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Friday, November 6, 2020

Conversas republicanas


 

A maior parte dos parentes e amigos que moram nos EUA votou no Biden. Ainda assim, tenho uns poucos amigos fiéis ao Partido Republicano. Neste post, selecionei extratos das conversas com eles, que tomaram conta do meu Whatsapp nesta semana de suspense.

Felizmente, entre eles, nenhum fanático. Votam no Partido Republicano, apesar do Trump. Um deles declarou: “também não gosto do homem Donald”. Ao comentar sobre o festival de falsas denúncias e a possível judicialização das eleições, foi mais longe: “Trump acabou.”

Comentei que a alternância de poder norte-americana é bastante saudável. Respeito muito os dois séculos de tradição democrática do país. Nada contra um programa conservador, que é tão legítimo como outro qualquer. O problema maior é aquilo que veio junto, o Donald.

Um dos amigos ainda defende seu legado econômico: “as políticas e o sucesso econômico desfrutado por tantos que não foram tão abençoados antes.” Pena que a pandemia tenha levado boa parte deste sucesso, sem contar o saldo de mortos.

Todos eles reconhecem o maior equilíbrio do futuro presidente. Disse um deles: “pelo menos, com o Biden as coisas serão mais calmas.” Entretanto, temem que os radicais venham junto: “Biden é a tromba do elefante sob a tenda”.

Pensando com meus botões, quem são os tais radicais? A turma do Bernie Sanders? Os comunistas dos Estados Unidos? Um outro amigo explicita: “o perigo é a Kamala!”

Kamala, com todo respeito, é uma competente mulher do sistema, longe de parecer uma revolucionária incendiária, que queira destruir as bases da América.

Daqui do Brasil, reconheço que é fácil dar palpites no país dos outros. Não moro nos EUA e, obviamente, ignoro muito do que acontece por lá. Os últimos presidentes republicanos dos EUA foram Bush pai, Bush filho e Trump. Os últimos democratas, Clinton e Obama. Precisa dizer alguma coisa?

O mais próximo dos amigos compreende a situação e termina com espírito republicano: “não importa o que aconteça, estaremos por aqui e de olho no futuro.”

Não é necessário enumerar os infindáveis defeitos do Trump. É impensável como alguém como ele tenha ido tão longe. Os Estados Unidos têm problemas sérios para resolver e precisam de um líder com mais empatia e vontade política de servir a todos. Chega de dividir a nação.

70 milhões de americanos votaram no Partido Republicano, apesar do Donald. Não são todos loucos, fascistas ou ultraconservadores. São dezenas de milhões de trabalhadores que, de alguma forma, tiveram importantes perdas nas últimas décadas. Biden não pode ignorá-los. É um senhor desafio. 

Boa sorte Joe Biden!

 

Foto: Final da tarde em Oia, Santorini, Grécia. Uma multidão vai para o extremo da ilha para assistir ao por do sol (maio, 2016).

Sunday, February 21, 2016

Verdun

Além dos sinais de fraqueza da economia mundial, há algo de ruim no ar. Revendo os jornais belgas e franceses dos últimos dias, tive que fazer algum esforço para encontrar boas notícias.

Até mesmo no noticiário esportivo, o destaque é para a última tendência em fraudes no ciclismo, o uso de bicicletas motorizadas. Flagaram um motor escondido no quadro da bicicleta de uma atleta belga.

A mídia destaca o centenário da Batalha de Verdun, episódio marcante da Primeira Guerra, quando o exército francês deteve o avanço alemão, com um saldo de 300 mil mortos e 400 mil feridos em 300 dias de combate.

Ao longo dos próximos anos, teremos muitos outros centenários. Não faltarão oportunidades para lembrarmos das barbáries das duas grandes guerras. O propósito principal dessas lembranças é servir de estímulo para que jamais se repitam.

Nesta última semana, tive a impressão que o mundo faz de tudo ao contrário, ou seja, tenta cair nas mesmas armadilhas do passado. Continuamos a semear a cizânia e a flertar com os conflitos. O discurso da desunião e da intolerância ganha espaço.

A discussão sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) é bem representativa. A adesão à UE tem sido usada como “bode”  por frentes políticas de quase todos os países do bloco. Obviamente, todos perderiam com a possível redução da UE, gerando um círculo vicioso que culminaria com a sua extinção. Terminaria assim a esperança de uma paz duradoura.

A Rússia, mesmo sofrendo com os baixos preços do petróleo, continua investindo bilhões para salvar um país que já morreu.  Ao invés de planejar sua retirada da Síria, ela investe ainda mais nessa operação militar descabida. Basta um pequeno incidente fronteiriço com a Turquia (membro da OTAN) para acender uma faísca de consequências imprevisíveis.

Não estou acompanhando as primárias dos EUA, mas o nível dos discursos que ecoam na Europa não é nada inspirador. Evidentemente, a paz e a prosperidade mundial ainda dependerão da boa vontade dos EUA por mais alguns bons anos.

A proposta não foi escrever um post pessimista, mas traduzir um pouco das preocupações latentes. Entre erros e acertos, os atuais líderes das principais potências - Obama, Merkel, Hollande e Cameron - são bons, mas ameaçados em seus países pelo discurso da discórdia. A concertação entre eles é fundamental para controlar essas ameaças.


Foto: A caminho da Bretanha, fiz algumas paradas no interior da França durante as últimas férias de verão.  Nessa foto, a charmosa Lyons-la-Forêt, na Normandia.

Sunday, November 29, 2015

Outono

O foco está na COP21 sediada em Paris. Para proporcionar a segurança necessária aos governantes do mundo inteiro, a cidade foi praticamente bloqueada. Em paralelo às discussões sobre o clima, os mesmos protagonistas tentarão achar uma solução para a crise síria. A recente derrubada do avião russo pela Turquia não ajuda em nada.

Hoje pela manhã, cruzei mais uma vez com aquele, que inspirou o post  “Popular e Ladrão”. Sim, o Erdogan esteve por aqui para uma nova reunião de cúpula entre a Europa e a Turquia. A Europa quer que ele pare de despejar refugiados sírios nas praias gregas, que ele pare de escoar o petróleo do Estado Islâmico e ajude a combatê-los. O último pedido do Erdogan para aceitar o pleito europeu foi de 3 bilhões de dólares, a cabeça do Assad e um pau nos curdos. Assim fica difícil.

O presidente francês ganhou algum prestígio ao liderar a nação depois da tragédia. Pelo menos, ele serve para alguma coisa! A solidariedade internacional com a França não foi suficiente para formar uma coalizão de combate ao Estado Islâmico. Hollande ouviu alguns nãos durante a semana:  Obama, Putin e Merkel, entre outros.

Bruxelas teve uma semana de exceção, como descrevi no último post. A vida voltou ao normal depois de alguns dias sob estado de sítio. Paira no ar aquela pergunta que não quer calar. Se a situação não mudou e dois dos terroristas estão soltos por aí, então há algo de errado: ou o estado de sítio não deveria ter sido decretado ou não deveria ter sido relaxado. Mistério.

A imprensa francesa não tem perdoado a leniência belga com relação aos muçulmanos radicais. Entre todas as críticas, achei a do Le Monde a mais dura. O seu editorial de 24 de novembro diz: “esse Estado sem nação pode virar uma nação sem Estado”.

Vale uma explicação. A Bélgica é tida como um Estado sem nação, por ser uma federação que agrupa flamengos, valões e alemães. Diante do radicalismo islâmico, todos erraram. O momento é de rara união, evitando-se acusações mútuas. Entretanto, ao longo dos últimos anos, o assunto foi deixado de lado para não afetar o frágil acordo que mantém a Bélgica unida.

Essa história de nação sem Estado lembrou-me do Brasil. Nosso Estado não está desaparecendo, mas apodrecendo rápido. Fiquem tranquilos, pois a cura passa pela prisão em massa de petralhas, como – felizmente - está acontecendo.



Foto: No final de semana anterior aos atentados, pude passear no Parque da Cambre, aqui em Bruxelas, curtindo a paisagem de outono.

Thursday, December 19, 2013

Escolhas


Alguns assuntos que foram notícias durante a semana mostram como a nossa sociedade é complexa. Na mão dos líderes daqui e dali, não existem decisões óbvias.
  • Um dos debates paulistanos é a circulação de táxis nos corredores de ônibus. A sua proibição traz benefícios evidentes para a maior fluidez dos coletivos. Por outro lado, acredito que um sistema de táxi rápido e competitivo complementa o próprio transporte coletivo. É essencial para os negócios da cidade e pode ser um fator de peso numa decisão de se abandonar o carro próprio.
  • Há três anos, fiz um post satirizando a demora na decisão de compra dos novos caças da FAB. Outra questão difícil, cada alternativa tinha seus prós e contras. A opção sueca agrada aos militares. O Lula tinha uma visão mais política dessa compra. Concordo com ele, pois uma parceria com a França ou Estados Unidos poderia ser muito mais ampla, envolvendo trocas mais importantes do que apenas os aviões.
  • O governo desconversa quando é questionado sobre o pedido de asilo do Snowden. De fato, a coisa parece não ter sido formalizada corretamente. Snowden pode ser um “mico”, mas também pode trazer um pouco mais de brilho e protagonismo ao Brasil no debate global sobre privacidade.  Não seria ruim para os EUA. Afinal, qualquer coisa é melhor do que deixá-lo sob a guarda do democrático e honesto Putin.
  • Ainda sobre o Snowden, é difícil de acreditar que o assunto não esteja na pauta diária da Casa Branca. Quando escrevi meus posts sobre o caso, não imaginava um estrago tão grande. Há uma série de repercussões negativas internas e externas, gerando desgastes e perdas econômicas. Os EUA devem negociar com Snowden? Ó dúvida cruel! Acho que sim. Tudo indica que tenha revelações ainda mais bombásticas e não esteja blefando. Bem, neste caso ainda é preciso encontrar uma saída honrosa para o pessoal de Washington.

Enfim, neste post mostrei quatro decisões difíceis. Nenhuma seria isoladamente certa ou errada. Talvez não façam sentido sozinhas, estão inseridas dentro de um contexto, associadas a outras escolhas. Ao final, julgaremos Haddad, Dilma e Obama pelo “conjunto da obra”. Como disse Camus: “A vida é a soma das nossas escolhas”.


Foto: Jardim japonês do Parque Balboa em San Diego.

Saturday, December 14, 2013

Santos e humanos


Impressionado com a unanimidade em torno de Nelson Mandela? Difícil achar algum artigo fazendo críticas a este grande personagem do nosso tempo. Gostei muito de um artigo de Adam Roberts, republicado no Estadão. Começa assim: “Devemos lembrar do maior ícone da luta contra o apartheid na África do Sul como uma figura humana calorosa e poderosa, um homem político e pragmático, mas não como um santo”.

Mandela está longe de ser um santo. Vê-lo dessa forma seria uma espécie de fuga. Seria messianismo ou, como diz o Arnaldo Jabor, o Sebastianismo luso-brasileiro. Seria acreditar que as grandes mudanças dependem exclusivamente de um salvador. Um convite a se aceitar qualquer situação, por pior que seja, por que somente o salvador poderá resolvê-la.

Nada disso. Mandela cometeu inúmeros erros. No seu governo, houve inúmeros casos de corrupção, compadrio e outras coisas tão comuns por aqui. Há também o escandaloso descaso com a AIDS e a eterna acusação de peleguismo pelos negros mais radicais. Nada disso tira o seu grande mérito. É um ser humano como todos nós, que também erra e tem seus vícios, mas fica para a história como aquele que possibilitou o fim de uma das maiores vergonhas do planeta. O homem certo, na hora certa, no lugar certo.


Obama desceu do pedestal e também mostrou seu lado mais humano. Acho que não houve malícia naquela animada conversa entre ele e os líderes do Reino Unido e da Dinamarca. Aquele momento tão à vontade provocou uma reação também muito humana da Michelle. Infelizmente - ou felizmente - as câmeras registraram tudo. Parodiando o velho ditado: O marido da primeira-dama não basta ser honesto, precisa parecer honesto.


E quem precisa parecer um pouco mais honesto é o governo brasileiro. Não falo de nenhum escândalo recente de corrupção, falo da possibilidade de se adiar a obrigatoriedade de uso de freios ABS e airbags a partir de janeiro de 2014. O Brasil já está atrasado nesse quesito e essa medida propiciará que muitas vidas sejam salvas. Conforme a resolução de 2009, a indústria já está preparada para o fim dos carros sem freios ABS e airbags. A essa altura do campeonato, trocar muitas vidas humanas por alguns décimos de inflação é imoral. O governo poderia até fazer suas contas, mas sem contar para ninguém!


Foto: Para quem gosta da temática militar, a visita ao Midway é um dos programas de San Diego. 

Sunday, July 14, 2013

Snowden

O aprofundamento da discussão sobre a privacidade e os limites da vigilância do Estado será uma grande contribuição do Caso Snowden. A imprensa está inundada de artigos criticando os EUA, defendendo a liberdade e reverenciando o ex-agente americano.

Até no Brasil, onde nunca se deu a mínima para o assunto, Snowden virou herói e Obama passou a encarnar o próprio Satã. Vi pouquíssimas matérias fazendo um contraponto, por isso recomendo a leitura do artigo do Mario Vargas Llosa.

Não gostaria de julgar o Snowden, até por que só estamos vendo a pontinha do iceberg. Num mundo cheio de segredos, nunca saberemos as suas reais motivações. Ele pode ser um herói de verdade ou o pior dos canalhas. Tanto faz.

O maior problema é a demonização dos EUA. Na prática, estamos fazendo o jogo que interessa aos países que realmente censuram, que mantêm exércitos de hackers ou que promovem o mal de forma deliberada. Com o argumento de "se os EUA fazem, nós também podemos", acabaram-se as esperanças de algum controle sobre o Big Brother. O legado de Snowden pode ser um mundo muito pior.

Um lembrete aos leitores brasileiros indignados com a bisbilhotice americana. Enquanto você está preocupado com o Snowden, tem alguém muito mais próximo fuçando as suas fotos, tentando entrar na sua conta bancária ou prestes a chantagear um membro da sua família.

A maior prova da ineficácia da super espionagem norte-americana é não ter antecipado o próprio Snowden. Portanto, cuidado. Para fins práticos, o grande problema do mundo virtual não é o Big Brother, mas os milhares de maltrapilhos que nos cercam.


Foto: A "Grande-Place" de Bruxelas num domingão festivo. A Praça é a principal da cidade e integra o Patrimônio da Unesco.

Tuesday, April 10, 2012

Consulado

Quem não conhece o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo? Nas três vezes em que lá estive, fiquei impressionado com a sua máquina burocrática, uma super-estrutura para atender milhares de viajantes. Cheguei a pensar se manter aquilo tudo, inclusive a propriedade do tamanho de um quarteirão, valia a pena. Hoje, está claro: Vale e muito.

As matérias recentes sobre o encontro de Dilma e Obama mencionam a flexibilização da concessão do visto americano aos turistas brasileiros. Em tese, já poderíamos estar isentos desta exigência, graças ao bom balanço das viagens dos brasileiros aos EUA.

Entretanto, na prática, a máquina de vistos é uma fonte de arrecadação considerável do Departamento de Estado dos EUA. Não dá para abrir mão dessa receita. Pelo contrário, agilizar a máquina e inaugurar mais dois consulados no Brasil significa aumentá-la ainda mais.

Bom para os brasileiros que querem viajar, bom para o comércio da Flórida e bom para a Hillary Clinton cumprir seu orçamento.


Foto: Em Chicago, na eclusa entre o Rio Chicago e o Lago Michigan.

Monday, August 8, 2011

Vacances

No auge do escândalo com o ex-presidente do FMI, sabia-se da importância da instituição face às incertezas vindouras. A liderança de DSK sempre foi respeitada. Com a inevitável expansão da crise, será a vez de Christine Lagarde encarar o desafio do cargo e o esqueleto que está no seu armário.

A ex-ministra é acusada de ter facilitado a vida de Bernard Tapie, amigão do Sarkô, brindado com uma indenização do Estado francês de mais de 300 milhões de euros. Há evidências de que Tapie, ex-dono da Adidas, tenha vendido suas empresas a preço de banana, graças a uma combinação de interesses políticos e privados, no melhor estilo das repúblicas bananeiras.

Se foi armação ou não, caberia à Justiça decidir. Entretanto, o governo Sarkô tirou o processo do Judiciário e o enviou para uma corte arbitral independente. Como resultado deste "fast-track" jurídico, o Estado foi condenado a indenizá-lo. Se isto não for imoral, é de um arrojo sem igual. Como escrevi em 2008: “Nem o José Dirceu tinha pensado nisso”.

Um articulista do Le Monde, estudioso das questões legais e constitucionais, salienta que é impossível incriminar Sarkozy neste episódio. O Presidente nunca sabe de nada! Largarde responderá por ele.

A esta altura do campeonato, o eleitor francês está olhando mais para a crise que se aprofunda e, principalmente, para o seu bolso. As notícias vindas do outro lado do Atlântico não são animadoras. Este quadro favorece o partido de Sarkozy, de direita, com ou sem escândalo. A extrema-direita, em ascensão, perdeu pontos com o atentado norueguês.

O eleitor sabe que, em tempos de crise, as ideias dos socialistas não são as mais eficazes. O PS é um partido de gente bacana, mas ruim da cabeça. Portanto, mesmo com toda impopularidade, Sarkô não morreu. Na última semana, recluso no château praiano da sua sogra em Cap Nègre, ganhou três pontos de popularidade. Quem está precisando de um descanso assim é o Obama.


Foto: A praça central de Arbois, a Place de la Liberté.

Thursday, May 5, 2011

Enemy Killed in Action

A morte de Bin Laden foi merecidamente comemorada por quase todos nós. Ainda não pude ler tudo que gostaria sobre a caça ao Gerônimo, mas a operação me decepcionou pelos seguintes motivos:

1) Bin Laden foi claramente executado. Sem dúvidas, trata-se de um procedimento de exceção. A reação da comunidade não foi hostil ao assassinato, mas algumas vozes começam a se manifestar.

2) O Paquistão foi humilhado. Está certo que o jogo duplo daquele país é revoltante, mas esta ação colocou o seu povo contra os EUA e o Ocidente. Colocaram mais lenha na fogueira.

3) A operação foi tomada por muitos como golpe eleitoral. Outros, nem ainda acreditam na sua veracidade.

4) Meses e meses de espionagem antecederam a eliminação de Bin Laden. Quantas vezes o rei dos terroristas esteve na mira dos EUA e escapou? Foi tudo muito lento.


Enfim, vida de agência de inteligência é assim mesmo. A gente só sabe o que dá errado. Quero crer que a CIA tem feito muita coisa pela segurança dos EUA depois da queda da URSS. De lá para cá, o inimigo mudou, as regras do jogo mudaram.



Foto: Fim de tarde no canal de Nîmes, próximo ao Jardin de la Fontaine, onde tivemos um torneio de "pétanque", versão francesa do jogo de bochas. O mais difícil não foi acertar as bolinhas, mas aguentar o frio daquele fim de tarde.

Saturday, February 19, 2011

Ballmer & Obama

A imprensa especializada questionou: "Por que Steve Ballmer, da Microsoft, não foi convidado para encontro com Obama?" Aí vão minhas dez respostas:

1) Por que Ballmer mandou um micro com Windows 7 e Office 2010 para a Casa Branca e já deu pau. Obama está louco da vida.

2) Por que a Casa Branca tem um plano para adoção de Linux em toda máquina pública norte-americana e não quer constrangê-lo.

3) Por que todos os convidados têm iPhone e Ballmer ficaria constrangido em aparecer com um telefone finlandês.

4) Por que a Microsoft teria dado maior apoio aos republicanos.

5) Por que é difícil convencer o Steve Ballmer de que ele não seria a pessoa mais importante no jantar.

6) Por que os flashes refletidos pela cabeça do Ballmer ofuscariam completamente o Obama.

7) Por que foi tudo uma armação do Larry Ellisson, outro ego a altura do Ballmer.

8) Por que a Microsoft já é vista como uma empresa tradicional. Será convidada para o jantar com a IBM, HP e Dell.

9) Por que Ballmer descobriu que, no jantar, usariam iPads como "sousplats".

10) Por que o clubinho do Vale do Silício já existe há tempos e o convidado é o Obama e não o inverso!



Foto: Iniciando uma série de fotos da Abadia de Fontenay, um dos meus últimos passeios na França, em outubro último.

Tuesday, August 17, 2010

Guerra 2.0

Obama quer chamar seus homens de volta. A notícia é boa. Principalmente, para Bin Laden e seus asseclas.

Depois dos bilhões gastos no Iraque e no Afeganistão, a situação ainda está muito longe da ideal. Pior ainda, o embate contra milícias islâmicas, espalha-se pelo Iêmen, Somália e, muito provavelmente, por vários países africanos. A África, ícone da nossa indiferença face à desgraça alheia, é um terreno ainda mais fértil para a proliferação desta grande guerra de guerrilhas do século XXI.

Uma coisa está clara: As guerras convencionais estão descartadas. Poucos estadistas ocidentais têm respaldo para tal, inclusive Obama. Daqui para frente, os meios serão mais sofisticados: Aviões não pilotados, patrulhas de elite e muitas ações de inteligência.

A preferência por esse tipo de atuação parece ser majoritária no Ocidente. Acho que deveríamos ter começado assim há muito tempo. Agora é um pouco tarde. A nova estratégia tem suas limitações:

1) A ação inteligente pode ser mais eficiente, porém não suficiente. Impossível cobrir todo o território onde prolifera a jihad, da Ásia à África.

2) Rambo só existe no cinema. Pequenos contingentes são vulneráveis, podem ser cercados ou emboscados. Os inimigos estão prontos para morrer pela causa.

3) 007 também só existe no cinema. Acreditem se quiser, o Paquistão - que joga descaradamente dos dois lados - é um dos países mais "confiáveis". Imaginem os demais.

Enfim, estancaremos as hemorragias dos dois lados, mas continuaremos a sangrar. Vamos empurrar o problema com a barriga até que, um dia, possamos combater as causas da doença e não os seus sintomas.


Foto: Outro castelo do Departamento de Isère, o Château de Longpra. A aparência atual vem da última reforma no século XVIII. O castelo pertence à família Franclieu desde 1536.

Sunday, December 20, 2009

Cop15

Sarkô voltou de Copenhagen ainda menor. A imprensa local está chamando o Cop15 de G2, criticando o papel marginal da Europa no encontro. Na prática, todo mundo perdeu. E o que importa não é a classe política, mas o planeta. A nossa Terra. Afinal, como diz o Monde, não temos um "Planeta B".

Teremos duas reuniões para buscar um novo acordo, Alemanha e México. Até lá, o mundo não vai acabar nem ficar mais quente, pois independentemente da classe política, a sociedade está cada vez mais vigilante e atuante. Há uma grande mobilização planetária para a redução do consumo de energia, para a energia limpa, para a reciclagem, etc.

Dá para fazer muita coisa sem depender dos nossos pequenos líderes, no âmbito das ONG, na esfera privada ou mesmo na pública, onde inúmeros políticos já aderiram à causa da sustentabilidade.

Embora a China e os Estados Unidos estejam em posições de confronto, isso não significa que as duas nações mais poderosas do planeta estejam paradas. Não é preciso comparar Obama com o seu antecessor. E a China, por sua vez, tem um programa gigantesco de remodelação da matriz energética, feito à sua maneira, mas melhor do que nada.

Enfim, 2010 está aí. Dificilmente a comédia de erros do Cop15 vai se repetir. Enquanto isso, façamos a nossa parte.


Foto: Em Lons-le-Saunier, a Rue du Commerce com suas famosas arcadas.

Sunday, October 4, 2009

Normandia

A partir de hoje, as fotos da minha passagem pela Normandia no final de agosto ilustrarão os posts. Não posso dizer que foi uma ótima surpresa, pois viajei com dois volumes do Guia Michelin sobre a região. Sabia que tinha muita coisa para visitar.

A França possui duas regiões que compõem a Normandia histórica: Alta e Baixa Normandia. Com poucas exceções, minha viagem concentrou-se nos departamentos de Calvados (Baixa) e Sena Marítimo (Alta).

Um dos meus desejos era fazer o circuito do desembarque da Normandia, um evento histórico ímpar. Este ano, Obama veio ao memorial americano celebrar os 65 anos do Dia D. Vendo o evento pela TV, pensei: Também vou!

Fiquei num hotel na célebre Omaha Beach, que concentrou o desembarque americano. O circuito do Dia D espalha-se pela costa normanda, são dezenas de pequenas atrações a serem visitadas.

Se em 6 de junho de 1944, ingleses e americanos invadiram a Normandia para salvar a França e o mundo, quase mil anos antes, foi um normando que invadiu e tomou a Inglaterra. Pois eu também fiz o circuito relativo a Guilherme, o Conquistador.

Além dos dois circuitos, castelos, praias, falésias, cidades como Honfleur, Deauville, Bayeux, Caen e, um pouco mais distante, o Monte Saint-Michel.

Na foto de abertura, com direito a uma gaivota figurante, uma das falésias de Etretat, no Canal da Mancha.

Monday, July 27, 2009

Ironmen

Sarkô estava fazendo a sua corridinha habitual, quando desmaiou. A França agradece. Quem sabe, ele saia dessa um pouco mais modesto. Quando a temperatura está na casa dos 30 graus, não é fácil sair correndo por aí. Um dia desses, eu mesmo tive que abortar a minha corrida de 60 minutos.

Obama também está mostrando fraqueza. As últimas pesquisas indicam queda na sua popularidade. Nada que o ameace.

Sarkô achava que tinha poderes divinos. Descobriu que é mortal. O povo americano achava que Obama era o Salvador. Descobriram que ele é um apenas um político. Um pouco de realidade é sempre bom.


Foto: A torre chinesa no Jardim Inglês de Munique.

Wednesday, July 22, 2009

Presidentes

Sarkô precisou emprestar um pouquinho do inabalável prestígio de Lula, que o apoiou no seu esforço de flexibilizar a abertura do comércio francês aos domingos. Na sua recente visita à França, Lula provavelmente influenciou o voto de alguns senadores indecisos. O assunto vai para a câmara.

Vale lembrar que os sucessivos escândalos divulgados no Brasil mal chegam por aqui, onde Lula está está sendo promovido de personagem histórico para ser mitológico.

Já Obama não quis ajudar Sarkozy. Falou três coisas que deixaram o pequeno Nicolas furioso. Obama defendeu:

1- A entrada da Turquia na União Européia.
2- A prática do islamismo com plena liberdade.
3- O banimento das armas nucleares.

Obama ganhou a eleição nos EUA. Agora, está na fase de aumentar a sua popularidade entre as nações amigas ou nem tão amigas. Sarkô percebeu que não pode competir com Obama no quadro internacional, então ajustou o seu discurso para os interesses franceses. Agora levar lição de moral do negão, também já é demais!


Foto: Hofgarten, jardins de outro grande palácio conhecido como Residenz, residência dos monarcas da Baviera, no centro de Munich. Clique aqui para mais informações.



Saturday, June 27, 2009

A burca da discórdia 4

São inúmeras as questões éticas que cercam este tema. E entre as coisas que mais aprecio na França, é a abertura e a riqueza da discussão. Ao contrário da América Latina, marcada pela colonização ibérica, aqui, religião se discute, e muito.

Não é à toa que Sarkô tem sido muito mais criticado do que elogiado. A sua posição em relação à burca pode ser apenas um gesto de aproximação com a sua base eleitoral.

No espírito da laicidade francesa, o governo de Sarkozy tem cometido vários erros. Por exemplo, a cerimônia ecumênica oficial em homenagem às vitimas do vôo da AF447 foi na Catedral de Notre-Dame, o que causou críticas bastante duras:

1) Por que a cerimônia foi numa igreja?
2) Por que o Presidente compareceu?

Vão pensando no assunto. No Brasil, já não se percebe tais sutilezas.

Apesar da obviedade, Obama e Sarkô fazem política. Os cristãos e judeus não fazem nada. E os muçulmanos fazem barulho.


Passo alguns dias em treinamento e volto com o epílogo. Até!


Foto: Ainda na primavera, visitei o Château de Touvet, em Isère, entre Grenoble e Chambéry. O castelo é habitado há 500 anos pela mesma família. Os jardins são impecáveis e a paisagem alpina não deixa a desejar.

Tuesday, June 23, 2009

A burca da discórdia 2

A burca incomoda muita gente na França. Até mesmo a comunidade islâmica é majoritariamente contrária ao seu uso, bem como à prática mais extrema da religião. Se quase todo mundo está do mesmo lado, então qual é o problema?

Nenhum governante sente-se à vontade para impor condições às práticas religiosas. Estado e Igreja separaram-se há tempos e isto soa uma intromissão no campo privado. Logo, só é justificado numa situação muito grave.

Finalmente, mexer com muçulmanos radicais não tem sido muito recomendado nos últimos tempos. Apesar de serem minoria, eles fazem barulho, aterrorizam a sua própria comunidade e ameaçam o país como um todo. Vai encarar?

Sarkô quer banir a burca. Obama, não. Palmas para Sarkô, vaias para Obama. Esperamos que seja apenas um movimento tático deste último.


Foto: Ainda no Lac d'Aiguebelette, a família solitária aproveita os últimos dias da primavera, ainda não tão quentes assim.

Monday, June 22, 2009

A burca da discórdia 1

A aproximação de Obama com o mundo islâmico é essencial para restabelecer o papel dos Estados Unidos no cenário internacional. Obama disse que os muçulmanos podem praticar a sua religião com plena liberdade em território americano.

Acho que boa parte do Ocidente compreende e apoia a aproximação. Daqui da França, a atitude foi vista como positiva. Mas, apenas devido ao contexto político atual.

Justamente no momento em que se discute a crescente utilização da burca por muçulmanas francesas, fica evidente que liberdade religiosa tem limites. Cada um pode praticar a religião que quiser, do modo que quiser, respeitando-se os direitos fundamentais de todos e os valores republicanos.

A França soube bem separar o Estado da religião, colocando esta última no campo privado. Há um século, as escolas públicas francesas perderam o ranço católico e viraram "templos republicanos". Ao contrário do Brasil, não achamos símbolos religiosos em nenhum órgão público, escola ou hospital.

Sarkozy foi mais além, quando ministro, proibiu que os alunos fossem para escola ostentando quaisquer símbolos religiosos. Sem dúvidas, uma grande conquista!



Foto: Ainda tenho algumas fotos de Praga, mas deixarei para publicá-las mais para frente. Fiquem com o Lac d'Aiguebelette, perto de Lyon, no Departamento da Savóia. Estive por lá no único domingo de maio sem feriado prolongado. O sol aparecia, mas o clima ainda não era de alta temporada, com barcos e pedalinhos estacionados às margens do lago.

Saturday, May 30, 2009

Nuke Ban 3

Afinal quem precisa de bomba atômica como recurso de dissuasão? Com um pouco de boa vontade e uma boa negociação, o banimento das armas nucleares não parece inatingível. Ninguém precisa delas! Neste post, falo de uma muito sintética dos problemas mais complexos.

O Paquistão tem uma excelente oportunidade para aprender que o seu maior inimigo não é a Índia. Ele está dentro de casa. Os progressos da Índia em muitas áreas são inegáveis. Que tal uma competição pela prosperidade? Se o exemplo vier do Ocidente, uma boa negociação poderá superar uma das rivalidades mais fortes e cruéis do mundo.

A encenação de Ahmadinejad é gritante e o discurso anti-israelense é puro oportunismo. Mais do que uma barganha, o Irã quer restabelecer uma histórica hegemonia persa. O Ocidente não pode reclamar, pois a provocação iraniana começou como oposição ao mundo árabe, numa época em que Saddam Hussein era o queridinho dos EUA e da Europa. Saddam ganhou até uma usina nuclear da França, providencialmente destruída por Israel. O Irã não precisa de bomba, precisa de diálogo e democracia. Obama só não pode dormir no ponto, pois a economia mundial para, mas o plano nuclear do Irã não para.

A sofrível campanha israelense contra o Hezbollah mostrou que as dificuldades do país são de outra natureza. Foi-se o tempo em que tanques, aviões e tropas bem treinadas resolviam qualquer problema. A maioria dos paises árabes já não representa ameaça direta. Para que serve a bomba israelense senão estimular outros a embarcarem na mesma aventura? O que adiantaria retaliar com armas nucleares uma grande metrópole árabe densamente povoada e com infra-estrutura precária? Acho que Israel deveria dar o exemplo e renunciar unilateralmente às armas nucleares.

Talvez o último país a aceitar o banimento das armas nucleares seja a China. As ambições chinesas são totalmente desmedidas. São imperialistas, monopolísticas, autoritárias, vingativas, etc. A China fará os EUA do último século parecerem uma associação filantrópica.

Encerrando esta série de posts, depois que os líderes mundiais colocarem a economia de volta nos trilhos, que o “total nuke ban” seja uma prioridade. Antes que seja tarde.


Foto: A última imagem de Genebra, a estátua “La Bise”, de Anorld Koenig, também enfeitando o lago Léman.

Thursday, May 28, 2009

Nuke Ban 2

Kim Jong Il está furioso. Perdeu o Oscar de melhor ator. Perdeu Cannes também.

A maior preocupação da Europa e dos EUA não é o uso de armas nucleares diretamente pela Coréia ou Paquistão, mas que essas caiam em mãos terroristas, com os quais não haja nenhuma possibilidade de conversa. Vejam como é difícil retaliar a Al-Qaeda!

Mais do que nunca, as armas nucleares se tornaram um grande mico. Sem a bipolarização EUA/URSS e com a Europa unificada, elas perderam o sentido. Restam algumas situações particulares: Israel, Índia/Paquistão, China e Irã. Vamos discutí-las nos próximos posts.

Obama está certo quando restabelece o diálogo com todos os envolvidos. Nunca é tarde para se propor o banimento das armas nucleares. Afinal, isto é promessa de campanha. Vejam o discurso do então senador Obama no link abaixo:

Obama to Urge Elimination of Nuclear Weapons (New York Times, 2/10/2007)

 

Foto: Famoso edifício de Genebra, a Maison Royale, de frente para o Lago Léman.