Showing posts with label Chicago. Show all posts
Showing posts with label Chicago. Show all posts

Friday, June 22, 2012

Euro 2012

Pelo bem do esporte, nos torneios europeus, é melhor se evitar quaisquer metáforas históricas ou abstrações que fujam da prática desportiva. Depois de tanto sangue derramado, nada como a competição saudável para confraternizar e semear a paz.

A imprensa europeia costuma resistir às piadas fáceis nesses tempos de Euro 2012 - a Copa do Mundo sem o Brasil e a Argentina. Ou melhor, resistia. A partida desta noite (quartas de final) entre Grécia e Alemanha está tirando a imprensa da linha.

As graves circunstâncias econômicas que abalam o continente opõem claramente os dois países. Dizem por aí: “Se a Alemanha quer tirar a Grécia do Euro, a Grécia pode tirar a Alemanha da Euro”.

Para um país economicamente arrasado, a partida desta noite é simbólica. Um comentarista grego prefere lembrar a Batalha de Creta (1941). Os nazistas tomaram a ilha grega, mas com o custo de mais de 3200 mortos. O futebol grego não é grande coisa, mas com este espírito heroico, o jogo promete.

Estou acompanhando a Euro 2012 na Europa, onde os jogos são transmitidos à noite. Nesta semana, estive num importante evento de informática. O coquetel / jantar de abertura foi simultâneo às partidas França X Suécia e Inglaterra X Ucrânia.

Alguém já disse que o europeu não é tão ligado no futebol quanto o brasileiro? A organização do evento trouxe duas TVs de grande formato, que ficaram em dois cantos do imenso salão. Quando os jogos começaram, metade do público dividiu-se entre ambos.

Entre tantas nacionalidades, inclusive coadjuvantes ucranianos e suecos, como era de se esperar, os ingleses foram os mais ruidosos. Não só torciam pela Inglaterra, como se manifestavam contra a França, mesmo estando em Paris. Os franceses estavam excessivamente intimidados pela derrota perante a medíocre Suécia. O Le Monde diz tudo: “La débâcle de Kiev”.

Aproveitei boa parte do jogo para comer e conversar com uma panelinha de brasileiros da Brasscom e Softex, que promoviam a nossa informática aqui na Europa. Mais comia do que conversava. Afinal, eu fui lá para comer, conversar ou assistir ao jogo?


Foto: Centro de Chicago.

Sunday, June 10, 2012

Airframe

 
"Armadilha Aérea" (1996) não é dos livros mais conhecidos do finado Michael Crichton, mas tem uma trama envolvente e extremamente realista. A investigação de um acidente aéreo mistura a tecnologia, os interesses corporativos, as relações com a China, a ação dos sindicatos, a cobertura da imprensa e a natureza dos acidentes. Sim, a verdadeira natureza dos grandes acidentes, quando acumulam-se falhas técnicas e erros humanos. 

Ainda recomendo a leitura do livro e não quero estragar a surpresa do leitor, pois é só nas últimas páginas, que a "significativa contribuição" do piloto para o acidente é revelada. 

O acidente fictício de Crichton foi menos trágico do que aquele do vôo Rio-Paris (AF 447). Na vida real, não houve sobreviventes e restaram poucos destroços para análise. Na vida real, nada se compara ao drama dos parentes das vítimas. Em comum, a investigação pelas autoridades, a cobertura da imprensa, os interesses dos fabricantes, da companhia aérea e da seguradora.

As falhas na medição de velocidade do Airbus são conhecidas. Também sabemos que já não se fazem mais pilotos como antigamente. Entretanto, tudo isso não convence. É aí que aparece o furo da TV americana: No momento do incidente, quando a experiência do piloto era essencial, o comandante Marc Dubois não estaria na cabine, mas com sua amante, uma comissária da companhia. 

Talvez, o detalhe jamais seja provado. As autoridades francesas já anteciparam que o relatório final não inclui a intimidade dos funcionários. Entretanto, é justamente esse tipo de detalhe que deixa tudo mais consistente. É a famigerada sequência de erros que transformam um incidente num grave acidente. 

Pelo fato de ser passageiro habitual da companhia, fiquei muito chocado à época da queda do avião. A inexistência de uma explicação convincente incomodava. A ideia de um piloto tarado pode deixar muita gente indignada, mas explica. Afinal, faltava justamente alguma coisa mais humana para compreendê-lo. Mais humana do que uma sonda Pitot.


Foto: Acima e abaixo, a residência e estúdio de Frank Lloyd Wright em Oak Park, Chicago. Projeto de 1909. O tour pelas casas do arquiteto em Oak Park sai de lá.



Wednesday, May 30, 2012

Geography for dummies

Há poucos anos, a Turquia implorava para entrar na União Europeia. Queria seguir os passos de outros países do velho mundo, que desfrutavam de certa prosperidade (PIGS). Entrar na Zona do Euro seria o máximo!

O ex-presidente Sarkozy, no entanto, estava determinado a barrar os planos turcos. Muito antes do agravamento da crise, ele disse: "A Turquia não entra na União Europeia, por que não é um país europeu".

A Turquia agradece à geografia de conveniência do Sarkozy. O país se salvou das ingerências de Bruxelas e a sua arquirrival Grécia está em plena desintegração. Se não fossem as divergências em torno do genocídio armênio, o ex-presidente seria um ídolo na Turquia.

Nesta semana, Angela Merkel mostrou que geografia não é seu forte. Numa sala de aula, ela foi convidada a mostrar a cidade de Hamburgo num mapa mundi. Seu raciocínio foi lógico, localizaria primeiro Berlim e, depois, a sua cidade natal. O problema é que ela procurou por Berlim na Rússia. Alertada pela professora, exclamou: "O que? A Rússia? Tão perto?". Os alunos gargalhavam.

Decepcionante. Seria estresse? Ignorância? Ato falho? Difícil de se explicar. Se no seu mapa mental, Berlim está dentro da Rússia, onde estaria a adorada Grécia? Talvez, no Irã.

Quando se fala de geografia, é claro que ninguém supera George W. Bush. Entre algumas das suas célebres citações:

"Do you have blacks, too? (2001, para FHC)
"Border relations between Canada and Mexico have never been better" (2001)
"Wow! Brazil is big!" (2005, para Lula) 


Fotos: Acima e abaixo, a famosa Robie House de Hyde Park, na periferia de Chicago. A casa de 1909 é considerada símbolo da escola arquitetônica liderada por Frank Lloyd Wright, primeiro estilo genuinamente americano.



Sunday, May 20, 2012

Die Meister, Die Besten


Cada vez mais, estamos ligados na Liga dos Campeões.
Vi muita gente dando uma escapadinha do trabalho para ver as suas semifinais, quando da eliminação dos times espanhois.


A Liga tem sido o sonho dos tempos europeus, assim como a Libertadores por aqui. No campeonato europeu, sobra organização, dinheiro e um grupo de talentosos jogadores comprados do mundo inteiro. É por tamanha concentração de craques, que o torneio só perde em prestígio para a Copa do Mundo.

Quando posso assistir a um jogo deste super campeonato da UEFA, faço a questão de fazê-lo desde o começo, para não perder a vinheta de abertura. O hino da Liga arrepia torcedores e jogadores .

A música de Tony Britten, inspirada em Handel, está ali para reverenciar os maiores craques do planeta. Sua letra diz (alemão, francês e inglês): "Die Meister / Die Besten / Les grandes équipes / Os campeões".

Muito dinheiro. Muitos craques. Muita organização. Hino maravilhoso. E o futebol? Bem, vamos com calma, por que nada é perfeito. Há controvérsias.

Quando eu era mais jovem, jogar como o Chelsea, num esquema defensivo 4-5-1, era visto como antifutebol. Não é nem apostar no contra-ataque, é um esquema covarde mesmo, contando com o acaso, com o erro alheio. Tem dado certo.

O futebol mudou muito nos últimos anos. Os esquemas defensivos superam os ofensivos, os jogadores são os mais exigidos fisicamente, uma guerra de talentos virou guerra de nervos e até o Brasil joga "feio". Enfim, considerando-se esta nova realidade, o Barcelona é que joga o antifutebol. 



Foto: Acima, a casa Arthur Heurtley, projeto de Frank Lloyd Wright, de 1902. Dá para entendre o arrojo do arquiteto pelo estilo que dominava Oak Park à sua época, como mostra a foto abaixo.




Saturday, May 12, 2012

Compensação


Fiquem tranquilos, pois já compensei as emissões de carbono associadas à leitura deste post (e dos próximos), através da Action Carbone, da Fundação Good Planet. Agora, vocês podem ler mais relaxados ;-)

Muita gente anda compensando as suas emissões de carbono ou equivalente por aí. Tem várias ONGs sérias envolvidas no processo. Se todo mundo fizer o mesmo, salvamos o Planeta?

Obviamente, não. Mesmo considerando que todos os agentes envolvidos sejam honestos.

"Plantar árvores para compensar as emissões de gases de efeito estufa e não tomar ações concretas para reduzí-las na fonte é como pedir um refrigerante light para acompanhar um duplo cheese bacon" (Joel Makower)

Fico especialmente irritado quando uma empresa apresenta-se como "verde" graças ao seu programa de compensação através de reflorestamento. Enganação.

1 - O reflorestamento é um atenuante louvável, mas não pode compensar processos obsoletos, poluidores ou ineficientes. Cabe a todos nós revê-los, buscar caminhos alternativos e mais eficientes para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

2 - O mundo está trabalhando há anos com o conceito de sustentabilidade, que envolve muito mais do que as emissões de carbono. O Pacto do Milênio da ONU é uma boa referência para o assunto.

Enfim, da próxima vez que um fornecedor apresentar-se como "verde", por causa do bosque plantado por ele, ria!


Veja também: Saco! (13/10/2009)


Foto: Acima e abaixo, o Unity Temple (1908) de Frank Lloyd Wright, em Oak Park, nos arredores de Chicago. O arquiteto frequentava a Congregação Universalista e ainda habitava em Oak Park. Este arrojado projeto colocou FLW definitivamente no topo da arquitetura mundial do começo do século XX.



Saturday, May 5, 2012

Choque

França, 2 de maio de 2012. Ao entrar no no escritório da Rhodia em Aubervilliers, periferia de Paris, um colega foi vítima de furto, daqueles bem conhecidos no Brasil: Quebra-se o vidro e leva-se a bolsa. Nenhum dano pessoal, apenas o choque.

Diante de uma situação tão incomum, a administração do prédio, sede de P&D e Informática emitiu um alerta. Entre outras recomendações:

- Travar as portas do carro enquanto dirigir;
- Não deixar bolsas ou objetos de valor visíveis no seu veículo;
- Não deixar a chave no contato mesmo que sair do veículo por um instante;
- Não deixar os documentos no carro.

Para os brasileiros, tais orientações parecem piada, afinal convivemos com a insegurança pública há muitos anos. Se esse tipo de orientação é cada vez mais frequente na França e na Europa, vale ainda algumas ressalvas:

- Foi um furto e não um assalto. Os episódios com armas de fogo são raríssimos.
- Aubervilliers é uma área periférica. Conhecido como subúrbio ruim de Paris, palco de rebeliões e carros queimados, aguardou por muitos anos a definição da sede dos Jogos Olímpicos. A reurbanização da área estaria associada aos Jogos. Com a derrota para Londres, o projeto atrasou. Hoje, o bairro está em plena transformação.
- As poucas ocorrências merecem a devida atenção. Envolvimento de todos e da Polícia garantem que a banalização da violência pela sociedade ainda esteja muito distante.

Com os quatro anos de França, tenho uma coleção de casos de falcatruas e pequenas violências para contar. Algumas delas testemunhadas por brasileiros. Mesmo com a chamada decadência europeia, viver no "rico" Brasil continua muitíssimo mais perigoso.


Foto: Na tomada do lago Michigan, destaque para a Willis Tower (ex-Sears), que ainda é o mais alto dos EUA.

Sunday, April 22, 2012

Picolé de escargot

Comecei a escrever neste blog (e no antigo fotolog) na ocasião da minha mudança para a França, pouco antes do Sarkô assumir o primeiro mandato. Ao longo desses anos, mostrei o que o Presidente tinha de pior. Excepcionalmente, reconheci algumas qualidades.

Apesar de tanto ter insistido na rejeição popular ao Presidente, confesso que sempre acreditei na sua capacidade de virar o jogo e conquistar a reeleição. Nem sempre pelos seus méritos, mas pelos deméritos dos concorrentes.

O único nome que escapava desta incompetência generalizada era DSK, cujo destino é bem conhecido de todos. Se François Hollande (FH) estivesse no Brasil, não seria chamado de "picolé de chuchu", pois este apelido já tem dono. Talvez, "picolé de escargot". Alguns jornalistas da imprensa anglo-saxônica o chamam de "Mr. Normal". Não sei se alguém que proponha um aumento de imposto de renda para 75% possa ser considerado normal.

Plantu lembrou uma velha piada, comparando FH com o maior socialista da História, Cristóvão Colombo: Quando partiu, não sabia para onde ia. Quando chegou, não sabia onde estava. E tudo isso com o dinheiro dos outros!

Agora só um milagre tira a vitória de Hollande no segundo turno. Não foi FH que venceu. Foi Nicolas Sarkozy que perdeu. Perdeu pela imagem de esnobe e elitista que construiu. Pelas reformas prometidas, que deixou de fazer. Pela duvidosa liderança da União Europeia exercida junto com a Alemanha. Pela situação em que deixa o país.

Antes de tudo, a França enfrenta uma crise de sociedade. Há uma dúvida profunda sobre o modelo do país, este Estado tão generoso inserido num capitalismo competitivo, dominado pelos "mercados". E, como se não bastasse, a integração interna (imigrantes) e externa (Europa) são dois problemas cruciais para o futuro deste país. Enfim, não eleger Sarkô é dar uma chance para os ventos da mudança. A virtual eleição de Hollande no segundo turno é acreditar na exceção francesa.


Foto: Um dos cartões postais do Navy Pier (Chicago), a escultura "Crack the Whip" de  Jo Saylors.

Wednesday, April 18, 2012

Louvre Jr.

A abertura de filiais do Louvre sempre suscitou polêmica. É compreensível, pois o apreço pelo tesouro ali guardado é imenso. No final do ano, será inaugurada a filial de Lens (quase na Bélgica) e, mais tarde, a de Abu Dhabi.

O Emirado Árabe receberá pequenos lotes para exposições curtas. Já em Lens, algumas centenas de obras ficarão por meses ou até anos. Lens pediu a Mona Lisa. A resposta foi óbvia: Non!

O Louvre de Lens terá uma diferença em relação à matriz, não será departamentalizado. Em Paris, o museu é dividido em alas: Egito, Roma, Pinturas italianas, etc. Em Lens, prevalecerá uma organização cronológica, onde poderemos ter uma visão mais ampla da Arte, comparando o que era feito em diferentes lugares do mundo à mesma época. Pessoalmente, prefiro assim.

Na realidade, museus menores podem ter uma dimensão mais humana. Talvez com menos obras e mais informações, a experiência da visita possa ser ainda mais rica. Felizmente, pude ir muitas vezes ao Louvre. Devido às suas dimensões gigantescas, sempre acabo pulando muitas coisas.

Uma outra questão com relação ao grandes museus é que grande parte do acervo nem chega a ser exibida. Neste aspecto, o museu deixa de cumprir a sua função social. Um museu não é um cofre, é um canal que permite contato da população com a Arte de todos os tempos. É um espaço de aprendizado, de convívio, de troca e assim por diante. Enfim, mais um ponto a favor da filialização.


Foto: Skyline do centro de Chicago, visto do Millenium Park.

Tuesday, April 10, 2012

Consulado

Quem não conhece o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo? Nas três vezes em que lá estive, fiquei impressionado com a sua máquina burocrática, uma super-estrutura para atender milhares de viajantes. Cheguei a pensar se manter aquilo tudo, inclusive a propriedade do tamanho de um quarteirão, valia a pena. Hoje, está claro: Vale e muito.

As matérias recentes sobre o encontro de Dilma e Obama mencionam a flexibilização da concessão do visto americano aos turistas brasileiros. Em tese, já poderíamos estar isentos desta exigência, graças ao bom balanço das viagens dos brasileiros aos EUA.

Entretanto, na prática, a máquina de vistos é uma fonte de arrecadação considerável do Departamento de Estado dos EUA. Não dá para abrir mão dessa receita. Pelo contrário, agilizar a máquina e inaugurar mais dois consulados no Brasil significa aumentá-la ainda mais.

Bom para os brasileiros que querem viajar, bom para o comércio da Flórida e bom para a Hillary Clinton cumprir seu orçamento.


Foto: Em Chicago, na eclusa entre o Rio Chicago e o Lago Michigan.

Tuesday, April 3, 2012

Jogos Vorazes

Já fiz alguns posts sobre filmes. Em sua maior parte, fiz recomendações sobre os filmes de que gostei. Desta vez, meu intuito é outro. Falo sobre "Jogos Vorazes" ("The Hunger Games"), sucesso de crítica e público. A surpresa é justamente essa, um tema recorrente do acervo da ficção científica (FC) e dos “filmes B” virando "blockbuster" e ainda agradando a crítica. Como pode?

Não contarei muito sobre o filme, a fim de não estragar o programa daqueles que ainda querem vê-lo. A obra é baseada na trilogia de Suzanne Collins - Não li os livros, porém prestigiarei os próximos filmes - Como dizem os especialistas, o cenário é uma Terra “pós-apocalíptica” ou “distópica”, onde as desigualdades sociais são ainda maiores e a repressão faz os autocratas de hoje parecerem amadores. Jovens enfrentam-se num “reality show”, onde vence aquele sobreviver.

Longe de falar em plágio, as semelhanças com outras histórias, especialmente de FC, são consideráveis, mas sem grande ambição e sofisticação. O percurso da heroína Katniss Everdeenbem interpretada por Jennifer Lawrence, segue precisamente a receita clássica de Joseph Campbell.

Metáfora ao alcance de todos, a carapuça dessa sociedade fictícia, desigual, violenta e invasiva, serve ao nosso mundinho. A força do filme é a simplicidade, que combina uma boa produção, clichês da FC, associação íntima com os populares "reality shows" e a redentora jornada do heroi.

Os protagonistas do filme são pobres, mas são limpinhos. O filme é bobinho, mas é bem feitinho.


Foto: Contrastes de estilos arquitetônicos em Chicago.

Saturday, March 24, 2012

O infiel da balança - Continuação

O impacto eleitoral do episódio de Toulouse ainda é indefinido. Apesar do cuidado inicial, agora, ouvimos asneiras de todos os lados.

Sarkozy teria tudo para tirar maior proveito. Se o assassino não era um imigrante, era um francês de origem árabe mal integrado à sociedade. O Presidente usou a sua energia característica para anunciar um pacote anti-terror com medidas de bisbilhotagem cibernética pouco eficazes e pouco apreciadas.

François Hollande soube aproveitar o episódio, criticando o serviço secreto. Entre os dois atentados, houve um intervalo suficiente para se chegar ao criminoso. Boa parte da esquerda, assim como a extrema esquerda, denuncia a teatralização do crime de Toulouse e o risco de disseminação da islamofobia. Na minha opinião, eles o fazem com tanta insistência, que parece islamofilia.

A extrema direita deve estar rindo à toa. Nos anos em que vivi por lá, quase todas as agressões aos judeus vieram de muçulmanos. São inúmeras agressões físicas, pichações e ameaças, que não chegam a ser notícia no Brasil. Neo-nazistas nem precisam se preocupar com judeus. Às vezes, eles atacam muçulmanos, que são milhões e incomodam muito mais.

A maioria esmagadora dos muçulmanos está totalmente integrada à sociedade secular. Entretanto, existem pouco mais de 10 mil fanáticos, com valores muito diferentes. Por razões óbvias, a própria comunidade islâmica não aprecia essa pequena minoria, que faz tanto barulho e estigmatiza a maioria.

Não apenas a França, mas muitos países estão diante de um terrível dilema. Como controlar esse tipo de gente sem violar os princípios que defendemos para todo o resto da sociedade? O colunista de religiões do Le Monde, o ótimo Henri Tincq, postula a mesma questão de forma diferente: "A república laica é suficientemente aparelhada para enfrentar uma tal concepção da religião como ideologia assassina?"

Procuram-se respostas.


Foto: A escultura "Cloud Gate" ou "The Bean" é uma das atrações do Millenium Park, em Chicago. Seu autor é Anish Kapoor.

Tuesday, March 20, 2012

O infiel da balança

Estamos perplexos com os crimes cometidos pelo "assassino da scooter" na França. Quem estará escondido pelo capacete misterioso? Um louco? Não, infelizmente, episódios como este são apenas manifestações esporádicas de sentimentos enraizados na sociedade. Não é o primeiro, e, provavelmente, não será o último.

O próprio impacto político é surpreendente. Digno de literatura.

A disputa presidencial, em sua fase final, está acirradíssima. Os candidatos são extremamente zelosos nas suas declarações, demonstrando muita solidariedade às vítimas. Entretanto, em sua intimidade, estão tensos. Muito tensos. Sabem que o atentado pode ser o fiel da balança num pleito tão disputado.

Se o assassino da scooter for um árabe muçulmano, o recente discurso xenófobo de Sarkozy será premiado. Se o assassino da scooter for um branco fanático, os franceses tomarão como um alerta contra os perigos da guinada à direita, o prêmio vai para o socialista Hollande.

Pelo esforço que a polícia francesa está empreendendo, a resposta poderá vir em breve, a tempo de influenciar o eleitor. Quem será o assassino da scooter?

Numa sociedade em crise, os sentimentos racistas e xenófobos são ainda mais exacerbados. Políticos que invocam tais sentimentos, mesmo que discretamente, brincam com o fogo. A França inventou a democracia moderna, mas ainda precisará de muito tempo para desatar o seu próprio nó.


Foto: Uma outra tomada do Navy Pier.

Sunday, March 11, 2012

É ou não é?

Na última semana, um vídeo oficial da Comunidade Europeia provocou grande polêmica. Veja aqui. É racista ou não? Alguns dizem que o filme abusa dos estereótipos. Outros, que seria "apenas" politicamente incorreto. A voz dos descontentes pesou e o filme não será mais divulgado.

Não sei se chineses, indianos e brasileiros sentiram-se ultrajados. A representação do continente por uma mulher branca foi infeliz, trata-se de um certo desrespeito às próprias minorias que vivem no continente.

E a campanha eleitoral da França? Racista ou não? Marine Le Pen, líder da extrema direita, acusou que a carne consumida em Paris provém de animais abatidos segundo os rituais muçulmanos e judaicos. A resposta de Sarkozy veio a altura da sua opositora. O desesperado Presidente mandou que toda carne halal ou kasher seja muito bem identificada para que nenhum francês tenha dúvidas do que consuma. Imaginem só, um cristão comendo uma carne dessas! Cruz credo!

Ontem, um cronista brasileiro lembrou do aniversário do tsunami que devastou parte da costa japonesa. Comentando sobre o que já havia sido reconstruído, aclamava o povo japonês: Unido, determinado, organizado, etc. A mensagem de uma certa superioridade foi explícita. Diz ele: "Que povo!"

Racista ou não? A Nação japonesa pode funcionar melhor do que a brasileira, mas nenhum povo é melhor do que outro. O acidente de Fukushima só não foi o maior acidente nuclear da história por muito pouco. Um povo "superior" não faria usinas tão vulneráveis, não acumularia uma história de corrupção e escândalos na gestão do seu parque nuclear e talvez soubesse gerenciar melhor uma crise daquela magnitude. Enfim, somos solidários, torcemos pelo Japão, mas somos tão bons quanto eles.


Foto: No Navy Pier, em Chicago. A roda-gigante moderna homenageia o local que testemunhou a primeira delas, durante a Exposição Universal de 1893. À época, a ideia foi uma construção que rivalizasse com a Torre Eiffel, apresentada na edição parisiense de 1889.

Sunday, March 4, 2012

Setenta e cinco?!

Na França, Jean Dujardin continua sendo um ator de segunda. Perdeu o César, mas ganhou o Oscar. O importante é que ele está feliz. Vai aprender um pouco de inglês e passar uma temporada em Los Angeles. As estrelas francesas adoram Hollywood. Os salários de lá não são muito maiores, mas o imposto... Ah, o imposto, quanta diferença!

Dujardin é sério candidato a fazer o que muitos artistas e milionários franceses já fizeram. Argumentam que são cidadãos globais e fixam residência na Suíça, Mônaco, Bélgica, Inglaterra e Estados Unidos.

Sarkozy procurou maneiras de estancar essa sangria. Além de dinheiro, os ricos levam empreendedorismo, ideias e talento. Tudo o que a França precisa. Para decepção do Presidente, a crise europeia não deu margem de manobras.

François Hollande, opositor de Sarkozy nas próximas eleições, por sua vez, quer piorar as coisas. Prometeu criar a alíquota de 75% de imposto de renda. Eu disse setenta e cinco! (Alíquota para renda superior a um milhão de euros anuais, numa tabela progressiva)

O anúncio do candidato do PS tem forte apelo demagógico, afinal a maior parte da população ganha bem menos do que isso. Por outro lado, existe toda uma categoria de artistas, esportistas, empresários e executivos, que será duramente penalizada.

A proposta é digna de um partido que se diz socialista. Aliás, neste assunto, fica bem mais claro quem é de direita e quem é de esquerda no país.

Muitos já deixaram a França por causa da alíquota atual de 40% e do imposto sobre o patrimônio. Uma parte da família mais rica da França, os Mulliez, donos do Auchan, Leroy Merlin, Décathlon e outras redes do varejo, mudou-se para a Bélgica. Moram numa cidadezinha da Valônia. Atravessam a rua e estão na França.

O pessoal do mercado financeiro prefere Londres. Aqueles que teimam morar em Paris, usam a ponte aérea ou o trem-bala que une as duas cidades. Como exceção às fugas, alguns ricaços saíram de Paris e foram morar no próprio "château", pois uma propriedade agrícola produtiva paga bem menos impostos.

Imaginem a futura França de Hollande! Ainda quero crer que seja um "tudo ou nada" eleitoral para arrancar Sarkozy da Presidência.

Numa economia de mercado, uma alíquota maior do que 50% me parece ser mais punitiva do que distributiva. Com 50%, você tem o Governo como sócio. Com 75%, a relação é de vassalagem.


Foto: Navy Pier em Chicago.

Sunday, February 26, 2012

Além do sashimi 2

No Brasil, a questão em torno dos restaurantes japoneses é de outra natureza. Alguns deles, entre os menos sofisticados, andam trocando salmão por truta (truta salmonada), enfurecendo inúmeros clientes. A razão dos restaurantes é puramente econômica, pois a truta é mais barata.

Se a fúria dos consumidores faz todo sentido, por que algo lhes foi ocultado, na prática, a substituição do salmão pela prima truta não é tão grave. Vejamos as supostas diferenças:

1) Cor: A truta recebe aditivos sintéticos para mudar de cor. Assim como o salmão! Não é novidade que o salmão criado em cativeiro é branco, ao contrário do selvagem.

2) Valor nutricional: São muito semelhantes e, principalmente, saudáveis.

3) Paladar: O salmão costuma agradar mais nos sashimis e sushis, quando bem feitos e consumidos na hora. Cá entre nós, se a comida for servida num buffet ou enviada via delivery, pouco importa a diferença. Nada contra uma porção de sushis entregue em casa, ainda é mais saudável do que muita coisa que encontramos por aí.

4) Visual: O aspecto visual do salmão supera ligeiramente a truta salmonada. A beleza mesmo que sintética do salmão acabou seduzindo o mundo e virou símbolo onipresente da culinária nipônica. É só uma questão de hábito.

Deixando os restaurantes japoneses populares de lado, sabemos que os melhores sushimen adaptam o cardápio à oferta do mercado. Se um peixe está em falta, escolhem outro abundante e com qualidade para compor um prato. Em qualquer bom menu-degustação japonês, o salmão tem uma participação marginal, sendo que outros peixes com menos cor e mais sabor roubam a cena.

Algo importante pesa contra o salmão, tão afetado por inúmeras doenças. As fazendas chilenas e de outros países têm lutado freneticamente contra a sua grande mortandade através do uso de antibióticos. A prática levou a diversos bloqueios no comércio de salmão. Se existem razões reais para escolher um entre os dois primos, esta é das mais relevantes.

Enfim, continuo sendo um devorador de salmões de todas as cores e sem preconceitos contra truta. Vou a restaurantes japoneses de todas as categorias e tenho um nível de exigência diferente com cada um. Se o governo brasileiro nos der uma opção para tomar menos antibióticos, seremos gratos.


Foto: Pausa para café às margens do Rio Chicago.

Sunday, February 19, 2012

Além do sashimi 1

Um colega de Cingapura trouxe a esposa para passar uma semana na França. Por conhecer melhor Lyon e Paris, fui seu anfitrião. Foram vários passeios e refeições.

Eles estavam naquela fase de namoro com a "crème brûlée". Era a mesma sobremesa toda noite! Um dia, em Paris, fomos a um restaurante japonês. Na hora da sobremesa, fechamos a conta no "japa" e mudamos para um francês autêntico. Eu também tive a minha fase "crème brûlée" há muitos anos.

O que me faz escrever este texto não foi a sobremesa, mas o restaurante japonês. A comida agradava, enquanto o serviço deixava a desejar. Estava incomodado por não proporcionar um ótimo jantar ao casal, tão habituado às melhores mesas de Tóquio, Seul e Xangai.

De repente, a esposa do colega chamou uma garçonete. Levantou a voz e deu-lhe um esporro. Um daqueles humilhantes, inaceitáveis nos dias de hoje. Era mandarim, não entendi nada. O serviço melhorou e a gente fingiu que não aconteceu nada. Tenho certeza que elas se entenderam.

Os amigos de Cingapura perceberam que todos os empregados do restaurante eram chineses. Daí, a intimidade. Na França, eu sempre tentei fugir dos restaurantes japoneses dirigidos por chineses, porém eles são a maioria.

Meu colega veio à França várias vezes e passamos por muitos restaurantes japoneses. Na sua opinião, até hoje, o melhor de todos foi um restaurante japonês kosher, frequentado pelos judeus sefaraditas de Lyon ;-)


Foto: Um belo barco diante do Navy Pier, no Lago Michigan. Os passeios de barco pelo lago e pelo rio estão entre ps melhores de Chicago.

Saturday, February 18, 2012

Qual é o programa de domingo?

Plantu, o cartunista do Le Monde, já foi tema deste blog em setembro de 2010. Assim como ironiza políticos e personalidades da vida pública, o autor não poupa as religiões. No post de 2010, coloquei o desenho que despertou mais críticas até então, aquele com Jesus distribuindo preservativos.

Foi um outro desenho de 2010, que, finalmente, colocou Plantu no banco dos réus. Agora, são os católicos conservadores da França contra Plantu. Mais uma vez, compartilho o desenho com vocês (vide abaixo). O seu título é "Pedofilia: O papa toma posição". Era época de eleições regionais na França e o garotinho diz: "Ainda que tenha que ser enrabado no domingo, é melhor ir votar".

O argumento dos católicos tradicionalistas para atacar a liberdade de expressão é tão ridículo como aqueles de quaisquer conservadores de outros credos. É bem verdade que alguns extremistas preferem acertar as contas fora dos tribunais.


Foto: No Millennium Park, o Pritzker Pavillion, projetado por Frank Gehry, palco de grandes concertos e shows musicais em Chicago.

Saturday, February 11, 2012

Meu enésimo post sobre greves

Vocês têm o direito de pensar que este blogueiro também estava em greve. Não faltam boas causas. Não faltam bons e maus exemplos. No meu caso, a longa ausência deveu-se a coisas mais mundanas como viagens, agenda lotada, horas perdidas no trânsito de SP, etc.

Ideias não faltam, mas ainda hesito em enviar um texto a partir do telefone. Nem que seja para escrever um parágrafo, ainda prefiro me sentar diante do obsoleto micro, escolher uma foto e fazer tudo com calma. Pelo menos no meu blog.

Hoje é dia de greve geral no Egito e na Grécia. Os gregos têm bons motivos para fazer uma greve geral. Mas, cá entre nós, você confia num país que marca greve geral para sexta e sábado? Fica algo entre um feriadão forçado e uma greve que não atrapalha tanto. Na dúvida, não compre títulos gregos!

A França entende mais de greve. Normalmente, é no meio da semana, de terça a quinta. Sem colher de chá! Greve é algo tão sério, que a última paralisação da Air France não foi uma reivindicação por salários ou melhores condições de trabalho. A polêmica maior é em torno do aviso prévio para as próximas greves. Pode?

Em se tratando de greves, a pérola foi a greve dos desempregados, ocorrida na França em 2010. Parece piada. Desempregado em casa ninguém percebe, mas quando eles resolvem não fazer nada no meio de uma avenida importante, atrapalham bastante! Só não faço piada com as greves das PM (Bahia e Rio), por que meu blog ainda é muito família.


Foto: A escultura "Forever Marilyn" enfeitando uma esquina de Chicago. Merece duas fotos, acima e abaixo.



Wednesday, January 25, 2012

Foursquare

No dia 24/01/12, completei dois anos de uso do Foursquare, aquela rede social baseada em geolocalização. Comecei em Lyon. Eram tão poucos usuários, que cadastrei inúmeros locais da cidade, especialmente restaurantes.

Rede social precisa de massa crítica de usuários para funcionar, senão não é rede, nem social. O legado desta fase francesa foi pegar o hábito de fazer o “check-in” nos lugares que visito.

O Foursquare é muito mais interessante nos EUA. Com milhões de usuários, quase todos estabelecimentos já estão cadastrados. Há muitas promoções baseadas no Foursquare. O melhor de tudo é pesquisar lugares para ir. Você descobre o que existe ao seu redor, lê os comentários sobre eles e ainda pode saber quais deles estão “bombando” naquele momento.

São Paulo ainda está aquém das grandes cidades americanas. Porém, já começa ser bem interessante. Nesses dois anos, gostei mais de:

- Utilizar o serviço para descobrir endereços interessantes.
- Organizar uma lista de lugares a conhecer.
- Ser avisado quando algum conhecido estiver no mesmo local.

O Foursquare premia seus usuários com pontos, "badges" e "mayorships". Acumular pontos não tem muito sentido para mim. "Badges" até que são legais. "Mayorships" costumam dar privilégios, como por exemplo, uma sobremesa de cortesia num restaurante.

Enfim, tenho gostado do serviço. Meu conselho é não conectá-lo automaticamente ao Facebook e ao Twitter para não poluir a "timeline" dos seus amigos. O mapa com as minhas estatísticas de uso do Foursquare é bem interessante.


Foto: Em destaque, a Trump Tower de Chicago. Projeto do escritório Skidmore, Owings & Merrill, um dos mais destacados da atualidade. O projeto original previa um edifício ainda maior, mas o atentado de 11/9 levou a objetivos mais modestos.

Monday, January 23, 2012

A Separação

Finalmente, assisti “A Separação” (Asghar Farhadi, 2011), o filme iraniano que levou o Globo de Ouro e é sério candidato ao Oscar. Graças ao prêmio, ele voltou a um circuito considerável em São Paulo. Aproveitem logo, por que vem aí uma nova safra de Hollywood, bem mais digerível que este drama persa.


Sim, o filme não é nada divertido, mas é uma história incrivelmente bem contada. Tudo começa com um pedido de divórcio, cuja evolução surpreende, mantém o suspense até o final e nos ensina a compreender um pouco mais a cultura deste "inimigo do Ocidente". Cinema de primeira linha.


O autor do guia de cinema mais famoso do mundo, Leonard Maltin, ressalta que grande parte da trama poderia acontecer em qualquer lugar, tendo algumas particularidades exclusivas do Irã. Esta universalidade faz o filme ser notável. Pego o gancho do Maltin para minhas duas observações:


1) As particularidades do Irã são essenciais no filme. A cultura persa e o Islã estão presentes do começo ao fim. No clímax do filme, quase no final, o Corão faz toda a diferença no destino dos protagonistas.


2) Por outro lado, o filme mostra um outro Irã, não aquele conhecido pela estúpida teocracia e seu  capacho-mor, Mahmoud Ahmadinejad. “A Separação” mostra pessoas comuns como nós, empreendedores e empregados, funcionários públicos, muçulmanos praticantes e outros nem tanto, e assim por diante.


Não posso contar mais nada sobre o filme. Quem gosta de cinema e quer aproveitar a oportunidade para um mergulho na sociedade persa, não deve perdê-lo.


Foto: Em Chicago, bem no centro da cidade, os arranha-céus de ontem e de hoje mostram por que a cidade é um "museu da arquitetura". Voltaremos a alguns desses marcos nos próximos posts.