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Sunday, March 1, 2015

Petróleo barato

De uma maneira geral, todos sabem quem ganha e quem perde com o petróleo barato. Os consumidores norte-americanos e europeus ganham. A China e o Japão ganham. A Rússia, a Venezuela e os países árabes da OPEP perdem. E o Brasil, ganha ou perde? Quem sabe?

Não tenho acompanhado as notícias de perto para arriscar um palpite. O preço do combustível ao consumidor nunca acompanhou as oscilações internacionais. A Petrobrás sempre foi usada como um braço do governo (não só para roubar). A autosuficiência é uma história antiga, mas cada ano tem uma desculpa diferente para se importar petróleo ou exportar excedentes a preço de banana.

A verdade é que, independentemente das razões, boa parte do mundo comemora a baixa do combustível. As combalidas economias europeias ganham fôlego. Os EUA solidificam a retomada. E o Brasil, mais uma vez, fica de fora.

Ninguém sabe quanto tempo vai durar essa fase de baixa. Apesar de estar ancorada no crescimento da extração de gás nos Estados Unidos, a queda provém de uma decisão da Arábia Saudita, no sentido de preservar seu mercado ou “quebrar concorrentes”, como arriscam alguns jornalistas.

Em briga de elefantes, sobra para a grama. O nosso pré-sal, por enquanto, é grama. E se o petróleo permanecer barato, o projeto do pré-sal torma-se inviável. Mais um rombo bilionário na breve história do petróleo brasileiro. Incompetência e corrupção andam sempre juntas.





Foto:  Passeio de final de semana em Antuérpia. Na bela Grand-Place, céu azul e temperatura próxima de zero.

Wednesday, February 18, 2015

Tributo ao Carnaval

Ontem foi mardi-gras. Cá entre nós, Carnaval sem feriado não tem graça nenhuma! Sim, existem algumas celebrações carnavalescas na Europa. Nada que rivalize com uma boa greve ou uma partida de futebol. De qualquer maneira, parodiando o ditado, não existe Carnaval ruim, é você que bebeu pouco.

Não há Carnaval que faça o brasileiro esquecer dos problemas. As investigações do Petrolão e a estagnação do país têm visibilidade internacional. A cara da Dilma preocupada está em todos lugares. As pessoas perguntam-me sobre a crise econômica brasileira. Respondo que não é econômica, é institucional.

Enquanto vocês curtem o Carnval nas ruas e nos jornais, este inverno camarada é temperado com as mesmas notícias: A Grécia, a Ucrânia e o atentado do mês, aquele da Dinamarca. Se não tem um Petrolão por aqui, tem o caso das contas suíças do HSBC. Já estava com saudades de poder acompanhar um grande escândalo mais de perto.

Demorou e o sistema financeiro finalmente ganhou o seu Snowden. Todos sabem do papel dos paraísos fiscais no mundo do dinheiro, mas não tinham as evidências. Com o HSBC na berlinda e uma lista de milhares de correntistas, o aperto aos agentes do sistema será muito maior.

Diante de governos corruptos e gulosos, pode parecer razoável tirar o dinheiro do próprio país. Entretanto, dependendo do país e das circunstâncias, é crime. Pior ainda, quem guarda os seus trocados também trabalha para mafiosos, terroristas, autocratas e até petralhas.

Os bancos são criativos e provavelmente encontrarão alternativas para esconder a grana dos afortunados. Problema deles. É preciso conter a evasão e estancar os fluxos do mundo do crime e da informalidade.

Dias desses, Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital no Século XXI”, deu uma longa entrevista à TV francesa, quando mencionou a questão da evasão fiscal. Como socialista, ele quer muito mais do que eliminar os paraísos fiscais. Fala, por exemplo, da tributação das transações internacionais.

O Piketty tem uma fixação patológica por impostos. Declarou-se satisfeito pelos milhões de dólares que recebe com seu best-seller, que acabam nas mãos do Fisco francês. Disse que está feliz com o seu salário de professor e não precisa de mais dinheiro. Os entrevistadores ficaram embasbacados. Bem, é Carnaval. Talvez, eu tenha bebido pouco.


Foto: O Museu Hergé em Louvain-la-Neuve,  na periferia de Bruxelas.

Saturday, April 5, 2014

IPEA & Cia

Foi por muito pouco que não escrevi um post sobre a famigerada pesquisa do IPEA durante a última semana. Até mesmo quando escrevia sobre a Petrobrás, pensava naquela pesquisa, que tanto repercutiu.

O relatório do IPEA sobre "Tolerância social à violência contra as mulheres" foi tomado como fidedigno e imparcial. Poucas entidades no Brasil mereceriam tamanha confiança. Se tivesse escrito um post, teria feito como todos os jornalistas, que dedicaram seu tempo à análise da pesquisa, tentaria compreender os resultados sem questioná-los.

Sob a premissa da retidão do relatório do IPEA, a última semana foi marcada por manifestações, artigos, declarações e reflexões sobre o povo brasileiro. Dessa forma, o erro e o pedido de desculpas do IPEA provocaram um grande constrangimento.

Sob os holofotes, a pesquisa está sendo desafiada. Questiona-se o método, a amostragem, a formulação das questões e, principalmente, as suas conclusões. Enfim, havia mesmo algo em comum com o post sobre a Petrobrás, uma desagradável mistura de incompetência e falta de ética.

Não podemos desprezar o grave problema brasileiro no campo da tolerância à violência contra as mulheres, mesmo sem estatísticas confiáveis. Entretanto, o ponto é que um dos nossos únicos institutos com alguma reputação, mostra-se falho e incompetente.

Governos, empresas e cidadãos precisam conhecer o país para planejar, agir e empreender programas econômicos e sociais. Não dá para se gerir um país de 200 milhões no "chutômetro" ou  no "feeling". Pesquisas e estatísticas confiáveis são essenciais para qualquer atividade organizada, sobretudo quando se trata de políticas públicas.

Devemos reconhecer que o brasileiro é um ilustre desconhecido. Não sabemos como ele vê a violência contra as mulheres. Também não sabemos o que ele pensa da Justiça, da corrupção, da criminalidade, da democracia, dos seus direitos e deveres, da religião, da sua Pátria, etc. Não sabemos quase nada!

Quero crer que o censo demográfico seja bem feito, mas o resto não merece credibilidade. Talvez seja por isso que a política esteja num nível tão ruim. Assim como a educação, a saúde e a ciência. Não duvido de que, num futuro próximo, tenhamos que recorrer a estrangeiros para entender o nosso próprio país.


Foto: Inaugurando a série de San Sebástian (País Basco), ainda das últimas férias de verão.

Saturday, March 29, 2014

Ouro negro

Enquanto estava fora, a discussão sobre a gestão da Petrobrás pegou fogo. Sempre é positivo que a realidade venha à tona, mas a reação geral é um pouco surpreendente. Explico melhor a seguir.

Um bom pedaço do rombo da Petrobrás está no nosso próprio bolso. É o controle de preços imposto pelo governo, que usa a empresa como seu braço. A tão amada Petrobrás ajuda a controlar inflação, fazer política industrial e até cultural. Pode ser legal, mas é imoral, sobretudo com os demais acionistas. Estes sim, são prejudicados e desrespeitados continuamente. São os grandes perdedores.

Com relação à corrupção, ora bolas, o governo petista mete as mãos em tudo o que é possível, por que deixaria a Petrobrás de fora? Roubar na saúde e na educação não é pior? Depois da Copa e das Olimpíadas, o que é uma mera refinaria?

Vejo certa incoerência daqueles que clamam: "roubem tudo menos a Petrobrás". Seriam  liberais de verdade? O verdadeiro liberal está entre aqueles que dizem: "vendam a Petrobrás!"

Os casos de corrupção e incompetência em voga são escandalosos. Não vou comentá-los individualmente por falta de informações. Tenho certeza de que existem muitos outros.

Se tudo isso for munição para a campanha eleitoral e vier para abalar a Dilma e sua corja, que seja bem vindo! Afinal, esse é o destino dos maus governantes e dos bandidos mais célebres: são punidos pelos motivos errados.


Foto: Na última foto de Amsterdam, o Nemo, o Museu de Ciências.

Tuesday, November 5, 2013

A causa - 2

No post anterior, escrevi que algumas manifestações da sociedade parecem divergir das grandes prioridades nacionais. A diversidade de propósitos divide e confunde, favorecendo quem está no poder. Entendo que um Brasil - ainda não tão educado - possa ser suscetível a tais manipulações.

Pior do que isso é a ausência de um debate decente e um bom desafio às propostas do Governo. Em "2014", falei de como ele atropelou a sociedade com o programa Mais Médicos. Recentemente, no leilão do pré-sal, encontramos o mesmo padrão.

Uns criticam o leilão em si, outros reclamam da participação estrangeira e, finalmente, alguns desdenham da mudança de posição do PT. Mais uma vez, o debate é irrelevante face ao tamanho da coisa. A Dilma constrói o prédio inteiro e a sociedade discute a cor da parede!

Não é uma questão de ser favorável ou contrário à exploração do pré-sal, acho frustrante não ver uma discussão mais completa.
  • Vale a pena extraí-lo ou seria melhor deixá-lo como reserva estratégica? 
  • Qual o impacto do fluxo de dólares adicional na economia? 
  • Será mesmo que os novos investimentos em saúde e educação não seriam parcialmente compensados por perdas de outra natureza? 
  • E os riscos ambientais? 
  • O Brasil é imune a doença holandesa
  • E se o preço do petróleo no mercado internacional baixar muito? 
  • O que faremos de diferente para não cair na maldição dos países exportadores de petróleo, todos atrasados e autocráticos?
Claro que não são questões simples nem populares. Algum político de destaque poderia ter ousado, mesmo que fosse só para aparecer. Pelo jeito, continua sendo bem mais fácil apelar para o debate irrelevante e demagógico. Afinal, o petróleo é nosso!


Foto: O castelo de Gante.