Showing posts with label Londres. Show all posts
Showing posts with label Londres. Show all posts

Friday, September 12, 2025

Bye Bye Bayeux (*)



Existem obras de arte que, de fato, transcendem a condição de objetos valiosos: são verdadeiras cápsulas do tempo. Falo da Tapeçaria de Bayeux, que tive a honra de visitar em 2009, quando da viagem à Normandia, como registrado no meu blog.

Por quase mil anos, esta relíquia, um bordado de 70 metros, permaneceu na Normandia. Agora, ela se prepara para sua jornada a Londres, gerando polêmica e fascínio em igual medida.

Apenas como uma breve recapitulação, a tapeçaria narra os eventos da conquista normanda da Inglaterra em 1066. Liderados por Guilherme, o Conquistador, os normandos — descendentes de vikings que se estabeleceram na França — invadiram a ilha, desafiando o rei anglo-saxão. A história culmina na épica e decisiva Batalha de Hastings, onde o destino de duas nações foi selado. Mais do que um simples registro, a tapeçaria é uma peça de propaganda, meticulosamente bordada para glorificar a vitória normanda e justificar a ascensão de Guilherme ao trono inglês.

Sua importância histórica é inestimável. Ela é uma das fontes mais ricas para entendermos não apenas os eventos militares, mas também a vida cotidiana, a arquitetura e as vestimentas do século XI.

Agora, com o seu lar, o museu de Bayeux, fechado para uma grande reforma, a tapeçaria será exposta em uma nova casa temporária: o British Museum, em Londres. Bastante simbólico, considerando o tema da tapeçaria e a proximidade do milênio do nascimento de Guilherme, o Conquistador.

Este empréstimo, uma cortesia do presidente Emmanuel Macron, faz parte de um acordo que visa reforçar as relações culturais entre França e Reino Unido. E é aqui que surge a polêmica. O empréstimo de um artefato tão antigo e frágil é uma decisão arriscada. Afinal, depois de quase mil anos, a tapeçaria está fragilizada e não precisa de muito para que o bordado rasgue, quebre ou esfacele.

Muitos argumentam que o risco de danos é alto demais, questionando se o apelo de uma exibição em solo inglês justifica a remoção da obra de seu lar centenário. É um debate que coloca a preservação rigorosa contra o desejo de compartilhar a história com o mundo, permitindo que uma nova geração a contemple de perto. Independentemente dos desafios técnicos do transporte, a tapeçaria merece um local apropriado e ser apreciada por todos.


Imagens – Acima, Museu da Tapeçaria de Bayeux (foto de 2009), que será submetido a uma grande reforma. Abaixo, um trecho da Tapeçaria de Bayeux através do seu site oficial.

(*) Título emprestado do jornal Libération de 5/9/25.

Outras informações e imagens - Site oficial da Tapeçaria de Bayeux


Saturday, June 25, 2016

Serventia da casa

Uma boa parte dos almoços lá na cantina do trabalho é continuação da reunião da manhã ou introdução àquela da tarde. De vez em quando, obviamente, aparece uma conversa mais amena.

Muitas vezes, meus colegas comentam sobre seus filhos. Graças ao programa da União Europeia (UE), o  Erasmus, a maioria deles está estudando fora da Bélgica. Estudos esses que podem levar a um emprego no exterior, novos estudos num terceiro país ou até mesmo um casamento, quem sabe. Parece-me uma das melhores iniciativas da UE para se forjar uma verdadeira geração de europeus. Não foi à toa que os jovens ingleses preferiram o “remain”.

Ontem foi dia de greve geral na Bélgica. Voltar para casa de carro foi sofrível. O bom e velho rádio foi meu companheiro, quando pude ouvir a cobertura do “Brexit”. A rádio transmitia depoimentos de belgas sobre o episódio histórico. Mais decepcionante do que a decisão dos britânicos, foi ouvir tantos comentários simpáticos aos mesmos. A Bélgica é um dos maiores beneficiários da UE, por hospedar a maior parte da sua máquina burocrática. Sem dúvidas, uma fonte de riquezas para este pequeno reino. Dá para imaginar o que se passa nos outros países.

Alguns amigos brasileiros ficaram perdidos nesse debate sobre a saída do Reino Unido da UE. Os mais atentos perceberam o tipo de gente que apoia o “Brexit”. Gente da pior espécie. Fascistas, comunistas, demagogos e outros extremistas. Como em outros episódios históricos, estão aproveitando-se das pessoas mais sofridas e fazendo da UE um bode expiatório. Este belo projeto de paz e prosperidade enfrenta uma armadilha. Armadilha maior, no entando, enfrentará o Reino Unido. Afinal, para escoceses, galeses e norte-irlandeses, Londres é Bruxelas.


Foto: Finalmente, na Bretanha, objetivo das férias do verão passado. Foto de Vannes.

Sunday, February 8, 2015

Lúgubre


O aparelho e a operadora são belgas, mas acabei configurando o celular em português mesmo. Alguns aplicativos estão em francês e outros em inglês. A maioria acompanha o sistema operacional e está em português, como o aplicativo de meteorologia.

Entre dias nublados, chuvosos e até mesmo ensolarados, o aplicativo Accuweather surprendeu-me indicando que os próximos dias serão de tempo lúgubre. Lúgubre?!

Fiquei mais impressionado com o uso da palavra em si do que pelo clima. Seus sinônimos mais comuns são sombrio, triste, fúnebre ou macabro. O que seria uma semana inteira de tempo lúgubre? Que medo! 

Lúgubre ficou na minha memória como clima londrino. Li os livros de Conan Doyle muito jovem e aquilo marcou para sempre. Eis que estou morando em Bruxelas, que não tem um clima muito diferente daquele do outro lado da Mancha.

Quando a gente vem para cá, todos fazem questão de lembrar os dias sombrios, cada vez mais frequentes a partir do outono: "Prepare-se para os infindáveis dias cinzentos!"

Se 2014 foi um ano atípico ou não, deixo para os meteorologistas.  Devo agradecer àqueles que me assustaram com a previsão de tempo lúgubre, brumas místicas ou escuridão perpétua. Tenho visto o sol com muito mais frequencia do que imaginava e ainda não esqueci que o céu é azul.



Foto: Bem perto de casa, os lagos de Ixelles (Étangs d'Ixelles) num dia cinzento, mas longe de ser lúgubre.

Sunday, November 25, 2012

Help!


Fim de ano. Eventos de confraternização, congestionamentos, presentes, etc. Uma loucura! Sorte ou azar, tenho uma viagem de duas semanas pela frente. Vou curtir um friozinho europeu e me ausentar de muitas dessas celebrações. O melhor de tudo será rever a Fêtes des Lumières em Lyon.


Você ainda pensa em fazer alguma ação de caridade nesse final de ano? Pois bem, em 2012, eu fiz muita coisa interessante e compartilho com vocês, apenas como sugestão.

Talvez aquele chavão "o importante não é dar o peixe, mas ensinar a pescar" esteja meio gasto, mas ainda é o melhor caminho. Aliás, tem sido o melhor caminho há muito tempo. No século XII, Maimônides estabeleceu uma hierarquia para as caridades. Desculpem-me, vai em inglês mesmo:

8.  Giving money, a loan, your time or whatever else it takes to enable an individual to be self-reliant.
7.  Giving when neither the donor nor the recipient is aware of the other's identity.
6.  Giving when you know who is the individual benefiting, but the recipient does not know your identity.
5.  Giving when you do not know who is the individual benefiting, but the recipient knows your identity.
4.  Giving before being asked.
3.  Giving cheerfully and adequately but only after being asked.
2.  Giving cheerfully but giving too little.
1.  Giving begrudgingly and making the recipient feel disgraced or embarrassed.

O nível máximo (o 8) é justamente o conceito de "ensinar a pescar". Pode ser compreendido também como estabelecer uma parceria ou associação. O princípio é fazer algo para que o receptor não volte à sua condição anterior. É por isso que contribui com algumas ações ligadas à inclusão digital, estímulo ao pequeno empreendedor, bolsas para formação técnica e assim por diante. Vejam minhas escolhas:


Projeto 100% - "O Projeto 100% é uma iniciativa privada de micro-intervenções que visam apoiar a educaçao e o desenvolvimento de famílias vivendo abaixo da linha da pobreza, apoiando principalmente as crianças para que no futuro se tornem indivíduos produtivos e preparados para seguir a carreira que preferirem". Além de tudo, é coordenado diretamente pela minha amiga Adriana Beal.

Kiva - Descobri este projeto recentemente e me parece uma ideia genial. Não se trata de doação, são empréstimos para pessoas pobres, sem acesso ao sistema bancário, que querem empreender. O Kiva faz a ponte entre quem pode emprestar e eles. Podemos ajudá-los com apenas 25 dólares!

EsperanSAP - De alguma forma, estou associado profissionalmente a este Instituto. O EsperanSAP não lida com pessoas abaixo da linha da pobreza, mas tem o potencial de dar uma especialização fantástica (nos produtos da SAP) para quem não teria acesso à tal formação. É mais uma forma de ajudar algumas pessoas e formar uma comunidade de profissionais forte.


Já comentei com vocês que compensei parte das minhas emissões de carbono pela Action Carbone, doei dinheiro e milhas para os Médicos Sem Fronteiras e ainda contribuo diretamente com o apoio direto a um atleta de origem muito humilde. Enfim, gostei muito do mix de projetos deste ano. Certamente, repetirei a dose em 2013 e convido vocês a aderirem.



Foto: De volta a Londres, num dos cantinhos charmosos da cidade, Little Venice, encontro dos canais Regent e Grand Union.

Sunday, October 28, 2012

No Curdistão...


Lá no fim do mundo, ou melhor, no meio do mundo, onde vivem árabes, persas, curdos e turcos, a convivência entre o "atrasado" e o "avançado" é curiosa. Os conflitos nessa região de rico sub-solo aproximam a tecnologia militar de última geração à sociedade tribal.

Num passado recente, aprenderam a conviver com a inteligência ocidental e a sua espionagem via satélite. Qualquer tirano ou terrorista da região sabe disfarçar suas construções militares para enganar os satélites. Também sabem mudar a rotina para se adaptar à espiadinha espacial.

A tecnologia ocidental se modernizou. Hoje, estamos na era dos drones, aqueles aviões não tripulados. A resposta não tardou. Hackearam drones que transmitiam informações não criptografadas (pisada de bola dos EUA) e já capturaram um drone intacto (ainda acho que foi um Cavalo de Tróia).

O que eu li nos jornais de hoje foi ainda mais pitoresco. Os curdos do PKK fogem da espionagem dos drones turcos (sensíveis ao calor) distribuindo capas de chuva e guarda-chuvas. Simples assim.

Meu recado para a CIA e o Pentágono: Não desistam dos drones, mas façam coisa melhor.


Foto: Um belo domingo de verão em Bath, Inglaterra.

Monday, October 8, 2012

Fenômeno


Ufa! Quase escrevi um post sobre o fenômeno Russomanno há uns 15 dias. Se não tivesse desistido, seria um dos maiores fiascos deste despretensioso blog. Estava pronto a perdoar os paulistanos por elegerem um candidato oportunista, despreparado, sem programa e sem equipe. Diria que é parte do lento aprendizado da vida democrática.

A ascensão e queda do Russomanno tem vários aspectos. Do lado positivo, a sociedade percebeu que se tratava de um candidato oportunista, despreparado, sem programa e sem equipe, e conseguiu descartá-lo. Com mais alguns dias, Russomanno chegaria no "traço".

O lado negativo é que para um candidato oportunista, despreparado, sem programa e sem equipe, foi longe demais. Seu destino teria sido outro, não fosse o erro grosseiro na proposta de transporte público, a exploração da sua aliança com a Igreja Universal e a enorme desvantagem no tempo de televisão.

Enfim, estamos novamente diante de uma disputa de PT X PSDB. Nenhum dos candidatos é oportunista, despreparado, sem programa e sem equipe. Bom para São Paulo.

Será que o fenômeno Russomanno teria sido uma tentativa de fugir desta duradoura rivalidade, que opõe as áreas centrais e periféricas da capital? Ou será mesmo que o Lula está certo, ao dizer que o povo está mais preocupado em saber se o Palmeiras cai ou não cai?


Foto: Às margens do Tâmisa, na região da Hampton Court.

Tuesday, October 2, 2012

Ted


Seth MacFarlane será o mestre de cerimônias do Oscar 2013. Confesso que não conhecia esse nome até o último final de semana, quando assisti seu filme "Ted". E tudo graças ao Protógenes Queiroz!

Acho que o leitor soube do episódio protagonizado pelo deputado. Levou seu filho de 11 anos para ver o filme do ursinho de pelúcia falante e saiu chocado, querendo baní-lo do circuito nacional. Seu argumento: "O filme faz apologia às drogas".

Deixando de lado a sua vocação de censor, o deputado cometeu um erro grosseiro não seguindo à classificação indicativa do filme: "Para maiores de 16 anos por abordagem de drogas conteúdo sexual e linguagem imprópria". Nos EUA, ele é classificado como "R" (restricted), fato que inibe sua exibição em muitos cinemas.

Eu teria deixado o filme de lado, senão fosse a promoção feita pelo deputado. Fui conferir.

Falarei sobre o filme sem contar tudo.

Pense na pessoa com a boca mais suja que você conhece. Aquele que chega até causar certo constrangimento. Então, coloque todo seu vocabulário indecente na boca de um inocente ursinho de pelúcia. Pois é, Ted nos surpreende do começo ao fim. Duas horas não são suficientes para nos acostumarmos com um ursinho falando tanta bobagem.

Obviamente, o ursinho é uma metáfora para retratar parte do mundo masculino. Imaturidade temperada com muito preconceito e vulgaridade. E coloque muito preconceito nisso. E as drogas estão presentes do começo ao fim.

A questão é fazer uma crítica social e ao mesmo tempo se aproveitar dos vícios da sociedade, fazendo graça com piadas inaceitáveis fora das telas. É por isso que o filme divide opiniões. Uns acham que MacFarlane passou da linha. Outros, que o contexto permite o abuso. Porém, é bem verdade que todos concordam que algumas cenas são hilárias.

Enfim, é divertido e é para maiores, a menos que você insista em mostrar para seus filhos como somos babacas.


Foto: Uma outra fachada da Hampton Court, em Londres.

Sunday, September 23, 2012

Fúria


O post anterior parece ridículo diante da explosão de fúria islâmica contra o filme e o cartoon ocidentais. Enquanto gastamos nosso tempo discutindo as sutilezas do "politicamente correto", esforçando-nos para evitar constrangimento desnecessário a quaisquer minorias, do outro lado do mundo, as coisas ainda são bem diferentes.

Aprendemos a respeitar a liberdade, a democracia e sobretudo a igualdade. O respeito ao ser humano prevalece sobre o respeito às crenças e seus personagens mitológicos. Devemos respeitar as religiões, não por que elas mereçam, mas por que seus seguidores merecem. É sutil, mas é diferente.

Ninguém faz guerra por religião. Pouquíssimos se ofendem realmente quando sua religião é criticada. Porém, a religião continua sendo o instrumento de manipulação favorito dos ditadores, terroristas, políticos oportunistas, extremistas, etc.

Leitura adicional:
É o amor!
Why is the Arab world so easily offended?
Exploiting the Prophet


Foto: Fachada sul da Hampton Court, palácio situado na periferia de Londres. Esta ala foi construída durante os reinados de Guilherme III e Maria II, no final do século XVII, assinada por um dos grandes arquitetos da época Sir Christopher Wren.

Sunday, September 16, 2012

Cassando as Caçadas


O debate sobre a censura à obra « Caçadas de Pedrinho » ganhou força. Foi um dos primeiros livros que li ainda criança. Àquela época, não percebi seu caráter racista, assim como muitos milhares de leitores. Eram outros tempos. Hoje, os termos usados por Monteiro Lobato para descrever a Tia Nastácia podem chocar.

O politicamente correto levado ao extremo poderia banir tantas obras, que o seu efeito seria ainda mais perverso. Se tirarmos de circulação todas as obras racistas, antissemitas, machistas, homofóbicas, preconceituosas ou ofensivas, não sobrará muita coisa. Nem a Bíblia.

Melhor mesmo é que todos sejam expostos às mais variadas ideias, podendo discernir o que é bom e o que é ruim. “Caçadas de Pedrinho” e “Tintin no Congo” não são responsáveis pelo preconceito aos negros. Assim como “O Mercador de Veneza” e “Oliver Twist” não inventaram o antissemitismo.

Em 2011, fiz um post análogo sobre o escritor francês Céline. Retomo uma citação de Bernard-Henri Levy: “É preciso mostrar o mistério que faz de uma pessoa um grande escritor e um perfeito canalha ao mesmo tempo.” Canalha? Talvez. Não precisamos festejar Monteiro Lobato, apenas lê-lo.

Leia também: Céline e "80 anos de Tintin"


Foto: Começo a minha série londrina, com algumas fotos da “Hampton Court”, uma das mais belas residências históricas da monarquia inglesa.

Wednesday, September 12, 2012

Londres 2012


Voltei. Apesar das facilidades tecnológicas, mal acompanhei as notícias do Brasil e não escrevi nenhum post. Estava conectado, mas nem tanto. Percebi que o julgamento do Mensalão avança devagar, porém as primeiras condenações são animadoras.

Estive em Londres entre os Jogos Olímpicos e os Paralímpicos. Foi mais ou menos intencional. Na minha terceira passagem pela cidade, quis aproveitar e conhecer um pouco mais. A relativa calma entre os dois eventos foi ótima. Além de tudo, fez um tempo muito melhor do que eu esperava: "Tempo firme com chuvas em pontos isolados". É bem verdade que, em algumas vezes, o ponto isolado era eu mesmo. Murphy 1 X 0.

Temendo o mau tempo, havia reduzido minha estadia em Londres e planejado alguns dias na Côte d'Azur. Foi uma tática para proteger as férias. Agosto na Côte é certeza de tempo bom. Quer dizer, era. Durante minhas férias, aconteceu uma inversão histórica. A França inteira com tempo bom e a Córsega e a Côte d'Azur sob tempestade. Murphy 2 X 0.

Como viajei de férias e também a trabalho por três semanas, levei uma mala avantajada. Malas pesadas chamam atenção da segurança e despertam a ira dos carregadores sindicalizados, que dominam os aeroportos europeus. As estatísticas podem consolar, mas desconfio de que o sumiço da minha mala por quatro dias não tenha sido casual. De qualquer modo, Murphy 3 X 0.

A viagem foi ótima e conheci muitos lugares, que comentarei mais para frente. Pelo menos, nas fotos que ilustrarão os próximos posts. Valeu muito a pena! Murphy 3 X 4.

Não é preciso dizer que fiquei impressionado com a preparação de Londres para os eventos esportivos. Fantástica! Se as instalações não são tão suntuosas como as chinesas, a integração do projeto olímpico ao planejamento urbano é notória. A cidade estava limpa, organizada e não faltavam voluntários tirando quaisquer dúvidas.

Um aspecto marcante é o peso dos Jogos Paralímpicos. Nos dias em que visitei as instalações esportivas, a organização estava adaptando a comunicação visual para os padrões exclusivos dos Jogos Paralímpicos. No parque olímpico, havia novos ensaios de desfiles ao som dos hinos nacionais. A imprensa inglesa dedicava diariamente páginas inteiras aos seus atletas paralímpicos. A cobertura dos dois eventos tinha a mesma intensidade.

Não sei se sempre foi assim, mas havia uma clara preocupação de se deixar as duas competições no mesmo nível. A proposta é mostrar que os Paralímpicos não são um sub-produto das Olimpíadas, mas um grande evento em si mesmo. Ou, como vi numa propaganda, é a competição dos verdadeiros heróis.    


Foto: Última tomada nos arredores do "Templo do Buda de Esmeralda", em Bangkok.

Monday, August 13, 2012

Notas Olímpicas 3


Ainda é muito cedo para se avaliar os resultados dos Jogos para a cidade de Londres. Certo é que a Grã-Bretanha mostrou que tinha um projeto olímpico, transformando-se numa potência esportiva. Vale notar que essa importante ascensão começou bem antes. Vejam a evolução do seu total de medalhas de 2000 a 2012: 28->30->47->65.

Jogos Olímpicos nem sempre dão certo. O exemplo grego é trágico. O país não digeriu o custo do investimento, não virou uma potência olímpica e tampouco transformou a sua capital. Não é fácil fazer algo pior do que Atenas 2004!

Os jogos de Barcelona 1992 não fizeram da Espanha uma campeã olímpica, mas alavancaram o progresso e o turismo da capital catalã. O renascimento de Barcelona através dos Jogos é um dos melhores exemplos de legado olímpico.

Como nem tudo é perfeito, houve um efeito social perverso. A valorização imobiliária acabou expulsando muita gente para a periferia. Se fosse no Brasil, as encostas do Montjuic estariam devidamente ocupadas ;-)

E os jogos do Rio em 2016?

Em termos esportivos, estamos no pior dos mundos. Melhoramos o nosso desempenho, passando de 15 para 17 medalhas. Porém, nesse período, nosso o governo colocou 100 milhões a mais no bolso do COB. Eu escrevi A MAIS! Aparentemente, o Irã, a Coreia do Norte e o país do Borat foram mais sábios.

Se o investimento em medalhas é duvidoso por si só, pior é gastar e nem obtê-las. A conversa entre Dilma e os dirigentes do COB não será das mais amistosas.

Fica a esperança de uma grande contribuição das Olimpíadas para o Rio de Janeiro. É claro que o investimento direto na infraestrutura da cidade é um real benefício, o difícil é alavancar os bilhões que vão para o circo olímpico. Deixo a reflexão para o leitor.


Foto: Outra tomada do conjunto do "Templo do Buda de Esmeralda" em Bangkok, Tailândia.

Saturday, August 11, 2012

Notas Olímpicas 2


As Olimpíadas dominaram as conversas dos últimos dias. O espetáculo grandioso, a beleza do esporte e a nossa torcida ofuscam quaisquer outros assuntos, até mesmo o julgamento do mensalão. Entre tantas discussões, uma se destaca: Afinal, os brasileiros amarelam mais do que os outros?

Para explicar a percepção de amarelada geral, poderíamos recorrer às mais sofisticadas teses sociais e antropológicas, a um certo complexo terceiromundista (complexo de vira-lata, para alguns). Porém, acredito que seja muito mais simples do que isso.

Todo mundo amarela: Americanos, chineses e ingleses. A diferença é que os americanos e chineses possuem tantos aspirantes às medalhas, que os fracassos passam batidos. Nós, brasileiros, temos apenas uma dúzia de favoritos. E, é claro, seus eventuais insucessos pesam muito. Num ambiente extremamente competitivo, isso é natural. Um mínimo detalhe pode roubar a vitória de alguém que tanto se dedicou para aquele momento.

Bolt não costuma amarelar, por que é muito melhor do que seus concorrentes. Mesmo assim, queimou a largada no Campeonado Mundial e saiu sem nada nos 100m. Federer e Sharapova foram surrados pelos seus adversários nas finais individuais de tênis. Amarelaram?

Enfim, é muito mais uma questão de expectativas do que um acovardamento generalizado da classe esportiva nacional. Torça pelo Brasil, mas com moderação!    


Foto: Nova tomada do conjunto do "Templo do Buda de Esmeralda" em Bangkok, Tailândia.

Thursday, August 9, 2012

Notas Olímpicas 1


A organização dos Jogos Olímpicos londrinos é notável. Assistí-los pela TV tem sido muito bom. Em tempos de HD e vários canais simultâneos, a experiência de acompanhá-los melhorou muito: Um festival de tomadas diferentes, câmera lenta e muitos outros recursos técnicos. Imperdível!

Pensando nos Jogos em si e considerando o esporte como um eixo de confraternização universal, acho que poderíamos melhorar as próximas edições. Pela paz e pela sustentabilidade.

Aí vão minhas reflexões:

1)  Sustentabilidade: É uma exigência básica para os dias de hoje. Significa deixar de fazer elefantes brancos que ganhem prêmios de arquitetura, mas construções que propiciem economia de energia, maximizando a iluminação e a ventilação natural. Dar preferência às cidades médias e não às megalópoles, permitindo uma melhor integração das sedes dos Jogos com os núcleos urbanos, sem o risco de colapso do transporte público. Zerar as emissões de carbono, considerando-se o deslocamento de todo público (não vale plantar árvores na Guatemala para compensar). Ideias não faltam.

2) Artes Marciais: Sei que o tema é polêmico. Meu saudoso "sensei" sempre enalteceu os valores espirituais do judô e eu acreditava piamente. Porém, confesso que não vejo nenhuma graça nesse jogo de agarra-e-solta-quimono que é o judô olímpico. Ainda assim, é melhor do que o chuta-chuta do taekwondo. Eu suprimiria todas as lutas das Olimpíadas: Judô, taekwondo, boxe, luta livre e greco-romana. Eu sei que são tradicionais, que têm toda uma tecnicidade, que são voltadas à defesa pessoal, que envolvem valores espirituais, etc, etc. Mas, em nome da era de Aquário, que caiam fora.

3) Quadro de Medalhas: A ênfase dada no quadro de medalhas não é muito compatível com o espírito olímpico. Devemos celebrar os melhores atletas, mas não fazer uma competição entre nações. Montar fábricas de medalhas não é difícil, basta desviar dinheiro da saúde e educação para o esporte. É só percorrer o quadro de medalhas, que vemos alguns países de terceira categoria fazendo "mais bonito" do que o Brasil. Uma nação deve permitir que seus cidadãos tenham pleno acesso ao esporte, como meio de saúde, recreação e educação. Medalhas não são nem meio nem fim.

4) Fair play: Os Jogos de 2012 estão chegando ao fim e o doping não roubou a cena. O COI certamente vai comemorar, mas fica uma leve desconfiança de que há novas técnicas por aí. O mais importante é manter a determinação de se combater o doping bem como todas as manipulações anti-esportivas. Em nome do fair play, deve-se aplicar penas cada vez mais rigorosas aos atletas e às delegações. A desclassificação sumária de oito jogadoras de badmington da China, Coreia e Indonésia foi excelente.


Foto: O templo mais importante de Bangkok é o "Templo do Buda de Esmeralda" (Wat Phra Si Rattana Satsadaram), um conjunto de prédios magníficos que ilustram este e os próximos posts.

Friday, March 20, 2009

Regina Meretrix

O musical da temporada 2008/2009 na França é Cleópatra. Nesta área, a França está bem atrás do eixo New York / Londres e investe na produção própria. São poucos musicais e de bom nível.

Cleópatra conseguiu emplacar duas ou três músicas entre as mais tocadas e tem alguns números visualmente muito bons, com a suntuosidade que a aventura da rainha do Egito com Júlio César e Marco Antônio merece.

Algumas cenas bem sensuais estão à altura do comportamento da rainha, conforme descreveu o historiador Plínio, que atribuiu o título usado neste post à soberana egípcia.

O espetáculo usa e abusa de personagens voadores e imagens projetadas (O Cirque du Soleil fez escola). Para conferir os hits, aí vão os seus respectivos clips no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=yy1NtK5ShrM&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=DCyp1bopKfQ&feature=related

Também assisti ao musical Bharati, que faz turnê pela Europa. Trata-se de uma produção bollywodiana. Ao contrário de Slumdog Millionaire, Bharati mostra como a Índia gostaria de ser vista. Vale à pena como espetáculo. O rítmo e as cores indianas agradam, mas o enredo é infantil.

Confira o clip com uma das principais canções de Bharati e o site do show:
http://www.youtube.com/watch?v=RMZh5DioVaM&feature=related
http://www.bharatitheshow.com/


Foto: Rainha Vitória (Regina Imperatrix) diante do Palácio de Buckingham. Aos ingleses, desculpas pela combinação da foto com o post. Coincidências...

Sunday, March 15, 2009

Terra em transe 2

Depois de alguns bons meses, um filme brasileiro volta às telas francesas. Trata-se de "Linha de Passe", de Walter Salles, aqui renomeado para "Une famille brésilienne". Apesar da imagem carnavalesca do Brasil, o diretor é uma das raras exceções, sendo muito respeitado. Várias pessoas lembram espontaneamente de duas grandes realizações do cineasta: "Central do Brasil" e "Diários de motocicleta" ("Carnets de voyage" por aqui).

O filme brasileiro entra numa época em que os cinemas estão repletos de boas produções, aquelas que concorreram ao Oscar. Além da boa safra anglo-americana, os primeiros meses do ano marcaram a volta de grandes nomes do cinema francês às produções locais. Entre eles, Gérard Depardieu, Sophie Marceau e Jean-Paul Belmondo.

Com tantos bons filmes, está difícil escolher. Voltaremos a falar sobre o assunto, na minha revista do cinema, ao final do semestre.

Provavelmente ficarei alguns dias em off, numa semana em Paris, com mais uma greve geral pela frente. Afinal, blogueiro também tem direito à greve!


Foto: Londres. E por falar de cinema, a estátua de Chaplin na Leicester Square.

Saturday, March 14, 2009

Terra em transe 1

A reputação de Lula continua razoável na Europa. Nem é tanto pelo seu próprio mérito, pois os sinais do seu governo corrupto chegam a todo instante. Os seus colegas da Venezuela, Bolívia e Equador é que roubam a cena, mantendo a tradição das Repúblicas de Bananas que assolam as Américas.

A revista do Le Monde publicou uma extensa matéria sobre Pernambuco (9 páginas), baseada no caminho percorrido pelo Presidente. Muito bem escrita e realista. A perspectiva é européia, fala de Garanhuns e Olinda, sem qualquer deslumbramento por Porto de Galinhas ou Recife. Resta saber se algum turista francês vai aparecer no meio do sertão procurando vestígios do Château da Silva.

Corretíssimo é o imprescindível glossário para se compreender a região: Cangaceiro, cordel, coronel, frevo, maracatu, etc. Sem contar as igualmente apropriadas menções a Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Glauber Rocha.


Foto: Londres. Uma rua de nas proximidades da Leicester Square, área de teatro, cinema, bares, restaurantes e muita diversão.

Wednesday, March 11, 2009

A guerra do ópio do século XXI

O mundo só fala do risco paquistanês. Espero que não tenhamos acordado tarde demais. Apesar das boa intenções de Obama e seus emissários na Ásia, o Paquistão é um caso especial, simboliza a complexidade do mundo. Talvez seja possível encontrar soluções negociadas para o Irã, a Coréia, a Síria e outros. No Paquistão, o máximo que se pode fazer é empurrar o problema com a barriga.

A Guerra do Afeganistão foi considerada por Obama como legítima ("right war"). Motivada pelo atentado de 11 de setembro, levou à invasão do país e a derrubada do regime talibã. A guerrilha com a facção islâmica continua. O pior resultado desta guerra começa a ser percebido pelo Ocidente. Os talibãs abandonaram o Afeganistão, uma sociedade tribal e primitiva, para conquistar adeptos no Paquistão, este sim, um país de verdade.

As evidências de conquistas talibãs no Paquistão estão por aí. O movimento encontrou um terreno fértil: Islã mais enraizado, superpopulação, pobreza, fome, o inimigo indiano jurado de morte e, mais importante, uma deliciosa cenoura para se correr atrás: O arsenal nuclear.

O Paquistão tem que ser a prioridade do Ocidente. Tomar o Afeganistão, um vazio cheio de fazendas de papoula foi uma resposta insuficiente para o 11 de setembro. Talvez fosse imprevisível. Pouco importa, pois a guerra do Afeganistão é um desastre. Os bilhões de dólares lá despejados só serviram para resgatar o abastecimento de heroína do planeta. Vai ver que este era o real motivo da guerra e não nos avisaram.


Foto: Faltava uma foto mais clássica de Londres, então lá vai o Parlamento e o mais famoso de todos os relógios.

Tuesday, March 10, 2009

Barbie

O mundo celebra o cinquentenário da Barbie. Há homenagens em diversos pontos nobres de Paris, sobretudo nas "Galleries Lafayette". Nem sempre foi assim. Quando Barbie chegou à França, no início da década de 60, um dos gerentes da renomada loja de departamentos francesa declarou: Boneca vadia não entra na loja. A resistência durou pouco. Barbie conquistou a França, até por que suas roupas foram inspiradas na moda local.

Já na Arábia Saudita, Barbie continua sendo considerada moderna demais para os hábitos islâmicos. Ela é vista como uma boneca judia, devido a origem da sua criadora Ruth Handler. Dois motivos mais do que suficientes para baní-la do país. Diversas nações islâmicas seguiram a mesma linha. A vingança de Barbie é chegar às mãos das meninas mais abonadas dos países islâmicos via contrabando. Afinal, onde passam foguetes, petróleo, urânio e tantas outras coisas, também passa uma boneca.


Foto: Londres.Um belo sábado no St. James Park. Ao fundo, algumas das atrações londrinas, que serão mostradas mais para frente.

Sunday, March 8, 2009

Dantesco

O idioma de Victor Hugo - terrivelmente castigado pelos comedores de cuscuz - é vítima de outro ataque. Roberto Benigni (A vida é bela) chegou para a sua primeira temporada fora da Itália. Estive na estréia de "Tutto Dante", no Gran Rex de Paris.

Nunca a expressão "francês macarrônico" foi tão bem apropriada. Com seu sotaque carregadíssimo e sua gramática primária, ele castigou o francês durante quase uma hora. Ainda bem, pois essa foi a parte engraçada. A segunda hora foi uma palestra em italiano (com legenda) sobre Dante. O show termina com uma récita de um trecho da Divina Comédia.

Apesar do título do post, exagerado como o próprio Benigni, o saldo da noite foi positivo. A celebração de Dante pelo ator foi muito bem recebida na Itália. A minha preferência seria um show de humor completo com o Benigni ou uma palestra inteira sobre Dante, dada por Umberto Eco, por exemplo. Por enquanto, ficamos com este "mezzo umorista mezzo professore".

Na América Latina, Benigni fará sua exibição em Buenos Aires. Por coincidência, no Gran Rex. O nome é evidência de um passado glorioso do país vizinho. Algo muito remoto. Nem éramos nascidos.


Foto: Ultima da série de contrastes Londrino, o antigo templo abraçado pelo prédio envidraçado, nos arredores da Torre.

Wednesday, March 4, 2009

La baguette 2

Longe dos restaurantes estrelados, o herói da resistência francesa dos últimos tempos é o famoso sanduíche de baguete. Um dos raros países do mundo onde o hamburger é superado por uma iguaria local. São 2,2 milhões de sanduíches na baguete por dia! O mais popular de todos é aquele com presunto e manteiga. Eu sou do movimento "ni hamburger, ni baguette". Quero um almoço de verdade!


Foto: Ainda da série Londres e seus contrastes: Um detalhe da Torre de Londres, com arranha-céu da City ao fundo.