O termo "esquerda caviar" surgiu na França para designar aqueles socialistas que não abrem mão de uma vida de muito conforto. Uma vez no poder, esquerdistas daqui e dali apegaram-se ao luxo. Entretanto, devemos reconhecer, que essa geração foi às ruas e combateu pelos seus ideais.
É o caso dos líderes do PT - presidiários ou não - e dos franceses, que quebraram tudo em 1968. No poder, são um péssimo exemplo para os comunas de hoje. Esses sim são diferentes. E como!
Os comunas de hoje terceirizam a bagunça. Para horror de Trotski, contratam pobres coitados e não-tão-pobres-assim para representá-los nas praças públicas das nossas capitais. Pedra pra cá, porrada pra lá, bala de borracha pra cá, rojão pra lá. Marx não imaginaria tão vil exploração do proletariado.
Mas nem tudo é decepção no mundo da luta contra as classes opressoras. Os trabalhadores estão mais unidos e não se dão por vencidos. Fizeram até um "rebranding" da baderna através do Black Bloc.
Eu sou do tempo em que um coitado fazia uma manifestação apenas por um lanchinho. Uma vez, cruzei com uma passeata na Paulista. Parecia um bando de zumbis, que mal sabiam repetir aquilo que o homem do megafone esbravejava. Como disse o poeta: "Que tétricas figuras!"
A remuneração dos manifestantes subiu de zero para 150. Imagina na Copa!
Enfim, já não se fazem mais comunas como antigamente. Qualquer hora eu volto para avacalhar com a nova direita brasileira.
Foto: Um canto de tranquilidade no zôo de Amsterdam.
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Thursday, February 20, 2014
Saturday, September 14, 2013
A diferença entre nós e eles
Sabe-se também da sua posição em relação aos embargos infringentes. Ele sempre os defendeu. Por isso, houve uma manobra na última sessão do STF, para se adiar o posicionamento do decano, dando mais alguns dias para que seja sensibilizado pela opinião pública.
O editorial do Estadão de hoje criticou a manobra. Mesmo sendo contrário aos tais embargos, o jornal critica o método. Tem razão. Eu também não me sentirei totalmente confortável com uma súbita mudança de opinião do Ministro. Nós queremos que as coisas sejam feitas da maneira correta, dentro da legalidade e ética. Afinal, essa é a diferença entre nós e eles!
Já disse que gostaria de ver a turma do José Dirceu definhar na cadeia. Entretanto, caso o Ministro confirme a aceitação dos embargos, não vou chamá-lo de traidor, nem insultarei o STF, tampouco, insinuarei a famigerada pizza.
Antes de começar o julgamento, não tínhamos certeza da condenação dos réus. Estamos num campo tão complexo e relativamente tão novo, que o desfecho seria imprevisível. Meu post "Mensalão" - um dos mais lidos deste blog - traduziu bem o que sentia à época.
Devemos almejar um julgamento correto de acordo com o sistema em vigor. Se o "sistema não fecha", nas palavras de Marco Aurélio Mello, que mudemos o sistema! Temos que reconhecer que a corrupção evoluiu muito mais do que nossos códigos e isso não é exclusividade do Brasil.
Os juízes, especialmente do STF, devem seguir as regras. Não é por que sabemos que estamos diante de bandidos, que vamos burlá-las para puní-los. Essa é a diferença entre nós e eles! Para nós, os fins não justificam os meios.
A turma do Dirceu já foi condenada e terá nosso desprezo para sempre e isso é muito importante! Pressionar o Juiz é democrático. Exigir mudanças é nosso direito. Entretanto, esculhambar tudo é antipatriótico.
Leia também: Meu post de 2012 sobre o Mensalão
Foto: Fachadas de Bruges, na Bélgica.
Saturday, May 18, 2013
Jeitinho
Este post já estava na minha mente, quando me deparei com a morte do ex-ditador argentino Jorge Videla. Dias antes, consagrava-se o casamento gay no Brasil. Ainda antes, estávamos abismados com as hostilidades entre o Judiciário e Legislativo.
Para mim está claro, três assuntos decididos pelo Judiciário deixam muitos inconformados: a união homoafetiva, a constitucionalidade da Lei da Anistia e, é claro, o julgamento do mensalão. Embora haja certa sobreposição entre esses grupos, eles ainda voltarão a fazer algum barulho.
São assuntos muito complexos para serem analisados num blog. Por isso mesmo, não estou aqui para dar uma opinião sobre eles. Gostaria apenas de comentar sobre o caminho encontrado pela nossa sociedade para resolvê-los.
O casamento gay, por exemplo, racha um país como a França. Em outros países, monopoliza o debate, tirando o foco da resolução da crise econômica. Nessas viagens entre o Brasil e a França, vi o gritante contraste entre a sangria que o assunto causa por lá e a relativa tranquilidade daqui.
A mesma coisa vale para a anistia. Mesmo com todo respeito às vítimas da ditadura, ainda prefiro a situação brasileira à argentina, onde a ferida jamais cicatriza. Enfim, pode ser que tenhamos que pagar essa conta lá na frente, mas o Brasil encontrou um jeitinho para resolver problemas difíceis, que poderiam dividir a sociedade.
A essa altura do campeonato, é melhor gastar o tempo dos políticos em outras reformas. Só não aceito quando o Parlamento reclama do STF, pois todos nós somos responsáveis por esse grande pacto, inclusive deputados e senadores.
Foto: Nos arredores de Paris, a torre do Château de Vincennes. Eu mesmo deixei para visitá-lo somente há pouquíssimo tempo, por isso imagino que muita gente acaba pulando essa atração tão perto do centro de Paris.
Saturday, March 23, 2013
Linhas tortas
Não garanto que a novela da inspeção veicular em São Paulo tenha terminado. Agora, o foco será nos veículos antigos, deixando um regime muito mais flexível para os mais novos. Enfim, parece razoável, como esperávamos que fosse desde o início. Se o final é feliz, o caminho foi tortuoso.
A inspeção foi criada como uma mágica arrecadatória e desmontada com demagogia. A única coisa em comum entre todos os envolvidos é que nenhum deles está preocupado com o meio ambiente, o suposto beneficiário da tal inspeção.
Democracia é assim mesmo. Durante nossas vidas, vemos um monte de bobagens e injustiças. No longo prazo, a sociedade faz as correções.
A corrupção e a incompetência atrapalham a vida pública. Nem por isso, tudo é desprezível. Algumas discussões do Congresso refletem legítimas fraturas da sociedade diante de certos assuntos, sobrepondo-se ao habitual fisiologismo e à disputa entra governo e oposição. Exemplo: Os royalties do petróleo e todas as questões de impacto religioso (jogos, gays, aborto, etc).
Assisti ao filme "Lincoln" com olhos de quem acabara de acompanhar o julgamento do Mensalão. As cenas de corrupção de deputados parecem de certa inocência para o século XXI. Entretanto, a crença de Lincoln no processo democrático, mesmo com as suas imperfeições, é um dos seus grandes legados.
Os EUA elegem seus presidentes sem interrupção há mais de 200 anos, algo que representa um marco na história da humanidade. Daqui a 100 anos, quase ninguém saberá o que foi um petista ou um tucano. O importante é que estejamos escolhendo nossos líderes, apesar de todos os acidentes de percurso vindouros.
Foto: No topo da cidade de Eze, nas ruínas do seu castelo, há um jardim de plantas exóticas decorado com esculturas de Jean-Philippe Richard.
Saturday, January 19, 2013
O lance
Escrevi três vezes sobre ciclismo neste blog. Não por simpatia ao esporte, mas por que estava na França e fui contaminado pelo prestígio do "Tour de France". Nos três posts, falei de doping.
Também escrevi o que muitos diziam sobre Lance Armstrong. Leiam o post de 2010. Além de se manter impune por anos, o atleta ganhou vários processos contra aqueles que se atreveram a desmascará-lo. A gente sabe que, falar é uma coisa, provar é outra.
Essa habilidade de se trapacear de forma escancarada e continuar inabalável não é estranha aos brasileiros. Infelizmente, temos uma verdadeira escola por aqui, sobretudo na política. O caso do Mensalão foi um raro exemplo, no qual a blindagem política e jurídica não funcionou.
Armstrong não era apenas um atleta. Era um herói e não só nos Estados Unidos. Construiu sua carreira e imagem de forma a desacreditar as insinuações de trapaça. Construiu uma teia de bons relacionamentos e montou a sua própria blindagem legal.
O pior de tudo é que grande parte da imprensa nunca deu bola para as constantes denúncias e preferiu explorar o seu lado de celebridade. O melhor de tudo é que alguns poucos não desistiram da busca da verdade. Daqui para frente, a desgraça do ciclista terá pelo menos um fim educativo.
Foto: Mais uma para fechar as fotos da renovação da área da Confluences em Lyon.
Friday, October 12, 2012
Intocáveis
Comentei sobre o filme "Intouchables" na revista do cinema do primeiro semestre. O texto mostra que não apostei no sucesso internacional do filme. Entretanto, as bilheterias confirmam a sua aceitação pelo mundo.
O filme conseguiu fugir do pequeno circuito tradicionalmente reservado ao cinema europeu. Se meu post original foi um pouco frio com esta ótima produção francesa, então fica aqui a correção e recomendação. Eu já o assisti duas vezes!
O nome do filme me faz lembrar o julgamento do mensalão. O grande legado desse processo não é a prisão de alguns corruptos, mas um recado muito claro para os políticos de hoje e do amanhã: Já não são mais intocáveis!
O julgamento tem sido uma grata surpresa. Temia que mais membros do STF se alinhassem ao "estilo Lewandowski". Felizmente, é a figura de Joaquim Barbosa que se impõe. Mais para frente, volto ao tema. Assim como muitos brasileiros, espero ansiosamente pela hora da dosimetria ;-)
Foto: Começando uma série de imagens sobre o Castelo de Windsor. Essa residência oficial da monarquia britânica é o maior castelo ocupado do mundo. As partes mais antigas remontam a 1070, época de Guilherme, o Conquistador.
Saturday, August 18, 2012
Mensalão
As Olimpíadas abafaram as fases mais chatas do julgamento do mensalão. O melhor começa nesta segunda-feira. Na última semana, consegui acompanhar algumas discussões e posso antecipar um intenso debate. As divergências entre o relator e o revisor são sinais da complexidade da matéria. Ficarei três semanas fora do Brasil, então deixo algumas poucas palavras sobre um assunto tão relevante.
Mesmo torcendo por uma condenação exemplar de todos os réus, entenderei se eles escaparem deste julgamento inocentados. Acho que a ideia de "pizza" não é apropriada nesse contexto. Por mais evidente que seja o crime cometido, prová-lo de forma definitiva é muito difícil. Ainda mais quando uma centena dos mais prestigiados advogados do Brasil estão do mesmo lado. São cem contra um!
A situação me lembra o clássico filme "Reverso da Fortuna", baseado na história real do envenenamento da esposa do milionário Claus Von Büllow. Condenado num primeiro julgamento, ele recorre a um dos ícones do Direito americano, Alan Dershowitz. Até mesmo o célebre advogado desconfiava de Claus. Porém, quando percebeu uma grave falha na acusação, não hesitou em defendê-lo. De graça.
O réu foi inocentado. Julgamentos justos estão entre os pilares da democracia. Por mais evidente que um crime possa parecer, não podemos nos deixar levar pela condenação prévia, pela manipulação ou pelo preconceito.
Voltando ao mensalão. O aspecto mais preocupante da não condenação é o sinal verde para operações desse tipo, que voltarão ainda mais sofisticadas. Afinal, o mercado financeiro é pródigo em criar soluções para disfarçar as mais "tenebrosas transações".
É por essas e outras que afirmo: O mensalão não é a doença em si, mas um sintoma. Pouco importa como se compra um deputado, se ele já chegou em Brasília para se vender. Então, depois do julgamento e independentemente do seu resultado, é preciso se discutir a reforma política.
Precisamos acabar com os partidos de ocasião, estabelecer a fidelidade partidária, discutir o financiamento de campanha, ampliar o ficha limpa, revisar o número de cadeiras de todo Legislativo e, mais importante, adotar o voto distrital.
Foto: O Grande Palácio abrigava a antiga sede administrativa (foto) do Reino do Sião, nome da Tailândia até 1932. O "Templo do Buda de Esmeralda" integra o mesmo complexo.
Friday, October 23, 2009
The Ugly, The Bad and The Worse - Parte II
Paquistão 2002
Poucos meses depois do 11 de setembro, um grupo de franceses chega a Karachi. São onze engenheiros navais que dão assistência técnica como parte do acordo de venda de submarinos ao Paquistão, ocorrido em 1994. Uma violenta explosão mata todo o grupo. Todos apontam para o terrorismo islâmico, sendo o suspeito número um, a Al-Qaeda.
O Paquistão conseguiu localizar e condenar alguns dos envolvidos. Mesmo assim, o atentado foi muito estranho. Um grupo de engenheiros franceses no Paquistão não era o alvo típico do terrorismo islâmico em 2002. O mistério tortura os parentes das vítimas até hoje .
Anos depois, a própria investigação trouxe mais detalhes. A França vendeu os submarinos ao Paquistão graças a polpudos subornos às autoridades locais. Subornos pagos à vista e a perder de vista. A prática era tão aberta que até constava no contrato. Porém, um acordo da OCDE de 2000 tentou banir esta forma de corrupção tão globalizada. Com o governo francês comprometido com as novas regras, a mesada dos milicos paquistaneses foi suspensa. O atentado de Karachi foi pura vingança. Nada a ver com a Al-Qaeda.
Bem, a história não é das mais dignas. De qualquer modo, a França corrigiu uma prática incorreta. Então, por que esconder a verdade sobre o atentado durante anos? Por uma razão simples, isso não é tudo. E se é difícil conseguir provas de escândalos que acontecem só em Brasília, imaginem buscá-las no democrático Paquistão.
Há evidências de que o mensalão do Paquistão tenha sido "superfaturado". Ou seja, suponhamos que os oficiais daquele país tenham solicitado um suborno de X. A França deu 2X, com a condição de que eles devolvessem X numa conta secreta. A tal conta serviu para financiar campanhas políticas, em especial, a de Édouard Balladur, candidato presidencial em 1995 contra Jacques Chirac. Notem que o esquemão de financiamento de campanhas é o mesmo no mundo inteiro.
Que sujeira, hein? Ainda assim, o Balladur é coisa do passado! Por que tanto segredo? Não seria melhor ter jogado limpo e contado tudo para as famílias e o povo. O pequeno detalhe é que o tesoureiro de campanha do Balladur e arquiteto da operação era ninguém menos que Nicolas Sarkozy.
Enfim, uma história trivial do mundo político atual, que ganhou um toque trágico e veio à tona por causa dos onze mortos. Quanto ao Sarkô, ele jura que não sabia de nada.
Foto: Em Caen, o castelo de Guilherme, o Conquistador. O castelo é contemporâneo ao histórico feito de Guilherme, a tomada da Inglaterra. Evidência ainda viva desta conquista é o próprio idioma inglês, que absorveu uma enormidade de palavras latinas, pela via normanda. A construção quase milenar ocupa uma grande área no centro da cidade. De fato, é um dos maiores castelos da Europa com 5,5 hectares. Foi especialmente danificado durante a Guerra dos Cem Anos e a II Guerra Mundial. Hoje, é um grande espaço cultural, com Museus e exposições.
Tuesday, October 20, 2009
The Ugly, The Bad and The Worse - Parte I
Dois eventos terrivelmente mortais ainda estão na memória recente da França. Um atentado que matou onze engenheiros no Paquistão e uma emboscada que tirou a vida de dez soldados no Afeganistão. Apesar do contexto de insegurança daquela região do planeta, os dois casos foram surpreendentes. As famílias das vítimas ainda aguardam as explicações definitivas, que talvez jamais sejam comprovadas.
Afeganistão, 2008
Além de não ter participado da campanha contra o Iraque, a França havia se retirado do Afeganistão. Sarkozy, num esforço de reaproximação com os EUA e a OTAN, enviou novas tropas ao Afeganistão. A França ocuparia uma área relativamente calma, sem histórico de confrontos contra o Talibã. As tropas francesas estavam fazendo muito mais patrulha do que guerra. Melhor assim, pois qualquer baixa precoce poderia atrapalhar a vontade de Sarkozy de cooperar com os seus aliados.
E foi logo no início das operações que a França foi surpreendida. Naquela área supostamente calma, os talibãs emboscaram uma patrulha de dez soldados, que foram assassinados. Não levaram apenas chumbo grosso, foram mutilados e torturados. De onde vieram esses talibãs? Por que tanta raiva?
Não há como se esconder as baixas. O governo tentou abafar as notícias sobre as condições em que os corpos foram encontrados. Tentou. As condições anormais desta emboscada levaram a investigações adicionais.
As tropas francesas foram para uma área ocupada anteriormente pelas tropas italianas, que foram realocadas. O que ninguém sabia é que a paz encontrada pelos italianos era na verdade fruto de um acordo super secreto. A Itália estava pagando uma boa mesada aos talibãs, a fim de se evitar qualquer conflito. Acredite, se quiser!
Ao serem substituídas, as tropas italianas interromperam o pagamento e não avisaram os franceses da existência desse acordo. Os soldados franceses que faziam um "passeio" nunca imaginariam que seriam brutalmente assassinados pela cobrança de uma dívida que mal conheciam.
Evidentemente, os italianos negam e vão negar a história até o fim. Berlusconi diz que não sabia de nada.
Foto: No centro de Caen, a bela e grandiosa Abadia dos Homens, onde também funciona o Hôtel de Ville. A cidade de Guilherme o Conquistador foi praticamente destruída (70%) na Segunda Guerra. Se sobraram alguns dos tesouros do seu patrimônio, é por que antes havia muito mais. Clique aqui para ver uma foto histórica da vista a partir do castelo de Guilherme logo após a guerra. Note que a Abadia dos Homens, intacta, é bem visível na foto.
Fico até sexta do outro lado da Mancha, depois volto com a segunda parte. Até breve!
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