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Sunday, February 13, 2011

Nokia. Tudo ou nada!

Nos últimos dias, troquei diversos tweets sobre o acordo Nokia-Microsoft. Vou usar este meu espaço para esclarecer a minha opinião.

Em primeiro lugar, toda discussão em torno da Nokia é símbolo dos nossos tempos. Há pouquíssimo tempo, o grupo finlandês era referência mundial de gestão e inovação. Conquistaram 40% do mercado de celulares, desbancando gigantes como a Motorola, Sony, Ericsson e tantos outros.

Dois outsiders entraram no jogo e mudaram tudo. A Apple, com o iPhone, cujo sucesso dispensa comentários. E, ainda mais surpreendente, o Google, com a escalada do seu sistema operacional, o Android, que assumiu recentemente a liderança do mercado.

Tarde demais para reagir, o sistema operacional da Nokia, o Symbian, parece mesmo virtualmente morto. Com o seu market-share sendo comido todos os dias, resta à Nokia a triste opção de aderir aos sistemas existentes. Como a Apple não está disposta a compartilhar o seu, na verdade, as alternativas são duas: O líder Android, adotado pela maioria dos perseguidores da Nokia na liderança do mercado, e a promessa da Microsoft, o Windows Phone, com uma penetração de mercado muito aquém de marginal.

Dar tiro no pé ou na cabeça? Optar pelo Android é bater de frente com Samsung e Motorola. A Nokia pode não morrer, mas já entraria em desvantagem num terreno muito comoditizado. Precisaria de alguns anos para ajustar a sua máquina para encontrar vantagens competitivas em relação aos demais e tentar abocanhar um pedaço dos saudosos 40% do mercado. Enfim, seria jogar pelo empate. Seria uma opção para não morrer.

A alternativa Windows é muito mais arriscada, até por que a sua base de clientes é quase nula. Porém, a experiência de ambos, Microsoft e Nokia, pode gerar um produto diferente e, por que não dizer, melhor do que o Android. Nesse caso, a Nokia estaria de novo a frente dos seus concorrentes. Claro que é uma aposta de risco. É tudo ou nada.

Apenas para clarificar, sei que existem outros players nesse mercado: O moribundo Palm (HP) e o Blackberry (RIM). O Palm morreu mas esqueceram de avisar a HP. Dizem por aí que a RIM já estuda a sua adesão ao Android.

Meu Deus! Este post parece um cemitério da tecnologia...


Foto: Última foto de Cingapura, a famosa piscina dos jardins suspensos do Marina Sands.

Monday, February 7, 2011

Céline?

Quem digitar "Céline" no Google encontrará menções e fotos da popular cantora canadense Céline Dion. No mundo virtual, a artista coloca um dos maiores nomes da literatura francesa, Louis-Ferdinand Céline, na obscuridade. Ele faz por merecer.

Na França, acompanhei as discussões sobre as homenagens ao cinquentenário da morte de Céline. Após intensa mobilização de Serge Klarsfeld, o Ministro da Cultura Frédéric Miterrand cancelou o evento oficial. Céline pode ter sido um grande escritor, mas foi um notório colaboracionista e fervoroso antissemita, contrapondo os valores fundamentais da nação francesa.

Mexer nesse assunto é colocar o dedo na ferida da França, mas bem que se trata de uma questão universal. Certamente, encontraremos paralelos em outros lugares do mundo. O filósofo Bernard-Henri Levy, por exemplo, preferia manter o evento oficial. Segundo ele, é preciso mostrar o mistério que faz de uma pessoa um grande escritor e um perfeito canalha ao mesmo tempo.

Outros intelectuais franceses se apegaram às questões semânticas. Afinal, estamos falando de comemoração ou celebração? Luc Ferry, filósofo já citado neste blog, prefere combater ambas as formas e acabar com essa mania de olhar para trás. Diz ele: Podemos ler e descobrir Céline, mas, como diz o Evangelho "Deixai os mortos enterrarem os seus mortos".

Serge Klarsfeld, representante dos descendentes dos judeus deportados, foi dado como grande vitorioso do episódio. Vale ressaltar que o assunto não era unanimidade na comunidade judaica, que talvez preferisse menos barulho. Afinal, Céline não é nem Victor Hugo nem Molière.


Foto: Uma outra tomada do Marina Sands, em Cingapura.

Friday, February 4, 2011

Vacas gordas

Voltei há poucos dias e demorei mais do que imaginava para escrever um novo post. Em compensação, o post anterior foi tão terrivelmente preciso, que merecia mesmo ficar em destaque por tantos dias.

Esquecendo o "dominó árabe", voltemos ao Brasil e a França, que estão envolvidos numa disputa diplomática. Sarkozy assumiu a presidência do G20 com promessas de regularização dos mercados financeiros e agrícolas. Está na pauta do presidente francês a tributação de todas as transações financeiras internacionais. O dinheiro arrecadado financiaria os países mais pobres. Ele fala numa nova ordem monetária e combate aos mitológicos especuladores.

O presidente também acredita que a alta dos alimentos pode aumentar a fome no mundo, daí a importância da regulação dos mercados agrícolas, também sujeitos às ações dos misteriosos especuladores.

Sarkozy ainda quer que o modelo francês de proteção social inspire o mundo inteiro. O discurso é bonito e surpreendente para um homem de direita. E com uma direita dessas, quem precisa de esquerda?

Isso tudo é jogo para a torcida. Apesar da sua baixíssima popularidade, lances mágicos desse tipo deixam a oposição perdida e podem ressuscitá-lo nas urnas em 2012. O provável candidato da oposição, Dominique Strauss-Kahn, na melhor das hipóteses, proporia a mesma coisa.

A questão agrícola é complexa. Efetivamente, a alta dos preços dos alimentos puxada pelo consumo chinês é uma ameaça à estabilidade das nações mais pobres. Sabemos que Sarkozy não está muito preocupado com a Tanzânia ou o Peru, mas com as próprias tribos gaulesas, cada vez mais iradas.

A equipe da Dilma já mandou o recado: Por que quando as cotações estão em baixa ninguém fala em regulação de mercados?

O Brasil apoia o combate à especulação, mas não o controle de preços. Do jeito que andam as grandes negociações diplomáticas internacionais, o Brasil não precisa se preocupar. Quando sair alguma regulação, os preços estarão deprimidos, seja quem for o presidente do G20 ou da França. Tempos de vacas gordas e vacas magras se alternam desde os tempos bíblicos.



Foto: Desde a minha última estada em Cingapura, a maior novidade foi a inauguração do complexo do Marina Sands. Um pedaço de Las Vegas na bem comportada Cingapura. O destaque é o "navio" que fica na cobertura das três torres.



Saturday, January 22, 2011

Dominó árabe

Enquanto a imprensa nacional cobria a tragédia provocada pelas chuvas no Rio, na França, um destaque da mesma proporção era dado à revolução tunisiana. A queda do ditador Ben Ali, fato inédito no mundo árabe, é muito positiva e há razões de sobra para celebrá-la.

Esperamos que a Tunísia encontre o seu caminho para um regime mais democrático. Entretanto, nada garante que esta conquista seja imediata. A derrubada de regimes autocráticos deixa um vácuo de poder e gera conflitos sangrentos entre grupos políticos locais.

A possibilidade de substituição do regime anterior por um outro hostil ao Ocidente também existe. O governo da França, por exemplo, foi desmoralizado por apoiar Ben Ali até seus últimos momentos. Como a Tunísia é um dos países mais "estáveis" da região, com bom nível educacional, tradição secular e intensa cooperação com a Europa, acredita-se fortemente num triunfo democrático.

Daqui para frente, o problema é a influência desta revolução nos países vizinhos. Pode ser o empurrãozinho que faltava para a queda em massa de ditadores de outros países, onde os movimentos islâmicos estão muito mais organizados, como Argélia e Egito. Aí sim, teríamos um quadro bem mais conturbado, que certamente interferirá no equilíbrio das regiões vizinhas (Oriente Médio, Sahel e África Central), para o bem ou para o mal.

E viva o Twitter, o Facebook e o Wikileaks pelo papel chave que tiveram na Tunísia!


Seguindo a recomendação do post anterior, ficarei ausente por alguns dias, me alimentando em cidades mais interessantes e mais econômicas que São Paulo. Até breve!




Foto: Uma outra tomada do centro de Cingapura, a partir do hotel Marina Sands. O céu cinzento e as tempestades de verão perduraram durante a minha passagem. Alguém já viu isso? Notem o estádio de futebol à direita. Será que podemos apresentar um desses à FIFA?

Sunday, January 16, 2011

"Seu garçom faça o favor"

A matéria do Estadão sobre o custo da comida em São Paulo ilustra um tema recorrente deste blog. Durante a minha expatriação, retornei a São Paulo algumas vezes. Frequentando o mesmo grupo de restaurantes e pedindo basicamente os mesmos pratos, constatei um aumento de cerca de 100% nesses quatro anos. Sim, a conta dobrou!

Tenho que organizar uma reunião internacional em São Paulo ao longo de 2011. O orçamento de hotéis e restaurantes convertido para euros ou dólares é um disparate. Melhor seria fazer o evento em outro lugar do planeta.

Escreveu o editor do Paladar: "Meu conselho, para quem tiver condições, é: comam no exterior". Tem toda razão. Pena que não dá para ir almoçar em Buenos Aires todo dia.

A matéria do Estadão aponta claramente o aumento dos custos dos restaurantes (alimentos, aluguéis e salários) como causa principal do fenômeno. Concordo que o fator custos tenha a sua contribuição. Porém, questiono, se não há também o fator de oportunidade (inflação de demanda), pelo fato de mais gente ter passado a frequentar os mesmos restaurantes. Quem sabe, uma combinação dos dois, aumento de custo e demanda.

Com restaurantes caros e restrição na oferta de cozinheiras e domésticas, a classe média mudará os seus hábitos. O mundo dos negócios também. A atratividade de São Paulo, bem como de outras cidades do Brasil, será impactada. Paris, Nova York e outras tantas cidades podem ser caras, mas têm seus diferenciais.

O setor de bares e restaurantes é mais importante do que parece. Não foi à toa que o governo francês abriu mão de parte dos tributos para manter o nível de emprego no setor e uma conta ligeiramente mais baixa para os clientes.

Talvez tenhamos que fazer alguma intervenção por aqui, seja para garantir o custo dos alimentos ou aumentar a competição no setor. Enfim, depois de quase quatro anos na França, essas idéias socialistas acabam passando pela minha cabeça. Acho que estou ficando com fome. Seu garçom faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada...


Foto: Fazendo uma pausa nas fotos da Borgonha, mostro uma meia dúzia de fotos tiradas em Cingapura em dezembro último. Acima, a vista da janela de onde estava hospedado, quando o dia começava a clarear. Bem, toda vez que vou para a Ásia, acordo muitíssimo cedo, até me adaptar ao fuso horário.

Saturday, June 5, 2010

Você sabe que não está no paraíso quando... 2

Se o Big Mac é referência internacional de paridade de poder de compra, o meu indicador de segurança pública é a venda de cartuchos da Gilette. Há muito tempo, os cartuchos mais caros da marca não são acessíveis livremente nas gôndolas. Em alguns lugares, temos que solicitá-los para o caixa. Em outros, os cartuchos vêm com um dispositivo de segurança maior do que eles. Com a tecnologia atual, dá para se garantir a segurança com mais discrição.

O aspecto triste dessa observação é que em quase todo mundo é assim. Já visitei supermercados em inúmeros países. Cingapura foi o único lugar, onde encontrei os produtos da Gilette "leves e soltos", inclusive a linha Fusion. Bem, Cingapura a gente conhece. Tudo tem o seu preço. Mas que foi um barbear inesquecível, isso foi... ;-)


Foto: Ainda na Petite Venise de Colmar, Alsácia.

Thursday, December 11, 2008

Ilha da fantasia 2

Cingapura conseguiu um equilíbrio razoável entre várias etnias e religiões. Chineses, malaios, indianos e os estrangeiros parecem se misturar em paz pelas ruas. Mas é como o Brasil: Cada um sabe onde é o seu lugar!

Muitas indicações e informações são apresentadas em quatro idiomas: Inglês, mandarim, malaio e tamil. A língua oficial é o inglês, mas cada um carrega o sotaque da sua origem étnica. Apesar dos pequenos atritos, no final, eles se entendem. A crescente comunidade do Facebook "I am Singaporean and tired of service staff who can only speak mandarin" atesta o desafio linguístico.

Um site interessante sobre a cidade-estado:
http://www.singaporevr.com/index.html

Na foto acima, uma vista da parte central da cidade.

Ilha da fantasia 1

Acompanhei as recentes turbulências na Índia e Tailândia "de perto", pois estava em viagem por Cingapura e Indonésia.

Cingapura é um dos lugares mais prósperos do mundo, situado entre Malásia, Indonésia e Tailândia, países nada prósperos e mergulhados em conflitos, que podem a qualquer momento contaminar a pequena e feliz Cingapura.

Em pouco mais de 40 anos, a ilha de pobres pescadores livrou-se da Inglaterra e da Malásia e alcançou índices de desenvolvimento incomparáveis, sendo uma das maiores renda-per-capita do mundo.

A receita não é reproduzível, mas vale o exemplo. Como chave do sucesso, a sua inserção no comércio internacional, facilitando os negócios e a vida das empresas. A prosperidade econômica veio com o afluxo de recursos, a vocação de "hub" internacional e um dos portos mais importantes do mundo.

Do ponto de vista político, Cingapura é motivo de piada, com a sua pseudo-democracia (cada cientista dá um nome diferente). O regime autoritário é folclórico, com uma lista extensa de punições, desde multas até a pena capital. Como disse um motorista de taxi para um colega: "Singapore is a fine city. Everything you do, you get a fine".

Na foto acima, o casario de Chinatown. Abaixo, o prédio dos bombeiros, herança colonial.