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Tuesday, October 27, 2020

Rótulo



Aconteceu no Balthazar, um renomado restaurante francês do Soho, em Nova Iorque. A história tem quase duas décadas, mas só foi revelada por Keith McNally, proprietário do restaurante, há poucos dias através da sua conta no Instagram. 

Era uma daquelas noites de casa cheia, algo comum no local, uma brasserie recomendada pelo Guia Michelin. Entre as festejadas mesas, duas delas têm as suas histórias entrelaçadas pelo acaso.

Numa das mesas, um jantar a dois. Um jovem casal, que não precisa de motivo especial para celebrar, curtindo sua refeição acompanhada de um vinho. Os jovens escolheram o vinho mais em conta da casa, um Pinot Noir de US$ 18 (vide nota 1).

Na outra mesa, um grupo de executivos de Wall Street. Possivelmente, celebravam alguma transação importante. Para acompanhar o jantar, escolheram o vinho mais caro da carta, um Château Mouton Rothschild, cuja garrafa custava US$ 2000 (nota 1).

A essa altura, o leitor astuto já pode ter antecipado o que o acaso preparou para as nossas duas mesas. Sim, seus vinhos foram trocados!

Um serviço de vinho razoável nunca permitiria uma troca de garrafas. Todavia, os clientes das duas mesas solicitaram que suas garrafas passassem por decanters (nota 2). O restaurante utilizou dois decanters idênticos, que foram trocados à hora do serviço. Não me perguntem a razão de passar o Pinot Noir pelo decanter (nota 3).

Quando a equipe do restaurante percebeu o engano, chamaram o dono. Depois daquele frio na barriga, Keith preferiu abrir o jogo com seus clientes. Enquanto que os vinhos trocados já estavam sendo apreciados nas duas mesas, ele foi lá e contou o ocorrido. Cada mesa acabou ficando com o vinho que havia começado. Ambas pagaram apenas US$ 18 e o restaurante arcou com o prejuízo.

A proposta deste post não é homenagear o restaurante nem seu dono pela sábia decisão. Aliás, feito o estrago, é isso o que esperaria de qualquer estabelecimento. O ponto mais interessante é que nenhuma das mesas percebeu a troca. Bebiam felizes. O casal divertia-se fazendo valer ao máximo aquele vinho presumidamente barato. Os executivos transbordavam de alegria com o vinho presumidamente sofisticado.

Quando Keith esteve à mesa dos executivos, um deles elogiou a "pureza" do vinho. Disse que desconfiou que fosse um Mouton Rothschild. Cá entre nós, ele deve ter tentado alguma saída honrosa. Se ele entendesse um pouquinho de vinhos perceberia a brutal diferença, não é mesmo?

Esta pequena desventura enológica teria sido mera casualidade? Talvez não. Se transformássemos tal situação num experimento, tenho quase certeza que teríamos inúmeros resultados semelhantes. A dura verdade é que muitos clientes nem gostam do que bebem. É um ritual de celebração e exibição. Tem muita gente que bebe rótulo.

Há estudos análogos sobre o comportamento do consumidor de cervejas focados no Brasil. Ficou evidenciado que, em degustações às cegas, o bebedor comum não consegue diferenciar as diferentes marcas de cerveja. Pior ainda, à mesa, faz questão de exibir o rótulo da marca consumida, mudando a posição da garrafa ou lata para dar-lhe mais visibilidade, quando necessário.

Os amantes do vinho que conheci, na sua maioria europeus, escolhem as garrafas com base nas suas preferências históricas (uva, vinícola, safra, regiões, etc) e na oportunidade de conhecer melhor os produtos locais, sempre com uma relação interessante de custo/benefício. Arriscar uma nova experiência? Claro, mas só depois de uma boa conversa com o sommelier.


E você, bebe vinhos ou rótulos?

 

Leitura adicional:

Post sobre vinho de 2009 – Açúcar dá cana!

Post sobre vinho de 2009 – Vinum Nostrum

Notas:

(1)    Preços de vinte anos atrás. Hoje, a garrafa mais barata custa US$45, e a mais cara, US$6800.

(2)    O decanter tem várias funções: separar as impurezas, permitir a oxidação e servir o vinho. Vejam o excelente artigo da revista Adega.

(3)    Por que um Pinot Noir de US$18 precisaria passar por um decanter? Não sei. O dono do restaurante diz que quem manda é o cliente. O sommelier é instruído para concordar mostrando um certo desconforto. Nas palavras de Keith: “By acquiescing one educates the customer” 

Fontes:

Decanter, Instagram, “Small Data” de Martin Lidnstrom, Adega

 

Foto: Última foto em Tréveris, Alemanha. Detalhe na praça central da cidade.

Tuesday, October 20, 2020

Uma tarde em Shanghai


Esta é uma história do tempo em que a gente cruzava o planeta por causa de uma ou duas reuniões. Tudo aconteceu em Shanghai, onde eu encerrava uma missão na Ásia. O Jerry era um executivo local, subordinado a várias pessoas baseadas na Europa, entre elas, eu mesmo. Era o auge das organizações matriciais.

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Naquela quinta-feira, tínhamos algumas reuniões entre o escritório e o hotel. Felizmente, a agenda permitia um intervalo razoável para o almoço. Enquanto a agenda do Jerry estava mais tranquila, eu tinha outros compromissos ao final da tarde, embarcando de volta para a França à noite.

Ainda pela manhã, Jerry perguntou: “Está livre para o almoço?”. Com o meu aceno positivo, ele logo emendou: “Vou te levar para um lugar super especial, um dos melhores de Shanghai, onde você vai comer uma fantástica iguaria”.

Jerry era sempre gentil. Com aquele convite, já estava salivando. Afinal, sempre comi muito bem na Ásia. Antecipava um almoço memorável.

Bateu meio-dia e a reunião acabou. Jerry conduziu-me para o tão esperado restaurante. Vale dizer que, à época, a China passava por uma crise sanitária, um dos surtos de gripe aviária. O impacto disso foi quase imperceptível nas diversas viagens que fiz para lá. Jamais comia aves.

Chegando ao restaurante, distante do centro de Shanghai, tive uma leve decepção. O local era de fato excepcional, mas seria a minha terceira vez por lá. Costumávamos usar aquele estabelecimento para receber visitas ilustres. Tudo bem, ele não era obrigado a saber.

O Jerry comportou-se como bom anfitrião e, conforme sugerido, escolheu os pratos. Estava despreocupado com a sua escolha e ansioso pela fantástica iguaria. Ele conversou em mandarim com os funcionários da casa e nem fiz questão de entendê-los.

Os pratos chegaram. Era o grande momento. Jerry não escondia a excitação. Eu tentava descobrir o que havia nas travessas cuidadosamente escolhidas pelo colega, o que nem sempre é óbvio.

Com todo seu conhecimento e sagacidade, o caríssimo Jerry escolheu frango como prato principal em plena crise de gripe aviária. Pior do que isso, o frango não estava grelhado nem bem cozido, estava muito mal passado. Tinha até o ‘sanguinho’. Senti nojo.

Sou um péssimo ator e, quando sinto algo assim, mal consigo disfarçar. Jerry perguntou: “Então, que tal?” Nesse momento, cortei uma fatia microscópica do frango e coloquei na boca. Ensaiei um: “Hmmm, muito bom!” Com certeza não fui convincente.

A essa altura, estava louco para que o Jerry pedisse licença para ir ao toilette. Assim, jogaria o frango asqueroso no vaso de plantas, no aquário ou debaixo da mesa. Jerry não deu chance. Enquanto eu almocei os acompanhamentos, Jerry devorou a travessa de frango.

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Depois do almoço, fomos ao Bund, tradicional área de Shanghai. Falei para o Jerry que tomaríamos um café e voltaríamos para o hotel. Apertava um pouco a nossa agenda, mas valia à pena rever um dos locais mais celebrados da cidade. Aliás, eu preferia mesmo é ter almoçado por lá.

Era praticamente hora de voltar para o hotel, quando eu e o Jerry fomos abordados por duas senhoritas daquela profissão antiga. Ao invés de ignorá-las, Jerry engatou uma conversa em mandarim. Impaciente, disse ao Jerry: “Hoje é quinta-feira, estamos só no começo da tarde e ainda temos compromissos”. Acho que fui bem claro.

A manhã tinha sido ensolarada em Shanghai e, naquele princípio de tarde, o tempo fechava. Como fazem inúmeras mulheres por lá, as duas senhoritas usavam sombrinhas para proteger a tez e manter a pele mais clara. Àquela hora, as sobrinhas estavam fechadas.

Quando as moças perceberam o teor da minha sutil reprimenda ao Jerry, as sombrinhas ganharam uma outra função: viraram armas. Elas partiram para cima de mim usando as sombrinhas como espadas e gritando: seu chato, estraga-prazer, chefe de merda! Pois é, tive que sair correndo pelas ruas de Shanghai perseguido por duas putas tresloucadas.

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Jerry é uma pessoa boníssima, talvez meio trapalhão. Fico tranquilo em compartilhar este relato. Mesmo que seja lido pelo Jerry, ele ficará quieto. Jerry foi demitido semanas depois dessa quinta-feira (não tenho nada a ver com isso). A sua passagem na empresa foi tão desastrosa que é omitida no seu perfil LinkedIn. Há pouco tempo, entrei em contato com ele. Perguntei se estava tudo bem e desejei-lhe ‘all the best’.

 


Foto: A Porta Nigra, construção romana do século III, um dos marcos de Tréveris, na Alemanha. Foto de maio de 2016.

 

Thursday, October 15, 2020

Cueca


A pandemia provocou uma certa aversão ao papel moeda. É cartão pra cá, cartão pra lá, celular pra cá, celular pra lá. A abundância de maquininhas de pagamento permitiu que qualquer comerciante possa oferecer opções de pagamento com ou sem contato. Imagino que muitos jovens tenham dispensado a boa e velha carteira. Documentos e dinheiro foram finalmente digitalizados.

Com o lançamento do PIX, tudo ficará ainda mais dinâmico, confiável e barato. Bom para todo mundo. Digo todo mundo mesmo. A enorme população desbancarizada do Brasil – cerca de 45 milhões - será grande beneficiária.

O projeto do PIX é um marco em si. Foi coordenado com competência pelo BACEN, que mostra sua determinação em fazer do nosso sistema financeiro uma referência mundial e aumentando a sua competição interna.

Entretanto, às vésperas deste marco importante, uma trágica contradição: mais um político é flagrado com dinheiro na cueca. Literalmente, dinheiro sujo. E o que dizer então da recém-criada nota de 200 reais? Enquanto que uma parte da gestão pública vai na direção certa, uma outra continua no mau caminho.

As transferências diretas de dinheiro - TED, DOC, boleto e cartões - deixam rastro, assim como o PIX. Bandidos e corruptos continuarão precisando de papel moeda para acobertar suas tenebrosas transações.

A digitalização do dinheiro dificulta a vida da criminalidade. Não é porque alguém tenha pago coisas caras com papel moeda que seja corrupto, mas a gente vai ficar cada vez mais desconfiado.

Em 2017, elogiei a Índia pela substituição repentina do seu dinheiro. Os criminosos tiveram muito trabalho, mas a ousadia acabou prejudicando bastante a maioria humilde do país de quase 1,4 bilhão de habitantes. O caso da Índia não pode ser ‘copiado e colado’. Pelo menos, eles tentaram. Aqui no Brasil, o crime e a corrupção continuam conquistando terreno.

Se não podemos conter a criminalidade, deveríamos fazer o máximo para dificultá-la. Jamais o contrário.

 

Foto: Final de semana em Tréveris (Alemanha), na primavera de 2016. A cidade é conhecida por suas ruínas romanas e por ter sido berço de Marx. Na foto, uma tomada a partir da praça central.

 

Leitura complementar:

Lavagem – Post de 2017