reencontramos os amigos do passado. É pelo Facebook, que muitos dos meus leitores acessam este blog. É também nas ferramentas do Facebook, que vivemos grande parte dos problemas mencionados neste artigo.

O Facebook está na berlinda há algum tempo. Não é à toa que mesmo sendo um verdadeiro tesouro, sua valorização fica muito aquém das demais Big Tech. A postura do seu fundador e CEO tem despertado desconfiança e confronto. É hora de prestar atenção à sociedade, negociar e tirar a empresa da mira dos holofotes.

Aliás, eu iria mais longe. Se fosse o Mark Zuckerberg, pendurava as chuteiras. Fazia como a Microsoft e o Google, contratava um indiano empático para gerir seu império. Ou então, promoveria a atual COO Sheryl Sandberg a CEO. Mark poderia montar sua própria fundação e uma holding para gerir seu patrimônio. De vez em quando, iria à reunião do conselho e, sobretudo, não atrapalharia a/o CEO.

 

 

Foto: A Galeria Nacional Húngara situa-se no Castelo de Buda, que foi residência real da Hungria. O local do castelo, uma colina às margens do Rio Danúbio, teve esse fim desde o século XIII, porém houve diversas destruições e reconstruções. Foto de 2016.