Showing posts with label Fake news. Show all posts
Showing posts with label Fake news. Show all posts

Thursday, May 16, 2024

Aurora surreal

 

Foi sem querer, eu juro! Acabei ouvindo a conversa da rodinha de senhoras de meia-idade que falavam aleatoriamente sobre muitos assuntos. Pessoas de boas famílias, como se dizia antigamente, o que nem sempre significa boa educação.

Não queria saber da vida delas, mas ouvi algo que me assustou. Dizia uma delas: “Vocês viram essas auroras, que coisa, né? As mudanças climáticas vão trazer muito mais surpresas, aguardem!

Na hora, deu aquela vontade de entrar na conversa e dizer que ela deve ter faltado em muitas aulas na sua juventude. Ela sabe das tempestades solares e sabe das mudanças climáticas. Entretanto, associar as duas coisas é uma barbaridade do naipe do terraplanismo.

Não dá para esperar que todos saibam o que é uma tempestade solar em detalhes, mas o bom senso deveria funcionar. O conhecimento básico do ensino fundamental é suficiente para saber que qualquer coisa que a gente faça aqui neste planetinha não vai afetar aquela gigante esfera de fogo 1,3 milhão de vezes maior do que a Terra.

Parece bobagem, mas educação falha é o terreno fértil para os ‘influenciadores’ espalharem, por ignorância, maldade, ou ambos, as ideias mais idiotas ou maldosas do mundo. Funciona no caso acima, mas também no mundo político, social, econômico, etc.

A pessoa em questão falou besteira sobre mudança climática. Será que ela é melhor quando o assunto é Rússia x Ucrânia, Israel x Hamas, Trump x Biden, etc.? Nem quero saber.

Só a educação liberta. Vagabundos do mundo, vão estudar, por favor!


Foto: Matt Houghton via Unsplash 

Thursday, March 4, 2021

Triste fim de um estimado grupo de Whatsapp

 



Tem sido interessante observar a evolução dos diversos grupos de Whatsapp ao longo dos últimos meses. Desde as últimas eleições talvez. A famigerada polarização destruiu qualquer espírito de camaradagem e, muitas vezes, a própria harmonia familiar.

Tiveram mais sorte os grupos temáticos (e.g. futebol, vinho ou filmes) e aqueles estritamente profissionais. Mesmo nesses últimos, de vez em quando, escapa uma provocaçãozinha, merecedora de reprimenda instantânea.

Discutir política é absolutamente necessário, ao contrário do que preconiza a sabedoria popular brasileira. Faz parte do processo democrático e é essencial para a elaboração da nossa visão de país, para a conciliação em torno das grandes prioridades e para a avaliação dos nossos representantes e instituições.

Reconheço que a armadilha da polarização tem impedido as boas conversas. Com os ânimos tão acirrados, insistir no diálogo é desgastante. Exercendo a cidadania, proporcionamos a cizânia.

Tentei classificar o comportamento dos grupos de Whatsapp remanescentes conforme a sua estratégia de sobrevivência:

 

“O silêncio dos inocentes”: Continuam com um monte de gente, que quase não se manifesta. Foram dominados por aquela minoria barulhenta, defensora de uma bandeira política.

“As patricinhas de Beverly Hills”: Tem boa participação, mas faz um grande esforço para ficar nas amenidades e preservar as amizades. Quando surge uma discussão mais contundente, o pessoal esfria e volta à normalidade.

“Feios, sujos e malvados: É o grupo de confronto, se é que sobrou algum deles. É ataque vindo de todos os lados. Mesmo sendo quase tudo fake news, o objetivo é manter o outro sob pressão constante. Vale tudo.

“Turma da Mônica”: Para fugir dos grupos acima, criaram-se inúmeros grupos menores, onde os verdadeiros amigos podem interagir num clima de respeito mútuo.

“O grande ditador: Espero que o leitor não participe de algum grupo desses. Na prática, não é um grupo, mas um órgão de divulgação. É de onde pessoas próximas da política disparam as informações privilegiadas, ou seja, fake news fresquinhas.

 

Se o leitor conhecer algum outro tipo de grupo, compartilhe!

 

Leitura complementar:

Foi por dinheiro - Um post de agosto de 2020

Polarização - Um post de setembro de 2020

 

Foto: Para fechar esta sequência latino-americana, uma foto do Jardim Japonês de Buenos Aires (2020).


Friday, January 15, 2021

A vida antes e depois do Whatsapp


 

Após a recente divisão da nossa era em antes e depois do Coronavírus, estamos diante de um novo marco histórico: o antes e depois do Whatsapp. A fuga de muitos usuários e grupos para outras ferramentas parece inevitável. O mundo não será mais o mesmo!

O Facebook desperdiçou uma oportunidade histórica. O Whatsapp é o app mais importante das nossas vidas. Nele, amamos, trabalhamos, brincamos, compramos, aprendemos, vendemos, divertimo-nos, reclamamos, etc.

Essa promiscuidade digital tem as suas armadilhas, mas está tudo ali, num só app! Dá para passar um dia sem e-mail ou qualquer outro software, menos ele. O Whatsapp fez sucesso em muitos lugares do mundo, em especial no Brasil: aqui, é tudo nele!

Sempre tive três queixas com relação ao produto:

  1. Conquistando esta posição dominante, deveria ter alguns recursos para melhor organizar os contatos e grupos.  A tal mistura de assuntos sempre foi um incômodo. 
  2. questão de segurança deveria ser tratada com mais seriedade, tendo em vista que a usurpação de perfis Whatsapp é um golpe muito comum no Brasil. Uma praga! 
  3. O tema da vez, o famigerado compartilhamento de dados com o Facebook, despertou uma reação exagerada de muitos. Acredito que, diante do tesouro representado pelo Whatsapp, o Facebook poderia ter sido menos afoito e buscado alternativas de monetização. Afinal, não é todo dia que aparece um app tão essencial nas nossas vidas.

Não podemos deixar de reconhecer o esforço da plataforma em frear o compartilhamento excessivo de ‘fake news’ e similares. Ficaram tão focados no assunto, que menosprezaram essa fuga em massa.

Manterei a conta no Whatsapp e acessarei o Signal e o Telegram com menos frequência. Enfim, acabarei usando mais aplicativos. Muitos farão o mesmo, mas, como diz o filósofo Martinho da Vila, a vida vai melhorar.

O inconveniente do Whatsapp é que ele abriga o Brasil inteiro. Todo mundo está lá e faz inúmeros acessos diários. Sem chances de desligá-lo ou ignorá-lo. A existência de outras plataformas vai tirar aquela expectativa de resposta imediata.

Finalmente, poderemos tocar nossas vidas e, quando necessário, dizer:

- “Não olhei o Signal hoje”

- “Tive que reinstalar o Telegram”

- “Agora, só acesso o Whatsapp no final do dia”

 Ufa, que alívio!


Um ótimo 2021 a todos vocês!



Foto: Fechando a série de Santorini de 2016. O passeio de barco é essencial para ver a ilha sob uma perspectiva diferente e visitar a boca do vulcão submerso.

Wednesday, August 12, 2020

Foi por dinheiro



Meus caros leitores talvez não conheçam a Macedônia do Norte e muito menos a relação deste pequeno país com a campanha do Trump de 2016. Saibam que, apenas na pacata cidade de Veles, existiam cerca de 100 sites pró-Trump. Sites feitos com notícias copiadas, falsas ou distorções apelativas de notícias reais.

Afinal, o que existe de tão especial neste país oriundo da desintegração da Iugoslávia? Seriam todos de extrema-direita? Seria fruto de um projeto secreto do Trump? Talvez do Putin?

Não, nada disso, Veles é apenas uma cidade decadente. Alguns dos seus jovens desesperançosos descobriram que poderiam ganhar uns trocados com sites na Internet. Bastava um assunto de interesse geral e as máquinas de ‘ads’ do Google e Facebook faziam o resto. No meio da pobreza da Macedônia moderna, qualquer trocado seria bem vindo.

Depois de poucos casos de sucesso, perceberam a maior das oportunidades naquele não tão distante ano de 2016. Sendo os apoiadores do Trump muito ativos nas redes sociais, os macedônios criaram uma arapuca - um vasto conjunto de sites simpáticos às causas da extrema-direita para atraí-los e, dessa forma, serem remunerados pelo Google e Facebook em função dos cliques obtidos.

Por incrível que pareça, esses jovens tinham um inglês sofrível e mal conheciam o Trump. Muitos deles arrependeram-se publicamente pelo apoio involuntário ao candidato republicano. Mas deixaram bem claro: “foi por dinheiro”.

No último post, comentei sobre o assunto e acredito que seja importante reforçá-lo. Faço isso como utilidade pública. Quanto mais gente entender desse mundo orientado pelos cliques, ficaremos mais seguros e menos vulneráveis.

Enquanto você pensa se uma notícia que acabou de ler é verdadeira ou falsa, seu autor já faturou. O jogo das fake news, da manipulação e da apelação é sobretudo uma máquina de fazer dinheiro. Nesse jogo vale tudo para atrair os cliques.

Evidentemente, não podemos desprezar o aspecto manipulatório, que existe e é uma ameaça real à democracia, conforme mencionei no post anterior. Na mesma campanha do Trump, houve conteúdo nesse sentido, como mostrou o escândalo Cambridge Analytica.

Todos precisam ter consciência que por trás de histórias sensacionalistas, teorias conspiratórias, manipulações de notícias e as próprias fake news tem sempre alguém ganhando dinheiro. Pessoas vivem de cliques. Empresas vivem de cliques. O mundo gira em torno dos cliques. Não basta se abster de espalhar fake news, é preciso vender nossos cliques cada vez mais caro.

 

 Foto: Se eu tivesse alguma foto tirada na Macedônia do Norte, seria o momento. Cheguei perto: Grécia, Croácia e Eslovênia, que ficarão para outros posts. Então, continuemos com as viagens de 2016. Ainda em Budapeste, o fantástico mercado central, com direito às vistas externa e interna (abaixo).


Thursday, August 6, 2020

Eu, você e o Mark

No último post, falei sobre o imbróglio envolvendo as gigantes da tecnologia, as Big Tech. Embora as práticas anticompetitivas sejam o tema comum entre elas, os problemas estão longe de ser do mesmo tamanho.

Ousando uma enorme simplificação, diria que a Apple merece um puxão de orelha. O Google e a Amazon talvez mereçam o dobro. Seria algo como a dizer: joguem limpo, pois estamos de olho! 

Já com o Facebook, é uma outra história. Acredito que esteja numa enrascada. Por mais que o congressista norte-americano se esforce, será difícil desconectar a concentração de mercado das questões de manipulação das redes sociais (fake news & cia), que são ameaças reais à democracia. Sem querer menosprezar a questão econômica, acredito que seja muito menos complexa do que a sociopolítica. Até porque ninguém sabe como lidar com isso.

O assunto está em pauta em todo mundo. Depois das evidências de interferências em todas as eleições recentes, com mais ou menos impacto, uma resposta da sociedade é imperativa. O problema é o arbítrio entre o controle necessário e a liberdade de expressão e privacidade.

Felizmente, existem alguns caminhos no horizonte. O próprio “PL das fake news” nacional inclui bloqueio de envios em massa, suspensão de contas, controle de robôs, remoção de conteúdo, moderação, responsabilização, etc. Segundo os especialistas que o acompanham, está longe da perfeição, mas já é um grande avanço.

Um dos maiores pesquisadores do assunto, Sinan Aral (MIT), acrescenta que é preciso muita atenção ao modelo econômico das mídias sociais. Segundo ele, fake news são antes de tudo caça-níqueis, notícias criadas para atrair cliques, com ou sem o intuito manipulatório. Num artigo publicado na Science, ele demonstra que as fake news espalham mais simplesmente porque são mais fresquinhas. É o efeito Tostines.

O suposto monopólio do Facebook não é tão ruim. Afinal, uma rede social é boa, quando encontramos todo mundo por lá. Foi no Facebook, que reencontramos os amigos do passado. É pelo Facebook, que muitos dos meus leitores acessam este blog. É também nas ferramentas do Facebook, que vivemos grande parte dos problemas mencionados neste artigo.

O Facebook está na berlinda há algum tempo. Não é à toa que mesmo sendo um verdadeiro tesouro, sua valorização fica muito aquém das demais Big Tech. A postura do seu fundador e CEO tem despertado desconfiança e confronto. É hora de prestar atenção à sociedade, negociar e tirar a empresa da mira dos holofotes.

Aliás, eu iria mais longe. Se fosse o Mark Zuckerberg, pendurava as chuteiras. Fazia como a Microsoft e o Google, contratava um indiano empático para gerir seu império. Ou então, promoveria a atual COO Sheryl Sandberg a CEO. Mark poderia montar sua própria fundação e uma holding para gerir seu patrimônio. De vez em quando, iria à reunião do conselho e, sobretudo, não atrapalharia a/o CEO.

 

 

Foto: A Galeria Nacional Húngara situa-se no Castelo de Buda, que foi residência real da Hungria. O local do castelo, uma colina às margens do Rio Danúbio, teve esse fim desde o século XIII, porém houve diversas destruições e reconstruções. Foto de 2016.

Monday, August 3, 2020

Big Tech





Na última semana, os principais executivos de quatro das Big Tech (Apple, Amazon, Google e Facebook) foram convocados para depor no Congresso norte-americano por suspeitas de práticas anticoncorrenciais.

As audiências estão longe de serem vistas como algo burocrático. Além das práticas comerciais supostamente abusivas, o contexto é delicado. Somam-se à pandemia, as manifestações, o ano eleitoral e até mesmo as ainda não digeridas eleições de 2016.

A pandemia foi um acelerador de negócios para os gigantes do mundo digital. O valor das quatro empresas acima com a Microsoft alcança 5 trilhões de dólares, representando quase 20% do índice S&P da bolsa norte-americana. Nunca houve tamanha concentração de valor.

Por outro lado, a discussão sobre fake news, manipulação e influência nas redes está mais quente do que nunca. Faz-se necessária uma resposta da sociedade para que possamos garantir o pleno funcionamento das democracias. Nos Estados Unidos, durante as primárias democratas, a campanha do “break them up” (quebrem as Big Tech) obteve adesões importantes - Elizabeth Warren e Bernie Sanders.

Os conservadores, por sua vez, ressentem-se de um viés progressista das redes sociais, que supostamente seriam mais rigorosas com as fake news criadas por eles. Os conflitos pessoais de Donald Trump com cada uma das empresas acima são um capítulo a parte.

O cerne da discussão está nas seguintes práticas: 1) A Amazon é acusada de abusar de seu papel de varejista e de plataforma que hospeda vendedores de terceiros; 2) A Apple é acusada de usar injustamente sua influência sobre a App Store para bloquear rivais e forçar os aplicativos a pagar altas comissões; 3) O Facebook é acusado de buscar o monopólio das redes sociais; 4) A Alphabet, empresa mãe do Google, é questionada por causa do domínio do Google em publicidade on-line, pesquisa e software para smartphone.

Os congressistas norte-americanos trouxeram muitas evidências das práticas acima. Acredito que o meu caro leitor, assim como eu, não esteja surpreso com as mesmas.  Portanto, imagino que as audiências continuem por algum tempo.

O mundo da tecnologia já proporcionou processos antitruste, por exemplo, com a IBM e a Microsoft no banco dos réus. Entretanto, o calendário político parece incompatível com o econômico e tecnológico. Os processos são tão lentos, que acabam perdendo sentido. A tecnologia evolui, surgem alternativas de mercado e as empresas adotam comportamentos corretos. Se os processos da IBM e Microsoft não chegaram ao final esperado, parece-me que a longa temporada sob pressão pública valeu à pena. O caminho foi mais importante do que o destino.

Muitos políticos de diversos matizes ideológicos, num espírito revanchista e punitivo, estão afoitos para quebrar essas empresas, o que levaria alguns anos e teria eficácia duvidosa. O mundo não precisa de que as Big Tech passem de 5 para 20. O mundo precisa de regulação, precisa de leis para 2021.

Fecho o post com um texto de Zachary Karabell para a revista Wired: “O que precisamos agora é de um novo marco regulatório baseado nas questões atuais: privacidade, quem possui e lucra com dados, concorrência e inovação. Esses devem ser os pontos de partida para o desenvolvimento da política, no lugar do foco no tamanho ou número de empresas de tecnologia. Precisamos perguntar quais regras protegeriam os consumidores, garantiriam a inovação contínua e permitiriam a concorrência, sem criar problemas adicionais e não intencionais. A resposta não se parece com as que foram desenvolvidas há mais de 100 anos; e adaptar os desafios atuais para aquele molde do século passado só pode piorar as coisas. Quebrar as Big Tech tem a virtude de soar simples, e todos os vícios de serem simplistas. Temos problemas reais que precisam de pensamento criativo; os regulamentos do passado, que não funcionaram tão bem mesmo assim, não são uma resposta”.

 

Foto: E por falar em Congresso, eis o Parlamento Húngaro, cartão postal de Budapeste. Foto tirada no verão europeu de 2016.