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Wednesday, February 3, 2010

Pactos diabólicos - Epílogo

Esta sequência de posts foi inspirada no líder religioso norte-americano Pat Robertson, que ganhou quinze minutos de fama fora dos EUA, após as suas declarações sobre a tragédia haitiana. Os leitores deste blog certamente acham que se trata de um simples fanático. Eu diria que é bem pior do que isso.

Pat falou para sua torcida. São muitos milhões de americanos: Brancos, geralmente protestantes praticantes, geralmente eleitores do Partido Republicano. Eu digo geralmente, pois ele tem feito grandes esforços para aumentar a sua base. Lembro que ele já foi candidato à presidência dos EUA.

Pessoalmente, Pat não odeia apenas os negros do Haiti, mas todos os negros. E também os judeus, os muçulmanos, os homossexuais e os direitos da mulher moderna. Ele também odeia as outras correntes protestantes (ele é batista) e os católicos. Ao mesmo tempo, possui uma facilidade inigualável de fazer alianças com qualquer um desses grupos para atingir os seus objetivos. Ele faz pactos.

Apesar da profunda rejeição aos católicos papistas, Pat encontrou no Vaticano um grande aliado para o mais mortal dos seus inimigos: O direito ao aborto. Afinal, o Papa ainda desfruta de uma certa credibilidade, e gosta de sair por aí defendendo o ideário da extrema direita. Mesmo com todo esforço que Pat empreende para fazer uma frente cristã nos EUA, são os próprios protestantes que o sustentam.

O séquito de Pat mais ladra do que morde. Entretanto, esses cristãos radicais já fizeram inúmeros atentados a clínicas e médicos que fazem aborto. Também dão muito trabalho à Justiça americana, entrando com uma avalanche de processos contra os direitos dos homossexuais e das mulheres. Que a Suprema Corte seja louvada!

A aliança inusitada de Pat com Israel é mal compreendida até mesmo entre os judeus. Ele é um antissemita ferrenho, mas um grande aliado de Israel. Aliado de boca e de bolso. Seus motivos vão desde a existência de um inimigo comum (o Islã radical) até aspectos religiosos (vide Apocalipse), que prefiro não explorar em respeito aos leitores.

Enfim, quem é Pat Robertson para falar sobre o pacto com o Diabo?


Foto: Outro castelo importante na região de Salon-de-Provence, o Château de La Barben origina-se de uma fortaleza de quase mil anos. A sua transformação em castelo clássico deu-se no século XVII. O castelo passou 500 anos nas mãos da mesma família (Forbin). Hoje, desenvolve função hoteleira.

Sunday, January 31, 2010

Pactos diabólicos 2

Ao atribuir a tragédia haitiana a fatores religiosos, o pior erro de Pat Robertson foi esconder a sua verdadeira causa. O caos social, político e econômico em que se encontra aquele país é fruto de uma das piores experiências coloniais do planeta. O Haiti passou pelas mãos da França, Inglaterra, Espanha e até dos EUA. O escravagismo foi um dos mais cruéis. Foram 500 anos de pura exploração.

A mistura de africanos, nativos, brancos e mestiços geraram inúmeras convulsões sociais. Algo tão terrível que a população haitiana vem fugindo do seu país há séculos, como mencionei no post anterior.

A história do Haiti nos faria agradecer pela herança lusitana, que notoriamente não é grande coisa. Como diria o Lula, o Diabo do Haiti é branco e tem ohos azuis.



Foto: Em 2009, aproveitei o sol até os últimos dias. Fui à Provence no final de outubro, durante a semana da Toussaint (Todos os Santos). Depois disso, frio e muita neve. A foto mostra o famoso Château de Lourmarin. O aspecto é fundamentalmente renascentista (século XV), embora tenha sido construído a partir de uma fortaleza do século XII. Hoje, é um importante centro cultural da região.


Saturday, January 30, 2010

Pactos diabólicos 1

O Brasil e o Haiti conheceram o mesmo processo de sincretismo religioso, que misturou os rituais africanos ao catolicismo. Apesar da conversão imposta pelos franceses, os escravos finalmente preservaram suas práticas, que vigoram no Haiti até os dias de hoje.

Por circunstâncias históricas, o Vodu acabou sendo muito mais conhecido no Ocidente do que a Umbanda e o Candomblé. Uma das razões é a diáspora haitiana, que levou a sua cultura para diversos países, sobretudo os Estados Unidos. O Vodu é conhecido e temido. Grandes escritores usaram a sua imagem para dar um toque de terror às suas obras.

Baseados nessa fama, alguns jornalistas entrevistaram líderes religiosos do Haiti após o violento terremoto. Eles afirmam que os Deuses sabiam da tragédia de antemão. E complementam: "Tentaram avisar o povo do Haiti, que não entendeu a mensagem."

Cada um que interprete a resposta dos pais-de-santo haitianos de acordo com a sua religiosidade. Eu acho de uma tremenda cara de pau. Mas, fico por aqui. Não dou a menor bola para o Vodu. Bem, agora me lembrei que sumiu uma caixa de agulhas aqui em casa. Pensando bem, melhor corrigir este post...


Foto: Ainda em Salon de Provence e seu castelo encravado no centro da cidade, o Château de l'Empéri, do século IX.

Sunday, January 17, 2010

Tragédias


Já mandou a sua ajuda ao Haiti? Não tenho um sistema de rastreamento para tal, mas é fácil dizer que, provavelmente, ela não chegará ao seu destino e, talvez, nem chegue ao Haiti.

O nó logístico é difícil de desatar, pois não há como receber, separar, armazenar e distribuir a ajuda vinda do mundo inteiro. Com o aeroporto improvisado, as ruas destruídas e o caos reinante, muitas coisas serão pilhadas ainda no aeroporto; quando não forem desviadas pelos próprios servidores do Haiti.

Enviaram toneladas e toneladas de arroz e massas. Para que? Não há água, eletricidade nem gás. Vão comer isso cru?

O Haiti já era uma tragédia antes do terremoto. A mega mobilização do Ocidente para ajudar o país é outra tragédia. Pode sensibilizar meia dúzia de pessoas, porém é ineficaz. Um descaso. Como se tivéssemos encontrado alguém quase morto após uma semana no deserto e o atirássemos na piscina para salvá-lo.

Mandar mantimentos e medicamentos é fácil. Se quisermos salvar o Haiti, precisamos mandar gente. E muitos cassetetes.



Foto: Em Isère, na região da Chartreuse, onde há um importante monastério do mesmo nome. A casa mostrada na foto integra o complexo do monastério, embora ele esteja isolado num vale não muito distante. A região também conta com um belo parque natural. Mais informações: