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Friday, February 4, 2011

Vacas gordas

Voltei há poucos dias e demorei mais do que imaginava para escrever um novo post. Em compensação, o post anterior foi tão terrivelmente preciso, que merecia mesmo ficar em destaque por tantos dias.

Esquecendo o "dominó árabe", voltemos ao Brasil e a França, que estão envolvidos numa disputa diplomática. Sarkozy assumiu a presidência do G20 com promessas de regularização dos mercados financeiros e agrícolas. Está na pauta do presidente francês a tributação de todas as transações financeiras internacionais. O dinheiro arrecadado financiaria os países mais pobres. Ele fala numa nova ordem monetária e combate aos mitológicos especuladores.

O presidente também acredita que a alta dos alimentos pode aumentar a fome no mundo, daí a importância da regulação dos mercados agrícolas, também sujeitos às ações dos misteriosos especuladores.

Sarkozy ainda quer que o modelo francês de proteção social inspire o mundo inteiro. O discurso é bonito e surpreendente para um homem de direita. E com uma direita dessas, quem precisa de esquerda?

Isso tudo é jogo para a torcida. Apesar da sua baixíssima popularidade, lances mágicos desse tipo deixam a oposição perdida e podem ressuscitá-lo nas urnas em 2012. O provável candidato da oposição, Dominique Strauss-Kahn, na melhor das hipóteses, proporia a mesma coisa.

A questão agrícola é complexa. Efetivamente, a alta dos preços dos alimentos puxada pelo consumo chinês é uma ameaça à estabilidade das nações mais pobres. Sabemos que Sarkozy não está muito preocupado com a Tanzânia ou o Peru, mas com as próprias tribos gaulesas, cada vez mais iradas.

A equipe da Dilma já mandou o recado: Por que quando as cotações estão em baixa ninguém fala em regulação de mercados?

O Brasil apoia o combate à especulação, mas não o controle de preços. Do jeito que andam as grandes negociações diplomáticas internacionais, o Brasil não precisa se preocupar. Quando sair alguma regulação, os preços estarão deprimidos, seja quem for o presidente do G20 ou da França. Tempos de vacas gordas e vacas magras se alternam desde os tempos bíblicos.



Foto: Desde a minha última estada em Cingapura, a maior novidade foi a inauguração do complexo do Marina Sands. Um pedaço de Las Vegas na bem comportada Cingapura. O destaque é o "navio" que fica na cobertura das três torres.



Monday, December 21, 2009

Vinum Nostrum

No mundo do vinho francês, há uma grande pressão para a adoção da agricultura orgânica, evitando-se as peripécias bioquímicas, que fazem verdadeiros milagres, só comparáveis àqueles do marketing.

Como citei há meses,‭ ‬trapacear na produção de vinho dá cadeia.‭ A‬pesar de toda fiscalização,‭ ‬ainda há fraudes. Também há muitas coisas que não são ilegais, mas poderiam ser evitadas.‭ ‬A videira e o vinho recebem defensivos,‭ ‬fertilizantes,‭ ‬leveduras,‭ ‬bactérias,‭ ‬enxofre,‭ ‬acidulantes e ‭açúcar.‬ ‭A adição de tantas substâncias estranhas nega a própria essência do vinho francês, a cultura do "terroir". ‬Enfim,‭ ‬é muito espaço para criatividade. A indústria do vinho percebeu os abusos e está se ajustando.‭ ‬Melhor assim.

O vinho orgânico ainda é raro.‭ ‬Nessas feiras de vinhos tão comuns na França,‭ ‬pude encontrar alguns produtores.‭ ‬Eles confirmam o desafio de se seguir a cartilha do orgânico,‭ ‬mas o esforço é recompensado.‭ P‬roduz-se menos,‭ porém‬ com mais qualidade. No lançamento do Beaujolais Nouveau 2009, um produtor quase me convenceu. Após meia hora de conversa e muita degustação, eu acabei levando uns seis litros de suco de uva.

No Le Monde,‭ ‬li um artigo sobre um produtor da Borgonha que usa apenas cavalos na sua fazenda.‭ ‬Fazer uma máquina motorizada passear pelos vinhedos seria um crime,‭ ‬segundo ele.‭ ‬No seu site,‭ ‬há diversos equipamentos para videiras e cavalos. Exagero? Talvez, mas simboliza este movimento para um vinho mais artesanal.

Alguns vinicultores querem ir mais longe,‭ ‬incorporando o conceito de sustentabilidade,‭ ‬isto é,‭ ‬a plena responsabilidade com o meio ambiente e a sociedade em toda a cadeia do vinho, das videiras à distribuição do produto.‭ ‬Nada contra‭!

Se tudo isso é muito novo,‭ ‬vale lembrar que foi justamente a vinicultura que encontrou uma solução orgânica para uma das pragas mais devastadoras da história,‭ ‬a Filoxera. Qualquer pessoa que tenha feito pelo menos um curso de vinho conhece o assunto.‭

Filoxera é um pulgão de origem norte-americana que destruiu grande parte dos vinhedos do mundo em meados do século XIX.‭ ‬Combateram a praga com todos os inseticidas possíveis sem quaisquer resultados.‭ ‬A economia francesa sucumbiu. Os vinhedos mais prestigiados do mundo definharam. Até hoje não existe defensivo agrícola para a Filoxera.‭

A solução encontrada para salvar o vinho foi puramente empírica. A sua base científica seria publicada alguns anos mais tarde: A Teoria da Evolução de Darwin. Observou-se que as uvas americanas resistiam à Filoxera.‭ ‬Por que‭? ‬Como o inseto era natural da região,‭ ‬a convivência dos dois, insetos e vinhas, promoveu a chamada seleção natural.‭ ‬Ou seja,‭ ‬num passado muito remoto,‭ ‬havia videiras mais ou menos resistentes ao inseto.‭ ‬As menos resistentes foram extintas,‭ ‬as mais resistentes sobreviveram e se multiplicaram.‭ N‬o decorrer do tempo,‭ ‬os insetos foram selecionados pela capacidade de se alimentar das videiras; e essas pelos seus mecanismos de defesa.‭

Quando a Filoxera chegou acidentalmente à Europa, encontrou videiras que não passaram por esse longo processo, logo, sem defesas. Por isso, murcharam até morrer. ‭Como a seleção natural pode ter levado muitos séculos e não se conhecia a manipulação genética, ‬a única solução possível foi replantar as uvas americanas em quase todo o mundo.‭ ‬Feriu profundamente o orgulho dos franceses. Até hoje, toda videira francesa é plantada sobre uma americana. Solução 100% eficaz e natural.

In vino veritas: Charles Darwin é o verdadeiro Papai Noel.

Boas festas, um ótimo 2010 e saúde!



Foto: O Château de Suze-la-Rousse e as suas videiras. O castelo da Drôme (entre Lyon e a Provence) é sede da Universidade do Vinho.


Wednesday, August 12, 2009

Bio

Ainda falando em comida, a onda dos produtos orgânicos também é bem significativa por aqui, onde são conhecidos como "bio". Na realidade, é mais do que um nome. Bio é uma marca controlada pelo governo que garante a origem do produto.

Recentemente, colocaram fogo no debate sobre os produtos bio, razoavelmente mais caros do que os comuns. Cientistas ingleses mostraram que não há diferenças nutricionais significativas entre os produtos orgânicos e os demais. Contudo, a diferença relevante está no processo de produção agrícola em si, que usa menos recursos naturais e evita os defensivos sintéticos. Enfim, é o planeta que agradece.

Desde que cheguei aqui, sempre comprei alguns produtos bio. Como não conhecia quase nenhuma marca local, foi uma referência.

Quem também agradece é o bando de José Bové. Passaram boa parte da vida queimando McDonalds sem saber como salvar o pequeno agricultor não competitivo. A solução é o bio “made in France”. Como uma poção mágica enviada pelo remoto Panoramix ao líder agrário Bovix.


Foto: Mais uma tomada de Annecy na Savóia. Tem pelo menos dois leitores deste blog que já estiveram por lá e a consideram entre as suas cidades preferidas!