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Wednesday, June 15, 2016

Fofinho

Mais uma vez, escrevendo do trem. Estou voltando de Lyon para Bruxelas na companhia da torcida da Islândia, que jogou ontem em Saint-Etienne. Os torcedores têm torcido muito: pelos seus times e pelo não cancelamento das suas viagens. Apesar dos grevistas e das manifestações, a bola está rolando.

Dada a importância da competição, o futebol divide o noticiário com os problemas políticos, econômicos e sociais. Talvez seja escapismo. Digamos que todos nós mereçamos ver um assunto diferente nos jornais de vez em quando. A reforma trabalhista na França, as suas manifestações contrárias, as ameaças de terrorismo ou a possível saída da Inglaterra da União Europeia são muito importantes, mas ninguém é de ferro.

Por falar em escapismo, os jornais belgas tiveram seu momento de ternura, quando nasceu o filhote de panda-gigante num zoológico do país. As imagens percorreram o mundo. Existem muitos poucos exemplares do belo urso fora da China e conseguir a sua reprodução em cativeiro é um feito louvável.

Entre tantos animais interessantes ou bonitinhos, nenhum supera o panda-gigante. Leão, tigre, elefante ou girafa, não tem pra ninguém! A prova está no caixa dos zoológicos. Aqueles que têm panda atraem um público maior. A história do zôo em questão, o Pairi Daiza, divide-se em antes e depois dos pandas.

Entretanto, estamos na Bélgica, onde nem mesmo uma notícia fofinha escapa da polêmica. O Pairi Daiza fica na Valônia. O nascimento do panda depertou muitos ciúmes do seu congênere de Flandres. O zôo de Antuérpia pode ser muito bem administrado e queridinho dos flamengos, mas não tem panda!


Foto: Mais uma foto nos famosos Jardins de Giverny

Sunday, June 12, 2016

Temporada de greves

Estou escrevendo este texto no trem. O mesmo trem que trouxe os torcedores ingleses de Marseille e que leva os belgas para Lyon. É tempo de Euro 2016!

Euro 2016 só para alguns, pois eu estou indo trabalhar. Aliás, nem os maquinistas estão trabalhando. Para minha sorte, peguei um dos poucos trens confirmados para hoje.

Que os maquinistas franceses não respeitem a Euro 2016, dá até para se aceitar. Mas eles não suspenderam a greve nem quando boa parte do país estava debaixo d’água. Isso é demais! Entre trilhos inundados e trens inoperantes, a França passou por alguns difíceis.

Os maquinistas belgas foram mais solidários. Respeitaram um longo período de luto após os atentados e fizeram apenas alguns poucos dias de greve. Do lado belga, não há nenhuma reivindicação especial, é só para não perder o hábito. Sindicalista profissional não precisa de bons motivos para cruzar os braços.

Amanhã, tenho uma reunião importante em Lyon. Sacrifiquei metade do meu domingão para poder pegar esse trem e garantir minha presença amanhã logo cedo. Um outro colega belga, cansado das greves, está encarando 6 horas e meia de estrada. Outros escolheram ir de avião, evitando-se a Air France, que tem greve anunciada para as próximas horas.

Entre greves belgas, francesas, muita chuva e um trânsito infernal, não é preciso dizer que enfrentamos dias de caos por aqui. Felizmente, consegui movimentar-me entre Bruxelas, Paris e Lyon escolhendo os bons trens e aviões. Sorte!

Só fui supreendido por um temporal parisiense, daquelas chuvas de verão paulistanas. Estava a 200m do hotel com um guarda-chuva portátil. Achei que dava. E deu! Deu para ficar encharcado.  A noite inteira e o secador de cabelos não foram suficientes para secar a calça, o paletó e os sapatos.

O legado desses dias de caos e um frio fora de época foi um refriado, que virou gripe, que virou sinusite. Chamei um médico, que chegou em casa rapidinho para fazer o diagnóstico e receitar os medicamentos. Deve ter vindo a pé.



Foto: Ainda das férias do verão passado, no caminho para a Bretanha, passagem pelos Jardins de Giverny, famosa residência de Claude Monet.

Saturday, May 2, 2015

Crônica ferroviária


Tirando as greves, são raros os momentos em que o sistema ferroviário europeu não funciona como um reloginho. 

Em 2007, passei um sufoco. Houve uma sequência de atrasos por motivos técnicos nas minhas viagens entre Paris e Lyon. Atraso, segundo a companhia francesa, é algo superior a 20 minutos. O resto está dentro da variabilidade. Recebi várias indenizações naquele verão.

Numa das viagens, um problema técnico exigiu a redução da velocidade do trem. Parece pouca coisa, entretanto, sair de 330 km/h para 150 km/h representou um atraso de quase 2h. Nunca cheguei tão atrasado a um evento. Por sorte, havia outros convidados de Lyon no mesmo trem e a organização do evento administrou o imprevisto.  

Depois de 2007, nunca mais tive uma sequência tão azarada. Nesses últimos dias, no entanto, as greves belgas pregaram uma peça em muitos colegas. Houve também problemas técnicos. 

Na última sexta, voltando para Bruxelas e devidamente sentado na poltrona do Thalys, recebi vários SMS: “atraso estimado de 15 minutos” ; “atraso estimado de 30 minutos”; “atraso estimado de 45 minutos”; etc. A tabuada do 15 foi até 165! 

Teve de tudo nessas quase 2 horas: troca de trem, ar condicionado desligado e bar fechado. O que mais me impressionou é que ninguem fez um piu. Todos bem comportados, sem reclamação, sem aumentar do volume de voz, etc. Coisa de belga mesmo.

Os momentos mais próximos de stress nos vagões franco-belgas ocorrem quando alguém pega o lugar do outro. Nessas situações, geralmente tem um estrangeiro envolvido. Seja aquele perdido no trem ou aquele que não sabe que os passageiros frequentes podem mesmo sentar-se onde quiser. Já vi muitos brasileiros estressando-se à toa.

E por falar em brasileiros, enquanto escrevi esta crônica ferroviária, lembrei do nosso ex-futuro-trem-bala ligando Rio e São Paulo. Alguma notícia?



Foto: Domínio Real de Mariemont, a uma hora de casa, um lugar bacana para um domingão ensolarado. 

Sunday, March 8, 2015

Uber

O Uber é sinônimo de baderna. Ele causa greves, manifestações e agressões. Na última semana, cruzei com uma paralização de taxistas protestando contra o Uber em Bruxelas. O congestionamento engoliu a minha habitual folga para chegar aos aeroportos e estações de trem. Não perdi o trem por alguns segundos.
  
Depois dessa, dá mais vontade de continuar usando o Uber. O serviço é de primeira. Na grande maioria das vezes, chega um carrão limpo e cheio de serviços como revistas, wi-fi, garrafa d’água e balas. O motorista, chamado Mohamed em um terço das vezes,  é muito mais gentil do que qualquer taxista de frota. O melhor de tudo é que sai bem mais barato.

E quem disse que aquele Mercedão é do Mohamed ? Não é mesmo. Ele o aluga por alguns dias e roda o máximo atendendo aos usuários do Uber e fazendo uns trocos.

Acredito que a contribuição mais nobre  do Uber seja quando há um real compartilhamento de veículos (a boa e velha carona) e não apenas a substituição dos motoristas de taxis. Isso sim faz um bem maior para nossas cidades.

O Uber é obviamente injusto com os táxis, que  submetem-se a fiscalizações e regulamentações, quando não pagam uma fortuna pelo ponto. Só resta-lhes uma vantagem, podem andar nos corredores de ônibus e bondes.

Tá com pena deles? Eu não.

Internet é isso mesmo. Desintermediação e ruptura são palavras de ordem. Não se solidarizem com os taxistas.  Melhor mesmo é ficar de olho nas nossas profissões e mercados. Amanhã, poderemos ser os taxistas de um outro Uber.  



Foto: Mais uma cena do centro de Antuérpia.

Wednesday, February 18, 2015

Tributo ao Carnaval

Ontem foi mardi-gras. Cá entre nós, Carnaval sem feriado não tem graça nenhuma! Sim, existem algumas celebrações carnavalescas na Europa. Nada que rivalize com uma boa greve ou uma partida de futebol. De qualquer maneira, parodiando o ditado, não existe Carnaval ruim, é você que bebeu pouco.

Não há Carnaval que faça o brasileiro esquecer dos problemas. As investigações do Petrolão e a estagnação do país têm visibilidade internacional. A cara da Dilma preocupada está em todos lugares. As pessoas perguntam-me sobre a crise econômica brasileira. Respondo que não é econômica, é institucional.

Enquanto vocês curtem o Carnval nas ruas e nos jornais, este inverno camarada é temperado com as mesmas notícias: A Grécia, a Ucrânia e o atentado do mês, aquele da Dinamarca. Se não tem um Petrolão por aqui, tem o caso das contas suíças do HSBC. Já estava com saudades de poder acompanhar um grande escândalo mais de perto.

Demorou e o sistema financeiro finalmente ganhou o seu Snowden. Todos sabem do papel dos paraísos fiscais no mundo do dinheiro, mas não tinham as evidências. Com o HSBC na berlinda e uma lista de milhares de correntistas, o aperto aos agentes do sistema será muito maior.

Diante de governos corruptos e gulosos, pode parecer razoável tirar o dinheiro do próprio país. Entretanto, dependendo do país e das circunstâncias, é crime. Pior ainda, quem guarda os seus trocados também trabalha para mafiosos, terroristas, autocratas e até petralhas.

Os bancos são criativos e provavelmente encontrarão alternativas para esconder a grana dos afortunados. Problema deles. É preciso conter a evasão e estancar os fluxos do mundo do crime e da informalidade.

Dias desses, Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital no Século XXI”, deu uma longa entrevista à TV francesa, quando mencionou a questão da evasão fiscal. Como socialista, ele quer muito mais do que eliminar os paraísos fiscais. Fala, por exemplo, da tributação das transações internacionais.

O Piketty tem uma fixação patológica por impostos. Declarou-se satisfeito pelos milhões de dólares que recebe com seu best-seller, que acabam nas mãos do Fisco francês. Disse que está feliz com o seu salário de professor e não precisa de mais dinheiro. Os entrevistadores ficaram embasbacados. Bem, é Carnaval. Talvez, eu tenha bebido pouco.


Foto: O Museu Hergé em Louvain-la-Neuve,  na periferia de Bruxelas.

Friday, December 26, 2014

Detetives

Agredeço a todos que escreveram sobre o meu último post. Não imaginava despertar tamanha solidariedade, era para ser um post apenas engraçadinho. Não fosse o furto, seria mais um daqueles posts sobre as greves europeias.

Ainda sobre o triste incidente, pensei várias vezes no desafio daqueles dois que invadiram meu apartamento para fazer a “limpeza”. O que roubar?

A pergunta parece simples, mas só ladrões experientes fazem as escolhas certas. Afinal, eles precisam carregar as coisas roubadas mantendo uma certa agilidade durante a fuga. Há uma combinação de fatores como valor de mercado, volume e peso.

Enquanto o policial belga caçava digitais no meu apartamento, eu pensava - caríssimos leitores, não pensem em Hercule Poirot. Jacques Clouseau é bem mais realista - Eu só queria entender o que tinha acontecido. 

Percebi que os bandidos revistaram todo apartamento, selecionaram o que interessava e, antes da saída, fizeram a triagem. Levaram tudo para a mesa de jantar e lá escolheram o que seria furtado.

- Entre um Blackberry e um aparelho de barbear da Gilette, optaram pelo último.
- Entre um vidrinho de perfume da Armani e um GPS, escolheram o frasquinho.
- Entre um leitor de livros Kindle e um porta moedas com alguns poucos euros, ficaram com o dinheirinho vivo. Será que eles não gostam dos meus livros? Snif snif...  

Enfim, os gatunos sabem das coisas ;-)

Como provavelmente não terei tempo para escrever um novo post nos próximos dias, deixo os meus votos de Boas Festas e Ótimo Ano Novo. E se der alguma coisa errada em 2015, que seja matéria prima para novos posts. Afinal, a gente perde um monte de coisas, mas não perde a piada.


Foto: Como “post cartão de Natal”, aí vai este GIF animado montado sobre fotos recentes da fonte de Evian Les Bains, ao pé dos Alpes e às margens do Lago Leman.

Saturday, December 20, 2014

Perdas e danos

Nas últimas semanas, percebi que greve é coisa profissional aqui na Bélgica. Não é algo para atrapalhar nossas vidas só um pouquinho, é parada geral mesmo!

Sabendo da greve geral prevista para o último dia 15, remanejei meus compromissos para Paris. Até aí, foi fácil.  O problema é que, antes da greve em si, há “ensaios”. O movimento começou em novembro, com episódios de greves parciais semanais.

Num desses dias de greve parcial, por exemplo, fui ao aeroporto a fim de embarcar para Lyon, onde ficaria uma semana. A mocinha do balcão: “Não estamos despachando malas, por que não veio ninguém para manuseá-las”. Perguntei se o vôo estava garantido, mas ela não soube informar :(

Felizmente, deu tudo certo. O maior contratempo foi entrar com uma mala – muito longe de ser de bordo – num avião tipo Embraer.

Novembro e dezembro foram meses de manifestações, reuniões da Comunidade Europeia e da OTAN. Tudo isso significa ter um gostinho do trânsito paulistano - só um gostinho - pois quase todos os órgãos internacionais e locais estão entre a minha casa e o trabalho.

É muito comum cruzar com policiais batedores que bloqueiam totalmente o trânsito para carros oficiais. Diplomatas e burocratas costumam usar os hotéis perto de casa. Alguns figurões precisam das avenidas só para eles, e olha que as avenidas já não são tão largas. A Polícia daqui parece ser especialista nisso. Aparentemente, só nisso.

Quem não fez greve nem corpo mole na última semana foram os bandidos. Não estou falando do padrão de bandidos brasileiros: sequestradores, assassinos e deputados. Falo de gatunos.

Enquanto estava em Lyon, um par deles fez uma limpa lá em casa. A lista de perdas é enorme, mas como a gente sempre diz, são perdas materiais. A sensação de chegar em casa e encontrar tudo revirado e jogado no chão não é nada agradável. Que seja a última vez!

A única contribuição da Polícia local para este breve relato foi a dedução de que eram dois furtadores. O “CSI Bruxelas” encontrou duas pegadas diferentes. Sabe até a marca dos sapatos. Por outro lado, depois de emporcalhar ainda mais o meu apartamento com pós pretos e brancos, não achou nenhuma digital.

A verdade é que esse tipo de crime é muito mais comum do que imaginava. Basta comentar o ocorrido entre colegas, que acabamos descobrindo quão comum são tais furtos. Se a Polícia local não pode ajudar, a maioria das pessoas já tem seus suspeitos: os ciganos. Segundo a sabedoria popular belga, são os únicos que levam os seus melhores jeans.

Ciganos ou não, tem alguém abafando por aí nesta noite de sábado em Bruxelas: Calça nova, camisa nova, casaco novo, tablet novo, celular novo, relógio novo e até perfume novo. Como consolo, só me resta escrever um post novo.


Foto: A Place des Jacobins em Lyon e seu abat-jour gigante na Fête des Lumières 2014. Eu estava lá, enquanto...

Sunday, June 16, 2013

Manif

Não pude assistir aos jogos da Seleção. Para falar a verdade, não venho assistindo há tempos. Até veria Brasil X França, se tivesse encontrado algum canal londrino transmitindo o jogo. De qualquer forma, era hora de jantar e a fome apertava. Desci ao restaurante com um tablet e fui acompanhando o andamento da partida por um site brasileiro.

Meu objetivo era curtir o jogo sozinho durante a refeição. Entretanto, foi muito melhor. Alguns colegas franceses chegaram logo depois e juntaram-se a mim. A conversa estava muito boa, mas tive que interrompê-la três vezes. Sem estardalhaço. Com classe. 1, 2 e 3.


Se São Paulo está aprendendo a conviver com as manifestações, a Europa já é craque nisso. Na França, é algo tão comum, que a palavra foi encurtada para "manif". E a manif da semana foi a do controle aéreo. Vocês se lembram do que uma greve de controle aéreo pode fazer? Pois é, fez. 50% dos vôos foram cancelados entre terça e quinta.

A Europa cogita a unificação do controle do seu espaço aéreo, algo bem razoável pelo tamanho do continente. Evidentemente, isso traria uma sinergia significativa. A resistência da categoria é natural.

Tive alguma sorte, pois meus vôos foram confirmados. Já os atrasos foram consideráveis. Enfim, com alguma tensão, passei por Londres, Paris e cheguei em Lisboa.

Estive em Lisboa algumas vezes, apesar de não ter publicado nenhuma foto neste blog. Desta vez, tive duas experiências novas: 1) fiquei hospedado numa área que não conhecia, onde fica o "legado" da Expo 1998 (São Paulo é candidata à realização da Expo 2020). 2) cheguei em plena festa de Santo Antônio.

Bom, esses são meus ganchos para os próximos posts. Até breve!


Foto: A Torre de Belém, no fim de tarde da última quinta-feira.

Saturday, February 11, 2012

Meu enésimo post sobre greves

Vocês têm o direito de pensar que este blogueiro também estava em greve. Não faltam boas causas. Não faltam bons e maus exemplos. No meu caso, a longa ausência deveu-se a coisas mais mundanas como viagens, agenda lotada, horas perdidas no trânsito de SP, etc.

Ideias não faltam, mas ainda hesito em enviar um texto a partir do telefone. Nem que seja para escrever um parágrafo, ainda prefiro me sentar diante do obsoleto micro, escolher uma foto e fazer tudo com calma. Pelo menos no meu blog.

Hoje é dia de greve geral no Egito e na Grécia. Os gregos têm bons motivos para fazer uma greve geral. Mas, cá entre nós, você confia num país que marca greve geral para sexta e sábado? Fica algo entre um feriadão forçado e uma greve que não atrapalha tanto. Na dúvida, não compre títulos gregos!

A França entende mais de greve. Normalmente, é no meio da semana, de terça a quinta. Sem colher de chá! Greve é algo tão sério, que a última paralisação da Air France não foi uma reivindicação por salários ou melhores condições de trabalho. A polêmica maior é em torno do aviso prévio para as próximas greves. Pode?

Em se tratando de greves, a pérola foi a greve dos desempregados, ocorrida na França em 2010. Parece piada. Desempregado em casa ninguém percebe, mas quando eles resolvem não fazer nada no meio de uma avenida importante, atrapalham bastante! Só não faço piada com as greves das PM (Bahia e Rio), por que meu blog ainda é muito família.


Foto: A escultura "Forever Marilyn" enfeitando uma esquina de Chicago. Merece duas fotos, acima e abaixo.



Tuesday, October 19, 2010

Bagunça

Não! Não queria escrever mais sobre as manifestações que acontecem na França, pois já está tudo nos posts anteriores. Mas, atendendo a pedidos, aí vai mais um texto.

Ninguém sabe como acabará este movimento contra a reforma do sistema de aposentadorias. A bagunça pode terminar amanhã ou se intensificar ainda mais. A tradicional queima de Renaults e Peugeots já começou. E não se trata de queima de estoques!

Vale relembrar que a reforma proposta pelo governo Sarkozy é correta e que o problema das aposentadorias é estrutural, associado à maior longevidade da nossa espécie. Outros países enfrentarão o mesmo problema, se quiserem sanear as suas contas. O governo tem maioria no Parlamento e fatalmente vai aprová-la.

O povo francês é bem mais politizado e culto que o brasileiro. Eles realmente acreditam no Estado provedor e querem continuar gozando dos benefícios conquistados ao longo das últimas décadas. Por outro lado, em 2007, elegeram Sarkô, que nunca escondeu a sua ambição reformista. Também elegeram uma maioria parlamentar liderada pela UMP, o principal partido de direita.

A manifestação é portanto fruto de muitos fatores: O descontentamento com a economia como um todo, com a deterioração do tão festejado padrão de vida francês, com a gestão de Sarkozy e, de uma forma bastante significativa, contra a personalidade do Presidente: Esnobe, arrogante e vaidoso.

A França ainda tem uma vantagem em relação ao Brasil. Lá, a capacidade de mobilização, organização de greves e protestos está sob comando da oposição. No Brasil, o governo tem tudo.


Foto: Uma das jóias de Viena, o majestoso castelo de Schönbrunn foi residência de verão dos Habsburgos. Hoje, é a maior atração turística da cidade e destaque do patrimônio mundial da UNESCO.

Wednesday, October 13, 2010

Cascata

Pelo menos para mim, o estado de alerta com relação ao terrorismo causou mais impacto do que a greve geral em si. Sabendo da greve, as pessoas buscam alternativas. Meus colegas de Lyon foram de carro para a nossa convenção em Gerland, descartando o eficiente transporte público da cidade.

O que me fez atrasar e andar além do planejado não foi a greve. Foram alguns pequenos deslizes sobre as linhas férreas gaulesas. Uma simples sacola abandonada num vagão de trem ou metrô provoca um efeito cascata inigualável. Isola-se um vagão, uma composição, uma estação, o trem que se aproxima e assim por diante. Dependendo das circunstâncias, uma linha inteira. Nas duas últimas semanas, sofri alguns atrasos por causa desses cuidados.

Além do risco iminente de atentado dentro do território francês, ressalto o número crescente de franceses sob domínio de terroristas na África. A Al-Qaeda tem se espalhado facilmente pelo Magreb e pelo Sahel (Mali, Mauritânia, Níger, Senegal, etc), áreas onde a França possui vários interesses.

O histórico do governo francês nesses casos é uma vergonha. Todas as operações especiais de resgate fracassaram. Vários franceses têm sido libertados após negociações que incluem somas vultosas e a libertação de terroristas perigosos. A maioria dessas transações envergonharam o Ocidente. Se eu fosse terrorista, procurava mesmo um alvo francês.


Foto: Museu de Belas Artes de Viena. No primeiro plano, a homenagem a Maria Teresa. Tanto a praça e o monumento levam o nome de uma das soberanas mais importante da casa dos Habsburgos.

Sunday, October 10, 2010

Para maiores

A Europa continua em alerta vermelho face às ameaças terroristas. França, Inglaterra e Alemanha estão no grau máximo vigilância. Considerando-se que os terroristas costumam preparar as suas ações por meses, deduzo que esperariam mais alguns dias, até que o nível de alerta baixasse. Não precisa ir muito longe, para se concluir que a vigilância permanente é a única saída. Pelo menos, a "mise-en-scène" é didática.

Semana que vem, temos mais uma greve geral por aqui. Estarei em Lyon, mas um pouco longe do centro. Meu ‘Plano B’ será levar um par de tênis. Uma hora de corrida é suficiente para se atravessar a cidade.

A cena hilária da semana foi o lapso da ex-ministra Rachida Dati. Num programa de televisão, ao invés de falar inflação, pronunciou felação. Talvez, ela tenha visto a charge publicada no semanário Charlie Hebdo, onde o pequeno Sarkô está bem encaixado entre as pernas e sob o manto de Bento XVI. Alguém diz ao Papa: ‘Não se preocupe, ele é maior’.

Sarkozy foi a Roma para agradar os católicos praticantes franceses, que representam menos de 15% da população. É muito pouco, mas o cara está desesperado.

Em matéria de religião, a imprensa francesa, fiel defensora da laicidade, não poupa ninguém. Voltando ao tema do post anterior, o editorial do Monde (capa de 8/10/10) comenta o impacto do assunto aborto no Brasil: “O Brasil, primeira nação católica do mundo, tem seus arcaísmos e tabus, que nós podemos, segundo o ponto de vista de cada um, aceitar ou criticar. O aborto faz parte deles. É lamentável que este grave problema da sociedade, ao invés de suscitar um verdadeiro debate, seja usado como máquina de guerra eleitoral”. O Monde está certo. Mas, a vontade de abortar a Dilma é tanta...


Foto: O Rathaus de Viena em dia de festa.

Tuesday, September 7, 2010

Espiral

Depois de um mês no Brasil, minha permanência recorde desde o final de 2006, estou de volta à França. Sem muitas mudanças por aqui e, para variar, uma greve geral.

Nesta terça-feira, muitos colegas nem foram ao trabalho. Ficaram em casa, participando de reuniões por telefone e Internet. O Le Monde também não foi às casas dos seus assinantes, distribuiu a versão PDF gratuitamente.

Muito se comenta sobre o trabalho dos pesquisadores franceses, que explicaram a trajetória da bola do famoso gol do Roberto Carlos contra a França em 2007. Não deixe de ver o vídeo. Se quiser, veja também o artigo ‘The spinning ball spiral’ do New Journal of Physics.

Na França, os amantes do futebol costumam se lembrar dos jogos contra o Brasil, especialmente aquele de 12/07/98. Um ano antes, num amistoso entre os dois países que terminou empatado, houve um momento histórico, através da cobrança de falta do nosso lateral.

O cronista do Le Monde, Franck Nouchi, fez uma analogia da incrível trajetória da bola com a política. Mais precisamente, com a decadente curva de popularidade de Sarkozy, contrastando com a possível ascensão do ainda indefinido Dominique Strauss-Kahn (PS), potencial candidato da esquerda. Diz ele: “DSK teria todo interesse em observar o gol do Roberto Carlos. Ele verá que podemos contornar uma barreira, engatando uma boa corrida de aproximação e batendo na bola com a parte exterior do pé esquerdo”. Digamos que seja uma metáfora futebolística um pouco melhor do que aquelas do nosso Presidente.


Foto: Outra tomada de L'Isle-sur-la-Sorgue, em dia de feira livre e de artesanato. A cidade é repleta de antiquários. Aos domingos, a feira domina a cidade, que atrai milhares de turistas e habitantes das cidades vizinhas.

Sunday, June 27, 2010

Greve

Minha ausência deveu-se a uma sequência de viagens e eventos. Também é difícil falar sobre qualquer coisa que não seja futebol. Iria fazer uma crônica sobre a disputa pelo controle do Le Monde ou o escândalo envolvendo a maior acionista da L'Oréal, Liliane Bettencourt. Mas, quem se importa?

A França eliminada da Copa já está voltando à vida normal. Ou seja, menos futebol e mais greves. Desta vez, eu vou aderir. Farei uma greve no meu próprio blog. Blogueiros unidos...


Fotos: Acima, as fachadas que marcam Riquewihr, na Alsácia. Abaixo, a casa conhecida como "arranha-céu".



Tuesday, May 4, 2010

Pit-stop em SP 1

Fiz uma rapidíssima passagem pelo Brasil. Encurtei a viagem graças ao famigerado vulcão islandês. No meio da crise aérea, escolhi uma rota à prova de nuvens de cinzas. Fui de trem até Marselha, onde o aeroporto nunca fechou. De lá, fui para SP, via Madrid, outro aeroporto que escapou ileso.

No dia da viagem, a vida aérea européia parecia ter voltado ao normal. Tudo estava muito calmo. Na principal estação de trens de Lyon, a Gare Part-Dieu, notei que o pessoal da Sala VIP estava em greve. Os jornais Figaro e Le Monde não eram encontrados nas bancas por causa da greve dos distribuidores. Enfim, tudo normal.


Fotos: Fui a Bayonne num sábado e na segunda-feira seguinte, que era feriado. As duas fotos têm praticamente a mesma tomada. A diferença é clara: As pessoas! Domingos e feriados são assim mesmo. Ninguém nas ruas.

Thursday, October 1, 2009

Penúltimas de Lyon 1

Depois da excelente temporada de primavera/verão, o destino do meu carro é ficar na garagem, de onde só sairá nos finais de semana. Lyon é assim mesmo. Morando num lugar central, posso fazer quase tudo a pé ou com uma pequena ajuda da rede de transporte público.

Ainda bem, pois se dependesse do transporte público, estaria numa fria. Eu sempre comento que as esporádicas greves francesas incomodam um pouco. Porém, este ano está de mais. Estamos na vigésima greve de transportes em Lyon. E desta vez é por prazo indeterminado!

No Brasil, a população ficaria mais revoltada. Afinal, numa cidade como São Paulo, que já vive no limite do caos, qualquer perturbação tem efeitos incontroláveis. Na França, há aqueles que se revoltam e um número impressionante de solidários às causas proletárias.

A melhor decisão que a administração de Lyon tomou já tem alguns anos. Duas das linhas do metrô operam totalmente sem funcionários: Sem bilheteria, sem piloto, sem vigilância, etc. Só tem gente na central de controle. Nessas linhas, o serviço é dez! As máquinas não organizaram nenhuma greve. Ainda.


Foto: Ainda em Millau, a velha ponte sobre o Tarn e, ao fundo, o célebre viaduto.

Monday, March 23, 2009

Greve Geral 2

Os trabalhadores franceses não precisam ficar preocupados. Depois de duas greves gerais em 2009, vem aí o primeiro de maio, tradicional data de manifestação e confronto. Pensando bem, talvez seja melhor descansar neste dia e marcar uma outra greve mais para frente!

Dizem que a França não é o pais mais afetado pelas greves. A Espanha e a Itália não ficam muito atrás. Já está na hora do COI reconhecer as greves como esporte olímpico.

Uma outra possibilidade para nutrir o ego gaulês é que a UNESCO reconheça as greves gerais francesas como patrimônio cultural da humanidade.


Foto: Château de La Roche, no Loire. O castelo merece um post exclusivo, mesmo não sendo dos mais importantes. O visual é bonito e a visita ao seu interior é teatralizada. Sem dúvidas, foi um excelente programa. Por enquanto fiquem com o link:
http://www.lechateaudelaroche.fr/

Sunday, March 22, 2009

Greve Geral 1

Semana de greve geral. Apesar da paralisação gigantesca, foi garantido um nível mínimo de serviço. Eu arrisquei e voltei de Paris para Lyon em pleno dia de greve. Deu tudo certo. Só não foi mais perfeito e tranquilo do que um dia normal, pois os transportes públicos de Lyon aderiram em massa e eu fui para casa a pé.

Os motivos para o protesto são evidentes. Se a população está consciente de que a crise é muito mais ampla do que a França ou a Europa, ficam dúvidas se o governo está fazendo tudo o que pode para amenizar o seu impacto. Há controvérsias. Eu mesmo arriscava que o governo está cumprindo o seu papel, dobrando o déficit público, que já era grande.

Alguns problemas europeus são mais antigos do que a crise. Lembrem-se das greves e das rebeliões dos subúrbios franceses dos últimos anos. Muitos negócios já andavam muito mal.

Um artigo de Paul Krugman no NY Times ("A Continent Adrift") deu uma terrível resposta às minhas dúvidas. Para ele, a Eurolândia deixou os países com as mãos atadas para gerir uma crise desta natureza. Todos dependem de decisões em comum acordo, da burocracia de Bruxelas e do Banco Central Europeu.

Traduzindo o texto de Krugman numa linguagem mais simples: Os Estados Unidos podem estar mais doentes que a Europa, mas a junta médica americana está trabalhando. Na Europa, ainda estão discutindo qual é o melhor médico para tratá-la. Benvindos ao mundo dos eurocéticos!

Se uma greve geral a mais ou a menos não significa muita coisa, as consequências desta crise podem ir muito além de um ano difícil.


Foto: Château de Pierre de Bresse, na Borgonha, no último sábado do inverno. O castelo do século XVII é muito bonito por fora. Por dentro não tem mais nada do mobiliário original, hospeda um museu regional.

Tuesday, February 3, 2009

Bem Me Quer, Mal Me Quer 2

Sarkô não é o causador da crise que assola o planeta, mas foi pego na contra-mão, pelo menos no seu discurso. A sua intenção é modernizar a França, espelhando-se na Inglaterra e nos EUA. A questão (ainda sem resposta) é se esses países ainda podem ser considerados modelos. Há controvérsias. Dizem que a França suportará esta crise melhor do que os demais, porém com uma retomada mais lenta.

Alguns ilustres economistas andaram revendo as suas opiniões. Afirmam que o modelo francês é o mais equilibrado. O Estado é o grande empregador do país (25% da mão de obra). Os mecanismos de proteção social evitaram a evaporação generalizada das aposentadorias dos trabalhadores. Também não houve despejos em massa e tantas outras coisas que aterrorizam a América.

O eterno debate da Economia continua. Para o Sarkô, resta mudar o discurso e aproveitar. Afinal, lembrar dos compromissos da sua campanha é coisa de meia dúzia de blogueiros. O povão ainda quer a mesma coisa: Pão e circo!


Foto: Núcleo velho de Lyon, neste domingo.