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Tuesday, May 20, 2025

Gotas de transformação



Claro que também faço as minhas brincadeiras com IA generativa. Posso dizer tranquilamente que é "dever do ofício". A mais recente me consumiu algumas boas horas — e eu explico tudo neste post. Para quem quiser, conto o milagre e também o santo.

Tudo começou quando joguei o capítulo do livro que escrevi para a GoNew no Notebook LM, do Google. Fiquei impressionado com o resultado: um resumo bastante fiel do que eu havia escrito. Sim, existem pequenas falhas, mas até uma produção profissional está sujeita a imperfeições. Me empolguei ainda mais com a narração criada pela ferramenta, com dois locutores, e decidi criar algumas ilustrações para tornar o conteúdo mais acessível para um espectador ocasional - especialmente aqueles sem muita intimidade com tecnologia. O resultado está disponível no YouTube, aberto para todos.

A experiência me animou a ir além. Em vez de criar apenas um episódio, acabei produzindo um podcast inteiro sobre inovação e gestão, contando algumas das grandes histórias da inovação e das rivalidades entre novos entrantes e forças incumbentes.

Como fiz tudo sozinho, apanhei um pouco. Mas, depois de algum esforço - bastante prazeroso, por sinal - a primeira temporada deve ser concluída nos próximos dias, com o lançamento do 18º episódio. O podcast está disponível no Spotify e no YouTube.

Para realizar este projeto, usei:

  • ChatGPT (criação do texto base e checagem)
  • Notebook LM (diálogos e locução)
  • Canva (imagens)
  • CapCut (edição e montagem)

Aparentemente, não há erros factuais ou alucinações. Todo episódio tem um protagonista bem definido, cuja jornada pode, sim, ter sido um pouco romantizada - mas isso já estava no meu prompt, ou seja, na instrução que dei à IA para gerar o texto base.

Enfim, há muitas outras histórias para contar. Mudo o prompt para a segunda temporada?

 

Foto: Na Alemanha, seguindo o Rio Elba, passeio pelo Parque Nacional da Suíça Saxônica, em abril de 2024.

Saturday, February 27, 2021

Clubhouse, um mês depois


 

Aconteceu o que eu esperava. Vários grupos passaram do Whatsapp para o Telegram e acabei esquecendo deles. Menos distrações por um lado, alguma perda de informação por outro. No geral, foi positivo como eu esperava.

Distração mesmo foi o Clubhouse. Os primeiros dias de fevereiro foram uma perdição, porque todas as ‘celebridades’ do mundo da tecnologia e inovação estavam por lá e aí rola o chamado FOMO (fearing of missing out). Eu tive que pegar um iPhone velho da minha esposa, pois a versão Android do Clubhouse ainda não está pronta. Sim, eu sou um usuário de Windows e Google!

Em tempos de pandemia soa desnecessário explicar o que é crescimento exponencial e o começo de fevereiro foi um belo exemplo. Os autoproclamados experts no Clubhouse, tinham entrado uma semana antes de você. Quase todo mundo tinha aquele ícone de novato que o app deixa por uma semana junto à sua foto.

Na primeira semana, entrei em um monte de salas para ouvir especialistas, celebridades e anônimos. De fato, fiz alguns contatos interessantes e aprendi algumas coisas. Foi viciante enquanto durou.

Um mês depois, deixei de seguir todos os famosos. Entro apenas quando sou convidado como speaker. Por exemplo, todas as quintas-feiras, às 8 horas, com Cezar Taurion, Marcelo Madureira e João Gubolin.

Por falar em ser speaker, as duas primeiras vezes em que fui chamado para falar foram de surpresa. Na primeira, estava no trono. Na segunda, esbaforido numa esteira. Depois dessas, nada de improvisos.

 

Foto: Ainda no Uruguai, a famosa Casapueblo em Punta del Este.

 

PS: No momento da publicação deste post, tenho 6 convites para o Clubhouse. Se você precisar, mande seu número de celular (iPhone) de forma reservada.

Thursday, September 10, 2020

O dilema das redes




 

Fiz alguns posts recentes sobre redes sociais, fake news e manipulação. A proposta deste blog não é mergulhar nesses temas, mas chamar a atenção dos leitores e, eventualmente, mostrar outras referências.

Nesta semana, a Netflix lançou o documentário “O dilema das redes”, que consegue ser bastante didático. Se você ainda tem dúvidas sobre o aspecto mais nefasto das mídias sociais, vale à pena investir pouco mais de 90 minutos.

Já mencionei em aulas e palestras aquela máxima conhecida nos meios da tecnologia: se você não está pagando pelo produto, então você é o produto. Pela cara de surpresa das pessoas, sinto que muita gente ainda precisa de esclarecimentos. Eis a oportunidade!

O documentário passa pelos temas recentemente comentados neste blog: efeito bolha, manipulação, fake news, polarização, etc. Também explica o mecanismo da criação da dependência tecnológica e seu consequente impacto comportamental.

Os inúmeros depoimentos que enriquecem o filme não vieram de revolucionários ou sonhadores. A maioria vem de ex-profissionais do Facebook, Google e outras empresas. As poucas referências acadêmicas mencionadas no documentário são respeitadas. Por exemplo, acompanho a Profa. Shoshana Zuboff (Harvard) desde os anos 80, quando publicou “In the age of the smart machine”.

Um aviso aos apressados: assistam o filme até o fim, pois os depoimentos que acompanham os créditos têm um valor prático inestimável.

Para quem quiser ir mais longe, na próxima semana, será lançado um livro muito esperado sobre o assunto: The Hype Machine de Sinan Aral, que aprofunda os mesmos conceitos abordados no filme.

Vale lembrar que tanto o filme como o livro focam nos aspectos negativos das mídias sociais. A proposta não é combater a tecnologia, as empresas ou seus executivos. A ideia é fazer a sociedade compreender os seus malefícios para que juntos possamos aperfeiçoar os seus modelos e a sua governança.


Foto: Na última etapa das férias de verão de 2016, mais descanso num resort da Ístria (Croácia). A foto mostra o anfiteatro romano de Pula (século I).


Leitura complementar:

Eu, você e o Mark (2020) - Post recente sobre o Facebook

Eco (2013) - Quando falei sobre o efeito bolha em 2013.

The social dilemma - Site dos organizadores do documentário.

 


Wednesday, August 12, 2020

Foi por dinheiro



Meus caros leitores talvez não conheçam a Macedônia do Norte e muito menos a relação deste pequeno país com a campanha do Trump de 2016. Saibam que, apenas na pacata cidade de Veles, existiam cerca de 100 sites pró-Trump. Sites feitos com notícias copiadas, falsas ou distorções apelativas de notícias reais.

Afinal, o que existe de tão especial neste país oriundo da desintegração da Iugoslávia? Seriam todos de extrema-direita? Seria fruto de um projeto secreto do Trump? Talvez do Putin?

Não, nada disso, Veles é apenas uma cidade decadente. Alguns dos seus jovens desesperançosos descobriram que poderiam ganhar uns trocados com sites na Internet. Bastava um assunto de interesse geral e as máquinas de ‘ads’ do Google e Facebook faziam o resto. No meio da pobreza da Macedônia moderna, qualquer trocado seria bem vindo.

Depois de poucos casos de sucesso, perceberam a maior das oportunidades naquele não tão distante ano de 2016. Sendo os apoiadores do Trump muito ativos nas redes sociais, os macedônios criaram uma arapuca - um vasto conjunto de sites simpáticos às causas da extrema-direita para atraí-los e, dessa forma, serem remunerados pelo Google e Facebook em função dos cliques obtidos.

Por incrível que pareça, esses jovens tinham um inglês sofrível e mal conheciam o Trump. Muitos deles arrependeram-se publicamente pelo apoio involuntário ao candidato republicano. Mas deixaram bem claro: “foi por dinheiro”.

No último post, comentei sobre o assunto e acredito que seja importante reforçá-lo. Faço isso como utilidade pública. Quanto mais gente entender desse mundo orientado pelos cliques, ficaremos mais seguros e menos vulneráveis.

Enquanto você pensa se uma notícia que acabou de ler é verdadeira ou falsa, seu autor já faturou. O jogo das fake news, da manipulação e da apelação é sobretudo uma máquina de fazer dinheiro. Nesse jogo vale tudo para atrair os cliques.

Evidentemente, não podemos desprezar o aspecto manipulatório, que existe e é uma ameaça real à democracia, conforme mencionei no post anterior. Na mesma campanha do Trump, houve conteúdo nesse sentido, como mostrou o escândalo Cambridge Analytica.

Todos precisam ter consciência que por trás de histórias sensacionalistas, teorias conspiratórias, manipulações de notícias e as próprias fake news tem sempre alguém ganhando dinheiro. Pessoas vivem de cliques. Empresas vivem de cliques. O mundo gira em torno dos cliques. Não basta se abster de espalhar fake news, é preciso vender nossos cliques cada vez mais caro.

 

 Foto: Se eu tivesse alguma foto tirada na Macedônia do Norte, seria o momento. Cheguei perto: Grécia, Croácia e Eslovênia, que ficarão para outros posts. Então, continuemos com as viagens de 2016. Ainda em Budapeste, o fantástico mercado central, com direito às vistas externa e interna (abaixo).


Thursday, August 6, 2020

Eu, você e o Mark

No último post, falei sobre o imbróglio envolvendo as gigantes da tecnologia, as Big Tech. Embora as práticas anticompetitivas sejam o tema comum entre elas, os problemas estão longe de ser do mesmo tamanho.

Ousando uma enorme simplificação, diria que a Apple merece um puxão de orelha. O Google e a Amazon talvez mereçam o dobro. Seria algo como a dizer: joguem limpo, pois estamos de olho! 

Já com o Facebook, é uma outra história. Acredito que esteja numa enrascada. Por mais que o congressista norte-americano se esforce, será difícil desconectar a concentração de mercado das questões de manipulação das redes sociais (fake news & cia), que são ameaças reais à democracia. Sem querer menosprezar a questão econômica, acredito que seja muito menos complexa do que a sociopolítica. Até porque ninguém sabe como lidar com isso.

O assunto está em pauta em todo mundo. Depois das evidências de interferências em todas as eleições recentes, com mais ou menos impacto, uma resposta da sociedade é imperativa. O problema é o arbítrio entre o controle necessário e a liberdade de expressão e privacidade.

Felizmente, existem alguns caminhos no horizonte. O próprio “PL das fake news” nacional inclui bloqueio de envios em massa, suspensão de contas, controle de robôs, remoção de conteúdo, moderação, responsabilização, etc. Segundo os especialistas que o acompanham, está longe da perfeição, mas já é um grande avanço.

Um dos maiores pesquisadores do assunto, Sinan Aral (MIT), acrescenta que é preciso muita atenção ao modelo econômico das mídias sociais. Segundo ele, fake news são antes de tudo caça-níqueis, notícias criadas para atrair cliques, com ou sem o intuito manipulatório. Num artigo publicado na Science, ele demonstra que as fake news espalham mais simplesmente porque são mais fresquinhas. É o efeito Tostines.

O suposto monopólio do Facebook não é tão ruim. Afinal, uma rede social é boa, quando encontramos todo mundo por lá. Foi no Facebook, que reencontramos os amigos do passado. É pelo Facebook, que muitos dos meus leitores acessam este blog. É também nas ferramentas do Facebook, que vivemos grande parte dos problemas mencionados neste artigo.

O Facebook está na berlinda há algum tempo. Não é à toa que mesmo sendo um verdadeiro tesouro, sua valorização fica muito aquém das demais Big Tech. A postura do seu fundador e CEO tem despertado desconfiança e confronto. É hora de prestar atenção à sociedade, negociar e tirar a empresa da mira dos holofotes.

Aliás, eu iria mais longe. Se fosse o Mark Zuckerberg, pendurava as chuteiras. Fazia como a Microsoft e o Google, contratava um indiano empático para gerir seu império. Ou então, promoveria a atual COO Sheryl Sandberg a CEO. Mark poderia montar sua própria fundação e uma holding para gerir seu patrimônio. De vez em quando, iria à reunião do conselho e, sobretudo, não atrapalharia a/o CEO.

 

 

Foto: A Galeria Nacional Húngara situa-se no Castelo de Buda, que foi residência real da Hungria. O local do castelo, uma colina às margens do Rio Danúbio, teve esse fim desde o século XIII, porém houve diversas destruições e reconstruções. Foto de 2016.

Monday, August 3, 2020

Big Tech





Na última semana, os principais executivos de quatro das Big Tech (Apple, Amazon, Google e Facebook) foram convocados para depor no Congresso norte-americano por suspeitas de práticas anticoncorrenciais.

As audiências estão longe de serem vistas como algo burocrático. Além das práticas comerciais supostamente abusivas, o contexto é delicado. Somam-se à pandemia, as manifestações, o ano eleitoral e até mesmo as ainda não digeridas eleições de 2016.

A pandemia foi um acelerador de negócios para os gigantes do mundo digital. O valor das quatro empresas acima com a Microsoft alcança 5 trilhões de dólares, representando quase 20% do índice S&P da bolsa norte-americana. Nunca houve tamanha concentração de valor.

Por outro lado, a discussão sobre fake news, manipulação e influência nas redes está mais quente do que nunca. Faz-se necessária uma resposta da sociedade para que possamos garantir o pleno funcionamento das democracias. Nos Estados Unidos, durante as primárias democratas, a campanha do “break them up” (quebrem as Big Tech) obteve adesões importantes - Elizabeth Warren e Bernie Sanders.

Os conservadores, por sua vez, ressentem-se de um viés progressista das redes sociais, que supostamente seriam mais rigorosas com as fake news criadas por eles. Os conflitos pessoais de Donald Trump com cada uma das empresas acima são um capítulo a parte.

O cerne da discussão está nas seguintes práticas: 1) A Amazon é acusada de abusar de seu papel de varejista e de plataforma que hospeda vendedores de terceiros; 2) A Apple é acusada de usar injustamente sua influência sobre a App Store para bloquear rivais e forçar os aplicativos a pagar altas comissões; 3) O Facebook é acusado de buscar o monopólio das redes sociais; 4) A Alphabet, empresa mãe do Google, é questionada por causa do domínio do Google em publicidade on-line, pesquisa e software para smartphone.

Os congressistas norte-americanos trouxeram muitas evidências das práticas acima. Acredito que o meu caro leitor, assim como eu, não esteja surpreso com as mesmas.  Portanto, imagino que as audiências continuem por algum tempo.

O mundo da tecnologia já proporcionou processos antitruste, por exemplo, com a IBM e a Microsoft no banco dos réus. Entretanto, o calendário político parece incompatível com o econômico e tecnológico. Os processos são tão lentos, que acabam perdendo sentido. A tecnologia evolui, surgem alternativas de mercado e as empresas adotam comportamentos corretos. Se os processos da IBM e Microsoft não chegaram ao final esperado, parece-me que a longa temporada sob pressão pública valeu à pena. O caminho foi mais importante do que o destino.

Muitos políticos de diversos matizes ideológicos, num espírito revanchista e punitivo, estão afoitos para quebrar essas empresas, o que levaria alguns anos e teria eficácia duvidosa. O mundo não precisa de que as Big Tech passem de 5 para 20. O mundo precisa de regulação, precisa de leis para 2021.

Fecho o post com um texto de Zachary Karabell para a revista Wired: “O que precisamos agora é de um novo marco regulatório baseado nas questões atuais: privacidade, quem possui e lucra com dados, concorrência e inovação. Esses devem ser os pontos de partida para o desenvolvimento da política, no lugar do foco no tamanho ou número de empresas de tecnologia. Precisamos perguntar quais regras protegeriam os consumidores, garantiriam a inovação contínua e permitiriam a concorrência, sem criar problemas adicionais e não intencionais. A resposta não se parece com as que foram desenvolvidas há mais de 100 anos; e adaptar os desafios atuais para aquele molde do século passado só pode piorar as coisas. Quebrar as Big Tech tem a virtude de soar simples, e todos os vícios de serem simplistas. Temos problemas reais que precisam de pensamento criativo; os regulamentos do passado, que não funcionaram tão bem mesmo assim, não são uma resposta”.

 

Foto: E por falar em Congresso, eis o Parlamento Húngaro, cartão postal de Budapeste. Foto tirada no verão europeu de 2016.


Thursday, June 18, 2015

Discurso de rei

Junho é mês de eventos na Europa. A razão é muito simples. Maio é mês de feriados e julho é mês de férias.

Além da concentração junina, há também um acúmulo de eventos às terças e quintas. Segunda e sexta são dias evitados pelos organizadores por razões óbvias. Quarta também, por que é feriado escolar (França) e muitos pais adotam um regime de trabalho especial, que permite acompanhar seus filhos.

Nesse contexto, terça-feira, dia 16, fui convidado para cinco eventos sobre a “revolução digital”. Confirmei presença em três e estive em dois. Ando fazendo overbooking de agenda. Na  véspera, decido o que vou encarar. (Já fui mais bonzinho!)

Só não quero mais encarar o discurso do presidente do Uber da França ou da Bélgica. Chega! Também não quero mais palestrantes, que tentam nos convencer de que é preciso mudar para o universo digital. Como disse o Jacques Attali, numa das palestras deste mês, não foi preciso convencer o mundo a adotar a TV há 50 anos. Nem  mesmo o telefone há 100 anos.

A palestra mais inusitada  deste mês repleto de colóquios não foi de nenhum bilionário fundador de start-up, nem de nenhum guru profissional. Foi um depoimento de um executivo que, ao invés de contar vantagem, confessou a sua impotência diante dessa transformação “vertiginosa” (sic).

Trata-se de um dirigente de uma vinícola de Sauternes. Elegante, francês perfeito e fala suave. Um verdadeiro nobre com humildade ímpar. Diante de blogs de vinhos que já são mais influentes do que a Wine Spectator, comerciantes virtuais cada vez mais poderosos, centenas de aplicativos e sites sobre o tema, ele  e os 10 funcionários da vinícola estão simplesmente perdidos.

Quase em tom de despedida, relembrou  os bons momentos vividos com seus clientes e visitantes, que vão pessoalmente ao Château. Ressaltou o privilégio de degustar os vinhos com tantos amigos e clientes, naquele clima especial que surge ao redor de um bom vinho. Bons tempos, hein!

Foi uma oportunidade de pensar revolução digital sob uma outra perspectiva. Isso sim é palestra inspiradora. Nosso executivo certamente não está só.  Ser um produtor de Sauternes não é para qualquer um, mas as transformações mencionadas por ele são implacáveis.

A propósito, o nobre palestrante é nobre mesmo.  Embora tenha apresentado-se como um mero gerente de château, uma rápida consulta ao Google confirmou o que desconfiava. O ilustre membro da Casa de Orleans é cheio de títulos honoríficos e pretendente ao “trono francês”.



Foto: A orangerie do Château de Seneffe, na Bélgica.

Friday, January 2, 2015

Tiririca

Desanimados com 2015? Não somos os únicos. Muitos brasileiros abandonaram o eterno otimismo para se juntar às hordas de pessimistas.

Desde as eleições, todos os brasileiros que encontrei estavam frustrados com o país. Não faltam motivos: a economia andando de lado, os sucessivos escândalos de corrupção, a inflação persistente, a insegurança e, sobretudo, a falta de perspectivas.

Em todas as rodinhas com estrangeiros, nas quais pude participar, os comentários sobre o Brasil eram  negativos. No mínimo, fala-se em grande decepção.

Durante o segundo semestre, sempre que meus colegas europeus falavam sobre a Copa, mudava de assunto. Agora, talvez seja prudente evitar também política e economia brasileira. Vou atualizar-me sobre nossas artes para poder mudar de assunto.

Nesse quadro difícil, entra em cena a Dilma e seu ministério selecionado a dedo. Uma  trupe de incompetentes e corruptos disposta a afundar ainda mais o Brasil. Afunda, mas não mata. Se serve de consolo:

- Nos próximos quatro anos, milhões perceberão que as coisas não vão bem. Aquilo que pode ser óbvio para alguns ainda não atingiu o Brasil inteiro. São os rincões que elegeram a presidente e também os inúmeros simpatizantes de Lula e Dilma, que ainda não acordaram.

- A Dilma é herdeira dela mesma (e do seu mentor). A conta da Copa e das Olimpíadas vai ser paga por ela mesma, assim como todos os demais excessos e desvios. Qualquer outro governante teria muitas dificuldades no mandato 2015-2018. Prefiro que a própria Dilma administre o seu legado a escutar quatro anos de desculpas.

- As mudanças de que o Brasil precisa talvez não estejam nem na agenda do Aécio nem da Marina. Tem coisa que a gente só faz quando está diante de um risco maior.

No entanto, acredito que possamos ter uma grata surpresa. Face à uma difícil conjuntura e um governo tão ruim, esperamos pelo pior. Peço licença para recorrer ao filósofo e político Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido pela alcunha que intitula este post: “pior não fica”.

O “pior não fica” é fundamentado na resistência natural da sociedade, em lampejos de ética e  governabilidade, e até na melhora do quadro externo. Enfim, este segundo mandato da Dilma vai ser complicado, mas o Brasil resiste bravamente. Feliz 2015!



Foto: Começo 2015 com uma série de fotos (sem grandes pretensões) tiradas pelo celular, que acabam sendo arquivadas e retocadas automaticamente pelo Google. Achei que o conjunto tem uma história a ser contada. Acima, um dos principais eixos comerciais de Bruxelas, a Avenue Louise, bem perto de casa.

Monday, July 21, 2014

Mudança

Enquanto a Copa capturava nossas atenções, nossos partidos políticos confirmaram seus candidatos e fizeram alianças daquele velho jeitinho. Nada de discussões programáticas, apenas o velho toma-lá-dá-cá de olho no tempo na TV. No plano internacional, a crise da Ucrânia e os conflitos do Oriente Médio só pioraram. Enfim, seria melhor voltar para a Copa...

Nesse mesmo período, estava ocupado com minha mudança. Uma expatriação sempre dá trabalho. Certamente, vou compartilhar muitas coisas vividas aqui na Europa neste blog, assim como fiz anteriormente.

Moro na parte central de Bruxelas. Já conhecia o “caminho da roça”, mas ainda não a ponto de dispensar o Waze. Por via das dúvidas, estou com Waze em dois celulares com duas operadoras distintas, caso um falhe.

Mais uma vez, cheguei a Bruxelas sob céu azul. Baseado na fama da cidade, já estourei minha cota de tempo bom. Conferi com os locais e tirei mesmo a sorte grande: 2014 tem sido um ano excepcional.

Escrevendo este pequeno texto com um olho no computador e outro na TV, percebo que ainda estou ligado na TV francesa. Também continuo lendo os jornais franceses. Peço aos belgas, que leem meu post com a ajuda do Google, algumas dicas. Que não seja em flamengo, é claro.

A mudança em si não tem data para chegar. Da outra vez foi a mesma coisa. Se o pessoal das alfândegas brasileira e belga não fizer greve, ainda estou no lucro. O importante é que o wifi aqui de casa está funcionando desde o primeiro dia.



Foto: O Guggenheim de Bilbao merece mais de uma foto neste blog. Na foto, a sua entrada.

Tuesday, July 16, 2013

Porta dos fundos

O que significa "porta dos fundos" para você? Alguns dos meus leitores são do tempo que era apenas uma saída secundária da casa. Outros, mais modernos, lembram da trupe de humoristas que possui o canal mais popular do Youtube no Brasil. E, é claro, tem aqueles que associam o termo ao próprio traseiro. Lamento informar que este post não é sobre nada disso.

Se você leu alguma coisa sobre o escândalo da espionagem americana, já sabe o que é a porta dos fundos no sentido de informática. Trata-se de um acesso privilegiado a um sistema ou computador permitindo o controle do mesmo. Tais portas são oriundas de falhas ou podem ter sido planejadas para tal.

Após o caso Snowden, os grandes nomes da informática mundial estão sendo acusados de colaboracionistas, mantendo uma porta dos fundos para a espionagem de Estado. Além do Google, Facebook e outros, acusa-se a Microsoft de entregar deliberadamente tudo o que se passa no Skype.

Pensando no Skype, vou contar uma história real. Tenho que disfarçá-la para proteger a fonte. A propósito, o Skype foi criado na Europa em 2003, passou pela e-Bay e só caiu nas mãos da satânica Microsoft em 2011. Este episódio aconteceu antes de 2011, num tempo em que o Skype era "puro", não estava vendido para a CIA e, muito menos, para qualquer outro governo.


Um executivo ocidental foi expatriado no Oriente. Os primeiros meses fora de casa costumam ser difíceis. Depois do período de adaptação, é tudo de bom. Nosso protagonista matava a saudade da família com o milagroso Skype. Tudo de graça! 

Seria uma história muito trivial, se não fosse por um detalhe. Ele usava um dialeto para se comunicar com a família. Uma dessas línguas em extinção, falada por poucos, mas que ainda consegue manter uma tradição oral, sendo passada de pai para filho.

Um dia, dois oficiais do governo daquele país bateram-lhe à porta. Não era a dos fundos, era a principal mesmo. Naquela cena típica de Alemanha nazista, o oficial mais graduado vai direto ao ponto. Curto e grosso: "quando estiver usando o Skype, use uma língua mais conhecida ou será expulso daqui".



Portanto, não leve muito a sério tudo que você ler sobre porta dos fundos. Nem precisa. Seremos espionados de qualquer jeito. A infinidade de acusações contra Google, Microsoft e Facebook só serve para alimentar os advogados de ambas as partes. Enquanto isso, vá se divertindo com os vídeos do Porta dos Fundos.


Foto: Outra tomada da "Grande-Place" de Bruxelas.

Saturday, March 9, 2013

Horário de pico


No dia a dia, muitas coisas acabam me impedindo de escrever um pouco mais neste blog. Assuntos não faltam. Cheguei a mentalizar vários textos enquanto estava parado no trânsito de São Paulo. Sobre o Papa, as Coreias, as atrapalhadas do Congresso, etc. Só não pensei no caudilho de Caracas, por que uma linha neste post já é demais para ele.

Ah, esse trânsito! Mesmo com toda minha ginástica para adaptar a rotina e fugir dos piores horários, nesses dias de temporais, tem sido impossível. O horário de pico agora é das 7 às 23!

O paulistano aprendeu usar GPS e Google Maps para fugir dos congestionamentos. Tenho usado o recurso nos dias mais críticos, daqueles com grandes temporais. Ontem, por exemplo.

Evitei as maiores paradas, mas dei grandes voltas, cruzando diversos bairros da capital. Imagino a reação de alguém, que estivesse me rastreando, diante daquele trajeto errático: É o caminhão de lixo? É entrega de jornal? Seria o carro do Google StreetView?

Mesmo saindo às 21:30, fiz 10km em 90 minutos. Se tivesse enfrentado pacientemente o meu caminho tradicional, faria o percurso no mesmo tempo. Bem, é melhor rodar, não acham?

De fato, muitos preferem percorrer um caminho bem maior a ficar parado no mesmo lugar. O fator segurança também estimula. Porém, quando muitos fazem a mesma coisa, os congestionamentos se espalham ainda mais e esgotam-se os caminhos alternativos. Pior ainda, à custa de um maior gasto de combustível. Enfim, apenas mais uma evidência da falência da nossa metrópole.


Foto: A belíssima Eze, na Côte d'Azur.

Saturday, July 9, 2011

Hit parade

Usei o serviço "Blog2Print" para imprimir os meus posts de 2009. O resultado foi um livro muito bem acabado. Quase tudo automático e bem diagramado. Os comentários aparecem na sequência dos posts e as fotos são encaixadas no texto. Em formato pequeno, elas ficaram ótimas. Serviram de prova para uma futura impressão em tamanho maior.

As únicas surpresas foram os erros de digitação. Relendo uma dúzia de posts antigos, peguei alguns erros que escaparam da minha revisão. O que foi mais importante para realçá-los? O tempo ou a impressão em papel? Não sei, mas acreditem em mim. Se escrevi "os livro é bom", foi erro de digitação e não uma tentativa de inclusão social neste blog.

Entre os posts de 2009, está o meu post mais lido de todos os tempos. Nas estatísticas do Blogger, percebi que ele é acessado continuamente desde então. Entre tantas coisas interessantes que escrevi, por que um post tão vagabundo sobre a música francesa faz o maior sucesso?

Parei para investigar. Elementar, meu caro leitor. Quando se escreve na barra do Google "cantores franceses contemporâneos", o motor de busca aponta o meu post em primeiro lugar. Daí, a enxurrada de acessos, passados mais de dois anos da sua postagem.

Vejam o segundo parágrafo do post: "Há alguns dias, sugeri alguns cantores franceses contemporâneos". Dá para imaginar como o Google chegou à sua conclusão.


Foto: Inicio a série de fotos de Arbois, outra cidade da região da Franche-Comté, departamento do Jura. Os cartazes espalhados pela cidade celebravam o festival do vinho do Jura.

Friday, March 25, 2011

Enquanto isso, na Gália 1

Nas duas últimas semanas passadas na França, as principais novidades vinham do Japão e da Líbia. Entretanto, não posso deixar de comentar algumas novidades locais.

- O suposto escândalo de espionagem da Renault foi mesmo um factóide armado pelo homem de segurança do grupo, Dominique Gevrey. Como eu disse, virou um assunto de Estado com grande repercussão. O cidadão do mundo Carlos Ghosn foi à televisão pedir desculpas aos executivos demitidos. Tudo indica que sua cabeça esteja a prêmio.

- Domingo passado, tivemos eleições por aqui. Foram as eleições departamentais, conhecidas como “cantonales”. A abstenção de 56% foi marcante. A extrema direita conseguiu mesmo ganhar espaço, numa eleição vencida pelo PS e seus aliados. Enfim, foi mais uma grande demonstração de aversão à gestão atual.

- Estava eu no centro de Nîmes, quando vi o carro do Google Street View vasculhando a pequena cidade de origem romana. Como se não bastasse a Googlefobia gaulesa, a Comissão Nacional de Informática e Liberdade aplicou uma multa de 100 mil euros no Google. A multa não se deve às imagens coletadas pelo Street View, mas pelos dados pessoais absorvidos via wifi.


Foto: A penúltima foto da Abadia de Fontenay, um lugar realmente excepcional. Parecia estar num campus de uma antiga universidade.

Sunday, February 13, 2011

Nokia. Tudo ou nada!

Nos últimos dias, troquei diversos tweets sobre o acordo Nokia-Microsoft. Vou usar este meu espaço para esclarecer a minha opinião.

Em primeiro lugar, toda discussão em torno da Nokia é símbolo dos nossos tempos. Há pouquíssimo tempo, o grupo finlandês era referência mundial de gestão e inovação. Conquistaram 40% do mercado de celulares, desbancando gigantes como a Motorola, Sony, Ericsson e tantos outros.

Dois outsiders entraram no jogo e mudaram tudo. A Apple, com o iPhone, cujo sucesso dispensa comentários. E, ainda mais surpreendente, o Google, com a escalada do seu sistema operacional, o Android, que assumiu recentemente a liderança do mercado.

Tarde demais para reagir, o sistema operacional da Nokia, o Symbian, parece mesmo virtualmente morto. Com o seu market-share sendo comido todos os dias, resta à Nokia a triste opção de aderir aos sistemas existentes. Como a Apple não está disposta a compartilhar o seu, na verdade, as alternativas são duas: O líder Android, adotado pela maioria dos perseguidores da Nokia na liderança do mercado, e a promessa da Microsoft, o Windows Phone, com uma penetração de mercado muito aquém de marginal.

Dar tiro no pé ou na cabeça? Optar pelo Android é bater de frente com Samsung e Motorola. A Nokia pode não morrer, mas já entraria em desvantagem num terreno muito comoditizado. Precisaria de alguns anos para ajustar a sua máquina para encontrar vantagens competitivas em relação aos demais e tentar abocanhar um pedaço dos saudosos 40% do mercado. Enfim, seria jogar pelo empate. Seria uma opção para não morrer.

A alternativa Windows é muito mais arriscada, até por que a sua base de clientes é quase nula. Porém, a experiência de ambos, Microsoft e Nokia, pode gerar um produto diferente e, por que não dizer, melhor do que o Android. Nesse caso, a Nokia estaria de novo a frente dos seus concorrentes. Claro que é uma aposta de risco. É tudo ou nada.

Apenas para clarificar, sei que existem outros players nesse mercado: O moribundo Palm (HP) e o Blackberry (RIM). O Palm morreu mas esqueceram de avisar a HP. Dizem por aí que a RIM já estuda a sua adesão ao Android.

Meu Deus! Este post parece um cemitério da tecnologia...


Foto: Última foto de Cingapura, a famosa piscina dos jardins suspensos do Marina Sands.