Quando cursava a faculdade, lá pelos idos dos anos 80, uma
das coisas que se comentava, num tom de quase piada, era que o Lula seria um
agente da KGB. Vale lembrar aos desmemoriados, ou aos mais jovens, que naquela
época Lula era um novato em candidaturas a cargos executivos, concorrendo ao
governo de São Paulo.
Voltando à anedota: só fui entender que aquilo não era
exatamente uma piada muito tempo depois. O conceito de "agente" para
a KGB não correspondia à imagem cinematográfica que associamos a um James Bond,
ou talvez a um "Ivan Bondov".
A realidade era mais sutil. Havia milhares de agentes, uma
rede imensa de pessoas que poderiam contribuir, mesmo que marginalmente, para a
causa soviética. Muitas vezes, esses simpatizantes sequer sabiam que eram
agentes. De qualquer modo, a teia era enorme, abarcando políticos, jornalistas,
sindicalistas e quem mais pudesse ser útil.
Faço esse paralelo para olhar o crime organizado nacional de
hoje, especialmente o PCC.
As grandes revelações recentes escancaram a capilaridade das
suas operações. Fica evidente que nem todos os milhares de cidadãos envolvidos,
ou mesmo arrastados, por essa máquina criminosa têm consciência de serem peças
da engrenagem. Trata-se de uma rede vasta de parcerias, contratos, negociações,
trocas de favores e apoio logístico.
O núcleo central, aquele ligado aos crimes de sangue e ao
tráfico, usa o crachá do PCC. Mas existe uma camada superior, a dos
"empresários inescrupulosos". Gente que não usa o crachá da facção,
mas sabe muito bem que é peça-chave na grande lavanderia. Nomes que surgem em
investigações e manchetes, como o de Mohamad Hussein Mourad ou o onipresente Daniel Vorcaro, ilustram como o dinheiro sujo busca o verniz da
legalidade.
Além deles, há os políticos que fecham os olhos. Há as
milhares de pessoas comuns arrastadas pelos malfeitores. E, por fim, temos nós,
espectadores daquela cena descrita por Chico Buarque: "A nossa pátria-mãe
tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas
transações".
Foto: Imagens da viagem do Carnaval de 2025 - Funchal, Ilha da Madeira.






