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Thursday, May 5, 2011

Enemy Killed in Action

A morte de Bin Laden foi merecidamente comemorada por quase todos nós. Ainda não pude ler tudo que gostaria sobre a caça ao Gerônimo, mas a operação me decepcionou pelos seguintes motivos:

1) Bin Laden foi claramente executado. Sem dúvidas, trata-se de um procedimento de exceção. A reação da comunidade não foi hostil ao assassinato, mas algumas vozes começam a se manifestar.

2) O Paquistão foi humilhado. Está certo que o jogo duplo daquele país é revoltante, mas esta ação colocou o seu povo contra os EUA e o Ocidente. Colocaram mais lenha na fogueira.

3) A operação foi tomada por muitos como golpe eleitoral. Outros, nem ainda acreditam na sua veracidade.

4) Meses e meses de espionagem antecederam a eliminação de Bin Laden. Quantas vezes o rei dos terroristas esteve na mira dos EUA e escapou? Foi tudo muito lento.


Enfim, vida de agência de inteligência é assim mesmo. A gente só sabe o que dá errado. Quero crer que a CIA tem feito muita coisa pela segurança dos EUA depois da queda da URSS. De lá para cá, o inimigo mudou, as regras do jogo mudaram.



Foto: Fim de tarde no canal de Nîmes, próximo ao Jardin de la Fontaine, onde tivemos um torneio de "pétanque", versão francesa do jogo de bochas. O mais difícil não foi acertar as bolinhas, mas aguentar o frio daquele fim de tarde.

Sunday, November 21, 2010

Retrocomissão

Agora que o escândalo Bettencourt está perdendo força, o atentado de Karachi volta à cena. Leiam o meu post "The Ugly, The Bad and The Worse - Parte II" para compreendê-lo. O processo tem sido lento, mas as famílias das vítimas estão cada vez mais próximas de uma resposta oficial do Governo.

Com essa notícia requentada, pelo menos pude aprender uma palavra essencial para os nossos dias: Retrocomissão. A palavra não existe na língua portuguesa, mas, em compensação, a prática é deveras conhecida. Digamos que é uma das formas mais elementares de corrupção e financiamento de campanhas. Exemplificando, imaginem uma transação comercial, onde o comprador de um produto ou serviço exige uma comissão do vendedor. O vendedor, ainda mais malandro do que o comprador, não só concorda em pagá-la, como paga a mais, solicitando que a diferença seja creditada numa conta secreta. Esta é a tal da retrocomissão.

Existem muitas variantes para receber a retrocomissão, envolvendo-se paraísos fiscais, ONGs, laranjas e, acredite se quiser, filhos e parentes próximos. (Ah, não diga!)

Esse velho novo escândalo de comissões e retrocomissões coloca em choque uma série de políticos da direita francesa (UMP), opondo, sobretudo, Sarkozy e os políticos que ele esmagou para galgar ao Eliseu. Nessa história, não tem santo, como sugere o meu post anterior. Em todo caso, o articulado e refinado Dominique de Villepin, outrora humilhado por Sarkô, terá sua pequena chance de vingança.


Foto: Os próximos posts são ilustrados com fotos recentes da parte norte da Borgonha. Acima, o teatro romano de Autun.

Friday, October 23, 2009

The Ugly, The Bad and The Worse - Parte II

Paquistão 2002

Poucos meses depois do 11 de setembro, um grupo de franceses chega a Karachi. São onze engenheiros navais que dão assistência técnica como parte do acordo de venda de submarinos ao Paquistão, ocorrido em 1994. Uma violenta explosão mata todo o grupo. Todos apontam para o terrorismo islâmico, sendo o suspeito número um, a Al-Qaeda.

O Paquistão conseguiu localizar e condenar alguns dos envolvidos. Mesmo assim, o atentado foi muito estranho. Um grupo de engenheiros franceses no Paquistão não era o alvo típico do terrorismo islâmico em 2002. O mistério tortura os parentes das vítimas até hoje .

Anos depois, a própria investigação trouxe mais detalhes. A França vendeu os submarinos ao Paquistão graças a polpudos subornos às autoridades locais. Subornos pagos à vista e a perder de vista. A prática era tão aberta que até constava no contrato. Porém, um acordo da OCDE de 2000 tentou banir esta forma de corrupção tão globalizada. Com o governo francês comprometido com as novas regras, a mesada dos milicos paquistaneses foi suspensa. O atentado de Karachi foi pura vingança. Nada a ver com a Al-Qaeda.

Bem, a história não é das mais dignas. De qualquer modo, a França corrigiu uma prática incorreta. Então, por que esconder a verdade sobre o atentado durante anos? Por uma razão simples, isso não é tudo. E se é difícil conseguir provas de escândalos que acontecem só em Brasília, imaginem buscá-las no democrático Paquistão.

Há evidências de que o mensalão do Paquistão tenha sido "superfaturado". Ou seja, suponhamos que os oficiais daquele país tenham solicitado um suborno de X. A França deu 2X, com a condição de que eles devolvessem X numa conta secreta. A tal conta serviu para financiar campanhas políticas, em especial, a de Édouard Balladur, candidato presidencial em 1995 contra Jacques Chirac. Notem que o esquemão de financiamento de campanhas é o mesmo no mundo inteiro.

Que sujeira, hein? Ainda assim, o Balladur é coisa do passado! Por que tanto segredo? Não seria melhor ter jogado limpo e contado tudo para as famílias e o povo. O pequeno detalhe é que o tesoureiro de campanha do Balladur e arquiteto da operação era ninguém menos que Nicolas Sarkozy.

Enfim, uma história trivial do mundo político atual, que ganhou um toque trágico e veio à tona por causa dos onze mortos. Quanto ao Sarkô, ele jura que não sabia de nada.


Foto: Em Caen, o castelo de Guilherme, o Conquistador. O castelo é contemporâneo ao histórico feito de Guilherme, a tomada da Inglaterra. Evidência ainda viva desta conquista é o próprio idioma inglês, que absorveu uma enormidade de palavras latinas, pela via normanda. A construção quase milenar ocupa uma grande área no centro da cidade. De fato, é um dos maiores castelos da Europa com 5,5 hectares. Foi especialmente danificado durante a Guerra dos Cem Anos e a II Guerra Mundial. Hoje, é um grande espaço cultural, com Museus e exposições.


Saturday, May 30, 2009

Nuke Ban 3

Afinal quem precisa de bomba atômica como recurso de dissuasão? Com um pouco de boa vontade e uma boa negociação, o banimento das armas nucleares não parece inatingível. Ninguém precisa delas! Neste post, falo de uma muito sintética dos problemas mais complexos.

O Paquistão tem uma excelente oportunidade para aprender que o seu maior inimigo não é a Índia. Ele está dentro de casa. Os progressos da Índia em muitas áreas são inegáveis. Que tal uma competição pela prosperidade? Se o exemplo vier do Ocidente, uma boa negociação poderá superar uma das rivalidades mais fortes e cruéis do mundo.

A encenação de Ahmadinejad é gritante e o discurso anti-israelense é puro oportunismo. Mais do que uma barganha, o Irã quer restabelecer uma histórica hegemonia persa. O Ocidente não pode reclamar, pois a provocação iraniana começou como oposição ao mundo árabe, numa época em que Saddam Hussein era o queridinho dos EUA e da Europa. Saddam ganhou até uma usina nuclear da França, providencialmente destruída por Israel. O Irã não precisa de bomba, precisa de diálogo e democracia. Obama só não pode dormir no ponto, pois a economia mundial para, mas o plano nuclear do Irã não para.

A sofrível campanha israelense contra o Hezbollah mostrou que as dificuldades do país são de outra natureza. Foi-se o tempo em que tanques, aviões e tropas bem treinadas resolviam qualquer problema. A maioria dos paises árabes já não representa ameaça direta. Para que serve a bomba israelense senão estimular outros a embarcarem na mesma aventura? O que adiantaria retaliar com armas nucleares uma grande metrópole árabe densamente povoada e com infra-estrutura precária? Acho que Israel deveria dar o exemplo e renunciar unilateralmente às armas nucleares.

Talvez o último país a aceitar o banimento das armas nucleares seja a China. As ambições chinesas são totalmente desmedidas. São imperialistas, monopolísticas, autoritárias, vingativas, etc. A China fará os EUA do último século parecerem uma associação filantrópica.

Encerrando esta série de posts, depois que os líderes mundiais colocarem a economia de volta nos trilhos, que o “total nuke ban” seja uma prioridade. Antes que seja tarde.


Foto: A última imagem de Genebra, a estátua “La Bise”, de Anorld Koenig, também enfeitando o lago Léman.

Wednesday, March 11, 2009

A guerra do ópio do século XXI

O mundo só fala do risco paquistanês. Espero que não tenhamos acordado tarde demais. Apesar das boa intenções de Obama e seus emissários na Ásia, o Paquistão é um caso especial, simboliza a complexidade do mundo. Talvez seja possível encontrar soluções negociadas para o Irã, a Coréia, a Síria e outros. No Paquistão, o máximo que se pode fazer é empurrar o problema com a barriga.

A Guerra do Afeganistão foi considerada por Obama como legítima ("right war"). Motivada pelo atentado de 11 de setembro, levou à invasão do país e a derrubada do regime talibã. A guerrilha com a facção islâmica continua. O pior resultado desta guerra começa a ser percebido pelo Ocidente. Os talibãs abandonaram o Afeganistão, uma sociedade tribal e primitiva, para conquistar adeptos no Paquistão, este sim, um país de verdade.

As evidências de conquistas talibãs no Paquistão estão por aí. O movimento encontrou um terreno fértil: Islã mais enraizado, superpopulação, pobreza, fome, o inimigo indiano jurado de morte e, mais importante, uma deliciosa cenoura para se correr atrás: O arsenal nuclear.

O Paquistão tem que ser a prioridade do Ocidente. Tomar o Afeganistão, um vazio cheio de fazendas de papoula foi uma resposta insuficiente para o 11 de setembro. Talvez fosse imprevisível. Pouco importa, pois a guerra do Afeganistão é um desastre. Os bilhões de dólares lá despejados só serviram para resgatar o abastecimento de heroína do planeta. Vai ver que este era o real motivo da guerra e não nos avisaram.


Foto: Faltava uma foto mais clássica de Londres, então lá vai o Parlamento e o mais famoso de todos os relógios.