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Sunday, September 16, 2012

Cassando as Caçadas


O debate sobre a censura à obra « Caçadas de Pedrinho » ganhou força. Foi um dos primeiros livros que li ainda criança. Àquela época, não percebi seu caráter racista, assim como muitos milhares de leitores. Eram outros tempos. Hoje, os termos usados por Monteiro Lobato para descrever a Tia Nastácia podem chocar.

O politicamente correto levado ao extremo poderia banir tantas obras, que o seu efeito seria ainda mais perverso. Se tirarmos de circulação todas as obras racistas, antissemitas, machistas, homofóbicas, preconceituosas ou ofensivas, não sobrará muita coisa. Nem a Bíblia.

Melhor mesmo é que todos sejam expostos às mais variadas ideias, podendo discernir o que é bom e o que é ruim. “Caçadas de Pedrinho” e “Tintin no Congo” não são responsáveis pelo preconceito aos negros. Assim como “O Mercador de Veneza” e “Oliver Twist” não inventaram o antissemitismo.

Em 2011, fiz um post análogo sobre o escritor francês Céline. Retomo uma citação de Bernard-Henri Levy: “É preciso mostrar o mistério que faz de uma pessoa um grande escritor e um perfeito canalha ao mesmo tempo.” Canalha? Talvez. Não precisamos festejar Monteiro Lobato, apenas lê-lo.

Leia também: Céline e "80 anos de Tintin"


Foto: Começo a minha série londrina, com algumas fotos da “Hampton Court”, uma das mais belas residências históricas da monarquia inglesa.

Saturday, May 21, 2011

DSK, uma semana depois

Não garanto que seja meu último post sobre o caso DSK, mas acho que vale a pena fazer um balanço do que li nos últimos dias. Para americanos e franceses, a cobertura foi um verdadeiro festival de horrores, com acusações de ambas as partes.

Os colunistas do Estadão, Gilles Lapouge e Gustavo Chacra, descreveram bem as diferenças básicas. Os americanos apresentaram DSK como um criminoso, antes de qualquer apuração. Além do mais, houve aquela humilhação tradicional das algemas, entre tantos outros rituais da cinematográfica polícia americana. Já os franceses pecaram pela rápida divulgação do nome da camareira do Sofitel e, principalmente, pela excessiva tolerância à investida do presidenciável, que pode ter cometido um crime gravíssimo.

Excelentes artigos sobre as diferenças culturais entre os dois povos apareceram em várias publicações. Surgiram motivos de monte para se reabrir uma temporada de deboches mútuos. O filósofo Bernard-Henri Lévy, entre outros, foi ironizado pela sua forte defesa da "presunção de inocência" de DSK.

Vamos deixar de lado as subjetividades culturais, sociais, comportamentais, sexuais, machistas e feministas. Foi no Economist que eu achei aquela pergunta que não quer calar. Afinal, se o incidente tivesse ocorrido em Paris, DSK estaria em cana?

Certamente não. Nem em Paris, nem em Roma, nem em São Paulo. Todo mundo sabe disso. Depois de alguns dias, o Le Monde finalmente reconheceu o banho de democracia dado pelos EUA, destacando a sua Polícia e Justiça como uma entidade realmente independente, a altura dos poderes político e econômico, e não subordinada a eles, ao contrário do Brasil e da própria França, suposto país da liberdade, igualdade e fraternidade. O Le Monde ainda separa o puritanismo anglo-saxão, tão ridicularizado pelos europeus, de um verdadeiro caso de polícia.

Enfim, a poeira baixou. DSK já saiu do FMI e, provavelmente, não sairá dos EUA tão cedo. O PS deve erguer a cabeça e buscar um novo candidato. Caberá ao povo francês fazer a sua escolha e, mais do que isso, inspirar-se no exemplo daqueles grandalhões, beligerantes e ignorantes do outro lado do Atlântico ;-)


Fotos: Voltando à França, uma foto de Annecy, na Savóia.

Saturday, March 19, 2011

No mercy!

O bombardeio aliado contra a Líbia começou esta tarde. A aviação francesa, ansiosa para promover o Rafale, fez os primeiros ataques. Não posso afirmar se Sarkô fez algum ponto. Veremos nas próximas semanas.

Todos querem acabar com o Kadafi. Eu também. Se o terremoto japonês não desviou a nossa atenção da Líbia, esta operação militar certamente servirá de cortina de fumaça para as demais revoluções árabes. No Bahrein, Síria, Arábia Saudita e Iêmen, a oposição será esmagada. Como diria o próprio Kadafi: “No mercy”.

A França e a Inglaterra não amam os líbios e nem são “valentões”, mas quando Kadafi mostrou que seria capaz de exterminar a sua própria população, as vozes mais sensatas da Europa gritaram. A campanha de Bernard-Henri Lévy foi marcante aqui na França. Além do mais, a Líbia está a um passo das bases da OTAN e possui uma defesa obsoleta. Até tem alguns aviões, mas os pilotos sumiram! O petróleo da Líbia também não é tão preocupante.

Sorte para a resistência da Líbia, azar dos outros. Os demais ditadores árabes - e o persa também - sabem que o Ocidente tem poucas balas. Poderão “descer o cacete” à vontade por mais algumas semanas.


Foto: Uma outra tomada da Abadia de Fontenay, com a sua igreja ao fundo.

Monday, February 7, 2011

Céline?

Quem digitar "Céline" no Google encontrará menções e fotos da popular cantora canadense Céline Dion. No mundo virtual, a artista coloca um dos maiores nomes da literatura francesa, Louis-Ferdinand Céline, na obscuridade. Ele faz por merecer.

Na França, acompanhei as discussões sobre as homenagens ao cinquentenário da morte de Céline. Após intensa mobilização de Serge Klarsfeld, o Ministro da Cultura Frédéric Miterrand cancelou o evento oficial. Céline pode ter sido um grande escritor, mas foi um notório colaboracionista e fervoroso antissemita, contrapondo os valores fundamentais da nação francesa.

Mexer nesse assunto é colocar o dedo na ferida da França, mas bem que se trata de uma questão universal. Certamente, encontraremos paralelos em outros lugares do mundo. O filósofo Bernard-Henri Levy, por exemplo, preferia manter o evento oficial. Segundo ele, é preciso mostrar o mistério que faz de uma pessoa um grande escritor e um perfeito canalha ao mesmo tempo.

Outros intelectuais franceses se apegaram às questões semânticas. Afinal, estamos falando de comemoração ou celebração? Luc Ferry, filósofo já citado neste blog, prefere combater ambas as formas e acabar com essa mania de olhar para trás. Diz ele: Podemos ler e descobrir Céline, mas, como diz o Evangelho "Deixai os mortos enterrarem os seus mortos".

Serge Klarsfeld, representante dos descendentes dos judeus deportados, foi dado como grande vitorioso do episódio. Vale ressaltar que o assunto não era unanimidade na comunidade judaica, que talvez preferisse menos barulho. Afinal, Céline não é nem Victor Hugo nem Molière.


Foto: Uma outra tomada do Marina Sands, em Cingapura.

Monday, January 3, 2011

BHL & Battisti

A última decisão do governo Lula foi a negação do pedido de extradição de Cesare Battisti feito pela Itália. Confesso que mal pude acompanhar o assunto. Percebi que muita gente queria o italiano fora do Brasil. O assunto é complexo.

Neste post, quero compartilhar a carta que Bernard-Henri Lévy (BHL), filósofo mais renomado da França na atualidade, enviou ao então presidente Lula, divulgada no seu blog nesta tarde. Já mencionei BHL inúmeras vezes neste blog. Ele pode não ter razão em tudo que escreve. Mas, quando defende uma causa em público, quase sempre está certo.


Ao Exmo. Senhor LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Presidente da República Federativa do Brasil

Prezado Presidente Lula

Tenho conhecimento que o debate sobre o caso Cesare Battisti, antigo militante dos Proletários Armados pelo Comunismo, acusado de atos de terrorismo na Itália nos anos setenta, causa indignação no seu país. Eu também sei que pelas leis das instituições brasileiras, a última palavra no seu ordenamento democrático, tendo em vista a divisão de opiniões, no seio da Suprema Corte, fazem que caiba ao Senhor, e apenas ao Senhor, o poder de decidir se esse velho militante, que se tornou um escritor de sucesso, deve ou não ser extraditado para a Itália.

Senhor Presidente, inicialmente gostaria de lhe dizer que ninguém mais do que eu tem horror ao terrorismo. E desejo deixar claro que a luta contra esse terrorismo, a luta contra o direito que alguns se atribuem, nas democracias, de fazer, eles próprios, a lei e de recorrer às armas para fazer com que suas vozes sejam ouvidas, é uma das constantes, talvez a constante de toda a minha vida de homem e de intelectual.

No entanto, se me dirijo a Vossa Excelência é exatamente porque não está provado que Cesare seja esse terrorista descrito por uma parte da imprensa italiana e, cujos crimes, se ele tivesse cometido, não mereceria nenhuma indulgência.

Ele foi condenado como tal, eu bem sei, por um Tribunal legalmente instituído, num país onde não imagino, em nenhum momento, colocar em dúvida o seu caráter democrático. Mas, até nas melhores democracias pode acontecer de – como no caso da França na Guerra da Argélia – encontrarmos fracassos e injustiças.

E o processo de Cesare Battisti, esse processo que o reconheceu culpado, com apenas 21 anos, pelas mortes de Santoro e Campagna levantam, nessa circunstância, ao menos três questões – as quais um homem imbuído de justiça e de direito, como Vossa Excelência, não pode ficar insensível.

O primeiro ponto de testemunhos e provas produzidos pela acusação e sobre a palavra daqueles que Batistti foi condenado são, essencialmente, testemunhos de arrependidos, quer dizer, de verdadeiros criminosos que trocaram, à época, suas próprias condenações pela denúncia premiada de alguns de seus camaradas. Cesare Battisti fugiu para o México, depois para a França, quando o arrependido Pietro Mutti imputou-lhe a totalidades dos crimes da organização, na qual eles militavam. Todos os observadores que tiveram conhecimento do caso não acreditam ser possível nem verossímil que um jovem de 20 anos tenha cometido tais crimes.

A segunda questão diz respeito ao principio da justiça italiana e ao fato que, contrariamente ao que se passa no vosso país e no meu, os condenados à revelia não têm, mesmo se forem capturados, se entregaram ou se forem extraditados, direito a um novo processo, no qual possam apresentar suas razões de defesa. Também, se Vossa Excelência decidir recusar a Cesare Battisti o status de refugiado e se deixar, então, que ocorra o procedimento de extradição, ele iria, assim que voltasse para a Itália, direto para a prisão perpétua (pois que há uma pena, sem apelação, na qual ele foi pronunciado num processo à revelia). E será o único condenado à prisão perpétua que jamais teve a possibilidade de encontrar seus juízes e de poder fisicamente, confrontar com seus acusadores e responder, em pessoa, cara a cara, sobre os crimes que lhe são imputados.

E pois, eu acrescento, finalmente, esse detalhe sobre o qual, o mínimo que se pode dizer é que não é apenas um detalhe: Cesare Battisti nega os crimes que lhe são imputados. Numerosos são os seus colegas escritores e numerosos são os juristas que, após o exame do processo, acreditam ser plausível sua inocência. De sorte que corremos o risco de ver terminar seus dias na prisão um homem cujo único crime seria, neste caso, ter acreditado, durante sua juventude, nas teorias da violência revolucionária.

Eu amo o Brasil, Senhor Presidente. Amo o exemplo que ele dá ao mundo de uma política fiel aos ideais progressistas e, ao mesmo tempo, aos princípios de equilíbrio e sabedoria. E eu ficaria consternado – nós somos no mundo numerosos que ficaríamos consternados – de ver “nosso” Lula se afastar de uma tradição de acolher os refugiados, que é um dos orgulhos de seu país.

Extraditar Battisti criaria um perigoso precedente. Não extraditá-lo mostraria ao mundo, que tem os olhos fixos sobre o Brasil e sobre Vossa Excelência, que existem princípios que não podem ser suplantados por Razões de Estado nem pela lógica dos Monstros sem emoção.

Eu peço a Vossa Excelência que aceite, Senhor Presidente, a expressão de minha simpatia, de minha admiração e de minha ardorosa esperança.

(Assinado) Bernard Henri Lévy.



Foto: Continuando na Borgonha, eis o Château de Bazoches (século XII). A fama do castelo deve-se ao fato de ter sido residência do Marechal Vauban no século XVII, militar que concebeu grande parte do sistema defensivo francês nos anos áureos do reinado de Luís XIV.

Friday, October 22, 2010

É o amor!

Pense rápido e cite cinco filósofos brasileiros. Que tal três? Dois? Um? Se você não se lembrou de ninguém, não fique envergonhado. O Brasil não é a França, que festeja seus filósofos, como já havia comentado em 01/03/10. Também citei Bernard-Henri Lévy (BHL), o filósofo mais popular da atualidade, algumas vezes.

O assunto deste post é Luc Ferry, outra estrela da filosofia 'pop' francesa. Ao contrário de BHL, Luc joga no time do Sarkô, sendo um dos intelectuais mais prestigiados da direita. A novidade da semana é o lançamento do seu livro "A revolução do amor". Não lerei o livro, mas tive a oportunidade de assistir uma longa - e excelente - apresentação do autor, durante a cerimônia de aniversário da ADIRA, a associação dos dirigentes de informática de Rhône-Alpes (região que tem Lyon como capital). Pelo que eu pude pesquisar no Youtube, ele vem repetindo o discurso há algum tempo.

Luc Ferry é de um otimismo peculiar. Afirma que vivemos (os europeus) num momento muito especial da História, onde o amor do Homem pela própria vida bem como a vida dos seus entes queridos nos lança numa nova era de humanismo. Nem sempre foi assim.

Durante séculos, os casais formavam-se por inúmeros fatores, menos pela atração ou respeito mútuo. Os casais possuíam muitos filhos, nem sempre tão amados. A perda de um cavalo era um golpe mais duro do que a perda de um filho. O casamento por amor mudou tudo.

A partir do momento em que passamos a amar o cônjuge de verdade, também amamos os filhos e a família como um todo. Essa lenta transformação, colocando a família como peça central, muda a forma com que nos relacionamos com o Estado, a Religião e a Sociedade. Com a família mais sólida, passamos a procurar a justiça, a fraternidade e a verdade. O conceito de sagrado é outro.

Luc usa a acepção original de sagrado, ou seja, aquilo pelo qual estaríamos dispostos a nos sacrificar. Durante séculos, o sagrado foi reservado à Pátria, a Deus ou à Revolução. Hoje em dia, qual europeu está disposto a se sacrificar por tais abstrações? Felizmente, cada vez menos pessoas.


Fotos: Acima e abaixo, as duas tomadas laterais do magnífico castelo de Schönbrunn.

Wednesday, March 3, 2010

Enquanto isso, na TV francesa... - Parte 2

Numa floresta, o corvo e o rouxinol passavam o dia a cantar sobre um galho de uma árvore. Um mais empolgado do que o outro, até que de repente, estavam em franca competição para ver quem cantava melhor. "Eu canto melhor", dizia o corvo. "Não, sou eu o melhor cantor", respondia o rouxinol. E ficaram assim por algum tempo, sem saber como decidir a questão. Eis que um leitãozinho estava passando sob a árvore. O corvo e o rouxinol não perderam tempo e o convidaram para julgar a acirrada disputa musical.

Os dois pássaros passaram a cantar para o atencioso leitão, que após uma profunda reflexão, pronunciou o veredito: "O corvo canta melhor". Enquanto o corvo comemorava, o rouxinol derramava-se em lágrimas. O leitãozinho então disse ao rouxinol: "Normal que você esteja chorando, afinal você perdeu". E o rouxinol respondeu: "Eu não estou chorando por que perdi, mas por que fui julgado por um porco".


A pequena fábula, no estilo de La Fontaine, talvez seja a melhor resposta para o post anterior. O mais curioso é que a fonte foi a própria televisão francesa, mais precisamente, o programa do jornalista Laurent Ruquier ("On n'est pas couché"), uma mistura de talk-show com debate muito apreciada na França.

Uma das atrações do programa é a dupla de críticos Éric Zemmour e Éric Naulleau, que não costumam poupar críticas aos convidados, geralmente escritores e políticos. Os dois Éric são bastante cultos e inteligentes. Em termos políticos, um está mais à direita (EZ) e outro, à esquerda (EN). Normalmente, eles conseguem encontrar as fraquezas e as incoerências dos seus convidados, que nem sempre reagem bem.

Dois conhecidos dos brasileiros, Jacques Attali e Bernard Tapie, abandonaram a gravação do programa. Sabe-se que muitos políticos do governo e da oposição fogem do convite de Ruquier. Para nossa surpresa, o programa passa num canal público, retratando uma considerável liberdade de expressão. Foi o diretor de teatro Patrice Leconte que tirou do bolso a fábula do corvo e do rouxinol, após as duras criticas de Zemmour.

Cenas de "On n'est pas couché"
Patrice Leconte (O corvo e o rouxinol)


Foto: O pequeno núcleo comercial no corredor que dá acesso à abadia do Monte Saint-Michel, na Normandia.

Monday, March 1, 2010

Enquanto isso, na TV francesa... - Parte 1


O excelente canal de TV franco-alemão "Arte" possui um programa sobre filosofia, apresentado pelo "pop-star" da academia francesa, Raphaël Enthoven, ex-genro de Bernard-Henri Lévy. Eu assisti a um único programa no final de 2009. O tema era a utopia, com a participação de Frédéric Rouvillois, um estudioso de temas sócio-políticos.

Em um dado momento, a partir de uma foto de uma torcedora brasileira com a nossa bandeira, apresentador e convidado passam a discutir o contraste entre lema "ordem e progresso" e a realidade do Brasil. A mensagem positivista de Auguste Comte é associada ao conceito de utopia, em total oposição à imagem de "caos" que o Brasil construiu durante sua história.

O apresentador chega a dizer que o Brasil é uma "zona" ("Le Brésil c'est le bordel"). Aos mais sensíveis, digamos que foi um recurso didático. De qualquer forma, ainda precisaremos de muito tempo para provar que De Gaulle estava errado e que o Brasil é um país sério.

A propósito, o jovem filósofo é o pai do filho da Carla Bruni (Aurélien).

Eis os links para o programa: Em francês e alemão.


Foto: Há duas semanas, aproveitei a vinda de colegas brasileiros para conhecer um restaurante a 15 minutos de Lyon (Le Cascade). Acima, o conjunto hotel-restaurante. Abaixo, o seu entorno.



Saturday, February 6, 2010

Bons ventos

No subúrbio parisiense de Drancy, uma situação inusitada. O Imam da grande comunidade islâmica apela frequentemente por proteção policial. A ameaça vem dos próprios muçulmanos. Hassen Chalghoumi tem 36 anos e representa o melhor do Islã.

Vejamos alguns dos pontos que provocam a ira de uma minoria entre os seus próprios correligionários:

- Apoia o banimento da burca
- Defende do diálogo do Islã com outras religiões
- Quando das manifestações contra Israel, durante a campanha de Gaza, denunciou o tom das críticas, que denotavam um certo antissemitismo
- Manifesta solidariedade com a comunidade judaica pela Shoah (Holocausto)
- Propôs um conselho islâmico para formar um grupo de princípios (fatwa) para orientar a adequação do muçulmano à vida republicana

O leitor deste blog deve se perguntar: Como esse cara ainda está vivo? Eu também não sei! A verdade é que a comunidade de Drancy está mais pacífica e com muito menos incidentes de intolerância. Infelizmente, Hassen é uma exceção.

Citando Bernard-Henry Lévy, um dos intelectuais mais renomados da França: "A contradição principal dos nossos tempos, a verdadeira guerra de civilização, não é o conflito entre o Ocidente e o Islã, mas entre o Islã e o Islã; no seio do Islã, a luta de morte entre o Islã democrático e o Islã integrista. E eu adiciono sobretudo que esta luta não é uma questão religiosa, mas política."

Um outro filósofo havia comentado o assunto de uma forma diferente. Assim como as sociedades de herança cristã passaram por um processo de secularização, chega a vez das sociedades islâmicas. Elas resistem, e muito. Todo esse conjunto de conflitos que se espalham pelo mundo representariam o canto do cisne do Islã. (Mas como canta esse cisne!)


Foto: Acima, o núcleo urbano de Roussillon, base da minha estada na Provence em outubro último. A tonalidade vermelha domina o casario. Do amarelo ao vermelho, todas as casas são pintadas com tintas feitas do ocre local. Abaixo, a fonte do ocre, a menos de 1km do centro.