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Sunday, November 1, 2015

Roubadinha

Tenho usado a Internet para reservar hotéis, restaurantes e espetáculos. Nesse mundo virtualizado, espera-se que nossas opiniões sejam compartilhadas, construindo (ou não) a reputação de cada local ou evento.

O grande problema é receber inúmeras mensagens semanais de serviços como o Trip Advisor. Desisti! A avaliação pode ser simples, mas ignorar tais mensagens é ainda mais simples. Tenho ignorado até mesmo as avaliações das corridas do Uber e do e-cab (aplicativo de táxi usado por aqui).

Como escolho meus programas com algum critério, dificilmente caio numa roubada. Sempre que precisei “gritar”, usei o Twitter.  Foi rápido e atingiu o objetivo.

Se consegui evitar uma grande roubada, houve “roubadinhas”. O Trip Advisor foi privado de fatos como os que seguem.


Numa cidadezinha da Provence, escolhi um restaurante muito bem localizado, razão pela qual muitos outros turistas fazem a mesma coisa. Sem muita fome, pedi uma salada caprese. O cardápio indicava um preço de 30 euros. Parece caro, mas é aceitável naquele local e na alta temporada. A surpresa viria logo mais com a chegada do prato: Um tomate inteiro e uma bola de mozarela. Olhei para minha esposa e disse: Será que lavaram o tomate?


Aqui em Bruxelas, tem um restaurante estrelado que usa e abusa de trufas. Havia reservado um jantar por lá há algum tempo, aproveitando-me de uma promoção. O espetacular jantar foi um menu-degustação com vários pratos. Em alguns momentos, o garçom ofereceu trufas raladas da mesma forma como se serve queijo parmesão em restaurantes de massa. Entretanto, teria sido mais simpático avisar que cada uma dessas raladinhas custava 20 euros!


E por falar em parmesão, tem um italiano perto de casa. Na última temporada, o tiramisu, minha sobremesa favorita, fazia parte do cardápio. Como sempre, estava animado para degustá-lo, mesmo que fosse pela enésima vez. Quanta decepção! O criativo chef desmontou a tradicional receita italiana, separando o mascarpone, a bolacha, o café e os demais componentes. Horrível! Felizmente, a heresia gastronômica foi excluída do cardápio desta temporada.


Foto: Voltando à Bélgica, uma tomada do Château de Belœil, onde estive um mês atrás.

Sunday, October 25, 2015

Estrelas

O mistério da estrela KIC 8462852 é notícia. Como os cientistas não conseguem interpretar os sinais vindos do astro situado a 1480 anos-luz da Terra, entra em cena a hipótese alienígena. No caso, imagina-se uma gigantesca estrutura envolvendo a estrela para absorver a sua energia. Só uma civilização muito avançada poderia construir um aparato desse porte.

Obviamente, trata-se de uma hipótese. Encontrar inteligência fora da Terra não me choca. Pelo contrário, tem sido muito difícil encontrar  inteligência por aqui. Duro mesmo é acreditar na existência de uma estrutura desse tamanho.

Existe algo ainda não foi explorado nos artigos que li. Caso essa hipotética mega-estrutura fosse real, falamos de algo que existiu 1480 anos atrás, pois os sinais da estrela levaram esse tempo para chegar até nós.

Analogamente, se um ET de um planeta do sistema KIC 8462852 estivesse olhando para a Terra nesse momento, observaria a Europa num cenário de guerra  e fome.  Seria o mundo do ano 535, repleto de disputas entre os povos que ocuparam as antigas fronteiras do Império Romano. Já a fome teria sido provavelmente causada por um vulcão, que espalhou cinzas sobre o planeta, afetando o clima e prejudicando a atividade agrícola.

Voltando aos aliens. Se uma civilização pudesse construir uma estrutura dessas há 1500 anos, fica difícil de imaginar onde estariam hoje. Se não provocaram a sua auto-destruição, poderiam aparecer por aqui a qualquer momento!

Piadas à parte, a confirmação de vida inteligente fora da Terra talvez fosse positiva. Traria um certo pânico no começo,  mas poderia despertar um sentimento de irmandade entre os povos. A existência de uma ameaça comum, a possível união em torno de um grande projeto espacial ou até mesmo o enfraquecimento das doutrinas teológicas que não ajudam em nada na paz entre os homens estão entre os argumentos.

Enfim, foi apenas uma reflexão influenciada pela chegada de mais um episódio de Star Wars.



Foto: Fechando a série de fotos na Provence em julho último, Isle-sur-la-Sorgue a 40 graus.

Sunday, October 11, 2015

Popular e ladrão

O hotel vizinho nem é tão caro, mas é classudo. Seu edifício suntuoso é o endereço preferido dos dirigentes estrangeiros em Bruxelas. Sempre que ando pela Avenue Louise e passo por ele, dou uma olhada para ver qual é a celebridade do momento.

Apesar das longas comitivas, dos jornalistas e curiosos, não há muito barulho. Até mesmo a Dilma não chamou a atenção. Pensei num panelaço solo, mas nossos horários não coincidiram.

Há alguns dias, presenciei uma exceção. A frente do hotel estava repleta de gente. Havia farta distribuição de balões vermelhos e brancos. A charmosa Avenue Louise e a Place Stéphanie foram ocupadas. Até o trânsito de bondes e carros foi  interrompido pela multidão. Quem poderia quebrar a tranquilidade do nosso cantinho? Quem seria tão poderoso?

Tais dúvidas pairavam na cabeça da minha esposa. Estava ao seu lado e pude esclarecer. Disse que o Erdogan, o presidente turco, estava na cidade. Ainda acrescentei : “Ele é o Lula da Turquia, popular e ladrão”.

Para comparar o Brasil e a Turquia, melhor ler a crônica do Guga Chacra. A presença do Erdogan em Bruxelas é importante, pois trata-se de um ator chave numa região tão desestabilizada: refugiados, Síria, curdos, Estado Islâmico, etc. Tudo passa pela Turquia.

Juntar o fã clube para o presidente não foi difícil. A comunidade turca na cidade é muito grande. Assim como acontece no Brasil, encontrar algumas centenas de admiradores de um líder populista é fácil. Não precisa nem pagar.

Dias depois, estive num evento de informática europeu. A maioria dos participantes era do Reino Unido, mas havia uns gatos pingados de outros países. Tive oportunidade de conversar com um executivo turco.

Nem falamos de informática. Já cheguei dizendo que encontrei o Erdogan ao lado de casa.  Ele emendou com as novidades de Istambul. Tudo que ele contou parecia exatamente com a história recente do Brasil, tomado pela gangue do PT.

Preferia ter encerrado a nossa conversa com um tom mais positivo, mas não pude. Contei as coisas que estavam acontecendo no Brasil. Pelo menos ele apreciou a minha sinceridade.


Foto: Ainda na Abadia de Sénanque, a turista curtindo a paisagem. Além do visual, o aroma da lavanda.

Sunday, October 4, 2015

Rugby 2015

A última vez que comentei sobre rugby foi na Copa do Mundo de 2011. Quatro anos depois, estamos chegando às quartas de final da Copa de 2015, organizada pela Inglaterra.

Uma das maiores surpresas deste torneio aconteceu ontem à noite, quando a Inglaterra foi eliminada ainda na fase classificatória. Segundo a imprensa francesa, uma “humilhação histórica”. No grupo mais forte, ela acumulou duas derrotas, para Austrália e País de Gales. A Inglaterra no rugby é a mesma Inglaterra do futebol. Inventou o esporte, tem tradição, mas...

Enquanto escrevo este post, a Argentina, que constrói uma tradição no esporte, garante sua passagem para a próxima fase. Já o Japão protagonizou uma das maiores zebras da Copa, ao vencer a tradicionalíssima África do Sul. Muito provavelmente, fica fora da próxima fase. O Japão do rugby é o mesmo Japão do futebol!

O rugby tem ganho muita popularidade na Europa. Nos países participantes da competição, a cobertura midiática não perde para a Copa da FIFA. Na França, atual vice-campeã, o esporte tem a mesma atenção do que o futebol em época de Copa, páginas e mais páginas dos jornais e muito tempo de TV. Já na Bélgica, sem grande tradição no rugby, fala-se muito pouco sobre o assunto.

O futebol  talvez tenha o fardo de ser o mais popular does esportes. Com tamanha visibilidade e tanto dinheiro envolvido, seus dirigentes sucumbem facilmente às tentações. Michel Platini, visto como a esperança para endireitar o futebol, está mais perto da cadeia do que da presidência da FIFA. Definitivamente, a gestão do rugby não é a mesma do futebol.


Foto: O campinho de lavanda mais famoso da França, junto à Abadia de Sénanque, neste verão.

Sunday, September 27, 2015

Diesel



Assim como na minha primeira expatriação, optei  por um carro movido a óleo diesel, algo muito comum por aqui. É bem prático rodar mil quilômetros sem precisar parar num posto. Nas últimas férias, por exemplo, rodei quatro mil. Imaginem se tivesse um tanquinho para 50 litros de gasolina?

Alguns especialistas afirmam que o escândalo Volkswagen é o canto do cisne dos motores a diesel em carros de passeio. Ótimo, que o meu próximo carro seja elétrico ou híbrido!

Outros especialistas mais radicais afirmam que não é uma questão de modo de propulsão, mas o veículo de uso privativo estaria com seus dias contados. O futuro reside no compartilhamento do automóvel em complemento aos transportes públicos. Ave Uber!

Diesel lembra outras coisas. Da marca italiana, que já esteve neste blog, em Crônica Toscana. E também da enfermeira Diesel, um impagável personagem do filme “Alta Ansiedade”  (Mel Brooks, 1977). Na descrição da Wikipedia, “dominadora e controladora do hospício, sendo que ela mesma é uma psicopata”. 

Sempre que cruzo com uma 'alemoa' mandona, carinhoso termo usado no Sul do Brasil, lembro-me da enfermeira Diesel.

Nesses últimos dias, tenho associado Angela Merkel ao personagem.  Graças à sua competência, é claro, tem atropelado o resto da Europa, impondo a vontade da Alemanha, sem dúvidas, o motor econômico do continente.

Na crise dos refugiados, a Alemanha impôs a ideia de cotas para os países da União. Quem não queria receber ninguém ficou contrariado. Quem até estava aberto à proposta, pareceu apenas fazê-lo por sugestão da Alemanha. Enfim, é por essas e outras que a queda de um gigante industrial da Alemanha agrada muita gente.   




Foto: Gordes, na Provence. Julho é mês de bater ponto na Provence para visitar os campos de lavanda, entre outras atividades. Pela terceira vez, paradinha em Gordes.

Thursday, September 23, 2010

Pré-história

Basta ficar alguns dias fora do Brasil, que eu chego no meio de outro escândalo. E dos graves. Nada a ver com aqueles que quase imobilizam o governo francês. Fazendo uma analogia simplista: Na França, os escândalos de corrupção são eróticos. No Brasil, são pornográficos.

Esta quinta-feira foi dia de greve geral na França. Mais uma. Não perdi nada. Já no Brasil, vejo uma minoria cada vez mais indignada com a virtual vitória do PT, da Dilma e sua trupe. Não tive tempo de aprofundar a leitura sobre o esquemão da Casa Civil. Confesso que a minha expectativa com relação a Dilma não era muito grande.

Na semana passada, a imprensa pegou no pé do Sarkô. Ele deu uma de George Bush. Ao referir-se aos homens primitivos, que deixaram as célebres pinturas rupestres na caverna de Lascaux há 17 mil anos, chamou-os de Neandertais. Errou por alguns milhares de anos e, principalmente, por que os Neandertais não são homens. Os primeiros grupos de Homo sapiens sapiens que habitaram a região de Lascaux são conhecidos como homens de Cro-Magnon.

O papelão mesmo foi outro. A gruta está fechada há anos, pois a proliferação de fungos ameaça as pinturas, consideradas um patrimônio da humanidade. O acesso é extremamente controlado e as condições no interior de Lascaux são monitoradas por cientistas. No máximo oito pessoas de cada vez podem entrar na caverna e sempre com roupas especiais. Usando as suas prerrogativas presidenciais, Sarkô entrou com toda sua comitiva e foi o único que não usou a famigerada touquinha. Por essas e outras, mudaram o nome do Presidente para Sarkô-Magnon.

Em termos de escândalos políticos, a França está na pré-história.


Foto: Para fechar esta rodada de fotos na Provence, uma nova tomada do núcleo de Gordes, um pouco mais próxima que a anterior.

Saturday, September 18, 2010

Lapso

Nos vôos curtos que cruzam a França, a Air France oferce um serviço de bordo bastante modesto. Nada de refeições completas, apenas bebidas simples e um biscoito, salgado ou doce, a escolher. Na última sexta-feira, como previsto, a aeromoça dirigiu-se a mim e perguntou: "Sucré ou salé?"

Apesar de ter respondido à mesma pergunta dezenas de vezes, não é automático. Sempre penso alguns poucos segundos antes de pedir aquilo que mais quero no momento. E sempre pinta uma dúvida. Com respeito à Air France, talvez a escolha seja pelo biscoito menos ruim. Desta vez, diante das alternativas "sucré" ou "salé", respondi: Sacré!

A aeromoça não entendeu nada. Bloqueou por um instante. Antes que ela providenciasse uma hóstia ou matzá, eu corrigi a minha resposta. Ela prosseguiu seu trabalho e eu continuei rindo sozinho.

Para meu consolo, uma cena ainda mais estranha aconteceu diante da mesma aeromoça. Um cara (mais novo) colocava as suas duas malas no compartimento de bagagens. Como não havia muito espaço, colocou a primeira mala sobre quinta fileira de poltronas. Poucos segundos depois, colocou a segunda mala sobre a primeira fileira. Ao fechar o último bagageiro, fez uma cara apavorado e perguntou: "Onde deixei a outra mala?". A aeromoça estava atenta e indicou o bagageiro sobre a quinta fila. Como observador, fiquei impressionado com o lapso de memória em tão curto espaço de tempo.

Consolo ainda melhor foi a piada que um colega havia contado no dia anterior. Um cinquentão, preocupado com os pequenos lapsos de memória cotidianos vai ao médico. "Doutor, por várias vezes, esqueci de fechar o zíper depois de urinar". O médico respondeu: "Não se preocupe. O problema mesmo é quando você começar a esquecer de abrir o zíper antes de urinar".



Foto: Um close da Abadia de Sénanque. O símbolo da Provence não é mais o mesmo. O campo de lavanda anexo à mesma não existe mais. Ainda existe um grande campo bem próximo, mas não permite aquela foto de cartão postal tão famosa.

Monday, September 13, 2010

Sobre homens e deuses 2

O filme ‘Des hommes et des dieux’ deixa no ar a autoria do massacre de Tibhirine. Com elegância, entre o governo da Argélia e a milícia islâmica, não há heróis nem vilões. Infelizmente, as coisas nem sempre são tratadas desta maneira.

Não é preciso muito esforço para perceber que muitos dos grandes conflitos atuais da Humanidade têm uma das partes ligadas ao Islã: As guerras do Oriente, as insurreições africanas, as discussões européias sobre burcas e minaretes, o debate americano em torno da mesquita de Manhattan e assim por diante.

Diante de tantos fatos, qualquer desavisado pode cair na tentação de associá-los indevidamente. E, com certeza, muita gente usa essa forma de manipulação. Islamofobia pura.

No dia 5 de setembro, o Gustavo Chacra comentou em seu blog o livro ‘A World Without Islam’ de Graham Fuller. Recomendo a leitura do artigo. O livro mostra que, se por um capricho da história, o Islã não existisse, este mundo hipotético não seria muito diferente, sendo que os mesmos conflitos seriam travados entre outras religiões. Possivelmente, a rivalidade entre cristãos e muçulmanos poderia ser convertida num grande racha do mundo cristão, opondo os ortodoxos aos demais.

O livro é extremamente oportuno para os nossos dias. Ele reforça a velha máxima de que nunca existiu guerra de religiões. Os homens brigam por poder. A religião é a forma de manipulação preferida daqueles que o detém.

Fico por aqui. Meu exemplar de ‘A World Without Islam’ chega amanhã, se a Amazon.fr não falhar. Quem sabe, continuemos a conversa. Pessoalmente.


Foto: A última tomada de L'Isle-sur-la-Sorgue, na Provence. A cidade e suas praças espalham-se ao longo dos canais do Sorgue.

Friday, September 10, 2010

Sobre homens e deuses 1

O filme francês mais comentado do momento é ‘Des hommes et des dieux’, vencedor do Grand Prix do júri do último festival de Cannes, dirigido por Xavier Beauvois e estrelado por Lambert Wilson. Ele explora o assassinato de sete monges trapistas do Monastério de Tibhirine, ocorrido em 1996 na Argélia. Veja o clipe oficial e a ficha do IMDB.

Quem espera um filme sobre a vida monástica certamente vai se surpreender. Os religiosos, conscientes do risco oriundo da instabilidade crescente na Argélia, conversam muito entre si. O debate entre ficar e fugir é inteligente, belo e universal. Teria sido um ato de martírio? Bem, a resposta está no final do filme.

As imagens não ficam atrás. Embora tenha sido realizado no Marrocos, ele é ambientado numa área muito bela do Magreb (Marrocos, Argélia e Tunísia), nas proximidades da cadeia de montanhas Atlas. Nada de deserto, no filme tem muita neve. Na minha opinião, a sua melhor cena é a última ceia, embalada ao som de Tchaikovski. Infelizmente, ela não está no Youtube, senão compartilharia com vocês.

Saindo do filme e voltando ao tema que o inspirou, lembro que esse crime terrível jamais foi esclarecido. Segundo a versão oficial, os monges foram assassinados por um grupo islâmico armado. Posteriormente, surgiram duas outras hipóteses: 1) Os monges teriam sido eliminados pelo próprio exército da Argélia 2) Pelo serviço secreto do país, com o intuito de se culpar e desmoralizar a milícia islâmica.

A investigação ainda está aberta. Talvez jamais conheçamos a verdade, porém, hoje, acredita-se muito mais na hipótese manipulatória. Não teria sido a primeira nem a última vez que a História fora distorcida.


Foto: Ainda em L'Isle-sur-la-Sorgue, na Provence. Na foto, o rio Sorgue (na prática, um de seus canais). Aspecto comum das minhas duas passagens pela cidade: Levei um tempão para achar um lugar para estacionar. Assim como muitas cidades francesas, não é impossível, mas não é automático.

Tuesday, September 7, 2010

Espiral

Depois de um mês no Brasil, minha permanência recorde desde o final de 2006, estou de volta à França. Sem muitas mudanças por aqui e, para variar, uma greve geral.

Nesta terça-feira, muitos colegas nem foram ao trabalho. Ficaram em casa, participando de reuniões por telefone e Internet. O Le Monde também não foi às casas dos seus assinantes, distribuiu a versão PDF gratuitamente.

Muito se comenta sobre o trabalho dos pesquisadores franceses, que explicaram a trajetória da bola do famoso gol do Roberto Carlos contra a França em 2007. Não deixe de ver o vídeo. Se quiser, veja também o artigo ‘The spinning ball spiral’ do New Journal of Physics.

Na França, os amantes do futebol costumam se lembrar dos jogos contra o Brasil, especialmente aquele de 12/07/98. Um ano antes, num amistoso entre os dois países que terminou empatado, houve um momento histórico, através da cobrança de falta do nosso lateral.

O cronista do Le Monde, Franck Nouchi, fez uma analogia da incrível trajetória da bola com a política. Mais precisamente, com a decadente curva de popularidade de Sarkozy, contrastando com a possível ascensão do ainda indefinido Dominique Strauss-Kahn (PS), potencial candidato da esquerda. Diz ele: “DSK teria todo interesse em observar o gol do Roberto Carlos. Ele verá que podemos contornar uma barreira, engatando uma boa corrida de aproximação e batendo na bola com a parte exterior do pé esquerdo”. Digamos que seja uma metáfora futebolística um pouco melhor do que aquelas do nosso Presidente.


Foto: Outra tomada de L'Isle-sur-la-Sorgue, em dia de feira livre e de artesanato. A cidade é repleta de antiquários. Aos domingos, a feira domina a cidade, que atrai milhares de turistas e habitantes das cidades vizinhas.

Wednesday, September 1, 2010

A profecia

Na passagem pelo Brasil, pude conferir a campanha eleitoral. Mesmo fazendo força para evitá-lo, assisti até mesmo ao horário eleitoral gratuito na TV. Os meus comentários e apelos seriam desnecessários, pois os leitores deste blog não são uma boa amostra da população brasileira. Que pena! Se pudesse ao menos tirar um voto da Dilma, escreveria muito mais.

A eleição da nossa primeira presidente não surpreende. Fico mais assustado com a maioria esmagadora que a base governista fará no Senado e, provavelmente, na Câmara. Não sei se a Dilma tem intenção de fazer algo diferente, além de continuar o que Lula começou, mas ela não encontrará qualquer resistência do Legislativo. Que a nossa república democrática sobreviva!

Meus leitores também devem estar boquiabertos com o nível de algumas candidaturas, cristalizadas na figura do Tiririca. Possivelmente, receberá uma votação expressiva, podendo eleger consigo alguns deputados. O problema desse tipo de candidatura é que o seu efeito é o contrário do desejado. Acaba-se engordando a base governista, como aconteceu com o fenômeno Enéas de anos atrás.

A oposição brasileira está em frangalhos. Ou, talvez, tucanalhos. Pior do que a francesa. Na França, o PS sofre pela falta de um líder, mas possui um ideário bem definido e uma grande base eleitoral. Aqui, com raras exceções, o PSDB é motivo de chacota, o João Bobo do PT. Se continuar assim, a profecia dos 20 anos de PT no poder vai se realizar com facilidade.


Foto: A charmosa L'Isle-sur-la-Sorgue na Provence. Cidade de canais, antiquários e restaurantes.

Saturday, August 28, 2010

Todos querem a lavanda


Sempre me perguntam sobre os campos de lavanda da Provence. Em 2008, publiquei duas fotos no antigo fotoblog do Terra (post #500 e #494). Meses mais tarde, imprimi fotos dos campos e as coloquei nos meus álbuns de fotografias. Certamente, estão entre as fotos preferidas dos leitores. Há quem prefira os campos de girassóis, porém esses são bem mais comuns.

Para quem quiser conhecer os campos de lavanda, indico, além da Provence, as regiões da Ardèche e Drôme. A época é muito bem definida: Meados de junho até o começo de agosto. Em 2007, cheguei ao campo mais famoso da França no dia 16/8, sendo que a última data de corte da lavanda é 15/8. Por isso, voltei em 2008, 2009 e 2010!

Depois de algumas passagens pela Provence, em julho último, fiz um bate e volta até três lugares muito especiais: L'Isle-sur-la-Sorgue, Gordes e a Abadia de Sénanque. Passar um domingão por lá é privilégio de quem mora em Lyon. Usei o TGV para encurtar a viagem. Fiz Lyon-Avignon de trem e o resto de carro.

As fotos desta jornada Provence-bis ilustrarão os próximos posts.


Foto: Começo com a vista do núcleo de Gordes a partir da estrada. Na minha primeira visita à cidade, uma foto como essa exigiria uma certa ginástica. Três anos depois, alargaram o trecho que dá acesso a cidade, permitindo que estacionemos o veículo e nos deslumbremos com o cenário. De fato, em 2007, a minha tomada da cidade não foi muito feliz.

Sunday, February 14, 2010

Sobre esses objetos voadores identificados

Há dez 10 anos, o acidente do Concorde da Air France nos arredores do aeroporto Charles de Gaulle era notícia. O avião símbolo da cooperação européia e inspirador do consórcio Airbus saía de cena. Neste mês de fevereiro, o assunto volta à tona, pois o julgamento do caso está começando.

A maior surpresa do episódio é que quem está no banco dos réus é a americana Continental Airlines. Uma peça que caiu de um dos seus aviões teria sido a causa do acidente que vitimou 113 pessoas. A história não é muito convincente, mas é o argumento da promotoria. A Air France também reivindica indenizações. O resultado será conhecido daqui a quatro meses.

Enquanto a confirmação da venda dos Rafales para o Brasil (e para nenhum outro país) não sai, a vida da aeronáutica européia continua difícil. O A380 foi um projeto caro, mas pelo menos saiu. O caso do avião de transporte militar A400 é outro tormento. O atraso de quatro anos e o custo adicional de 11 bilhões de euros estão pesando nas contas da EADS (matriz da Airbus). Depois de tanto esforço, a empresa ameaça abandonar o projeto se as nações européias não mostrarem um maior comprometimento ($$$) com a iniciativa. Sarkô e Merkel puseram a mão no bolso, mas não tinha muita coisa.

Para quem quiser saber mais, a TV francesa apresentou um ótimo debate sobre os assuntos tratados acima em janeiro último. Vejam em http://tinyurl.com/yhay97y O programa também explora se a China será ou não uma ameaça para aviação civil e militar européia. Segundo eles, é coisa para mais de 30 anos. Veremos.

Gong Xi Fa Cai!


Fotos: Acima, mais uma foto de Roussillon, na Provence. Abaixo, o destaque para o restaurante do hotel em que estive hospedado, dominando a paisagem. Foi mais um típico hotel francês, onde tudo gira em torno da cozinha. E como em outras oportunidades, a gente volta para casa com muito aprendizado e uns quilos a mais.


Saturday, February 13, 2010

Carnaval em branco


Na França, o Carnaval vai passar em branco. Continua nevando. Nesses três anos, foi sem dúvidas o inverno mais rigoroso. Não pelos picos de baixas temperaturas, mas pelas nevascas e pela longa ausência do sol. Enfim, tive de enfiar o pé na neve para sair de casa durante algumas semanas.

Se não tem Carnaval, pelo menos tem férias. Fevereiro é o mês das "férias de esqui". São duas semanas de repouso para pais e filhos. E como quase todo mundo vai para os Alpes, o país teve que se organizar. As férias de fevereiro e abril são escalonadas. A França é dividida em três regiões e, a cada semana, uma entra em férias.

As estradas que levam às estações de esqui são estreitas, pois contornam as montanhas. Assim, a viagem não é tão diferente daquelas que os paulistanos tanto conhecem, quando vão às praias nos feriados prolongados.

Graças ao inverno rigoroso, as estradas estão ainda mais difíceis, com neve e as perigosíssimas placas de gelo. Os estoques públicos de sal acabaram (usado para evitar a formação das placas sobre as estradas). Estão misturando areia no sal! Talvez seja uma oportunidade para quem esteja louco para deslizar sobre a neve. Pode começar a fazê-lo dentro do carro, bem antes de chegar à estação. Bon courage!


Foto: Na Provence, a ponte romana Julien, do ano 3 AC. Ela faz parte da antiga Via Domitia que ligava Narbonne a Turim. Até 2005, ainda passavam carros sobre ela! Ou seja, mais de 2000 anos de exploração.




Tuesday, February 9, 2010

O quinto

A previsão de que o Brasil será a quinta economia do planeta pegou de vez. Tem muita gente repetindo. Não é preciso de um conhecimento matemático profundo para se chegar a esta brilhante conclusão. Trata-se de uma simples projeção.

Eu também torço para que o Brasil seja a quinta potência do planeta. E por que não a quarta, a terceira, a segunda ou a primeira? Tenho certeza que o Brasil chegará lá, só não sei quando.

2020? Impossível. 2030? Muito difícil. 2040? 2050? Bem, a partir daí, a coisa começa a ser mais razoável. Por trás das hipóteses mais otimistas, o Brasil continua crescendo continuamente num ritmo acelerado. Já os países europeus estagnariam ou teriam crescimento muito modesto. Claro que é possível, mas é um cenário extremo. Todos os ciclos de crescimento brasileiros - pelo menos, aqueles que eu vivenciei - foram travados pelas deficiências de infraestrutura, repique inflacionário, câmbio, descontrole fiscal, etc.

Por outro lado, os países nórdicos não estão muito preocupados com o ranking do PIB. A Coréia está preocupada em ser a sexta potência? Também não. A gente sabe que o problema do Brasil não é o tamanho do PIB, mas a sua distribuição. Quando vejo o governo festejando a projeção um pouco ufanista, parece que voltamos no tempo. Naqueles tempos em que o lema era fazer o bolo crescer, para depois dividí-lo. Quem diria, hein?


Foto: Uma outra tomada do centro de Roussillon, na Provence.

Saturday, February 6, 2010

Bons ventos

No subúrbio parisiense de Drancy, uma situação inusitada. O Imam da grande comunidade islâmica apela frequentemente por proteção policial. A ameaça vem dos próprios muçulmanos. Hassen Chalghoumi tem 36 anos e representa o melhor do Islã.

Vejamos alguns dos pontos que provocam a ira de uma minoria entre os seus próprios correligionários:

- Apoia o banimento da burca
- Defende do diálogo do Islã com outras religiões
- Quando das manifestações contra Israel, durante a campanha de Gaza, denunciou o tom das críticas, que denotavam um certo antissemitismo
- Manifesta solidariedade com a comunidade judaica pela Shoah (Holocausto)
- Propôs um conselho islâmico para formar um grupo de princípios (fatwa) para orientar a adequação do muçulmano à vida republicana

O leitor deste blog deve se perguntar: Como esse cara ainda está vivo? Eu também não sei! A verdade é que a comunidade de Drancy está mais pacífica e com muito menos incidentes de intolerância. Infelizmente, Hassen é uma exceção.

Citando Bernard-Henry Lévy, um dos intelectuais mais renomados da França: "A contradição principal dos nossos tempos, a verdadeira guerra de civilização, não é o conflito entre o Ocidente e o Islã, mas entre o Islã e o Islã; no seio do Islã, a luta de morte entre o Islã democrático e o Islã integrista. E eu adiciono sobretudo que esta luta não é uma questão religiosa, mas política."

Um outro filósofo havia comentado o assunto de uma forma diferente. Assim como as sociedades de herança cristã passaram por um processo de secularização, chega a vez das sociedades islâmicas. Elas resistem, e muito. Todo esse conjunto de conflitos que se espalham pelo mundo representariam o canto do cisne do Islã. (Mas como canta esse cisne!)


Foto: Acima, o núcleo urbano de Roussillon, base da minha estada na Provence em outubro último. A tonalidade vermelha domina o casario. Do amarelo ao vermelho, todas as casas são pintadas com tintas feitas do ocre local. Abaixo, a fonte do ocre, a menos de 1km do centro.




Wednesday, February 3, 2010

Pactos diabólicos - Epílogo

Esta sequência de posts foi inspirada no líder religioso norte-americano Pat Robertson, que ganhou quinze minutos de fama fora dos EUA, após as suas declarações sobre a tragédia haitiana. Os leitores deste blog certamente acham que se trata de um simples fanático. Eu diria que é bem pior do que isso.

Pat falou para sua torcida. São muitos milhões de americanos: Brancos, geralmente protestantes praticantes, geralmente eleitores do Partido Republicano. Eu digo geralmente, pois ele tem feito grandes esforços para aumentar a sua base. Lembro que ele já foi candidato à presidência dos EUA.

Pessoalmente, Pat não odeia apenas os negros do Haiti, mas todos os negros. E também os judeus, os muçulmanos, os homossexuais e os direitos da mulher moderna. Ele também odeia as outras correntes protestantes (ele é batista) e os católicos. Ao mesmo tempo, possui uma facilidade inigualável de fazer alianças com qualquer um desses grupos para atingir os seus objetivos. Ele faz pactos.

Apesar da profunda rejeição aos católicos papistas, Pat encontrou no Vaticano um grande aliado para o mais mortal dos seus inimigos: O direito ao aborto. Afinal, o Papa ainda desfruta de uma certa credibilidade, e gosta de sair por aí defendendo o ideário da extrema direita. Mesmo com todo esforço que Pat empreende para fazer uma frente cristã nos EUA, são os próprios protestantes que o sustentam.

O séquito de Pat mais ladra do que morde. Entretanto, esses cristãos radicais já fizeram inúmeros atentados a clínicas e médicos que fazem aborto. Também dão muito trabalho à Justiça americana, entrando com uma avalanche de processos contra os direitos dos homossexuais e das mulheres. Que a Suprema Corte seja louvada!

A aliança inusitada de Pat com Israel é mal compreendida até mesmo entre os judeus. Ele é um antissemita ferrenho, mas um grande aliado de Israel. Aliado de boca e de bolso. Seus motivos vão desde a existência de um inimigo comum (o Islã radical) até aspectos religiosos (vide Apocalipse), que prefiro não explorar em respeito aos leitores.

Enfim, quem é Pat Robertson para falar sobre o pacto com o Diabo?


Foto: Outro castelo importante na região de Salon-de-Provence, o Château de La Barben origina-se de uma fortaleza de quase mil anos. A sua transformação em castelo clássico deu-se no século XVII. O castelo passou 500 anos nas mãos da mesma família (Forbin). Hoje, desenvolve função hoteleira.

Sunday, January 31, 2010

Pactos diabólicos 2

Ao atribuir a tragédia haitiana a fatores religiosos, o pior erro de Pat Robertson foi esconder a sua verdadeira causa. O caos social, político e econômico em que se encontra aquele país é fruto de uma das piores experiências coloniais do planeta. O Haiti passou pelas mãos da França, Inglaterra, Espanha e até dos EUA. O escravagismo foi um dos mais cruéis. Foram 500 anos de pura exploração.

A mistura de africanos, nativos, brancos e mestiços geraram inúmeras convulsões sociais. Algo tão terrível que a população haitiana vem fugindo do seu país há séculos, como mencionei no post anterior.

A história do Haiti nos faria agradecer pela herança lusitana, que notoriamente não é grande coisa. Como diria o Lula, o Diabo do Haiti é branco e tem ohos azuis.



Foto: Em 2009, aproveitei o sol até os últimos dias. Fui à Provence no final de outubro, durante a semana da Toussaint (Todos os Santos). Depois disso, frio e muita neve. A foto mostra o famoso Château de Lourmarin. O aspecto é fundamentalmente renascentista (século XV), embora tenha sido construído a partir de uma fortaleza do século XII. Hoje, é um importante centro cultural da região.


Saturday, January 30, 2010

Pactos diabólicos 1

O Brasil e o Haiti conheceram o mesmo processo de sincretismo religioso, que misturou os rituais africanos ao catolicismo. Apesar da conversão imposta pelos franceses, os escravos finalmente preservaram suas práticas, que vigoram no Haiti até os dias de hoje.

Por circunstâncias históricas, o Vodu acabou sendo muito mais conhecido no Ocidente do que a Umbanda e o Candomblé. Uma das razões é a diáspora haitiana, que levou a sua cultura para diversos países, sobretudo os Estados Unidos. O Vodu é conhecido e temido. Grandes escritores usaram a sua imagem para dar um toque de terror às suas obras.

Baseados nessa fama, alguns jornalistas entrevistaram líderes religiosos do Haiti após o violento terremoto. Eles afirmam que os Deuses sabiam da tragédia de antemão. E complementam: "Tentaram avisar o povo do Haiti, que não entendeu a mensagem."

Cada um que interprete a resposta dos pais-de-santo haitianos de acordo com a sua religiosidade. Eu acho de uma tremenda cara de pau. Mas, fico por aqui. Não dou a menor bola para o Vodu. Bem, agora me lembrei que sumiu uma caixa de agulhas aqui em casa. Pensando bem, melhor corrigir este post...


Foto: Ainda em Salon de Provence e seu castelo encravado no centro da cidade, o Château de l'Empéri, do século IX.

Tuesday, January 26, 2010

De volta para o remetente

Os radares da Córsega falharam. Evidentemente, a França não foi atacada. Pior! Um barco se aproximou da ilha e despejou dezenas de refugiados curdos. Existem pelo menos 30 milhões de curdos entre Irã, Iraque, Turquia e Síria. Eles são minoria nos quatro países. Minoria não, saco de pancadas: Vítimas de perseguições, chacinas e todo tipo de violência.

Sarkô autorizou que eles sejam submetidos a exames médicos básicos, tomem um banho e passem um perfuminho. Depois, que sejam despachados de volta para o remetente. Aqui, eles não ficarão!

Ninguém dá bola para os curdos. Se eles estivessem apenas no Irã, seriam mais úteis. Poderiam ajudar a desestabilizar o regime. A mídia mostraria a sua calamitosa realidade e, quem sabe, seriam festejados como os palestinos. Mas, não é o caso. A chave do problema é a Turquia. Este importante aliado do Ocidente no mundo islâmico poderia ser desestabilizado pela recrudescência da causa curda.

Enfim, o mundo pensou e concluiu que é melhor deixar assim mesmo.


Foto: No final de outubro, passei alguns dias na Provence. A foto é do centro de Salon de Provence, num belo cantinho a poucos metros da casa onde viveu Nostradamus, atualmente um museu. Interessante, por sinal.