Tuesday, April 28, 2009

Enfim Maio!

Maio é o mês mais tranquilo da França. Não temos um Carnaval, mas três feriados (todos prolongados em 2009). A saber:

1 de maio - Dia do trabalho, uma data quase universal, à exceção dos EUA, local dos conflitos que deram origem ao feriado. Na França, um dia em que tudo para. Em grande parte das cidades, nem o transporte público funciona. Ou você fica em casa hibernando, ou vai às ruas protestar contra alguma coisa (sempre a mesma coisa).

8 de maio - Armistício de 1945, capitulação incondicional do III Reich. O armistício de 1918 também é celebrado (11 de novembro). A ênfase da celebração mudou com a sólida reconciliação franco-germânica, iniciada por De Gaulle. De qualquer forma, é sempre bom lembrar.

21 de maio - Ascensão, celebração cristã (data móvel). Como vocês podem perceber, apesar da sólida laicidade, a França preservou as festas cristãs como feriados. Entre abolir estas comemorações e incluir datas de outras religiões (Ramadã e Yom Kipur), a segunda alternativa é a mais provável. Isso é o que o filósofo e teólogo Sarkô chama de "laicidade positiva".


Foto: Ainda no castelo de La Clayette, Borgonha. Vista parcial do castelo, com a cidade ao fundo. Nessa área, a paisagem não é dominada pelis vinhedos, mas pelo pasto. O gado charolês, tão conhecido no mundo, é natural da própria região. La Clayette está no distrito (arrondissement) de Charolles.

Sunday, April 26, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 4

Mudando de assunto, mas ficando na lavanderia, um sinal dos novos tempos. O custo de se lavar uma T-shirt básica é - bem - maior do que o custo de uma camiseta nova. Enquanto os serviços são prestados pela mão de obra local, sujeita aos caprichos mencionados no post anterior, as mercadorias novas vêm da China. 

Embora tenha comprado um montão de camisetas, não as tratei como produtos descartáveis. Mesmo que a vantagem econômica seja real, parece um desperdício de recursos. 

Trata-se de uma questão de sustentabilidade, que vai muito longe. Em condições iguais, seria melhor sustentar decentemente uma família européia ou mandar mais alguns centavos para uns três escravos chineses?   


Foto: Ontem, em mais uma incursão pela Borgonha, visitei a região de La Clayette. Na foto, o castelo do século XIV, localizado no centro da cidade. 

Friday, April 24, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 3

O problema das lavanderias é o mesmo dos restaurantes, dos salões de beleza, do pequeno comércio e assim por diante. A grande parte dos seus funcionários recebe o SMIC, o salário mínimo francês:  Cerca de 1000 euros líquidos (1300 brutos).

O salário de 1000 euros é um paradoxo. Consegue desagradar empregados e patrões. Ele é insuficiente para o padrão de custo de vida local e caro para o dono de um pequeno negócio (não esqueçam dos encargos acrescentados aos 1300).  Evidentemente, ele não tem nada a ver com o de salário mínimo brasileiro. 

Talvez fosse melhor um SMIC menor, gerando mais empregos e bem menos desembolso com seguro desemprego, que aqui é bem generoso. Pois é, a França está cheia de artifícios que amortecem os efeitos catastróficos da mesma crise que joga milhões de americanos na sarjeta. 

Entretanto, o capricho keynesiano é uma trava ao dinamismo da economia. A França está condenada ao eterno marasmo. 


Foto: Voltando a Crémieu, estava devendo a foto lá do alto, de onde se avista o mercado e a cidade.

Thursday, April 23, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 2

Passei por três lavanderias. A primeira foi excelente, mas o seu dono fecha a loja muito cedo, não abre nos finais de semana e fecha durante o mês de agosto inteiro. No Brasil, a gente aprende que só o cliente tem o direito de ser folgado. Mudei.

A segunda foi a "5 à Sec", mencionada no post anterior. Era boa e barata. Deu no que deu.

Finalmente, a lavanderia atual, tocada por um simpático casal de terceira idade. Qualidade e tratamento de primeira, preços competitivos. O segredo é não ter funcionários. São só os dois e o sócio mais confiável do homem: O cachorro.


Foto: Uma outra tomada da milenar Saint-Victor-sur-Loire.

Wednesday, April 22, 2009

Lava roupa todo dia, que agonia 1

Inaugurando a minha série de conversas de lavanderia, começo com um fato inusitado, algo que jamais pude imaginar antes da mudança para Lyon. Acostumado a lavar boa parte da roupa fora de casa, chegando aqui, não tive duvidas: Deixei as máquinas de lavar e de secar desligadas e terceirizei completamente a tarefa.

Um dia, a moça da "5 à Sec" me avisou: Houve um furto na loja e as suas roupas sumiram. "Quel surprise!" O meu acerto foi direto com a seguradora, o que causou uma longa espera e uma pequena perda. Não gostei do incidente e mudei de lavanderia.

A pequena história ilustra que os assaltos são raros por aqui, mas os furtos, nem tanto. Por outro lado, o furto foi possível pois as lavanderias são tocadas por apenas uma ou duas pessoas. Basta uma ida ao toilete que o negócio fica desguarnecido.  Uma operação minimalista, assim como qualquer pequeno negócio em solo gaulês.


Foto: De alguns finais de semana atrás, em Saint-Victor-sur-Loire, com foco no seu centrinho de 1000 anos. A vila medieval fica na periferia de Saint Etienne.

Tuesday, April 21, 2009

Bodies

A exposição "Bodies" tem percorrido o mundo com grande sucesso. Os corpos humanos dissecados e plastificados impressionam todos. Eu vi a exibição somente em Lyon, embora tenha cruzado com a mesma em várias cidades. Até em São Paulo!

Em Paris, contudo, a situação é  bem diferente. Os defensores dos direitos humanos fizeram de tudo para impedir a exposição. Os grandes museus fecharam as suas portas. Finalmente, conseguiram abreviar sua passagem pela capital mundial do turismo. Se em NY a exposição está em cartaz há alguns anos, em Paris, ficou  apenas dois meses. Na lista de argumentos: O questionamento em relação a origem do corpos chineses,  o uso comercial do ser humano e o caráter pseudo-científico da mostra.  Azar dos parisienses!

Mais informações sobre a exposição: Bodies


Foto: Ainda em Tournus (Borgonha), cena do casario colorido típico das cidadezinhas francesas. 

Thursday, April 9, 2009

Chocolate (mais um post açucarado)

A tradição de se presentear chocolate na Páscoa também é muito forte por aqui. A diferença é que no Brasil há um massacre midiático em torno dos famigerados ovos.

Nesta época, os mestres "chocolatiers" são uma atração à parte. Além dos grandes fornecedores de chocolate, existem inúmeras lojas independentes que fazem seus próprios produtos. Algumas delas levam a arte ao extremo, são verdadeiras butiques gastronômicas.

Os melhores produtores da França controlam o processo desde a origem do cacau. A Pralus - de Roanne, já mencionada neste blog - possui plantação própria em Madagascar. No ranking das origens mais prestigiadas, o Brasil não aparece.

Quem passar pela França, pode degustar o melhor do chocolate sem precisar ir para Roanne, pois a Pralus abriu uma filial em Paris. Guarde os nomes para a próxima viagem.

- Bonnat, Voiron
- Pralus, Roanne e Paris
- Jacques Génin, Paris

Algumas dicas:

Prepare o bolso e não saia de casa sem ele, afinal saborear um Gianduja do maître chocolatier Jacques Génin não tem preço! E olha que existem lojas ainda mais caras.

Não fale de chocolate suiço perto desses mestres, segundo eles, os vizinhos são uns trapaceiros. Mas isso é outra história.

Para quem perdeu meus posts sobre Flavigny, a cidade do filme Chocolat, veja:
http://fotolog.terra.com.br/fbirman:543


Ficarei offline por cerca de uma semana. Boa Páscoa!


Foto: Feira dominical de artesanato, antiguidades e quinquilharias às margens do Saône, em Tournus, na Borgonha.

Monday, April 6, 2009

Açúcar dá cana!

Assim como os produtores de rosé, o mundo dos vinhos é difícil para muita gente, mesmo nas abençoadas terras da Gália. Um outro episódio recente vem de Beaujolais, região ao norte de Lyon, que tem abastecido este blog com diversas imagens.

Mais de 50 produtores locais foram condenados pelo terrível crime de se colocar açúcar no vinho a fim de aumentar o seu teor alcoólico. Na verdade, existe uma quantidade de açúcar tolerada e que não foi respeitada. Aqui na França, isto é jogo sujo. Açúcar dá cana!

O esquema envolvia muita gente: Produtores, comerciantes e distribuidores. Foram centenas de milhares de euros em multas e prisões (com sursis). Para os pequenos produtores, foi um golpe duro. Sofrendo com a concorrência de países que não respeitam as rígidas regras da França e com as péssimas condições climáticas daquele ano, buscaram a saída fácil. Pagaram caro.

Enfim, acredito que inúmeros pequenos produtores franceses vão dançar, por falta de competitividade. Não dá para competir com o novo mundo, quando o assunto é vinho comum. Resta à União Européia a opção de facilitar um pouco a vida deles através da desregulamentação.

A França, em particular, tem o privilégio de possuir as áreas vinícolas mais nobres do mundo. Os grandes e pequenos dos melhores terroirs não estão ameaçados, o vinho comum francês sim.


Foto: Ultimo domingo em Tournus, na Borgonha. A pequena cidade às margens do Saône é famosa pela abadia de Saint-Philibert (ao fundo) e por ter sido berço do artista Jean-Baptiste Greuze.

Sunday, April 5, 2009

A guerra dos rosés

De vez em quando, interrompo a série de posts sobre assuntos irrelevantes, para falar das coisas que realmente importam, dos grandes problemas da humanidade. Como por exemplo, a questão da produção de vinho rosé. Existem dois caminhos para produzí-lo. Ou melhor, existe um método de produção e outro de imitação.

O primeiro é o tradicional, seguido pelos produtores franceses (Provence, por excelência), através de um processo intermediário entre o do vinho branco e do tinto. O desafio é pegar o máximo do que as uvas tintas ofecem, mas sem a cor. Uvas como grenache, cinsault, etc.

O outro é a simples mistura de vinhos tintos e brancos. Graças às suas evidentes vantagens econômicas, foi adotado no novo mundo do vinho: EUA, Austrália e África do Sul.

Se a indústria vinícola francesa quer defender a tradição do bom e autêntico rosé, outros países europeus estão desistindo desta concorrência injusta. A União Européia quer regulamentar a mistura. Este tipo de debate é quente por aqui. Deram azar, pois a crise, o G20, a OTAN e tantas outras coisas têm ofuscado a manifestação dos produtores de rosé. Dá-lhe José Bové!

Enfim, é a mesma sina dos bons queijos, chocolates e tantas outras especialidades. O mercado é dominado pelos produtos mais competitivos. Aos melhores, um nicho.


Foto: Visão do topo da cidade de Saint-Bonnet-le-Château, no Loire.

Saturday, April 4, 2009

O cara

Lula recebeu pelo menos algumas brincadeiras carinhosas de Obama durante o G20. O resto dos políticos, só mesmo o direito de aparecer na foto oficial. Como bem antecipou o The Guardian, a gente só soube que foi um G20 por causa da imprensa. Em termos práticos, foi um G1. Tirando a encenação de Sarkô e Merkel e o papel de anfitrião de Gordon Brown, só deu Obama.

Obama chegou em Strasbourg para a reunião da OTAN. A multidão ignorou Sarkô e aclamou o presidente americano. Nem a Carla Bruni salvou Sarkô, que vai formalizar o retorno da França ao comando da organização e o pleno apoio às operações no Afeganistão. Goleada de Obama.

Por enquanto, o crédito pessoal de Obama está nas alturas. As poucas bobagens que ele fez foram irrelevantes. Ótimo! Estamos torcendo para que ele reestabeleça uma liderança mundial ética para ajudar a resolver um monte de problemas que herdou. O cara está motivado e o primeiro requisito para resolver os problemas é a vontade de resolvê-los.


Foto: Saint-Bonnet-le-Château, no Loire. Mais uma cidade medieval para a coleção. O melhor de tudo foi essa vista da estrada, pegando a cidade inteira. O sol apareceu, mas o vento quase não deixou eu tirar essa e outras fotos.

Thursday, April 2, 2009

Dólar furado

O G20 acabou. O pacotão para recuperar a economia mundial é o mínimo que poderíamos esperar. Há um conjunto auxiliar de medidas e promessas interessantes (fim dos paraísos fiscais, maior regulação do sistema financeiro mundial, etc). De fato, é o mínimo, mas não deixa de ser relevante. Quantas vezes os líderes mundiais se reuniram e não fizeram nada, além da boquinha comentada no post anterior?

Na Europa, até pouco tempo, falava-se da mudança total do sistema financeiro, inclusive do padrão dólar, como referência monetária internacional. Perceberam que não é algo tão simples. A mudança do discurso exigiu a encenação feita por Sarkozy e Merkel na véspera do G20, que exigiram o fim dos paraísos fiscais entre outros compromissos. Como se os EUA não estivessem engajados no mesmo objetivo. Quem enquadrou os bancos suíços recentemente? A maioria fala de um consenso histórico. Sem problemas, palmas para o Sarkô. Ele precisa.

A questão do dólar deve voltar mais cedo ou mais tarde, a menos que Obama dê sinais que seja um super-homem, acima de qualquer suspeita. O mundo confiou nos EUA nas últimas décadas, dando-lhe um "cheque em branco". Esta crise e a gestão Bush soam como uma confiança quebrada. De qualquer forma, a questão é complexa e ainda não apareceu nenhuma alternativa que agrade os troianos. Quem diria, gregos e troianos.


Foto: Garganta do Loire, na periferia de Saint Etienne, domingo passado. Com a temperatura em alta, saí a caça de um local para futuras sessões de canoa e caiaque.

Wednesday, April 1, 2009

Boca livre

Quando estou em Paris, leio o jornal britânico The Guardian, cortesia do hotel habitual. Não precisaria de outro jornal, considerando-se que já me divirto suficientemente com o Monde, o Figaro e Les Echos. Mas, é sempre interessante ver um ponto de vista diferente.

Adorei o resumão do G20 do jornal inglês. Entre outras pérolas, ele menciona os países que estão lá só para fazer uma boquinha (who's only along for the free snacks). A nossa querida vizinha Argentina é a primeira da lista. Austrália, Canadá, Indonésia, África do Sul e México são os outros que só fazem o G20 ser G20, e não G14. O Brasil está na lista dos que têm peso (who really matters).


Foto: Outro ângulo do Château Pierre de Bresse, na Borgonha.