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Tuesday, October 6, 2020

Mudo



Uma das leitoras mais assíduas deste blog perguntou a razão da minha pausa e olha que isso já faz alguns dias. Então, respondo para ela e para todos vocês.

Neste princípio de outubro, houve um acúmulo de atividades. Era previsto. Abracei diversas iniciativas pessoais e profissionais, entre elas, aprender e ensinar.

Tenho feito alguns cursos, pois sempre é tempo de aprender. São temas complementares a minha atividade de consultor. Todos eles têm alguma espécie de lição de casa, o que costumo levar a sério. Por exemplo, uma das tarefas desta semana é criar um roteiro de cinema e apresentá-lo num vídeo.

Agora, é moda pedir tais tarefas em vídeo, algo natural para as novas gerações, porém nem tanto para mim. Criei o enredo, escrevi o meu próprio script, escolhi a trilha sonora e as imagens. Só falta gravá-lo, atividade que foi adiada, pois estou poupando a garganta. De terça a quinta, dou 8 horas de aula, faço uma ‘live’ e ainda tenho uma boa dúzia de reuniões.

As aulas que ministro num renomado programa de MBA estão concentradas neste período primaveril. Quando começou a pandemia, já tinha desenhado uma boa parte das aulas. Terminei a preparação do curso com a premissa de que, no segundo semestre, as aulas presenciais seriam retomadas.

A vontade de estar com os alunos era tão grande que não permitiu que enxergasse o óbvio. A minha estreia como professor em plena pandemia pode até ter sido apreciada pelos alunos, mas fiquei desconfortável. Poderia ter sido melhor.

Entre a primeira e a segunda aula, fiz uma série de adaptações para adaptar o curso à nova realidade. Substitui os exercícios e até os aplicativos para interagir com os alunos. Com o tempo, a minha destreza na manipulação do aparato tecnológico também foi melhorando. A última aula correu como queria.

A minha experiência anterior de anos de videoconferências cotidianas não fez muita diferença. Afinal, é um novo ambiente e um novo papel. Até mesmo cometi o deslize número um da pandemia com distinção, aquele quando você fala estando no modo mudo.

Voltando do intervalo, fiquei mais de 10 minutos passando os slides e falando sozinho. Não estava em mudo, mas tinha desligado o microfone e fone de ouvido no intervalo. Não li o ‘chat’ tampouco. Ninguém conseguia falar comigo. Finalmente, a secretaria do curso ligou no meu celular que, mesmo estando em mudo, começou a vibrar sobre a mesa. 

Recebi o recado, voltamos 10 minutos e a aula prosseguiu.

 

Foto: A bela Rovinj, vista de um barco que navegou pela gosta da Ístria (Croácia). Última foto das férias de 2016.

Thursday, September 17, 2020

Netflix


 

Tenho falado bastante sobre a Netflix nas aulas, palestras e ‘lives’. São vários os motivos além da sua óbvia posição competitiva na indústria do entretenimento:

  1. Está entre as empresas que mais alavancam a ciência de dados e este é um tema chave nos eventos que tenho realizado sobre o Futuro da Inovação Corporativa.
  2. Tem um estilo de gestão inovador, que é tema do livro A regra é não ter regras, do seu fundador Reed Hastings e da prestigiada acadêmica Erin Meyer.
  3. Tem uma história inusitada, transitando pelo o físico e digital como poucas. Começou distribuindo DVDs (físico), passou para o streaming (digital) e, depois, passou a produzir suas próprias séries e filmes (físico e digital).

Dependendo do público, o começo da história da Netflix já não tem mais graça. Muitos não viveram a época do aluguel de vídeo (VHS, DVD e Blu-ray). Para essa geração, o nome Blockbuster não significa muita coisa.

Blockbuster? Voltando um par de décadas no tempo, a mítica locadora era parada obrigatória antes dos finais de semana. Aquelas megalojas eram uma atração em si. Era difícil ficar só nos vídeos.   

A Netflix, por sua vez, nasceu diferente. Lançou o conceito de assinatura de DVDs, com um catálogo online e envio/devolução pelo correio. Um negócio de nicho que funcionou muito bem, sem qualquer ameaça à poderosa Blockbuster.

O surgimento do Youtube chamou a atenção dos seus fundadores para a divulgação de vídeo em streaming. Em 2007, a Netflix começou a distribuir os filmes neste formato. O resto é história. 

Com um sucesso incrível, arrasou a Blockbuster e catapultou sua base de 6 milhões de assinantes para os quase 200 milhões atuais. Se escrevi este post é porque estou lendo o livro mencionado acima e também li um artigo sobre a manutenção do antigo modelo de negócio. Sim, a Netflix ainda manda DVDs pelo correio, precisamente para 2 milhões de assinantes americanos.

O negócio é irrisório perto do streaming, mas seus assinantes são fiéis e têm bons argumentos:

  1. O catálogo de filmes oferecido em DVD é muito maior do que em streaming.
  2. Independência de uma internet confiável, algo que pode ser um problema nos rincões dos EUA. Fato confirmado com colegas americanos aposentados, que saíram das metrópoles e foram para a zona rural.
  3. A experiência (imagem e som) é geralmente melhor.

A maior ressalva desta base de assinantes é com o serviço postal norte-americano, que tem atrasado frequentemente a entrega dos DVDs.

Enfim, o negócio pode ser pequeno para a Netflix, pode parecer obsoleto diante dos olhos dos leitores cosmopolitas, mas representa 300 milhões de dólares por ano de faturamento. Um belo negócio e que ainda cativa seus clientes!


Foto: Uma outra imagem do centro de Pula na Ístria (Croácia), balneário de verão que faz a diversão de alemães, russos e outros.


Leituras complementares:

A cultura Netflix – A gestão e a cultura da Netflix

Netflix e IA – Como a Netflix usa a ciência de dados

O dilema da redes – Meu último post sobre um documentário essencial

 

Thursday, September 10, 2020

O dilema das redes




 

Fiz alguns posts recentes sobre redes sociais, fake news e manipulação. A proposta deste blog não é mergulhar nesses temas, mas chamar a atenção dos leitores e, eventualmente, mostrar outras referências.

Nesta semana, a Netflix lançou o documentário “O dilema das redes”, que consegue ser bastante didático. Se você ainda tem dúvidas sobre o aspecto mais nefasto das mídias sociais, vale à pena investir pouco mais de 90 minutos.

Já mencionei em aulas e palestras aquela máxima conhecida nos meios da tecnologia: se você não está pagando pelo produto, então você é o produto. Pela cara de surpresa das pessoas, sinto que muita gente ainda precisa de esclarecimentos. Eis a oportunidade!

O documentário passa pelos temas recentemente comentados neste blog: efeito bolha, manipulação, fake news, polarização, etc. Também explica o mecanismo da criação da dependência tecnológica e seu consequente impacto comportamental.

Os inúmeros depoimentos que enriquecem o filme não vieram de revolucionários ou sonhadores. A maioria vem de ex-profissionais do Facebook, Google e outras empresas. As poucas referências acadêmicas mencionadas no documentário são respeitadas. Por exemplo, acompanho a Profa. Shoshana Zuboff (Harvard) desde os anos 80, quando publicou “In the age of the smart machine”.

Um aviso aos apressados: assistam o filme até o fim, pois os depoimentos que acompanham os créditos têm um valor prático inestimável.

Para quem quiser ir mais longe, na próxima semana, será lançado um livro muito esperado sobre o assunto: The Hype Machine de Sinan Aral, que aprofunda os mesmos conceitos abordados no filme.

Vale lembrar que tanto o filme como o livro focam nos aspectos negativos das mídias sociais. A proposta não é combater a tecnologia, as empresas ou seus executivos. A ideia é fazer a sociedade compreender os seus malefícios para que juntos possamos aperfeiçoar os seus modelos e a sua governança.


Foto: Na última etapa das férias de verão de 2016, mais descanso num resort da Ístria (Croácia). A foto mostra o anfiteatro romano de Pula (século I).


Leitura complementar:

Eu, você e o Mark (2020) - Post recente sobre o Facebook

Eco (2013) - Quando falei sobre o efeito bolha em 2013.

The social dilemma - Site dos organizadores do documentário.

 


Monday, August 15, 2016

Olímpicas

Mais uma vez, aproveitei o verão europeu para tirar umas férias. Pela Europa Central, cruzei várias vezes com grupos da juventude católica, que foram ao encontro do Papa em Cracóvia. Ainda mais frequentes foram os encontros com os grupos de turistas asiáticos. Tudo indica que um pouco do fluxo dedicado à Europa Ocidental foi desviado para lá, por conta do risco de atentados.

No meu celular tem um aplicativo de SOS com números de emergência e alertas específicos para cada país. O aplicativo usa a geolocalização para saber quando estou num novo país. Cada vez que entro na Bélgica, Brasil ou França, recebo inúmeras advertências. Na Croácia, Eslovênia e Hungria, nenhum alerta. Portos seguros para as férias.

Nesses três países, entre um passeio e outro, pude acompanhar os Jogos Olímpicos pela TV e jornais locais. Entendia tudo! ;-)

Esses canais locais concentram-se nos seus representantes e equipes, com algum espaço para as estrelas olímpicas (Biles, Bolt, Phelps, etc) e pouco espaço para fofocas. Enfim, muitos dos incidentes esmiuçados pela imprensa brasileira pouco repercutiram no exterior.

A câmera que cai, a piscina verde e os assaltos aos atletas ficarão no folclore olímpico. Se houve algum evento relevante, não tem nada a ver com o Brasil. Falo da posição do COI com relação à Rússia. Isso sim é um desastre. A gente já sabe como funciona o COI, faltam culhões e sobram milhões.

Passada metade da competição, o desempenho esportivo do Brasil é patético. Não que as medalhas sejam importantes, mas o dinheiro alocado para obtê-las faz disso um escândalo. Apenas mais um.

Espero mesmo que não haja nenhum incidente importante e que os próximos dias sejam de encantamento esportivo e organizacional. Assim como vocês, estarei torcendo pelo Brasil. E que consigamos resultados mais expressivos, muito provavelmente nos esportes coletivos.


Foto: Belle-Île-en-Mer, como o próprio nome diz, um belo refúgio na costa da Bretanha.