Showing posts with label Imprensa. Show all posts
Showing posts with label Imprensa. Show all posts

Thursday, January 14, 2016

Fábula

Nas minhas últimas viagens pela Europa, entrou em cena o quase esquecido passaporte. O sonho das fronteiras livres já era. Com os controles de identidade e de bagagens, as viagens de trem perderam um pouco da praticidade habitual e do seu charme.

Na França, a discussão mais quente do momento é sobre a retirada da nacionalidade francesa dos indivíduos com dupla-nacionalidade envolvidos com o terrorismo. Parece bobagem, mas é algo que racha o Governo e, de certa forma, toda a nação.

Dividida mesmo está a Alemanha. Os eventos recentes de Colônia colocam lenha na fogueira da discussão sobre os refugiados e imigrantes. Apesar dos esforços da Angela Merkel para promover a nação acolhedora, o sentimento anti-islâmico só aumenta.

Nesse clima tenso, lembrou-se do primeiro aniversário do atentado à redação do Charlie Hebdo. O jornalzinho satírico estava quase falido ao final de 2014. Graças à visibilidade pós-atentado, as vendas em banca foram multiplicadas por 5 e as assinaturas, por 18. O jornal está com um dinheirão em caixa.

Tudo isso poderia ser uma justa compensação para a heroica equipe do Charlie. Infelizmente, as coisas são bem mais complexas. O humor do jornal é para poucos - humor negro e politicamente incorreto. Muitos milhares de novos leitores manisfestaram seu apoio à liberdade de expressão contribuindo com o tabloide, mesmo sem concordar com o seu conteúdo.

Nesta fábula pós-moderna, os jornalistas sob constante ameaça viram seus cofres encherem da mesma forma que os protestos, as críticas e as ações judiciais. A equipe está exausta e com saudades dos tempos de dureza.



Foto: Nas férias de verão, passei pelo Château du Champ de Bataille (Normandia).

Sunday, April 26, 2015

Club Med

Após alguns dias sem tragédias como atentados, quedas de aviões ou jornalistas degolados, a imprensa europeia pode finalmente dar um pouco de atenção à sua vigésima sétima prioridade, os imigrantes que fogem da África.

O naufrágio da última semana pode ter sido marcante, mas o evento é recorrente. Toda semana tem algum evento trágico ligado aos africanos que tentam fugir para a Europa. Se os cadáveres africanos no Mediterrâneo não aprodecessem, já haveria uma ligação da África à Itália.

Se fui irônico nos dois primeiros parágrafos deste post, é por que começo ver muita gente perguntando-se como podemos ignorar tamanha tragédia por tanto tempo.  A pressão nos governos para uma solução humanitária aumentou.

Os países europeus não estão abertos à uma nova onda de imigração e tampouco têm uma economia em boa forma. Entretanto, os inúmeros conflitos da África e Oriente Médio tem gerado uma massa crescente de refugiados. Dá para fingir que não acontece nada longe da “civilização”, mas não à porta de casa.

Depois do terremoto do Nepal, tudo voltou à normalidade. Os imigrantes africanos que perecem no Mediterrâneo voltaram para a página 27 dos jornais.




Foto: Para fechar esta série de fotos de Antuérpia, a estátua e fonte de Brabo (soldado romano) diante da prefeitura da cidade na Grand-Place.

Saturday, January 24, 2015

#JeSuisMusulman


Os atentados e as manifestações ficaram para trás, mas o debate continua por aqui. Não é para menos, a questão é muito complexa. Pouco fala-se da grande maioria fiel às causas republicanas,  o “x da questão” é a minoria discordante.

Uma minoria sem dúvidas. Porém, uma minoria de muitos milhares de jovens da periferia.  São aqueles que não respeitaram o minuto de silêncio em homenagem às vítimas, que aderiram às teorias conspiratórias ou que apoiaram explicitamente os terroristas.

É desse meio que saem inúmeros djihadistas. É desse meio que saem futuros terroristas. As periferias das grandes cidades são incubadoras do radicalismo. A França pergunta-se onde errou. Depois de gerações de imigrantes que lutaram pela integração, deparam-se com um sério revés, confrontando-se com a afirmação religiosa e a negação da democracia.

Como disse no primeiro post sobre o tema, misturam-se fatores econômicos, sociais, culturais, entre outros. Os holofotes estão na Educação. Com certeza, há alguma coisa errada nas escolas. Bem, eu não queria estar na pele dos professores, que dão aulas em salas onde  metade dos alunos chama-se Mohamed.

Circulando pelas ruas de Paris e Bruxelas, ainda percebemos o estado de alerta. Soldados e policiais estão em todos os lugares, sem contar o pessoal da inteligência. Para acompanhar um potencial terrorista, a França mobiliza um overhead de 20 a 25 agentes. A ameaça terrorista em si é capaz de sangrar ainda mais a já combalida economia.

Se existe um lado menos triste nesta história, é a visibilidade que ganhou o quase falido Charlie. Graças aos terroristas, suas caricaturas espalharam-se pelo mundo. Nunca a blasfêmia fez tanto eco. Maomé tem mesmo que chorar.



Foto: Um outro cantinho simpático de Bruxelas, perto de casa, o Egmont Park, que abriga a "brasserie" mostrada na foto.

Monday, January 12, 2015

#JeSuisJuif


Apesar de todas as vítimas dos atentados ocorridos em Paris, no meu último post, falei mais do Charlie Hebdo para ajudar o leitor deste blog a entender melhor o ocorrido. Diante de tamanha demonstração de solidariedade, ainda fico surpreso com aqueles que não compreenderam o espírito do jornal. E são muitos.

Na sua linha libertária, ele ataca qualquer tipo de autoritarismo e extremismo, com o intuito de defender as liberdades individuais. Por exemplo, é um grande combatente de qualquer forma de racismo e tem como alvo preferencial a extrema direita francesa.

É um jornal de esquerda. Aquela  esquerda de 68, inocente e irresponsável, como tanto se repetiu nos últimos dias. E a religião como fica?

Quem luta pelas liberdades individuais e pelo Estado laico luta pelo direito de qualquer um exercer a sua religião. O Charlie, no fundo, é um grande aliado das minorias religiosas. Simples assim. A questão é que ele segue a tradição francesa de ser anti-clerical. Defende os praticantes, mas não o aparelho religioso em si. Viva os católicos, abaixo o Vaticano! Viva os muçulmanos, abaixo os aiatolás!

Se existe algo de sagrado neste mundo é a vida humana. Quanto mais pessoas acreditarem nisso, menor será a nossa disposição para fazer guerras ou atentados. Na medida em que alguns colocam símbolos ou mitos acima de uma vida humana, a disposição para a barbárie aumenta. O princípio do Charlie é que todas as pessoas merecem respeito e não suas crenças. É por isso que sentem-se tão à vontade para atacar símbolos e mitos.

O Charlie não nasceu ontem. A crítica dura aos extremismos e, em particular, às arbitrariedades do Clero, faz parte da laicidade francesa há algumas décadas, agradando gregos e troianos. Ou melhor, cristãos, judeus, e muçulmanos. Afinal, o que aconteceu?

Honestamente, desconheço todos os fatores que criaram as correntes islâmicas radicais nas periferias das cidades europeias. Arriscaria a dizer que, se todos tivessem empregos, certamente teriam menos tempo para ouvir pregações extremistas. O fator econômico tem um peso com certeza, mas está associado a muitos outros.

O outro fenômeno recente é que esse extremismo islâmico incorporou o antissemitismo. Também desconheço as suas reais razões. Solidariedade à causa palestina é conversa pra boi dormir. Acredito mais na linha de que Israel seja uma pedra no sapato de muita gente. Gente que financia o terror, gente que odeia o Ocidente, gente que detesta a democracia. Precisa falar mais?

Os jornalistas se foram. A vida continua. O Charlie Hebdo está de volta mais forte.

Os judeus se foram. A vida continua. A terceira maior população judaica do planeta está de volta, senão mais forte, com a proteção de quase 5 mil policiais.

Muito triste.

Hoje, tive uma boa conversa com um executivo muçulmano. Comentei que conhecia alguns judeus franceses considerando a saída do país. Ele deu o recado: “Diga a eles que sair é dar a vitória aos terroristas. Eles devem ficar para ajudar a França”. Recado dado ;-)

Para fechar, gostei muito da fala do primeiro ministro, Manuel Valls, mostrando respeito e o verdadeiro espírito republicano:  “A França sem os judeus da França não é mais a França”.



Foto:  Um dos poucos bairros verticais de Bruxelas, na proximidade da estação de trem (Norte).

Saturday, January 10, 2015

#JeSuisCharlie



Estou na França há alguns dias e pude acompanhar de perto os trágicos eventos: os atentados, as perseguições, as manifestações, os debates, os discursos, etc. Só me resta escrever um post sobre o assunto e passar na banca para comprar a edição especial do Charlie Hebdo na próxima quarta-feira, se é que vai sobrar algum exemplar.

O Charlie foi mencionado uma vez neste blog. Para quem não se lembra, foi “um post para maiores”. 

O cartunista do Le Monde, Plantu, frequenta mais este blog. A razão é simples, eu assinava o Le Monde e comprava o Charlie Hebdo muito raramente. O Charlie tem seus méritos, mas existem outros tablóides satíricos por aqui.

A França construiu uma sólida tradição laica ao longo do último século. A imprensa, representada especialmente pelos jornais satíricos, tem sido grande vigilante deste valor francês. É por isso mesmo que os jornais como Charlie eram muito críticos a qualquer forma de fanatismo religioso, disparando farpas contra o Vaticano e o Islã com muita frequência.

A essa altura, vocês já devem estar familiarizados com o tipo de crítica feita pelo Charlie, pois seus desenhos rodaram o mundo. Ou melhor, quase todo o mundo, pois mexer com religião ainda é tabu. Nos Estados Unidos, a maioria dos jornais não reproduziu os cartuns do Charlie, apesar de ter manifestado solidariedade desde a primeira hora. 

Se os petistas reclamam da “mídia reacionária”, não imaginam o que seria deixar a equipe do Charlie passar uma temporada no Brasil. O Charlie e seus congêneres pegam muitíssimo mais pesado. Fez bobagem? Falou besteira? Lá vem um cartun para desmontar qualquer um. Aliás, o próprio Charlie Hebdo foi criado após a extinção de uma outra publicação, que não respeitou nem o funeral do “intocável” De Gaulle.

O Charlie já havia sofrido um atentado e vivia sob ameaça permanente, mas não deixou de ridicularizar o fanatismo islâmico. Corajoso. Bravo. Heroico. Quantos já não se curvaram?

Se os cartunistas franceses são os guardiões dos valores republicanos mais profundos, os políticos decepcionam. E como! Para garantir os votos da comunidade muçulmana, eles fazem concessões, facilitando o comunitarismo. A laicidade tão cara ao francês corre risco. Fala-se muito da islamofobia. Fala-se pouco da islamofilia.

A questão do terrorismo islâmico interno é complexa. Atentados como esses alimentam o preconceito contra a comunidade árabe. Se já é difícil para um cristão branco conseguir algum emprego, o jovem filho de imigrantes da periferia fica ainda mais sem perspectiva. Abraçar a religião com fervor pode ser visto como salvação. Um círculo vicioso.

É notório que a rejeição ao “amálgama” foi unânime. Essa é a expressão que os franceses usam para a possível generalização associando terroristas e muçulmanos.  Nem a Marine Le Pen entrou nessa.

Qualquer um sabe que a enorme maioria da comunidade islâmica é composta de pessoas do bem, como qualquer um de nós. Ela também é uma grande vítima das suas ovelhas negras. Discutir se ela de alguma maneira faz parte da luta contra o radicalismo é um assunto polêmico.

Para fechar este post, retomo o desfecho dos eventos, com a morte dos terroristas. Se não fosse assim, estaria zombando do governo francês. Assim como no Brasil, onde as prisões são academias do crime, na França, elas são a universidade do terrorismo islâmico. Deixar esses animais na cadeia seria de extrema irresponsabilidade. Só não perguntem por que eles não se mataram depois dos atentados. Bem, já não se faz mais terroristas islâmicos como antigamente.



Foto: Continuando a série de fotos descompromissadas de Bruxelas editadas pelo Google, uma tomada do parque “Trois Fontaines” (precisamente em Vilvoorde), com destaque para seu restaurante, que serve de alternativa à cantina do trabalho.

Saturday, December 7, 2013

Mandíbula


Agora ninguém mais segura, entramos no clima de Copa do Mundo. Com a realização do sorteio das chaves, a elite do pensamento nacional começa uma longa fase de conjecturas. Logo mais, aparecerão os "bolões". Aqueles nos quais você coloca toda sua sapiência e conhecimento futebolístico, mas, no final, quem ganha não sabe nem o que é impedimento.

Não tenho nada contra o mundo mágico futebol. Pelo contrário. Só espero que sobre algum espaço na mídia para se continuar tentando melhorar o país, investigando e denunciando.

Nos últimos dias, cheguei à conclusão que a imprensa deve dar mais espaço ao ex-presidente Lula. Deixem-no falar. Dêem-lhe cordas. A história recente do país só tem a ganhar.

A mídia assinalou muito bem três lapsos recentes de Lula. O primeiro foi o escandaloso "estamos juntos", dito pelo telefone ao presidiário José Dirceu. Dispensa comentários.

No segundo, talvez menos espetacular, disse "a lei só vale para o PT", reconhecendo que o STF, liderado pelo lunático Joaquim Barbosa, aplicou a lei.

Ontem, ao receber o título de doutor honoris causa da UFABC (!), dirigiu-se a Dilma e esbravejou: “Depois que ele se forma doutor, não espere que ele ficará agradecido. Ele vai para a rua fazer manifestação contra você”. Lula finalmente reconheceu que as manifestações também foram contra o governo petista, contrariando todo o esforço dos seus companheiros.

Enfim, deixem o Lula falar! Atos falhos podem não ser aceitos como provas criminais, entretanto a sociedade clama por esclarecimentos sobre seus laranjas, filhos e amantes. O Brasil sempre sonhou ter um líder como Madiba, mas ganhou mesmo uma grande mandíbula.


Foto: Montagem com algumas fotos tiradas no zôo de San Diego, um dos melhores e maiores parques do gênero do mundo.

Tuesday, November 12, 2013

Êh São Paulo...


Os jornais paulistanos estão num momento particularmente interessante. Escândalos de corrupção sempre são notícia, mas nem sempre eles surgem ao mesmo tempo nas três esferas do poder! A teia da roubalheira está presente no município, no estado e na federação. Ela engloba diferentes partidos e as mais diversas áreas da administração pública.

Jamais duvidei da abrangência da corrupção na nossa cidade e estado. Ver o jornal recheado de notícias de corrupção local serve de alerta àqueles que acham que São Paulo carrega um fardo, por sustentar um país corrupto e atrasado. Não temos moral para falar do Sarney ou do Collor. Além do mais, a máquina que assola a nação foi desenvolvida pelo PT de São Paulo!

Leitores, não é preciso ficar com vergonha de São Paulo! Muito pelo contrário. Tanto o município como o estado são os mais bem aparelhados do Brasil. Bastam alguns bons funcionários públicos para que as irregularidades apareçam.

Temos que enaltecer o papel da imprensa. Em São Paulo, ela tem mais recursos e liberdade para investigar e denunciar. Talvez o Estado e a Folha não sejam os mais perfeitos exemplos de imprensa independente do planeta, mas no resto do Brasil é muito pior. Sem contar nossos grotões, onde eliminar jornalistas é rotina.

Muito provavelmente, a maioria dos denunciados pelas últimas edições dos jornais paulistanos não irá para a cadeia. Isso não é motivo de descrença. De alguma forma ou de outra, eles serão punidos, terão bens bloqueados, perderão cargos e seus parentes serão expostos à humilhação. O mais importante é que estejamos complicando cada vez mais a vida dos desonestos e, é claro, servindo de exemplo para o Brasil.


Foto: Outra tomada de Gante, na Bélgica.

Sunday, August 4, 2013

A capa

Há alguns dias, recebi uma nobre encomenda: preparar uma visão de longo prazo. Não exatamente fazer um plano estratégico, mas descrever o mundo em 2020.

Depois de duas horas e meia de reflexão e mais o mesmo tempo de Powerpoint, estava pronto. Modéstia à parte, muito mais bem feito do que os slides divulgados pelo Snowden.

Precisei de duas horas de meia de Powerpoint, pois estava usando um micro novo. Perdi tempo com um teclado diferente. Já com relação ao tempo de "brainstorming", foi o necessário para colocar as ideias que vagavam pela minha mente numa sequência apresentável. Na prática, pensei no assunto muito mais do que duas horas e meia .

Com o intuito de ser bem ilustrativo, entre os inúmeros slides, mostrei algumas manchetes de 2020, como se fossem capas dos principais jornais e revistas da época.

Neste post, não falo sobre as notícias em si, mas pergunto se realmente teremos tais manchetes em 2020? Alguém vai ligar para a capa da versão impressa do New York Times? Ou para o seu site? Vai existir o New York Times? Vai sobrar algum jornal impresso?

No meu Powerpoint, pedi licença para seguir com os exemplos de notícias. Uma licença didática para continuar com tamanho anacronismo. Em 2020, teremos notícias. Não serão capas do Wall Street Journal ou do Estadão, mas chegarão até nós de alguma forma.

Além dos nossos inseparáveis smartphones, esperamos por uma nova geração de produtos conectados: óculos, relógios, roupas, tatuagens, chips sob a pele, etc. Sem contar nossos carros e casas, que estarão igualmente conectados. Receberemos mensagens e informações permanentemente.

No meio dessa abundância de informação, onde poderemos instalar filtros para escolher as notícias preferidas, não existirá mais espaço para a capa da Veja ou a para a primeira página da Folha. A imprensa escrita pode ter seus defeitos, mas a distribuição de notícias numa folha de papel ou num site ajuda-nos a formar a visão do todo ou a estabelecer o peso das coisas. Perderemos tais referências?

Imagino que a maioria dos leitores já esteja se acostumando a navegar pelas notícias no hiperespaço, pulando de um site para o outro. É só uma questão de hábito. Quem sempre procurou informação, saberá onde encontrá-la, assim como ainda existirão milhões de alienados, mesmo que - literalmente - envolvidos  pela informação.

Novos conceitos deverão surgir para substituir as referências da mídia impressa. Imagino coisas como os já conhecidos "mais lidos", "mais comentados", "mais curtidos", "mais retuitados", etc.

Em 2020, estaremos um pouco mais velhos. Sentiremos saudades ao passar pelas bancas de jornais e perceber que lá já não há mais nenhum jornal ou revista à venda.

   
Foto: A Praça do Mercado e o Campanário Belfort (1240), em Bruges.

Tuesday, July 2, 2013

Tarde da noite

Felizmente, a televisão belga transmitiu a final da Copa das Confederações. Era muito tarde, mas valeu ficar até o final para ouvir o locutor dizer que, com um Brasil jogando daquele jeito, nem a seleção da Bélgica resistiria.

A Copinha acabou e ninguém mais fala do nosso futebol e nem das nossas manifestações. Não dá mesmo para competir com Egito e Turquia!

Dia desses, o ex-ministro francês Bernard Kouchner esteve num programa de TV, daqueles debates de final de noite típicos da TV francesa. O jornalista perguntou-lhe sobre as semelhanças entre os movimentos turco e brasileiro. O ex-diplomata foi curto e grosso: "Nenhuma". Também valeu ficar acordado para ver a cara de tacho do entrevistador. Segundos depois (pareceu uma eternidade), Bernard discorreu melhor sobre o assunto.

O Courrier International, jornal que sintetiza a imprensa mundial, por sua vez, diz que há muito em comum entre o Brasil e Turquia, explicitando a movimentação das “novas classes médias”.

Há algumas semanas, li alguns artigos sobre a Turquia. Uma matéria do Economist sobre os métodos de Erdogan me surpreendeu. Não imaginava que o Erdogan daqui já teve dois mandatos e elegeu a sua sucessora.

Acima, mais uma foto do "legado" da Expo 98 de Lisboa. Abaixo, selecionei quatro cartuns da imprensa internacional sobre as manifestações no Brasil. Os autores são Patrick Chappatte (dois primeiros), Arcadio Esquivel e Osvaldo Gutierrez Gomez.





Saturday, April 27, 2013

Fantasma I


Nesta semana, foi divulgado que o The New York Times distribuirá uma coluna assinada pelo Lula. Escárnio geral nas redes sociais. Quem será o "ghost-writer"?  Desde quando o Lula escreve alguma coisa? E assim por diante.

Pode ser engraçado, mas é puro preconceito. Políticos, empresários e celebridades usam o legítimo recurso do "ghost-writer". Não é imoral nem anti-ético. A simples falta de tempo para se escrever um bom artigo justifica a contratação de um profissional.

A boa prática consiste em "brifar" o escritor. Ou seja, passar as grandes linhas do artigo e a mensagem principal. A forma exata da interação entre o autor e o escritor depende da personalidade de ambos.

No caso do Lula, não restam dúvidas de que, após dois mandatos presidenciais e uma longa vida de militância, ele tenha coisas para contar. Só numa recente palestra ao poderoso sindicato dos automobilistas americanos, a UAW (vale à pena, mesmo com uma hora de duração), Lula "brifou" uns quatro artigos. Apesar de ter levado o seu discurso em papel, ele parte para o improviso aos 9 minutos.

Também tenho minhas diferenças com o Lula, mas quero que ele conte suas histórias, mesmo que seja da prisão.


Foto: Ainda pelas ruelas de Eze.

Thursday, April 25, 2013

Eu uso óculos!

Quem não achou graça naqueles gráficos apresentados pela TV venezuelana durante as eleições? Só para refrescar a memória, tem uma amostra logo abaixo. Uma manipulação tão explícita e grotesca é fácil de ser percebida. Milhões de pessoas notaram e ironizaram a televisão chavista. Porém, trata-se de um caso extremo.


O maior desafio não está na identificação das manipulações grosseiras e sim daquelas mais sutis. Aquelas que passam desapercebidas. Ou quase. Presto especial atenção aos gráficos apresentados pela mídia. Seja por incompetência, imprudência ou ma fé, a imprensa está infestada de distorções importantes.

Os gráficos são um convite à ilusão. Recursos matemáticos legítimos podem salientar o que nos interessa sem a necessidade de se falsificar números: Mudam-se as escalas, jogam-se com as unidades, deslocam-se os eixos e assim por diante. E não são apenas os escroques da esquerda bolivariana capazes de tamanha ousadia. A Fox, veículo oficial do que os Estados Unidos têm de pior, não engana mais ninguém.

Este post não é contra a mídia. Pelo contrário, gosto mesmo de veículos com personalidade e posição definida. Essa história de neutralidade e pluralidade é bobagem.

Por definição, toda informação tem algum grau de distorção, por menor que seja. Ao longo da vida, ao acumular educação e conhecimento, formamos uma vasta coleção de lentes. E assim, para cada fonte diferente, escolhemos o par de óculos correto, aquele que corrige tais distorções. Bem, isso é para quem pode, pois a grande maioria nada vê.  


Foto: Voltando às fotos do último verão, os caminhos de Eze.

Thursday, May 19, 2011

Não é o que você está pensando

Se DSK está numa péssima situação, aqui no Brasil, Palocci não chega a tanto. Afinal, em menos de duas semanas, é o segundo ministro "blindado" por Dilma. Livre do fogo da classe política, dominada pelo governo, resta à imprensa o papel de desmascará-lo. Mais uma vez.

Flagrado pela milagrosa multiplicação do seu patrimônio, as desculpas do Palocci são cômicas. Parece aquela cena clássica, na qual um marido chega em casa, surpreende a esposa com outro homem na cama, e aí, ela diz: Não é o que você está pensando!

Aprecio o governo da Dilma, mas lamento a persistência no mesmo erro do seu antecessor, de ampla tolerância à corrupção. A corrupção no primeiro escalão do governo é especialmente perversa, pois serve de exemplo a toda uma classe de servidores públicos.

Lula e Dilma tinham cacife para dar um basta neste comportamento histórico dos nossos políticos. É claro que se trata de uma longa caminhada. Mas, alguém precisa dar o primeiro passo.


Foto: Uma outra tomada do resort na praia do Forte (Bahia).

Saturday, July 17, 2010

Salvem os blogs!

Já que os jornais e as emissoras de televisão são geralmente submissos aos caprichos do Governo, a blogosfera tem sido a salvação da imprensa mais ou menos livre. O deputado Gerson Peres, PP/PA, recém integrante da tropa dilmista, quer acabar com essa exuberância democrática, através de um projeto de lei que coloca rédeas nos blogueiros do Brasil.

Mesmo sem PNDH 3 ou a lei acima, o Brasil ocupa a septuagésima-primeira posição no ranking de liberdade de imprensa dos repórteres sem fronteiras. O site da ONG sintetiza:

Brazilian journalists are exposed to serious risks in some parts of the country, especially when they cover sensitive subjects such as corruption, trafficking or environmental issues. The media are often the target of judicial harassment by local authorities.

The leading daily O Estado de São Paulo and its website Estadão have been subject to a similar order since 31 July 2009 forbidding them to publish any information about court cases involving businessman Fernando Sarney, the son of former President José Sarney (who is now senate speaker). Unfair distribution of state advertising is another of the methods that are used to punish news media that ruffle feathers.


Fotos: Duas tomadas do castelo de Hohlandsbourg, do século XIII. Suas muralhas, no alto da colina, são imponentes. Na prática, é um polo de entretenimento. Assim como inúmeros castelos franceses, primavera/verão é época de festas medievais. Acima, uma representação teatral, que me lembrou os cavaleiros que dizem "Ni" do Monty Python. Abaixo, a visão mais ampla, com Colmar ao fundo.


Sunday, January 25, 2009

Mão visível e pesada 2

Já comentei sobre diversos episódios de interferência direta e indireta do governo francês em todas as áreas que possamos imaginar. Na França, também existe um pacote para salvar os bancos e a indústria automobilística, entre outras. Sarkô pediu aos executivos mais importantes desses conglomerados que abrissem mão da parte variável da remuneração (o bônus). A onda pegou!

De pacote em pacote, o governo (re)coloca a mão em muitas empresas. E quando não entra diretamente no capital, usa a grande rede de influência e participações cruzadas das empresas francesas para mandar e desmandar.

O mais inusitado é o pacote para salvar a imprensa escrita, orçado em 600 milhões de euros. Os jornais estão há muito tempo em situação falimentar. Entre diversas iniciativas, o governo vai presentear cada jovem que completar 18 anos com uma assinatura anual de um diário de sua livre escolha (o Estado banca a distribuição, o jornal a impressão).

Ainda para os jovens, todos os museus terão acesso gratuito. Sarkô é cheio de boas idéias. Eu sempre pergunto quem é que vai pagar tudo isso.

Lembro ao leitor desavisado que o Sarkô é de direita. Imaginem o que um comunista poderia fazer nesses tempos difíceis!


Foto: Casa anexa aos domínios de Vizille, Isère.