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Saturday, August 22, 2020

Analógico



De vez em quando, pego umas folhas de papel e fujo do computador a fim de rascunhar um texto, uma palestra, um slide ou qualquer coisa parecida.
A papelada era um problema até muito pouco tempo. Com a pandemia, passou a ser um alívio. Uma oportunidade para escapar do monitor inseparável, nossa janela para o mundo.

Manipular papéis foi minha rotina por longos anos. Afinal, sou um blogueiro longe de ser nativo digital. A maior parte dos meus 550 posts e 350 artigos nasceu de algum esboço feito num papel qualquer, num caderno ou até mesmo num espaço em branco de uma página de revista que está à mão.

Com o tempo, passei a escrever direto no computador. Excepcionalmente, pelo smartphone. Ainda guardo folhas avulsas e cadernos cheios de ideias e artigos começados. A vida digital, no entanto, acaba espelhando essa frutífera balbúrdia, com textos espalhados por mensagens, arquivos de textos, bloco de notas, etc. Este mesmo post já estava 'amarelando' num arquivo do Word há alguns meses.

Fazer as coisas direto no computador pode até aumentar a produtividade, mas fica só nisso. Evidências científicas mostram que registrar as anotações de uma aula ou palestra por escrito é mais eficaz do que digitar. E se você não quiser aprender mais nada, a ciência também mostra que a escrita manual é uma boa prática para manter as habilidades cognitivas.

Durante o confinamento, consumi duas resmas de 500 folhas, dois cadernos e um Moleskine. Também imprimi muita coisa para ler na confortável poltrona da sala. 

Uma resma custa R $ 20. Um Moleskine, R $ 70. O cartucho da impressora, R $ 300. Manter a saúde mental, não tem preço!


 

Foto: Visão geral da cidade (Peste) a partir do Castelo de Buda. Budapeste é cortada pelo Danúbio, que cruza cidades importantes como Viena, Belgrado e Bratislava. A ideia de fazer um longo cruzeiro pelo Danúbio ainda está no caderninho de viagens.

Wednesday, August 12, 2020

Foi por dinheiro



Meus caros leitores talvez não conheçam a Macedônia do Norte e muito menos a relação deste pequeno país com a campanha do Trump de 2016. Saibam que, apenas na pacata cidade de Veles, existiam cerca de 100 sites pró-Trump. Sites feitos com notícias copiadas, falsas ou distorções apelativas de notícias reais.

Afinal, o que existe de tão especial neste país oriundo da desintegração da Iugoslávia? Seriam todos de extrema-direita? Seria fruto de um projeto secreto do Trump? Talvez do Putin?

Não, nada disso, Veles é apenas uma cidade decadente. Alguns dos seus jovens desesperançosos descobriram que poderiam ganhar uns trocados com sites na Internet. Bastava um assunto de interesse geral e as máquinas de ‘ads’ do Google e Facebook faziam o resto. No meio da pobreza da Macedônia moderna, qualquer trocado seria bem vindo.

Depois de poucos casos de sucesso, perceberam a maior das oportunidades naquele não tão distante ano de 2016. Sendo os apoiadores do Trump muito ativos nas redes sociais, os macedônios criaram uma arapuca - um vasto conjunto de sites simpáticos às causas da extrema-direita para atraí-los e, dessa forma, serem remunerados pelo Google e Facebook em função dos cliques obtidos.

Por incrível que pareça, esses jovens tinham um inglês sofrível e mal conheciam o Trump. Muitos deles arrependeram-se publicamente pelo apoio involuntário ao candidato republicano. Mas deixaram bem claro: “foi por dinheiro”.

No último post, comentei sobre o assunto e acredito que seja importante reforçá-lo. Faço isso como utilidade pública. Quanto mais gente entender desse mundo orientado pelos cliques, ficaremos mais seguros e menos vulneráveis.

Enquanto você pensa se uma notícia que acabou de ler é verdadeira ou falsa, seu autor já faturou. O jogo das fake news, da manipulação e da apelação é sobretudo uma máquina de fazer dinheiro. Nesse jogo vale tudo para atrair os cliques.

Evidentemente, não podemos desprezar o aspecto manipulatório, que existe e é uma ameaça real à democracia, conforme mencionei no post anterior. Na mesma campanha do Trump, houve conteúdo nesse sentido, como mostrou o escândalo Cambridge Analytica.

Todos precisam ter consciência que por trás de histórias sensacionalistas, teorias conspiratórias, manipulações de notícias e as próprias fake news tem sempre alguém ganhando dinheiro. Pessoas vivem de cliques. Empresas vivem de cliques. O mundo gira em torno dos cliques. Não basta se abster de espalhar fake news, é preciso vender nossos cliques cada vez mais caro.

 

 Foto: Se eu tivesse alguma foto tirada na Macedônia do Norte, seria o momento. Cheguei perto: Grécia, Croácia e Eslovênia, que ficarão para outros posts. Então, continuemos com as viagens de 2016. Ainda em Budapeste, o fantástico mercado central, com direito às vistas externa e interna (abaixo).


Thursday, August 6, 2020

Eu, você e o Mark

No último post, falei sobre o imbróglio envolvendo as gigantes da tecnologia, as Big Tech. Embora as práticas anticompetitivas sejam o tema comum entre elas, os problemas estão longe de ser do mesmo tamanho.

Ousando uma enorme simplificação, diria que a Apple merece um puxão de orelha. O Google e a Amazon talvez mereçam o dobro. Seria algo como a dizer: joguem limpo, pois estamos de olho! 

Já com o Facebook, é uma outra história. Acredito que esteja numa enrascada. Por mais que o congressista norte-americano se esforce, será difícil desconectar a concentração de mercado das questões de manipulação das redes sociais (fake news & cia), que são ameaças reais à democracia. Sem querer menosprezar a questão econômica, acredito que seja muito menos complexa do que a sociopolítica. Até porque ninguém sabe como lidar com isso.

O assunto está em pauta em todo mundo. Depois das evidências de interferências em todas as eleições recentes, com mais ou menos impacto, uma resposta da sociedade é imperativa. O problema é o arbítrio entre o controle necessário e a liberdade de expressão e privacidade.

Felizmente, existem alguns caminhos no horizonte. O próprio “PL das fake news” nacional inclui bloqueio de envios em massa, suspensão de contas, controle de robôs, remoção de conteúdo, moderação, responsabilização, etc. Segundo os especialistas que o acompanham, está longe da perfeição, mas já é um grande avanço.

Um dos maiores pesquisadores do assunto, Sinan Aral (MIT), acrescenta que é preciso muita atenção ao modelo econômico das mídias sociais. Segundo ele, fake news são antes de tudo caça-níqueis, notícias criadas para atrair cliques, com ou sem o intuito manipulatório. Num artigo publicado na Science, ele demonstra que as fake news espalham mais simplesmente porque são mais fresquinhas. É o efeito Tostines.

O suposto monopólio do Facebook não é tão ruim. Afinal, uma rede social é boa, quando encontramos todo mundo por lá. Foi no Facebook, que reencontramos os amigos do passado. É pelo Facebook, que muitos dos meus leitores acessam este blog. É também nas ferramentas do Facebook, que vivemos grande parte dos problemas mencionados neste artigo.

O Facebook está na berlinda há algum tempo. Não é à toa que mesmo sendo um verdadeiro tesouro, sua valorização fica muito aquém das demais Big Tech. A postura do seu fundador e CEO tem despertado desconfiança e confronto. É hora de prestar atenção à sociedade, negociar e tirar a empresa da mira dos holofotes.

Aliás, eu iria mais longe. Se fosse o Mark Zuckerberg, pendurava as chuteiras. Fazia como a Microsoft e o Google, contratava um indiano empático para gerir seu império. Ou então, promoveria a atual COO Sheryl Sandberg a CEO. Mark poderia montar sua própria fundação e uma holding para gerir seu patrimônio. De vez em quando, iria à reunião do conselho e, sobretudo, não atrapalharia a/o CEO.

 

 

Foto: A Galeria Nacional Húngara situa-se no Castelo de Buda, que foi residência real da Hungria. O local do castelo, uma colina às margens do Rio Danúbio, teve esse fim desde o século XIII, porém houve diversas destruições e reconstruções. Foto de 2016.

Monday, August 3, 2020

Big Tech





Na última semana, os principais executivos de quatro das Big Tech (Apple, Amazon, Google e Facebook) foram convocados para depor no Congresso norte-americano por suspeitas de práticas anticoncorrenciais.

As audiências estão longe de serem vistas como algo burocrático. Além das práticas comerciais supostamente abusivas, o contexto é delicado. Somam-se à pandemia, as manifestações, o ano eleitoral e até mesmo as ainda não digeridas eleições de 2016.

A pandemia foi um acelerador de negócios para os gigantes do mundo digital. O valor das quatro empresas acima com a Microsoft alcança 5 trilhões de dólares, representando quase 20% do índice S&P da bolsa norte-americana. Nunca houve tamanha concentração de valor.

Por outro lado, a discussão sobre fake news, manipulação e influência nas redes está mais quente do que nunca. Faz-se necessária uma resposta da sociedade para que possamos garantir o pleno funcionamento das democracias. Nos Estados Unidos, durante as primárias democratas, a campanha do “break them up” (quebrem as Big Tech) obteve adesões importantes - Elizabeth Warren e Bernie Sanders.

Os conservadores, por sua vez, ressentem-se de um viés progressista das redes sociais, que supostamente seriam mais rigorosas com as fake news criadas por eles. Os conflitos pessoais de Donald Trump com cada uma das empresas acima são um capítulo a parte.

O cerne da discussão está nas seguintes práticas: 1) A Amazon é acusada de abusar de seu papel de varejista e de plataforma que hospeda vendedores de terceiros; 2) A Apple é acusada de usar injustamente sua influência sobre a App Store para bloquear rivais e forçar os aplicativos a pagar altas comissões; 3) O Facebook é acusado de buscar o monopólio das redes sociais; 4) A Alphabet, empresa mãe do Google, é questionada por causa do domínio do Google em publicidade on-line, pesquisa e software para smartphone.

Os congressistas norte-americanos trouxeram muitas evidências das práticas acima. Acredito que o meu caro leitor, assim como eu, não esteja surpreso com as mesmas.  Portanto, imagino que as audiências continuem por algum tempo.

O mundo da tecnologia já proporcionou processos antitruste, por exemplo, com a IBM e a Microsoft no banco dos réus. Entretanto, o calendário político parece incompatível com o econômico e tecnológico. Os processos são tão lentos, que acabam perdendo sentido. A tecnologia evolui, surgem alternativas de mercado e as empresas adotam comportamentos corretos. Se os processos da IBM e Microsoft não chegaram ao final esperado, parece-me que a longa temporada sob pressão pública valeu à pena. O caminho foi mais importante do que o destino.

Muitos políticos de diversos matizes ideológicos, num espírito revanchista e punitivo, estão afoitos para quebrar essas empresas, o que levaria alguns anos e teria eficácia duvidosa. O mundo não precisa de que as Big Tech passem de 5 para 20. O mundo precisa de regulação, precisa de leis para 2021.

Fecho o post com um texto de Zachary Karabell para a revista Wired: “O que precisamos agora é de um novo marco regulatório baseado nas questões atuais: privacidade, quem possui e lucra com dados, concorrência e inovação. Esses devem ser os pontos de partida para o desenvolvimento da política, no lugar do foco no tamanho ou número de empresas de tecnologia. Precisamos perguntar quais regras protegeriam os consumidores, garantiriam a inovação contínua e permitiriam a concorrência, sem criar problemas adicionais e não intencionais. A resposta não se parece com as que foram desenvolvidas há mais de 100 anos; e adaptar os desafios atuais para aquele molde do século passado só pode piorar as coisas. Quebrar as Big Tech tem a virtude de soar simples, e todos os vícios de serem simplistas. Temos problemas reais que precisam de pensamento criativo; os regulamentos do passado, que não funcionaram tão bem mesmo assim, não são uma resposta”.

 

Foto: E por falar em Congresso, eis o Parlamento Húngaro, cartão postal de Budapeste. Foto tirada no verão europeu de 2016.


Monday, August 15, 2016

Olímpicas

Mais uma vez, aproveitei o verão europeu para tirar umas férias. Pela Europa Central, cruzei várias vezes com grupos da juventude católica, que foram ao encontro do Papa em Cracóvia. Ainda mais frequentes foram os encontros com os grupos de turistas asiáticos. Tudo indica que um pouco do fluxo dedicado à Europa Ocidental foi desviado para lá, por conta do risco de atentados.

No meu celular tem um aplicativo de SOS com números de emergência e alertas específicos para cada país. O aplicativo usa a geolocalização para saber quando estou num novo país. Cada vez que entro na Bélgica, Brasil ou França, recebo inúmeras advertências. Na Croácia, Eslovênia e Hungria, nenhum alerta. Portos seguros para as férias.

Nesses três países, entre um passeio e outro, pude acompanhar os Jogos Olímpicos pela TV e jornais locais. Entendia tudo! ;-)

Esses canais locais concentram-se nos seus representantes e equipes, com algum espaço para as estrelas olímpicas (Biles, Bolt, Phelps, etc) e pouco espaço para fofocas. Enfim, muitos dos incidentes esmiuçados pela imprensa brasileira pouco repercutiram no exterior.

A câmera que cai, a piscina verde e os assaltos aos atletas ficarão no folclore olímpico. Se houve algum evento relevante, não tem nada a ver com o Brasil. Falo da posição do COI com relação à Rússia. Isso sim é um desastre. A gente já sabe como funciona o COI, faltam culhões e sobram milhões.

Passada metade da competição, o desempenho esportivo do Brasil é patético. Não que as medalhas sejam importantes, mas o dinheiro alocado para obtê-las faz disso um escândalo. Apenas mais um.

Espero mesmo que não haja nenhum incidente importante e que os próximos dias sejam de encantamento esportivo e organizacional. Assim como vocês, estarei torcendo pelo Brasil. E que consigamos resultados mais expressivos, muito provavelmente nos esportes coletivos.


Foto: Belle-Île-en-Mer, como o próprio nome diz, um belo refúgio na costa da Bretanha.

Saturday, September 5, 2015

Cuspindo pra cima

Acabaram-se as férias. A volta à labuta tem sido árdua, especialmente para os líderes europeus. O velho assunto dos refugiados virou uma crise internacional.

Puderam ignorar os milhares de mortos na tentativa de cruzar o Mediterrâneo, a superlotação da infraestrutura de acolha e os inúmeros acampamentos clandestinos espalhados pelo continente. Porém, a recente desintegração da Síria e do Iraque entornou o caldo.

As imagens dos mortos nas praias turcas e da multidão atravessando a Hungria a pé são chocantes. Não podemos ignorá-los. O assunto é polêmico, mas a causa humanitária precede o blá-blá-blá político.

Se existe uma expressão, que representa bem o que os líderes mundiais fizeram diante da crise síria ou da ascensão do Estado Islâmico é cuspir para cima. Esqueceram que o Oriente Médio é logo ali. Dá para caminhar da Síria até a Alemanha!

Enquanto os líderes fizerem cálculos políticos, a situação vai perdurar. Qualquer ação terá, num primeiro momento, um preço a pagar, ou seja, um custo eleitoral. Cada um deles deveria perguntar-se sobre a sua real motivação: buscar uma reeleição ou fazer a coisa certa.

Pelo que tenho visto, diante de tamanha crise humanitária, até mesmo alguns dos mais avessos aos refugiados estão comovidos. Há milhares de voluntários mobilizando-se para facilitar a vida dos migrantes, na sua longa caminhada do Levante ao Ocidente. Quero crer que o povo saberá reconhecer os líderes realmente dispostos a trabalhar para resolver o problema.


Post sobre a crise síria (2013)
Damasco
Damasco azedo

Post sobre os refugiados (2015)


Foto: Em Paris, no Jardim de Luxemburgo, no final do generoso inverno de 2015.

Wednesday, April 14, 2010

Sobre húngaros e zingaros

Não vou falar sobre o Sarkozy, mas sobre o país do seu pai, a Hungria, que teve eleições nesta segunda-feira. Levei o Monde de domingo para ler no TGV. Havia dois artigos sobre a Hungria. Curiosamente, assinados por jornalistas diferentes e em seções diferentes. Até achei que tinha misturado o jornal de sábado com o de domingo!

O Editor não salientou a ligação dos dois. Um era sobre os ciganos. Outro, sobre os húngaros étnicos espalhados pela Europa Oriental. Eles revelam uma escandalosa incoerência da extrema direita húngara, que está longe de ser exclusividade daquele país.

Após a Primeira Guerra Mundial, com o desmembramento do Império Austro-Húngaro, a nação húngara histórica foi dividida em pedaços. Os húngaros étnicos espalham-se por países como a Romênia, Eslováquia e Ucrânia.

A extrema direita húngara evoca a grande nação de outrora. Sonha com a redenção dessas minorias supostamente mal tratadas, com a sua emancipação e, quem sabe, com a reconstrução da grande Hungria.

Até aí pode parecer uma pequena loucura. Mas é muito pior. Ao mesmo tempo que reclamam da sorte dos seus irmãos espalhados pela Europa, castigam e maltratam a maior minoria do seu país, os ciganos. Na União Européia, existem 9 milhões de ciganos, sendo que um grande contingente está entre Hungria e Romênia.

Os ciganos húngaros são marginalizados. As agressões verbais e físicas são uma constante. São sacos de pancada. A extrema direita húngara não para por aí. Na campanha, usou e abusou do discurso antissemita para justificar os males do país. Seja com o comunismo ou com o capitalismo, para eles, o culpado é sempre o mesmo.

Abril de 2010: A extrema direita conquistou pouco menos de 20% dos votos.


Fotos: Ainda em Biarritz, duas vistas do famoso rochedo que destaca-se na orla. Acima, num entardecer encoberto. Abaixo, entre duas villas.