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Friday, June 20, 2014

Eu e a Copa

Até agora, só pude ver o jogo de abertura da Copa. Depois disso, mais nada! Mesmo assim, eu e meus colegas continuamos acompanhando. Uma janelinha aberta com o placar do jogo, uma ligadinha na televisão no intervalo das reuniões, uma olhadela na TV de um bar indo para o jantar e assim por diante. Sempre tem um jeitinho de saber o que está acontecendo.

A essa altura do campeonato, os comentários sobre o Brasil e a organização do evento são raros. Meus colegas europeus surpreendem-se com o desempenho das equipes latino-americanas. Os franceses saíram da apatia habitual e começam a ver a competição com outros olhos depois da surra aplicada na Suíça nesta tarde. Os belgas estavam muito otimistas, mas depois da vitória suada sobre a Argélia, estão mais comedidos.  E, finalmente, todos nós festejamos a eliminação precoce da Espanha e da Inglaterra.

Enfim, vista de fora, a nossa Copa parece como todas as outras. Tudo padrão FIFA. A única anormalidade transmitida para o mundo foi aquela bagunça do jogo Espanha X Chile.  Nem sem direito o que aconteceu, tudo indica que foi exceção e não regra.

A Copa é o que passa na TV. Se a imprensa não falar de quantos estrangeiros foram assaltados ou perderam-se por aí, ninguém vai saber.  Nessas horas, um pouco de distância é ótimo. Afinal, vai saber o que pode ter acontecido na África do Sul!

Se o meu último post foi escrito no lounge da Air France, este está sendo redigido no da United. Estou voltando para ver dois jogos ao vivo, um em São Paulo e um no Rio. Agora sim, chegou a hora de ver a Copa de perto. Até breve!



Foto: Pôr do sol em San Sebastian, País Basco.

Saturday, February 22, 2014

Mercado

Geralmente associamos os cartéis às grandes corporações. O recente imbróglio ferroviário paulista é mostra disso. Entretanto, a manipulação do mercado, o cerceamento da concorrência e a imposição de barreiras de entrada são mais banais do que parecem.

Tomo dois exemplos recentes de coisas que estão mais perto da gente do que a contratação de trens, um caso francês e outro brasileiro.

Paris é conhecida pela falta de táxis. Se você não estiver a fim de usar o transporte público, vai depender da loteria que é achar um táxi livre pelas ruas da cidade. Quando achar, ainda existe a chance de que o motorista recuse a viagem. Ah, sim! Isso é muito comum por lá.

O preço do táxi francês é controlado, como em muitos lugares do mundo. O problema está na oferta. A união dos taxistas transformou aquilo num clube fechado. O número total de veículos permanece o mesmo há muito tempo. Um novo motorista só entra se um outro sair e ainda pagando um prêmio de 200 mil euros. Apesar das investidas do governo, a categoria resistiu e não deixou aumentar a frota.

A saída do governo foi criar o serviço de locação de carros de turismo com motorista. Parece complicado? Na prática, é quase a mesma coisa do que o bom e velho táxi. A diferença é que não existe a possibilidade de chamá-los sinalizando-se para o motorista, usa-se exclusivamente a Internet, algo que, por sinal, também tem se tornado comum entre os táxis. Vários serviços como Allocab e Snapcar começam a comer o mercado pelas bordas e transformar Paris numa cidade tão boa para os negócios como é para o turismo.

Já o governo brasileiro tem uma mentalidade diferente. Todos estão alarmados com o aumento dos custos de hotéis e restaurantes em algumas sedes da Copa. Nosso governo está aparelhando-se para o controle de preços ao invés de ter trabalhado para aumentar a oferta há alguns anos. Tarde demais para revogar a lei da oferta e da procura!

Vou ao Maracanã participar da grande festa. Tive que me contentar com um bate e volta de São Paulo. Achei absurdo pagar bem mais de mil reais por noite em hotéis de segunda.

O Rio é mesmo um caso à parte, mas não precisava ser o lugar mais caro do mundo. Mesmo sem Copa e sem Olimpíadas, a cidade já tinha diárias monegascas. Não é novidade para ninguém que existe um cartel de hotelaria na cidade.

Enfim, os grandes cartéis corporativos são manchetes de jornais e alvos de multas milionárias. Mas, no dia a dia, são os pequenos cartéis que nos esfolam.


“People of the same trade seldom meet together, even for merriment and diversion, but the conversation ends in a conspiracy against the public, or in some contrivance to raise prices.”
Adam Smith (A riqueza das nações, 1776)



Foto: Outro cantinho de Amsterdam, foto tirada nas minhas férias de 2013.

Sunday, October 20, 2013

2014


No meio político, a grande dúvida é se a Dilma será reeleita no primeiro ou no segundo turno. Parece inacreditável. Há poucos meses, as massas invadiam as ruas e acenavam para um futuro diferente.

As manifestações foram habilmente esvaziadas. A infiltração orquestrada de baderneiros assustou aqueles que se manifestavam legitimamente. Além disso, o "mico" passou para os governos estaduais de São Paulo e do Rio, criticados quando reprimem e quando não reprimem.

O programa Mais Médicos foi uma cartada genial. Quase escrevi um post sobre o assunto, mas preferi esperar pela opinião dos especialistas.  Podemos criticar os métodos e a forma do governo impor o programa, mas não a sua lógica.

Além de fazer sentido sob o prisma sócio-econômico, é uma ação política decisiva, capaz de consolidar a vitória da Dilma e ainda ameaçar os últimos bastiões tucanos. Resta à oposição o medíocre papel de ficar denunciando médicos argentinos e cubanos que cometam deslizes. Algo que começa a aparecer nas redes sociais, mas é estatisticamente irrelevante.

Num país tão desigual, um governo populista sempre poderá achar uma cartada para virar o jogo e ganhar mais quatro anos de poder. E temos que admitir que não foi este governo que criou um dos países mais desiguais do mundo.

A questão é onde parar. De cartada em cartada, o Brasil vai definhando. O desempenho do país na era Dilma não é mais o mesmo. Graças a contínua deterioração dos indicadores, nossos 15 minutos de fama já acabaram. Estamos andando para trás.

Se serve de consolo, falta um ano para as eleições. É bem verdade que os rivais da Dilma são umas mulas, tão ruins quanto ela, mas, em um ano, muita coisa pode acontecer. Afinal, nosso país é regido pela antiga máxima: "o Brasil cresce enquanto os políticos dormem".


Foto: Mudando de Bruges para Gante, ainda na Bélgica.

Saturday, August 17, 2013

Poltergeist

Alguns artigos estrangeiros celebram a queda da criminalidade no primeiro mundo. Bem, só podia ser lá fora, é óbvio! O mais interessante é que até mesmo a profunda crise não modifica a tendência. Segundo especialistas, o fenômeno deve-se a uma série de fatores como a vigilância onipresente, o envelhecimento da população, a eficácia das modernas técnicas de investigação, etc. Enfim, sob tais condições, o crime não compensa.

Já no terceiro mundo, o crime continua compensando. E muito. Em maio, escrevi o post "o crime da semana", sobre os eventos bárbaros que continuam nos chocar frequentemente. Convido você à sua releitura. Como será o próximo crime da semana?

Numa perspectiva histórica, Rio e São Paulo reduziram fortemente seus índices de criminalidade, mas ainda estão num patamar inaceitável. Em termos relativos, São Paulo é a capital menos violenta do Brasil. Nossos irmãos nordestinos, contudo, rivalizam com países em plena guerra civil. Suas taxas de homicídios são piores do que as iraquianas.

Uma das explicações mais comuns é que a bandidagem prosperou no Sudeste e invadiu o Norte e Nordeste, onde encontrou mais pobreza e uma polícia ainda mais despreparada. Atenção, eu disse "ainda mais"! Terreno perfeito para a explosão da violência. Se nós, paulistanos e cariocas, não admiramos nossas polícias, imaginem os outros!

Sonhamos com uma polícia preparada e competente, que investigue e solucione todos os crimes, independentemente das vítimas, seja um colunável ou o Amarildo. Sabemos que hoje é impossível. Desta forma, penso que quando se trata do "crime da semana", quando os holofotes da mídia estão sobre as 'otoridades', eles não deveriam falhar. É a chance de mostrar que a 'corporação' tem um pingo de seriedade.

A título de exemplaridade, para motivar os seus quadros e inspirar a confiança da população, esses crimes deveriam ser resolvidos. Que tragam especialistas de fora e usem os recursos mais modernos que a tecnologia proporciona!

Infelizmente, as polícias do Rio e São Paulo perdem essa oportunidade. Brindam-nos com histórias pouco críveis. Exemplos? No Rio, tivemos o poltergeist do Amarildo, quando vários dispositivos eletrônicos falharam simultaneamente. Em São Paulo, a história policial já nos trouxe personagens fantásticos como o Homem Invisível na Rua Cuba, o Homem Aranha no sequestro do Sílvio Santos e, mais recentemente, o malvado Chuckie, matador de famílias.


Foto: Um convento no centro de Bruges. Tranquilidade pura.

Monday, August 13, 2012

Notas Olímpicas 3


Ainda é muito cedo para se avaliar os resultados dos Jogos para a cidade de Londres. Certo é que a Grã-Bretanha mostrou que tinha um projeto olímpico, transformando-se numa potência esportiva. Vale notar que essa importante ascensão começou bem antes. Vejam a evolução do seu total de medalhas de 2000 a 2012: 28->30->47->65.

Jogos Olímpicos nem sempre dão certo. O exemplo grego é trágico. O país não digeriu o custo do investimento, não virou uma potência olímpica e tampouco transformou a sua capital. Não é fácil fazer algo pior do que Atenas 2004!

Os jogos de Barcelona 1992 não fizeram da Espanha uma campeã olímpica, mas alavancaram o progresso e o turismo da capital catalã. O renascimento de Barcelona através dos Jogos é um dos melhores exemplos de legado olímpico.

Como nem tudo é perfeito, houve um efeito social perverso. A valorização imobiliária acabou expulsando muita gente para a periferia. Se fosse no Brasil, as encostas do Montjuic estariam devidamente ocupadas ;-)

E os jogos do Rio em 2016?

Em termos esportivos, estamos no pior dos mundos. Melhoramos o nosso desempenho, passando de 15 para 17 medalhas. Porém, nesse período, nosso o governo colocou 100 milhões a mais no bolso do COB. Eu escrevi A MAIS! Aparentemente, o Irã, a Coreia do Norte e o país do Borat foram mais sábios.

Se o investimento em medalhas é duvidoso por si só, pior é gastar e nem obtê-las. A conversa entre Dilma e os dirigentes do COB não será das mais amistosas.

Fica a esperança de uma grande contribuição das Olimpíadas para o Rio de Janeiro. É claro que o investimento direto na infraestrutura da cidade é um real benefício, o difícil é alavancar os bilhões que vão para o circo olímpico. Deixo a reflexão para o leitor.


Foto: Outra tomada do conjunto do "Templo do Buda de Esmeralda" em Bangkok, Tailândia.

Sunday, November 28, 2010

Integrar, entregar e intrigar

Fora do Brasil, a repercussão dos recentes acontecimentos do Rio é enorme. Como a maioria das pessoas restringe-se às manchetes e primeiras linhas dos artigos, fica a impressão de que o caos impera. Na Europa, pensam que a Copa e as Olimpíadas estão ameaçadas. Resta-me explicar que se trata do contrário. Finalmente, é a ordem que se impõe. Como os estrangeiros nos vêem como otimistas inveterados, o argumento gera uma certa desconfiança.

Algumas multinacionais apavoradas já estão impedindo as viagens dos seus executivos para o Rio. É verdade que tal embargo não é uma tragédia para o Brasil. Esse procedimento é praxe, acontece muitas vezes, ao sabor dos atentados. Eu mesmo já fui impedido de viajar para muitos lugares por causa dessas práticas de segurança.

Pelo que tenho lido na imprensa brasileira, o apoio à ação dos Governos do Rio e do Brasil é generalizado. Sabemos que a Copa e as Olimpíadas representarão um grande assalto ao erário público. Porém, se os dois eventos foram os motivadores da ocupação do nosso próprio território, valeu à pena.

O lema rondoniano da ditadura "integrar para não entregar" inspirou grandes obras para a ocupação da Amazônia. Enquanto desperdiçávamos bilhões no norte e nordeste, entregávamos lentamente pedaços das nossas mais caras metrópoles. Está na hora de retomá-los.


Foto: Em Autun, a porta de Santo-André, construída entre os séculos I e III.