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Friday, July 15, 2016

Pé frio?


Para quem possa interessar: declaro que, nesta quinta-feira, 14 de julho de 2016, estava em São Paulo - SP.

Pode parecer bobagem, mas para quem esteve em Paris e Bruxelas no momento das respectivas tragédias, fica aquela dúvida, seria eu um pé frio?

O serviço de inteligência portuguesa, depois de meses cruzando terabytes de dados de passagens aéreas e estadias em hotéis, estava chegando perto de colocar o meu nome na lista de suspeitos de terrorismo internacional. Felizmente, pararam a investigação para comemorar o título da Eurocopa.

Por falar em futebol, realmente tive meu momento de Mick Jagger até as quartas de final do torneio europeu. Os times pelos quais torcia perdiam. Porém, dei uma dentro com relação a Portugal. Depois da sua campanha pífia na primeira fase, disse que estava com pinta de campeão.

Fiquei mais tranquilo mesmo com relação a ser ou não ser um pé frio quando cheguei ao Brasil. Após um verão belga com chuva todos os dias e resfriado por algumas semanas, fui brindado com um generoso inverno paulistano, quando finalmente pude vestir camiseta, calção e chinelos. Ufa!

Estou aliviado. E vocês podem ficar tranquilos. Na próxima semana, volto para a Europa ;-)


Foto: Junto às muralhas de Vannes, na Bretanha.

Sunday, June 12, 2016

Temporada de greves

Estou escrevendo este texto no trem. O mesmo trem que trouxe os torcedores ingleses de Marseille e que leva os belgas para Lyon. É tempo de Euro 2016!

Euro 2016 só para alguns, pois eu estou indo trabalhar. Aliás, nem os maquinistas estão trabalhando. Para minha sorte, peguei um dos poucos trens confirmados para hoje.

Que os maquinistas franceses não respeitem a Euro 2016, dá até para se aceitar. Mas eles não suspenderam a greve nem quando boa parte do país estava debaixo d’água. Isso é demais! Entre trilhos inundados e trens inoperantes, a França passou por alguns difíceis.

Os maquinistas belgas foram mais solidários. Respeitaram um longo período de luto após os atentados e fizeram apenas alguns poucos dias de greve. Do lado belga, não há nenhuma reivindicação especial, é só para não perder o hábito. Sindicalista profissional não precisa de bons motivos para cruzar os braços.

Amanhã, tenho uma reunião importante em Lyon. Sacrifiquei metade do meu domingão para poder pegar esse trem e garantir minha presença amanhã logo cedo. Um outro colega belga, cansado das greves, está encarando 6 horas e meia de estrada. Outros escolheram ir de avião, evitando-se a Air France, que tem greve anunciada para as próximas horas.

Entre greves belgas, francesas, muita chuva e um trânsito infernal, não é preciso dizer que enfrentamos dias de caos por aqui. Felizmente, consegui movimentar-me entre Bruxelas, Paris e Lyon escolhendo os bons trens e aviões. Sorte!

Só fui supreendido por um temporal parisiense, daquelas chuvas de verão paulistanas. Estava a 200m do hotel com um guarda-chuva portátil. Achei que dava. E deu! Deu para ficar encharcado.  A noite inteira e o secador de cabelos não foram suficientes para secar a calça, o paletó e os sapatos.

O legado desses dias de caos e um frio fora de época foi um refriado, que virou gripe, que virou sinusite. Chamei um médico, que chegou em casa rapidinho para fazer o diagnóstico e receitar os medicamentos. Deve ter vindo a pé.



Foto: Ainda das férias do verão passado, no caminho para a Bretanha, passagem pelos Jardins de Giverny, famosa residência de Claude Monet.

Thursday, April 7, 2016

Panamá

A televisão francesa, num excelente documentário, mostrou como funciona o mundo das offshore. Escolheu um imponente apartamento do centro de Paris trocado de mãos recentemente. É um daqueles imóveis que vale mais de 100 milhões de reais. Quem seria o felizardo proprietário?

O imóvel foi registrado por uma empresa francesa, que pertence a uma empresa de Luxemburgo, que pertence a outra empresa de Luxemburgo, que pertence a uma terceira empresa de Luxemburgo, que finalmente pertence a uma empresa panamenha. Esta última, registrada por um testa-de-ferro. Por vias normais, é impossível saber o nome do seu ilustre proprietário.

Se não fosse uma denúncia anônima, jamais chegariam ao misterioso proprietário. A escolha do imóvel não foi aleatória. A TV francesa havia recebido o dossiê completo do caso, da mesma forma como vazaram os “Lux Leaks” ou os “Panama Papers”. 

A operação fora montada pelo Banco Rothschild para um executivo árabe, acusado de desfalcar o fundo soberano do seu país em meio bilhão de euros. No Brasil, seria um petralha do segundo escalão, mas de muito bom gosto. 

Na França, as informações do “Panama Papers” fazem um verdadeiro “strike”.  Estão lá os casos mais recentes de corrupção do país, o escritório de advocacia do Sarkozy e a Société Genérale. Material suficiente para ligar todos os pontos que faltavam no atlas da corrupção local.

Não posso dizer a mesma coisa do Brasil. Considerando a corrupção generalizada que assola a nação, ainda precisamos de muitas outras denúncias. Quero crer que a Receita Federal esteja trabalhando com toda essa informação, mesmo que seja na surdina. 

Pelo menos na Europa, há um claro sentimento de indignação com relação à fuga de capitais, lavagem de dinheiro e outras maquiagens financeiras. A atuação de hackers, funcionários ativistas ou puros aproveitadores vai infernizar a vida de quem trabalha às margens do sistema financeiro. A vida de corrupto está ficando cada vez mais difícil. 


Foto: Château de Bizy, na Normandia.

Saturday, December 12, 2015

Terror de política - Parte 2

Entre as inúmeras reações aos atentados de 2015, houve uma crítica aos recursos tecnológicos, que propiciam a comunicação entre trerroristas. De fato, a tecnologia ajuda a humanidade como um todo, para o bem e para o mal. Felizmente, existe muito mais gente fazendo o bem.

Há muitos anos, assisti a uma palestra do Prof.Stephen Kanitz falando sobre a importância do telefone celular. Se no mundo desenvolvido, a telefonia móvel trouxe benefícios relevantes, nos países como o Brasil, ela trouxe algo a mais, resgatando a cidadania daqueles que ficavam isolados, sem a possibilidade de uma justa integração à sociedade ou ao mercado de trabalho.

O ganho da tecnologia foi muito além da rapidez, da eficiência, da praticidade ou da possibilidade de  entretenimento. As pessoas ganharam uma voz, fontes de informação alternativas, poder de organização e manifestação. As democracias fortaleceram-se.

A crise político-institucional brasileira é exemplo disso tudo. Se não fosse a contribuição das redes sociais e dos aplicativos de comunicação, a abominável Dilma estaria bem mais tranquila.

Graças a ampla divulgação dos fatos, percebemos o quão perverso um governo pode ser. Foi uma dura lição aos brasileiros, argentinos e venezuelanos, entre outros, que escolheram execráveis governos populistas e corruptos, sem quaisquer limites para preservar o poder.

A História nos ensina que isso tudo não é privilégio das nossas repúblicas bananeiras. Temos que permanecer vigilantes. É a briga do Snowden, embora muitos não concordem integralmente com ele. Eu mesmo fiz algumas ressalvas à época.

A tecnologia também está aí para nos proteger do maior dos vilões. Já fizemos muitas concessões e é preciso deixar uma espaço para a privacidade, para continuar trocando mensagens que não sejam lidas ou falar sem ser escutado pelo governo ou por qualquer outro.

Aos amigos do Brasil, mais uma vez, boas manifestações, fora Dilma e cana nos petralhas!

Leia também:
Snowden


Foto: Mais uma foto tirada em Mons, no início do ano.

Thursday, December 10, 2015

Terror de política - Parte 1

2015 entra para a história. Paris viveu os atentados de janeiro e novembro. Dois outros foram evitados, o do Thalys (trem) e o da Igreja de Villejuif. Este blog já especulou sobre as causas sociais e econômicas do terror, mas nunca falou da tecnologia a ele associada.

Sempre encontramos aqueles políticos oportunistas, que se aproveitam do momento para tentar acabar de vez com o que nos resta de liberdade e privacidade. Para tratar de assunto tão importante, farei um texto em duas partes. Começamos recapitulando alguns fatos.

Os terroristas são sofisticados. Os vídeos do Estado Islâmico no Youtube orientam o uso de criptografia em qualquer comunicação. Criptografia de 4096 bits. Para os leitores leigos, saibam que é muuuuuuito seguro.

Nem todo terrorista nasceu para informática. Alguns poderiam trabalhar perfeitamente numa equipe de suporte técnico. Outros estão mais para a equipe da Dilma. Entre erros e acertos, não dá para não falar de tecnologia.

Nos atentados ao mercado Kasher, o terrorista filmou seus assassinatos com uma câmera GoPro. Ele não conseguiu colocá-lo no Youtube por problema de sinal (até tu Paris!). Mesmo com a Polícia às portas, ele sacou o cartão de memória da câmera e carregou num computador. Haja sangue frio.

Um dos meios de comunicação usados nesse ataque contrariou as regras do terrorismo internacional, embora seja criativo. A técnica consiste em compartilhar contas de Gmail. Ao invés de enviar a mensagem, eles deixam-na como rascunho. Como a pasta de rascunhos é sincronizada, eles comunicam-se sem trocar mensagens, que são mais facilmente rastreáveis.

No fracassado atentado à Igreja de Saint-Cyr-Sainte-Julitte de Villejuif, um dos terroristas usava a ferramenta de criptografia “PGP” direitinho. Cometeu um único erro - e fatal - ao apagar uma mensagem sem passar pela criptografia. O cesto de lixo é o pote de ouro dos peritos. A partir desta falha, a Polícia francesa fez a festa e desbaratou todo o bando.

Nos atentados de novembro, o uso de aplicativos como Telegram e Signal pegou a Polícia de calças curtas. São ferramentas de chat com criptografia. Uma outra parte da quadrilha teria usado a função de comunicação do Playstation, algo igualmente difícil de ser rastreado. Se cometeram algum erro, foi ter se livrado de um celular. Aquele celular encontrado no cesto de lixo foi a chave para a rápida resposta da inteligência francesa.

Diante de tudo isso, a reação de alguns políticos desesperados para encontrar bodes expiatórios é esquecer dos  verdadeiros problemas e eleger um culpado: A tecnologia!

Sim, para eles, os culpados são a Internet, os aplicativos de mensagens, a telefonia celular e até o Playstation. Um político pediu o fim dos aplicativos com criptografia. Um outro quer “porta dos fundos” em todos os aplicativos.

Em tempos de desespero, pode ser uma tentação trocar liberdade por segurança. Entretanto, é certamente uma armadilha. Isso fica para o próximo post.


Leia também:
Atentados de janeiro: #jesuischarlie
Atentados de novembro: Terror
Porta dos fundos


Foto: Cenas de Mons (Bélgica), cidade escolhida como capital europeia da cultura em 2015.

Monday, December 7, 2015

Fantasma

O Brasil passa por uma fase difícil e a tensão deve aumentar ainda mais com a abertura do processo de impeachment. Não sei se será o golpe decisivo na corruptocracia instaurada pelo PT, mas é suficiente para alimentar nossas esperanças.

Diante de um Brasil que anda para trás e continua afundando na lama, os problemas dos outros países parecem menores. Só que não!

A crise dos refugiados e os recentes atentados de Paris potencializaram a ameaça que pairava no ar. Ontem, no primeiro turno das eleições regionais francesas, o Front National (FN), partido de extrema direita, abocanhou quase 30% dos votos.

As estrelas do partido são a filha (Marine) e a neta (Marion) do velho fascista Jean-Marie Le Pen. As caras são novas (e inexperientes), mas seus ideais são os mesmos. A vitória do FN é uma combinação da grande abstenção, do voto de protesto, do desemprego, do repúdio aos imigrantes e da descrença na Europa, entre outros.

Para não apavorar meus leitores, saibam que o sistema eleitoral francês ainda oferece alguma defesa contra a ameaça extremista. Nesses dias entre o primeiro e segundo turno, os partidos ainda podem retirar e fundir suas listas.

Ou seja, para se evitar a vitória do FN, os dois principais partidos da França - Socialista (PS) e Republicanos (LR) - terão de fazer algum sacrifício. Por exemplo, o PS anunciou hoje a retirada da sua lista de três regiões lideradas pelo FN. Em outras palavras, ele libera seus eleitores para votarem nos rivais Republicanos e ainda fica de fora da vida política da região nos próximos anos. Que castigo!

Acredito que os entendimentos políticos e a mobilização popular acabarão limitando o estrago do FN. Entretanto, fica uma dura advertência à classe política francesa. É melhor se mexer e atacar de frente os problemas do país! Com essa vitória, mesmo que parcial, o FN vai ganhar mais palanque para espalhar seu discurso raivoso. A ameaça continua no ar.


Foto: Última foto do Parque da Cambre em Bruxelas

Sunday, November 29, 2015

Outono

O foco está na COP21 sediada em Paris. Para proporcionar a segurança necessária aos governantes do mundo inteiro, a cidade foi praticamente bloqueada. Em paralelo às discussões sobre o clima, os mesmos protagonistas tentarão achar uma solução para a crise síria. A recente derrubada do avião russo pela Turquia não ajuda em nada.

Hoje pela manhã, cruzei mais uma vez com aquele, que inspirou o post  “Popular e Ladrão”. Sim, o Erdogan esteve por aqui para uma nova reunião de cúpula entre a Europa e a Turquia. A Europa quer que ele pare de despejar refugiados sírios nas praias gregas, que ele pare de escoar o petróleo do Estado Islâmico e ajude a combatê-los. O último pedido do Erdogan para aceitar o pleito europeu foi de 3 bilhões de dólares, a cabeça do Assad e um pau nos curdos. Assim fica difícil.

O presidente francês ganhou algum prestígio ao liderar a nação depois da tragédia. Pelo menos, ele serve para alguma coisa! A solidariedade internacional com a França não foi suficiente para formar uma coalizão de combate ao Estado Islâmico. Hollande ouviu alguns nãos durante a semana:  Obama, Putin e Merkel, entre outros.

Bruxelas teve uma semana de exceção, como descrevi no último post. A vida voltou ao normal depois de alguns dias sob estado de sítio. Paira no ar aquela pergunta que não quer calar. Se a situação não mudou e dois dos terroristas estão soltos por aí, então há algo de errado: ou o estado de sítio não deveria ter sido decretado ou não deveria ter sido relaxado. Mistério.

A imprensa francesa não tem perdoado a leniência belga com relação aos muçulmanos radicais. Entre todas as críticas, achei a do Le Monde a mais dura. O seu editorial de 24 de novembro diz: “esse Estado sem nação pode virar uma nação sem Estado”.

Vale uma explicação. A Bélgica é tida como um Estado sem nação, por ser uma federação que agrupa flamengos, valões e alemães. Diante do radicalismo islâmico, todos erraram. O momento é de rara união, evitando-se acusações mútuas. Entretanto, ao longo dos últimos anos, o assunto foi deixado de lado para não afetar o frágil acordo que mantém a Bélgica unida.

Essa história de nação sem Estado lembrou-me do Brasil. Nosso Estado não está desaparecendo, mas apodrecendo rápido. Fiquem tranquilos, pois a cura passa pela prisão em massa de petralhas, como – felizmente - está acontecendo.



Foto: No final de semana anterior aos atentados, pude passear no Parque da Cambre, aqui em Bruxelas, curtindo a paisagem de outono.

Sunday, November 22, 2015

Estado de Sítio

Bruxelas viveu um final de semana sob estado de sítio, com a polícia e o exército espalhados pela cidade. Aqui no meu bairro, tenho cruzado com inúmeros homens fortemente armados desde sexta-feira.

Tinha ingressos para um show ontem à noite, mas o espetáculo foi cancelado. Por ironia, estava em Paris no final de semana passado, onde também não pude fazer o meu programa cultural.

Mesmo sem saber da anulação do show de ontem, confesso que estava preocupado. Vou ou não vou? A ameaça terrorista está sendo levada tão a sério entre a França e a Bélgica, que a tradicional Fête des Lumières de Lyon foi cancelada.

Após uma semana de debates intensos, fiquei muito satisfeito ao perceber que o meu último post, escrito ainda sob o impacto da tragédia, foi bem razoável na análise, apesar da sua brevidade.

No quadro externo, há um amplo entendimento de que é preciso atacar militarmente o Exército Islâmico, cortar suas fontes de financiamento e inibir seu poder de recrutamento, entre outras ações.

No quadro interno, as discussões são mais intensas. Há obviedades como reforçar a vigilância e a inteligência, porém, a unanimidade para por aí. Apesar dos últimos atentados, muitos ainda preferem um pleno respeito às liberdades individuais e à igualdade. Nada de sair prendendo uns barbudos perigosos por aí.

Não tinha percebido duas coisas no momento dos ataques. A primeira é o grau de perversidade dos terroristas. Esses monstros costumam circular entre a Europa e o Oriente Médio quando e como querem. Entretanto, fizeram questão de deixar um rastro associado à entrada de refugiados. Por que dar um presentinho desses aos “irmãos” sírios, que viram as portas fecharem-se em vários países nos últimos dias? Os terroristas sabem que a questão dos refugiados é um debate que divide a Europa. Pegaram na ferida.

A outra coisa que deixei escapar foi o papel da Bélgica. Quer dizer, eu, o povo e o governo belga. Se o Oriente Médio é a universidade do terrorismo, a Bélgica é a sua pós-graduação. A Bélgica dormiu no ponto e permitiu a criação de guetos favoráveis à radicalização. Os rastros dos últimos atentados graves ocorridos na França passam por Bruxelas.

Num final de semana em que pude ler todos os jornais, encontrei sábias palavras de uma executiva belga e muçulmana no L’Echo de sábado: “A Bélgica paga hoje o preço de uma pesada herança deixada por aqueles que preferiram a política do avestruz e do clientelismo com fins puramente eleitorais”.

Já escrevi sobre isso nos posts que sucederam outros atentados. É o mesmo comunitarismo denunciado na França. Políticos abrem mão da laicidade para fazerem concessões à comunidade islâmica a fim de obter seus votos. 

Quanto mais enraizado estiver o islamismo radical, mais difícil combatê-lo.  Não vai ser fácil recuperar toda essa juventude! Só resta esperar por uma semana de paz por aqui. Por aqui, pois na Síria vai cair muita bomba!



Foto: Acima e abaixo, fotos tiradas no último domingo na Praça da República de Paris, lugar que concentra as homenagens às vítimas desses atentados.


Saturday, November 14, 2015

Terror

Estou em Paris desde quinta e ficarei até segunda. Ontem, preparava-me para dormir quando soube da barbárie. Se alguém acha que a França vacilou com a segurança, errou. Desde janeiro, o país está sob alerta. Infelizmente, contra a covardia do terrorismo, não há muito o que fazer.

Com o estado de emergência decretado e vigilância por toda a parte, estamos mais seguros. Por quanto tempo? Manter esse aparato nas ruas é insustentável. Melhor seria atacar as causas do terrorismo, doa a quem doer.

O atentado foi assumido pelo Estado Islâmico. Porém, colocar toda a culpa nesses assassinos bárbaros é uma grande manipulação, daquelas típicas do George Bush. Ontem foi a al-Qaeda, hoje é o Estado Islâmico e amanhã haverá uma outra associação qualquer para fazer o terror em nome de Alá.

No plano externo, quando se trata de Oriente Médio, há um festival de hipocrisia. Todo mundo faz jogo duplo e o interesse econômico prevalece. Ninguém quer mexer com seus aliados endinheirados e financiadores do terrorismo: Arábia Saudita, Irã, Qatar e Emirados Árabes. Sem contar a Turquia, que não tem petrodólares, mas tem a mesma cara de pau.

O vacilão do François Hollande promoveu uma intervenção tardia na Síria, jogando mais bombas na areia do que qualquer outra coisa. Ele pode até fazer um discurso bonito, mas não abre mão de vender um A380 para a Emirates.

Entre todos os governantes europeus hipócritas, melhor ficar com o Putin, que assume que é mesmo um canalha, ao colocar seu exército para defender Damasco.

O plano externo ficou extremamente complexo após a tomada de posição da Rússia. Há algumas semanas, uma publicação francesa anunciava a Terceira Guerra Mundial. Exagerado ou não, é ilustrativo.

O plano interno é ainda pior. Mesmo que a Europa esteja longe de uma desigualdade social como a brasileira, há algo de podre no ar. A estagnação econômica e a dificuldade de integração dos imigrantes e seus descendentes estão entre os problemas mais conhecidos.

Quando milhares de pessoas oriundas das periferias das capitais europeias deixam seus países para juntar-se ao Estado Islâmico, fica difícil apontar apenas para o inimigo externo. O mal está aqui dentro.

E o que diremos daqueles que nem nasceram muçulmanos e também aderiram à causa? Foram à Arábia para matar, degolar, estuprar, esquartejar e enforcar. Nada contra uma coalizão para combater os lunáticos do Estado Islâmico, mas não nos esqueçamos que a nossa sociedade também está doente.

Que todas as vítimas descansem em paz. Estamos com Paris!



Foto: Em homenagem a Paris, uma foto da sua prefeitura tirada em julho último.

Friday, September 18, 2015

Recorrência

Durante o verão europeu, renovei alguns documentos belgas. Apesar dos avanços da máquina pública, de vez em quando, as ortodoxias burocráticas podem surpreender.

A prefeitura de Bruxelas solicitou-me um atestado de bom comportamento. E onde é que se tira o tal atestado? Na própria prefeitura. Pelo jeito, o pessoal do segundo andar não fala com o do primeiro.

Na ocasião, a recepcionista  perguntou: “Por que o Sr. precisa disso?” Respondi que era um pedido do pessoal do andar de cima! Como bom paulistano, falei fazendo mímica, apontando para o andar acima com o dedo indicador.

A situação hilária é incompreensível, pois está tudo no mesmo prédio e é bem informatizado. Para se inventar um Poupatempo belga só seria preciso um pouco de boa vontade. Mas isso não foi o pior.

A moça ainda solicitou a apresentação do documento de identidade, cuja renovação era o próprio objetivo do meu périplo. Felizmente, o documento ainda tinha alguns dias de validade. Caso contrário, seria vítima de uma recorrência burocrática, condenado a passar o resto dos meus dias entre o primeiro e o segundo andar.

Recorrência burocrática existe mesmo. Um exemplo não incomum acontece com muitos expatriados, quando os fiscos dos países envolvidos disputam o campeonato mundial de ganância tributária. Bem, isso é uma outra história.

E por falar em extravagâncias regulamentares, retomo a questão do Uber, tema de um post de março, que continua fazendo barulho em todo o mundo.

Há alguns anos, uma comissão liderada pelo Jacques Attali fez um relatório com sugestões para dinamizar a economia francesa. Uma delas era a desregulamentação do setor de táxis. Não existia o Uber, mas uma clara percepção de que nesse setor há pouca oferta, pouca concorrência e um potencial razoável para criação de empregos.

Que cada ortodoxia regulatória encontre o seu Uber! Ainda existirão alguns nichos de resistência como os taxistas e a prefeitura de Bruxelas. Felizmente, eles caminham para ser exceções.


Foto: O imponente prédio da Fundação Louis Vuitton, projeto de Frank Gehri, inaugurado em 2014. Paris não dorme no ponto. Apesar da falta de táxis e dos banheiros sujos, não faltam atrações.

Saturday, September 5, 2015

Cuspindo pra cima

Acabaram-se as férias. A volta à labuta tem sido árdua, especialmente para os líderes europeus. O velho assunto dos refugiados virou uma crise internacional.

Puderam ignorar os milhares de mortos na tentativa de cruzar o Mediterrâneo, a superlotação da infraestrutura de acolha e os inúmeros acampamentos clandestinos espalhados pelo continente. Porém, a recente desintegração da Síria e do Iraque entornou o caldo.

As imagens dos mortos nas praias turcas e da multidão atravessando a Hungria a pé são chocantes. Não podemos ignorá-los. O assunto é polêmico, mas a causa humanitária precede o blá-blá-blá político.

Se existe uma expressão, que representa bem o que os líderes mundiais fizeram diante da crise síria ou da ascensão do Estado Islâmico é cuspir para cima. Esqueceram que o Oriente Médio é logo ali. Dá para caminhar da Síria até a Alemanha!

Enquanto os líderes fizerem cálculos políticos, a situação vai perdurar. Qualquer ação terá, num primeiro momento, um preço a pagar, ou seja, um custo eleitoral. Cada um deles deveria perguntar-se sobre a sua real motivação: buscar uma reeleição ou fazer a coisa certa.

Pelo que tenho visto, diante de tamanha crise humanitária, até mesmo alguns dos mais avessos aos refugiados estão comovidos. Há milhares de voluntários mobilizando-se para facilitar a vida dos migrantes, na sua longa caminhada do Levante ao Ocidente. Quero crer que o povo saberá reconhecer os líderes realmente dispostos a trabalhar para resolver o problema.


Post sobre a crise síria (2013)
Damasco
Damasco azedo

Post sobre os refugiados (2015)


Foto: Em Paris, no Jardim de Luxemburgo, no final do generoso inverno de 2015.

Monday, August 17, 2015

Férias

Escrevo este post, por que estou de férias. Melhor dizendo, tirei um dia de férias nas férias. Faço um artigo, um post e acesso o e-mail. Amanhã, volto às férias!

Não achei nenhum grupo de brasileiros para ensaiar uma manifestação ou prestar solidariedade a vocês por aqui. Afinal, mesmo estando na França, estou num lugar que, não por acaso, chama-se Finistério. Em algum lugado do passado, era tido como o fim do mundo.

Um lugar da Bretanha muito tranquilo. Litoral cheio de pequenos portos e vilarejos de charme, talvez um pouco frio para os padrões brasileiros. As hordas de turistas vão até o Monte Saint-Michel e Saint-Malo, deixando a Gália Armorica - a terra de Asterix - principalmente para os locais.

Para ilustrar a tranquilidade, uma notícia do jornal de hoje. Numa das cidades das redondezas, os funcionários da agência do BNP Paribas esqueceram de fechá-la ao sair. O fato só foi percebido no dia seguinte, com a chegada do primeiro cliente.

O mais próximo de barulho foi a passagem da réplica da histórica fragata L’Hermione, de retorno dos EUA. Nesta manhã, pude vê-la contornando o litoral da Cornuália francesa. Eu e algumas centenas.

Antes das férias, fiz uma rápida visita ao Brasil. O suficiente para vê-lo afundando. Nesta passagem, começava mais uma onda de prisões decorrentes da Lava-Jato. Se todos os principais focos de corrupção forem explorados, a coisa ainda vai muito longe. Haja cadeia, ou ainda, haja culhões!

Se serve como consolo, acho que a nossa sociedade pode evoluir e, na retomada, escapar deste nefasto sistema de corrupção. Aos meus amigos do Brasil, parabéns pelas manifestações de ontem. Fora PT e cana neles!



Foto: As fotos das férias virão mais para frente. Por enquanto, algumas fotos de Paris e Lyon tiradas em 2015. Acima, o jardim japonês do “Jardin d’Acclimatation” em Paris.

Saturday, May 2, 2015

Crônica ferroviária


Tirando as greves, são raros os momentos em que o sistema ferroviário europeu não funciona como um reloginho. 

Em 2007, passei um sufoco. Houve uma sequência de atrasos por motivos técnicos nas minhas viagens entre Paris e Lyon. Atraso, segundo a companhia francesa, é algo superior a 20 minutos. O resto está dentro da variabilidade. Recebi várias indenizações naquele verão.

Numa das viagens, um problema técnico exigiu a redução da velocidade do trem. Parece pouca coisa, entretanto, sair de 330 km/h para 150 km/h representou um atraso de quase 2h. Nunca cheguei tão atrasado a um evento. Por sorte, havia outros convidados de Lyon no mesmo trem e a organização do evento administrou o imprevisto.  

Depois de 2007, nunca mais tive uma sequência tão azarada. Nesses últimos dias, no entanto, as greves belgas pregaram uma peça em muitos colegas. Houve também problemas técnicos. 

Na última sexta, voltando para Bruxelas e devidamente sentado na poltrona do Thalys, recebi vários SMS: “atraso estimado de 15 minutos” ; “atraso estimado de 30 minutos”; “atraso estimado de 45 minutos”; etc. A tabuada do 15 foi até 165! 

Teve de tudo nessas quase 2 horas: troca de trem, ar condicionado desligado e bar fechado. O que mais me impressionou é que ninguem fez um piu. Todos bem comportados, sem reclamação, sem aumentar do volume de voz, etc. Coisa de belga mesmo.

Os momentos mais próximos de stress nos vagões franco-belgas ocorrem quando alguém pega o lugar do outro. Nessas situações, geralmente tem um estrangeiro envolvido. Seja aquele perdido no trem ou aquele que não sabe que os passageiros frequentes podem mesmo sentar-se onde quiser. Já vi muitos brasileiros estressando-se à toa.

E por falar em brasileiros, enquanto escrevi esta crônica ferroviária, lembrei do nosso ex-futuro-trem-bala ligando Rio e São Paulo. Alguma notícia?



Foto: Domínio Real de Mariemont, a uma hora de casa, um lugar bacana para um domingão ensolarado. 

Saturday, January 24, 2015

#JeSuisMusulman


Os atentados e as manifestações ficaram para trás, mas o debate continua por aqui. Não é para menos, a questão é muito complexa. Pouco fala-se da grande maioria fiel às causas republicanas,  o “x da questão” é a minoria discordante.

Uma minoria sem dúvidas. Porém, uma minoria de muitos milhares de jovens da periferia.  São aqueles que não respeitaram o minuto de silêncio em homenagem às vítimas, que aderiram às teorias conspiratórias ou que apoiaram explicitamente os terroristas.

É desse meio que saem inúmeros djihadistas. É desse meio que saem futuros terroristas. As periferias das grandes cidades são incubadoras do radicalismo. A França pergunta-se onde errou. Depois de gerações de imigrantes que lutaram pela integração, deparam-se com um sério revés, confrontando-se com a afirmação religiosa e a negação da democracia.

Como disse no primeiro post sobre o tema, misturam-se fatores econômicos, sociais, culturais, entre outros. Os holofotes estão na Educação. Com certeza, há alguma coisa errada nas escolas. Bem, eu não queria estar na pele dos professores, que dão aulas em salas onde  metade dos alunos chama-se Mohamed.

Circulando pelas ruas de Paris e Bruxelas, ainda percebemos o estado de alerta. Soldados e policiais estão em todos os lugares, sem contar o pessoal da inteligência. Para acompanhar um potencial terrorista, a França mobiliza um overhead de 20 a 25 agentes. A ameaça terrorista em si é capaz de sangrar ainda mais a já combalida economia.

Se existe um lado menos triste nesta história, é a visibilidade que ganhou o quase falido Charlie. Graças aos terroristas, suas caricaturas espalharam-se pelo mundo. Nunca a blasfêmia fez tanto eco. Maomé tem mesmo que chorar.



Foto: Um outro cantinho simpático de Bruxelas, perto de casa, o Egmont Park, que abriga a "brasserie" mostrada na foto.

Saturday, December 20, 2014

Perdas e danos

Nas últimas semanas, percebi que greve é coisa profissional aqui na Bélgica. Não é algo para atrapalhar nossas vidas só um pouquinho, é parada geral mesmo!

Sabendo da greve geral prevista para o último dia 15, remanejei meus compromissos para Paris. Até aí, foi fácil.  O problema é que, antes da greve em si, há “ensaios”. O movimento começou em novembro, com episódios de greves parciais semanais.

Num desses dias de greve parcial, por exemplo, fui ao aeroporto a fim de embarcar para Lyon, onde ficaria uma semana. A mocinha do balcão: “Não estamos despachando malas, por que não veio ninguém para manuseá-las”. Perguntei se o vôo estava garantido, mas ela não soube informar :(

Felizmente, deu tudo certo. O maior contratempo foi entrar com uma mala – muito longe de ser de bordo – num avião tipo Embraer.

Novembro e dezembro foram meses de manifestações, reuniões da Comunidade Europeia e da OTAN. Tudo isso significa ter um gostinho do trânsito paulistano - só um gostinho - pois quase todos os órgãos internacionais e locais estão entre a minha casa e o trabalho.

É muito comum cruzar com policiais batedores que bloqueiam totalmente o trânsito para carros oficiais. Diplomatas e burocratas costumam usar os hotéis perto de casa. Alguns figurões precisam das avenidas só para eles, e olha que as avenidas já não são tão largas. A Polícia daqui parece ser especialista nisso. Aparentemente, só nisso.

Quem não fez greve nem corpo mole na última semana foram os bandidos. Não estou falando do padrão de bandidos brasileiros: sequestradores, assassinos e deputados. Falo de gatunos.

Enquanto estava em Lyon, um par deles fez uma limpa lá em casa. A lista de perdas é enorme, mas como a gente sempre diz, são perdas materiais. A sensação de chegar em casa e encontrar tudo revirado e jogado no chão não é nada agradável. Que seja a última vez!

A única contribuição da Polícia local para este breve relato foi a dedução de que eram dois furtadores. O “CSI Bruxelas” encontrou duas pegadas diferentes. Sabe até a marca dos sapatos. Por outro lado, depois de emporcalhar ainda mais o meu apartamento com pós pretos e brancos, não achou nenhuma digital.

A verdade é que esse tipo de crime é muito mais comum do que imaginava. Basta comentar o ocorrido entre colegas, que acabamos descobrindo quão comum são tais furtos. Se a Polícia local não pode ajudar, a maioria das pessoas já tem seus suspeitos: os ciganos. Segundo a sabedoria popular belga, são os únicos que levam os seus melhores jeans.

Ciganos ou não, tem alguém abafando por aí nesta noite de sábado em Bruxelas: Calça nova, camisa nova, casaco novo, tablet novo, celular novo, relógio novo e até perfume novo. Como consolo, só me resta escrever um post novo.


Foto: A Place des Jacobins em Lyon e seu abat-jour gigante na Fête des Lumières 2014. Eu estava lá, enquanto...

Sunday, May 11, 2014

¡Aupa Atleti!

Meu sobrinho pediu a camisa do Ibrahimovic, o craque do PSG. Então, durante a próxima viagem à França, passarei na loja do clube para presenteá-lo. Devo reconhecer que esse time árabe radicado em Paris tem subido de produção. Suas camisas conquistam espaço entre aquelas do Barcelona, Real Madrid, Bayern e Manchester.

Por incrível que pareça, os uniformes estrangeiros estão cada vez mais populares aqui no Brasil. Até a Globo rendeu-se à Champions League, transmitindo suas partidas decisivas ao vivo.

Depois do "equilibradíssimo" Campeonato Brasileiro de 2013 e do Paulistinha de 2014, vencido pelo Ituano, entre outros sinais da decadência dos grandes clubes nacionais, só nos resta apreciar os campeonatos europeus.

O Brasil é o maior celeiro de craques do mundo e pode ganhar a Copa que quiser, mas o futebol daqui vai muito mal. Vivemos em função de exportar jovens potenciais para a Europa. Tudo o que importa acontece por lá. Nossos campeonatos locais são marginais. De várzea mesmo!

Poderíamos ter evitado esse quadro colonial? Talvez, se os clubes fossem bem geridos. Não apenas um ou dois clubes, mas a maior parte deles. Entretanto, seus dirigentes preferem locupletar-se em tenebrosas transações deixando-os no caos.

A classe futebolística nacional foi brindada pela sociedade com os novos estádios. Quem sabe possa retribuir tamanha generosidade com gestões mais profissionais, competentes e éticas. Seria um primeiro passo.

O exemplo de esperança vem do próprio futebol europeu. Entre tantos times "imbatíveis" e milionários, o destaque da temporada foi o modesto Atlético de Madrid, a um passo do título da Champions e do Campeonato Espanhol. É uma mostra de que o dinheiro sozinho nem sempre resolve.

Este outro time de Madrid, assim como quase todos os times espanhóis, tem mais obstáculos fora do campo do que dentro dele. Lá na Espanha, tudo favorece o Barcelona e o Real Madrid, que abocanham sozinhos a maior parte da receita da TV e ainda dispõem de status diferenciado, que permite grande endividamento para comprar os melhores jogadores do mundo. E com os melhores jogadores, tudo fica mais fácil.

Enfim, antes de querer ser um Barcelona, os clubes brasileiros precisam inspirar-se no Atlético de Madrid.

¡Aupa Atleti !

Leia também:
Post sobre o caso Neymar (2014)
Post sobre a Champions League (2012)
Post sobre o campeonato brasileiro (2013)


Foto: A sede do governo municipal de San Sebastian, no País Basco (Espanha).

Sunday, April 13, 2014

Aeroportos e outros nós

Bem que gostaria de escrever sobre assuntos mais amenos. Devido às nossas eleições gerais, os próximos meses continuarão muito quentes no Brasil. Só mesmo lá de fora, dá para se desligar um pouco de todos esses casos de corrupção e da política de baixíssimo nível.

Naquele final de semana, em que escrevi “Voando”, passei um tempão no aeroporto parisiense devido a um incidente aéreo. Além de ter escrito o post, antecipei as seguintes linhas:


A Air France completa 80 anos e o seu hub, o Aeroporto Charles de Gaulle (CDG), 40 anos. Não menciono tais fatos ao acaso. Nos últimos 28 anos, usei prioritariamente a companhia e a sua base. Exagerando-se um pouco, é a minha segunda casa.

O CDG não está entre os cinco primeiros do mundo em volume de passageiros. Perde em suntuosidade para os novíssimos congêneres asiáticos. É apenas um grande e bem administrado aeroporto, em expansão contínua nessas quatro décadas. Bravo!

Quem conhece o CDG percebe facilmente tal expansão. Os terminais têm estilos arquitetônicos totalmente diferentes, incorporando aquilo que foi o mais arrojado em cada década.

Os dois terminais mais recentes assemelham-se a shoppings envidraçados, uma tendência mundial, que parece ser a inspiração do tão esperado Terminal 3 de Guarulhos.

Os terminais mais antigos foram uma ousadia dos anos 70, ao encurtar a distância da porta do aeroporto ao avião. Ficaram para trás com o crescimento exponencial da aviação civil e serão reformados.

Em quase três décadas, testemunhei a inauguração de 6 terminais do CDG e o início de um ciclo de renovação. Este é justamente o ponto deste texto, o contraste com o aeroporto internacional de São Paulo, vergonhosamente parado no mesmo período.

Mas, é pior do que isso. Mesmo que houvesse uma chuva de dinheiro em GRU, as expansões seriam limitadíssimas. Seu terreno está completamente imerso na mancha urbana da capital. Nem a pista principal poderá ser reformada para receber um A-380.

Enquanto isso, o CDG tem terreno de sobra. Além da reforma dos terminais mais antigos, planeja-se mais um terminal e novas linhas férreas integrando o complexo. Existem planos até 2030, independentemente de quem ganhe as eleições. Seja de direita ou de esquerda, o plano de expansão é bom para o aeroporto, para a companhia aérea, para Paris e para a França.

Enfim, é um pequeno exemplo de uma grande diferença. Infraestrutura não se constrói em ciclos de quatro anos. A visão de futuro deve ser perseguida pela sociedade, seja quem estiver no poder. É um grande compromisso coletivo.

Por outro lado, é difícil priorizar-se a infraestrutura quando o povo não tem as suas necessidades básicas satisfeitas. Existem paliativos como a privatização ou a redução de gastos públicos, mas é preciso reconhecer que o Brasil tem um grande nó.  


Foto:  Uma das ruas estreitas do centro de San Sebastian (País Basco).

Saturday, March 22, 2014

Voando

Não! Este não é mais um texto sobre o sumiço do avião da Malásia.

Não pude acompanhar o trágico evento como gostaria. Na Europa, todos os holofotes estão sobre a Rússia. Nem por isso, fui poupado de ouvir as mais absurdas teorias sobre o destino do vôo MH370. Sem comentários.

Este post só está saindo por causa de outro incidente aéreo. Sobrevoava o Atlântico a caminho do Brasil, quando o piloto percebeu algo errado. Meia volta volver! De volta para o ponto de partida. Tudo bem, não foi a minha primeira vez e nem será a última.

A tripulação sabia que era muito provavelmente um alarme falso. Mesmo assim, seguindo as normas de segurança, passamos por um  daqueles pousos de emergência cinematográficos.

Passado o susto, o castigo é voltar para um hotel de aeroporto sem as malas e esperar pela liberação da aeronave. Disse para uma família brasileira: melhor assim do que no vôo MH370!

O castigo é relativo. Depois de duas semanas em hotéis centrais de Paris e Bruxelas, hotel de aeroporto chega a ser um alívio: quartos maiores e mais modernos, isolamento acústico e térmico, etc. Nas últimas duas semanas, vivi aquelas situações típicas das cidades do Velho Mundo:

1) Quartos pequenos - Entra você ou a mala!
2) Ar condicionado só funciona no verão -  Se esquentar um pouco mais no final do inverno, azar seu!
3) Banheiros europeus são planejados para os comedidos banhos europeus. Banho de brasileiro significa inundação total!

Depois de acabar esse texto, ainda terei um tempinho para trabalhar e assistir ao noticiário local. A coisa está quente por aqui. Amanhã tem eleições municipais na França e a questão russa inspira muita discussão.

Os debates na TV tem sido ótimos. Num deles, a conversa começou na Criméia, passou pelo Kosovo, entrou na Catalunha e terminou na Escócia. Mais ou menos como este post, que começou na Malásia, passou por Paris e Bruxelas, e termina na Rússia. Falando sério, é fácil entender por que essas questões de soberania e secessão assustam muita gente por aqui.


Foto: O Rijksmuseum de Amsterdam visto por trás, onde uma grande praça integra outros espaços culturais como o Museu Van Gogh.

Monday, March 17, 2014

Criméia

Estou em viagem, daí a dificuldade de escrever novos posts. Entretanto, daqui de Paris, não dá para ignorar a Criméia. Se você não sabia nada sobre a Criméia, não se envergonhe. Muita gente também não sabia!

Na França, tem que ser muito tapado para ignorá-la. Em Paris, há várias referências à região, palco de uma das guerras do século XIX: Boulevard de Sébastopol, Pont de l’Alma, Malakoff (comuna), Estação Criméia (metrô) e ainda a Avenue de Mac-Mahon, em homenagem ao comandante da campanha francesa.

Na Guerra da Criméia, o Império Russo foi derrotado pela França e seus aliados: Reino Unido, Império Otomano e Reino da Sardenha. Os militares consideram-na como a primeira guerra moderna. Ainda não havia aviões, mas a artilharia se tornou muito mais eficaz do que as armas brancas. Foi também a primeira guerra com extensa cobertura jornalística.

A transmissão das imagens da guerra direto do front causou impacto. Lamentavelmente, sabemos que a comoção não foi suficiente para se evitar novas guerras e a grande tragédia do começo do século passado.

Nesse aspecto, a Europa mudou. Ninguém mais quer morrer pela Criméia. Isso é ótimo! Por outro lado, temo que reajamos tardiamente diante de autocratas assassinos. E se a Rússia não se contentar apenas com a Criméia?

A história da Criméia, da Ucrânia e de vários países próximos é especialmente complicada. Desde os tempos mais remotos, a região ficou à margem dos grandes impérios, virando saco de pancadas de todos eles. Até o século passado, qualquer mudança de poder, assim como essa que presenciamos agora, era acompanhada de vingança, para não dizer limpeza étnica.

Ao longo da história tão turbulenta desses países da Europa Oriental, as maiores vítimas foram as suas minorias, sempre usadas como bodes expiatórios na briga de cachorros grandes: Judeus, tártaros, ciganos, armênios, etc.

Desejo melhor sorte a elas e os russos que se danem!


Leia também: É o amor!


Foto: A réplica do “Amsterdam” no Museu Marítimo. Trata-se de um cargueiro do século XVIII da Cia. Holandesa Das Índias Orientais.

Saturday, February 22, 2014

Mercado

Geralmente associamos os cartéis às grandes corporações. O recente imbróglio ferroviário paulista é mostra disso. Entretanto, a manipulação do mercado, o cerceamento da concorrência e a imposição de barreiras de entrada são mais banais do que parecem.

Tomo dois exemplos recentes de coisas que estão mais perto da gente do que a contratação de trens, um caso francês e outro brasileiro.

Paris é conhecida pela falta de táxis. Se você não estiver a fim de usar o transporte público, vai depender da loteria que é achar um táxi livre pelas ruas da cidade. Quando achar, ainda existe a chance de que o motorista recuse a viagem. Ah, sim! Isso é muito comum por lá.

O preço do táxi francês é controlado, como em muitos lugares do mundo. O problema está na oferta. A união dos taxistas transformou aquilo num clube fechado. O número total de veículos permanece o mesmo há muito tempo. Um novo motorista só entra se um outro sair e ainda pagando um prêmio de 200 mil euros. Apesar das investidas do governo, a categoria resistiu e não deixou aumentar a frota.

A saída do governo foi criar o serviço de locação de carros de turismo com motorista. Parece complicado? Na prática, é quase a mesma coisa do que o bom e velho táxi. A diferença é que não existe a possibilidade de chamá-los sinalizando-se para o motorista, usa-se exclusivamente a Internet, algo que, por sinal, também tem se tornado comum entre os táxis. Vários serviços como Allocab e Snapcar começam a comer o mercado pelas bordas e transformar Paris numa cidade tão boa para os negócios como é para o turismo.

Já o governo brasileiro tem uma mentalidade diferente. Todos estão alarmados com o aumento dos custos de hotéis e restaurantes em algumas sedes da Copa. Nosso governo está aparelhando-se para o controle de preços ao invés de ter trabalhado para aumentar a oferta há alguns anos. Tarde demais para revogar a lei da oferta e da procura!

Vou ao Maracanã participar da grande festa. Tive que me contentar com um bate e volta de São Paulo. Achei absurdo pagar bem mais de mil reais por noite em hotéis de segunda.

O Rio é mesmo um caso à parte, mas não precisava ser o lugar mais caro do mundo. Mesmo sem Copa e sem Olimpíadas, a cidade já tinha diárias monegascas. Não é novidade para ninguém que existe um cartel de hotelaria na cidade.

Enfim, os grandes cartéis corporativos são manchetes de jornais e alvos de multas milionárias. Mas, no dia a dia, são os pequenos cartéis que nos esfolam.


“People of the same trade seldom meet together, even for merriment and diversion, but the conversation ends in a conspiracy against the public, or in some contrivance to raise prices.”
Adam Smith (A riqueza das nações, 1776)



Foto: Outro cantinho de Amsterdam, foto tirada nas minhas férias de 2013.