Saturday, December 26, 2015

Elon Musk e Jeff Bezos

Final de ano é época de se fazer um “pit-stop” no Brasil. Escrevo este último post de 2015 em São Paulo. Daqui, a visão do ano que passou é muito negativa. Somos contaminados por tantos que querem sair do país, que temem o agravamento da crise ou, simplesmente, não aguentam mais esse mar de lama. Em janeiro, volto a falar dos problemas nacionais. Hoje, não.

Hoje é dia de falar sobre algo mais positivo. E se há algo que me impressionou neste final de ano, foi a corrida espacial entre os magnatas Elon Musk e Jeff Bezos. Seus últimos foguetes subiram ao espaço e retornaram à Terra.

Vale lembrar que o projeto da SpaceX, de Elon Musk, é bem mais ambicioso. Enquanto a SpaceX coloca satélites em órbita, a Blue Origin, de Jeff Bezos, faz vôos sub-orbitais, provavelmente destinados ao futuro turismo espacial.

O reaproveitamento dos foguetes chama a atenção como caminho ideal para o barateamento dos vôos espaciais. Num mundo que clama pela sustentabilidade, faz todo sentido. Entretanto, há controvérsias. Um foguete que vai e volta precisa levar muito mais combustível, pois seu pouso é controlado e consome muita energia. O balanço energético somado à inspeção minuciosa do aparelho a cada reaproveitamento geraria um benefício muito pequeno. Apenas simbólico.

Se Elon Musk e Jeff Bezos vão baratear ou popularizar os vôos espaciais, eu não sei. O bom dessa história toda é o seu empreendedorismo, a vontade de inovar, a disposição de assumir riscos e tudo isso sem mamar nas tetas do governo. Bem, prometi que não ia falar do Brasil.

Por incrível que pareça, existem muitos Elon Musk e Jeff Bezos por aí. O problema é que eles nem sempre encontram as mesmas oportunidades. Pelo contrário, só encontram dificuldades. Estados controladores, burocráticos e insaciáveis. Bem, prometi que não ia falar do Brasil.

Elon Musk e Jeff Bezos são dois visionários e jamais se acomodam. Como diria a velha propaganda do Bamerindus, são gente que faz! Gente que faz e alimenta nossos sonhos e esperanças por um mundo melhor. A todos vocês, boas festas e um grande 2016!



Foto:  Saudações do tocador de realejo da praça central de Antuérpia. Notem que o aparelho funciona com cartões perfurados.  Bem, também não vou falar sobre a história da computação.

Friday, December 18, 2015

Terror de política - Epílogo

Meu último post foi premonitório. A suspensão do Whatsapp por algumas horas no Brasil é piada pronta. Muitos já escreveram sobre o absurdo que foi punir 100 milhões de usuários.

Fiquei impressionado com os meios encontrados para contornar o bloqueio imposto pela Justiça. Embora milhões de pessoas tenham baixado outros aplicativos, outros milhões contornaram o bloqueio no sentido literal, por exemplo, usando VPN.

A Justiça deu um tiro no pé ao empurrar milhões de brasileiros para aplicativos como o Telegram, dotado de recursos muito mais sofisticados do que o Whatsapp. Certamente, não leram meu blog!

Talvez seja difícil contar com a colaboração do Facebook para atender às inúmeras demandas da Justiça brasileira. Porém, se precisarmos da ajuda da organização que mantém o Telegram, será simplesmente impossível obtê-la. Não colaborar com governos é um dos seus princípios e, mesmo se quisessem, as opções de segurança tornam impossível a decodificação das mensagens trocadas pelo Telegram.

A nossa sábia Justiça empurrou o PCC para o Telegram. Gênios! Deveriam saber que, ruim com o Whatsapp, pior sem ele.



No meu caminho do trabalho para casa, passo pelo centro de recepção de refugiados de Bruxelas. Não é nem um galpão nem um acampamento, é um prédio da Cruz Vermelha, bem integrado ao centro de Bruxelas. Nos últimos meses, o burburinho por ali ficou bem maior.

Recentemente, notei uma novidade na entrada do prédio. A companhia de telefonia móvel local instalou dois carregadores de celulares públicos. São duas peças cheias de escaninhos, cada um com alguns cabos para carregar os diferentes tipos de celulares.

A sede da Cruz Vermelha foi concebida para proporcionar leitos, alimentos, sanitários e atendimento médico. Para os padrões atuais, faltam muitas tomadas. Muitas mesmo. Os refugiados muitas vezes vêm apenas com a roupa do corpo e o inseparável celular.

Num documentário da TV francesa, o jornalista pediu para um refugiado sírio abrir a sua pequena mochila. Quase vazia. Havia uma escova de dentes e um celular. Esses refugiados são como os brasileiros, pobres mas limpinhos.

Acompanhando-se os refugiados através das imagens do longo do caminho da Mesopotâmia até a Europa Ocidental, percebe-se a onipresença dos celulares. Chip turco, chip grego, chip croata, chip bósnio, etc. Vão-se os chips, ficam os celulares.

Tudo isso só vem reforçar os comentários do último post, da importância do celular como instrumento de cidadania.



 Foto: Fechando a série de fotos de Mons, Bélgica.

Saturday, December 12, 2015

Terror de política - Parte 2

Entre as inúmeras reações aos atentados de 2015, houve uma crítica aos recursos tecnológicos, que propiciam a comunicação entre trerroristas. De fato, a tecnologia ajuda a humanidade como um todo, para o bem e para o mal. Felizmente, existe muito mais gente fazendo o bem.

Há muitos anos, assisti a uma palestra do Prof.Stephen Kanitz falando sobre a importância do telefone celular. Se no mundo desenvolvido, a telefonia móvel trouxe benefícios relevantes, nos países como o Brasil, ela trouxe algo a mais, resgatando a cidadania daqueles que ficavam isolados, sem a possibilidade de uma justa integração à sociedade ou ao mercado de trabalho.

O ganho da tecnologia foi muito além da rapidez, da eficiência, da praticidade ou da possibilidade de  entretenimento. As pessoas ganharam uma voz, fontes de informação alternativas, poder de organização e manifestação. As democracias fortaleceram-se.

A crise político-institucional brasileira é exemplo disso tudo. Se não fosse a contribuição das redes sociais e dos aplicativos de comunicação, a abominável Dilma estaria bem mais tranquila.

Graças a ampla divulgação dos fatos, percebemos o quão perverso um governo pode ser. Foi uma dura lição aos brasileiros, argentinos e venezuelanos, entre outros, que escolheram execráveis governos populistas e corruptos, sem quaisquer limites para preservar o poder.

A História nos ensina que isso tudo não é privilégio das nossas repúblicas bananeiras. Temos que permanecer vigilantes. É a briga do Snowden, embora muitos não concordem integralmente com ele. Eu mesmo fiz algumas ressalvas à época.

A tecnologia também está aí para nos proteger do maior dos vilões. Já fizemos muitas concessões e é preciso deixar uma espaço para a privacidade, para continuar trocando mensagens que não sejam lidas ou falar sem ser escutado pelo governo ou por qualquer outro.

Aos amigos do Brasil, mais uma vez, boas manifestações, fora Dilma e cana nos petralhas!

Leia também:
Snowden


Foto: Mais uma foto tirada em Mons, no início do ano.

Thursday, December 10, 2015

Terror de política - Parte 1

2015 entra para a história. Paris viveu os atentados de janeiro e novembro. Dois outros foram evitados, o do Thalys (trem) e o da Igreja de Villejuif. Este blog já especulou sobre as causas sociais e econômicas do terror, mas nunca falou da tecnologia a ele associada.

Sempre encontramos aqueles políticos oportunistas, que se aproveitam do momento para tentar acabar de vez com o que nos resta de liberdade e privacidade. Para tratar de assunto tão importante, farei um texto em duas partes. Começamos recapitulando alguns fatos.

Os terroristas são sofisticados. Os vídeos do Estado Islâmico no Youtube orientam o uso de criptografia em qualquer comunicação. Criptografia de 4096 bits. Para os leitores leigos, saibam que é muuuuuuito seguro.

Nem todo terrorista nasceu para informática. Alguns poderiam trabalhar perfeitamente numa equipe de suporte técnico. Outros estão mais para a equipe da Dilma. Entre erros e acertos, não dá para não falar de tecnologia.

Nos atentados ao mercado Kasher, o terrorista filmou seus assassinatos com uma câmera GoPro. Ele não conseguiu colocá-lo no Youtube por problema de sinal (até tu Paris!). Mesmo com a Polícia às portas, ele sacou o cartão de memória da câmera e carregou num computador. Haja sangue frio.

Um dos meios de comunicação usados nesse ataque contrariou as regras do terrorismo internacional, embora seja criativo. A técnica consiste em compartilhar contas de Gmail. Ao invés de enviar a mensagem, eles deixam-na como rascunho. Como a pasta de rascunhos é sincronizada, eles comunicam-se sem trocar mensagens, que são mais facilmente rastreáveis.

No fracassado atentado à Igreja de Saint-Cyr-Sainte-Julitte de Villejuif, um dos terroristas usava a ferramenta de criptografia “PGP” direitinho. Cometeu um único erro - e fatal - ao apagar uma mensagem sem passar pela criptografia. O cesto de lixo é o pote de ouro dos peritos. A partir desta falha, a Polícia francesa fez a festa e desbaratou todo o bando.

Nos atentados de novembro, o uso de aplicativos como Telegram e Signal pegou a Polícia de calças curtas. São ferramentas de chat com criptografia. Uma outra parte da quadrilha teria usado a função de comunicação do Playstation, algo igualmente difícil de ser rastreado. Se cometeram algum erro, foi ter se livrado de um celular. Aquele celular encontrado no cesto de lixo foi a chave para a rápida resposta da inteligência francesa.

Diante de tudo isso, a reação de alguns políticos desesperados para encontrar bodes expiatórios é esquecer dos  verdadeiros problemas e eleger um culpado: A tecnologia!

Sim, para eles, os culpados são a Internet, os aplicativos de mensagens, a telefonia celular e até o Playstation. Um político pediu o fim dos aplicativos com criptografia. Um outro quer “porta dos fundos” em todos os aplicativos.

Em tempos de desespero, pode ser uma tentação trocar liberdade por segurança. Entretanto, é certamente uma armadilha. Isso fica para o próximo post.


Leia também:
Atentados de janeiro: #jesuischarlie
Atentados de novembro: Terror
Porta dos fundos


Foto: Cenas de Mons (Bélgica), cidade escolhida como capital europeia da cultura em 2015.

Monday, December 7, 2015

Fantasma

O Brasil passa por uma fase difícil e a tensão deve aumentar ainda mais com a abertura do processo de impeachment. Não sei se será o golpe decisivo na corruptocracia instaurada pelo PT, mas é suficiente para alimentar nossas esperanças.

Diante de um Brasil que anda para trás e continua afundando na lama, os problemas dos outros países parecem menores. Só que não!

A crise dos refugiados e os recentes atentados de Paris potencializaram a ameaça que pairava no ar. Ontem, no primeiro turno das eleições regionais francesas, o Front National (FN), partido de extrema direita, abocanhou quase 30% dos votos.

As estrelas do partido são a filha (Marine) e a neta (Marion) do velho fascista Jean-Marie Le Pen. As caras são novas (e inexperientes), mas seus ideais são os mesmos. A vitória do FN é uma combinação da grande abstenção, do voto de protesto, do desemprego, do repúdio aos imigrantes e da descrença na Europa, entre outros.

Para não apavorar meus leitores, saibam que o sistema eleitoral francês ainda oferece alguma defesa contra a ameaça extremista. Nesses dias entre o primeiro e segundo turno, os partidos ainda podem retirar e fundir suas listas.

Ou seja, para se evitar a vitória do FN, os dois principais partidos da França - Socialista (PS) e Republicanos (LR) - terão de fazer algum sacrifício. Por exemplo, o PS anunciou hoje a retirada da sua lista de três regiões lideradas pelo FN. Em outras palavras, ele libera seus eleitores para votarem nos rivais Republicanos e ainda fica de fora da vida política da região nos próximos anos. Que castigo!

Acredito que os entendimentos políticos e a mobilização popular acabarão limitando o estrago do FN. Entretanto, fica uma dura advertência à classe política francesa. É melhor se mexer e atacar de frente os problemas do país! Com essa vitória, mesmo que parcial, o FN vai ganhar mais palanque para espalhar seu discurso raivoso. A ameaça continua no ar.


Foto: Última foto do Parque da Cambre em Bruxelas

Tuesday, December 1, 2015

Aula

Fazia um bom tempo que eu não entrava numa universidade. Em outubro, tive o prazer de dar uma aula numa escola de referência, a Solvay Brussels School. Trata-se da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade Livre de Bruxelas.

O nome Solvay não é por acaso, a Escola foi criada a partir de uma doação de Ernest Solvay, fundador do Grupo Solvay, do qual a Rhodia tornou-se parte em 2011.

Uma semana antes da aula, notei que um aluno da Escola deixava  pegadas digitais ao recolher informações sobre mim. De fato, ele fora incumbido de fazer a apresentação do palestrante para seus colegas. Achei a iniciativa muito boa. Poupou-me um tempão. Além do mais,  essa nova geração é capaz de fazer apresentações muito melhores do que as minhas.

Lá da frente do anfiteatro, avistava mais de 150 meia-cabeças. Digo meia pois, invariavelmente, os seus Macs eram mais visíveis do que seus rostos. Um espião lá do fundo do auditório revelou aquilo que eu desconfiava. Muitos aproveitavam  o tempo para colocar o Facebook em dia. Tinha até um jogando paciência. Felizmente, para o bem da Bélgica e para minha satisfação pessoal, havia dezenas tomando nota dos meus comentários.

O coordenador do curso estava tão contente com a minha participação, que nem se preocupou com a forma da aula. Acabei usando e abusando do Powerpoint. Fazendo uma autocrítica, mesmo que seja algo comum no mundo corporativo, acho que a nova geração merece coisa melhor.

Apesar da platéia eminentemente francofônica, assim como todas as demais aulas daquele curso, minha apresentação foi em inglês. Bem, pelo menos o apresentador e os alunos estão no mesmo nível.  Cada um com seu sotaque :-)

O  mais interessante foi falar sobre transformação digital para a moçada. Eles nasceram conectados e sabem muito bem como usar as novas tecnologias. Não é à toa que várias empresas lançam programas de “reverse coaching”, onde os mais jovens orientam os mais experientes nos desafios do mundo digital.

Ao final dessas duas intensas horas de apresentação, não faço a menor ideia do que eles aprendeream. Eu aprendi muito.



Foto: Domingão outonal no parque da Cambre, em Bruxelas.

Sunday, November 29, 2015

Outono

O foco está na COP21 sediada em Paris. Para proporcionar a segurança necessária aos governantes do mundo inteiro, a cidade foi praticamente bloqueada. Em paralelo às discussões sobre o clima, os mesmos protagonistas tentarão achar uma solução para a crise síria. A recente derrubada do avião russo pela Turquia não ajuda em nada.

Hoje pela manhã, cruzei mais uma vez com aquele, que inspirou o post  “Popular e Ladrão”. Sim, o Erdogan esteve por aqui para uma nova reunião de cúpula entre a Europa e a Turquia. A Europa quer que ele pare de despejar refugiados sírios nas praias gregas, que ele pare de escoar o petróleo do Estado Islâmico e ajude a combatê-los. O último pedido do Erdogan para aceitar o pleito europeu foi de 3 bilhões de dólares, a cabeça do Assad e um pau nos curdos. Assim fica difícil.

O presidente francês ganhou algum prestígio ao liderar a nação depois da tragédia. Pelo menos, ele serve para alguma coisa! A solidariedade internacional com a França não foi suficiente para formar uma coalizão de combate ao Estado Islâmico. Hollande ouviu alguns nãos durante a semana:  Obama, Putin e Merkel, entre outros.

Bruxelas teve uma semana de exceção, como descrevi no último post. A vida voltou ao normal depois de alguns dias sob estado de sítio. Paira no ar aquela pergunta que não quer calar. Se a situação não mudou e dois dos terroristas estão soltos por aí, então há algo de errado: ou o estado de sítio não deveria ter sido decretado ou não deveria ter sido relaxado. Mistério.

A imprensa francesa não tem perdoado a leniência belga com relação aos muçulmanos radicais. Entre todas as críticas, achei a do Le Monde a mais dura. O seu editorial de 24 de novembro diz: “esse Estado sem nação pode virar uma nação sem Estado”.

Vale uma explicação. A Bélgica é tida como um Estado sem nação, por ser uma federação que agrupa flamengos, valões e alemães. Diante do radicalismo islâmico, todos erraram. O momento é de rara união, evitando-se acusações mútuas. Entretanto, ao longo dos últimos anos, o assunto foi deixado de lado para não afetar o frágil acordo que mantém a Bélgica unida.

Essa história de nação sem Estado lembrou-me do Brasil. Nosso Estado não está desaparecendo, mas apodrecendo rápido. Fiquem tranquilos, pois a cura passa pela prisão em massa de petralhas, como – felizmente - está acontecendo.



Foto: No final de semana anterior aos atentados, pude passear no Parque da Cambre, aqui em Bruxelas, curtindo a paisagem de outono.

Sunday, November 22, 2015

Estado de Sítio

Bruxelas viveu um final de semana sob estado de sítio, com a polícia e o exército espalhados pela cidade. Aqui no meu bairro, tenho cruzado com inúmeros homens fortemente armados desde sexta-feira.

Tinha ingressos para um show ontem à noite, mas o espetáculo foi cancelado. Por ironia, estava em Paris no final de semana passado, onde também não pude fazer o meu programa cultural.

Mesmo sem saber da anulação do show de ontem, confesso que estava preocupado. Vou ou não vou? A ameaça terrorista está sendo levada tão a sério entre a França e a Bélgica, que a tradicional Fête des Lumières de Lyon foi cancelada.

Após uma semana de debates intensos, fiquei muito satisfeito ao perceber que o meu último post, escrito ainda sob o impacto da tragédia, foi bem razoável na análise, apesar da sua brevidade.

No quadro externo, há um amplo entendimento de que é preciso atacar militarmente o Exército Islâmico, cortar suas fontes de financiamento e inibir seu poder de recrutamento, entre outras ações.

No quadro interno, as discussões são mais intensas. Há obviedades como reforçar a vigilância e a inteligência, porém, a unanimidade para por aí. Apesar dos últimos atentados, muitos ainda preferem um pleno respeito às liberdades individuais e à igualdade. Nada de sair prendendo uns barbudos perigosos por aí.

Não tinha percebido duas coisas no momento dos ataques. A primeira é o grau de perversidade dos terroristas. Esses monstros costumam circular entre a Europa e o Oriente Médio quando e como querem. Entretanto, fizeram questão de deixar um rastro associado à entrada de refugiados. Por que dar um presentinho desses aos “irmãos” sírios, que viram as portas fecharem-se em vários países nos últimos dias? Os terroristas sabem que a questão dos refugiados é um debate que divide a Europa. Pegaram na ferida.

A outra coisa que deixei escapar foi o papel da Bélgica. Quer dizer, eu, o povo e o governo belga. Se o Oriente Médio é a universidade do terrorismo, a Bélgica é a sua pós-graduação. A Bélgica dormiu no ponto e permitiu a criação de guetos favoráveis à radicalização. Os rastros dos últimos atentados graves ocorridos na França passam por Bruxelas.

Num final de semana em que pude ler todos os jornais, encontrei sábias palavras de uma executiva belga e muçulmana no L’Echo de sábado: “A Bélgica paga hoje o preço de uma pesada herança deixada por aqueles que preferiram a política do avestruz e do clientelismo com fins puramente eleitorais”.

Já escrevi sobre isso nos posts que sucederam outros atentados. É o mesmo comunitarismo denunciado na França. Políticos abrem mão da laicidade para fazerem concessões à comunidade islâmica a fim de obter seus votos. 

Quanto mais enraizado estiver o islamismo radical, mais difícil combatê-lo.  Não vai ser fácil recuperar toda essa juventude! Só resta esperar por uma semana de paz por aqui. Por aqui, pois na Síria vai cair muita bomba!



Foto: Acima e abaixo, fotos tiradas no último domingo na Praça da República de Paris, lugar que concentra as homenagens às vítimas desses atentados.


Saturday, November 14, 2015

Terror

Estou em Paris desde quinta e ficarei até segunda. Ontem, preparava-me para dormir quando soube da barbárie. Se alguém acha que a França vacilou com a segurança, errou. Desde janeiro, o país está sob alerta. Infelizmente, contra a covardia do terrorismo, não há muito o que fazer.

Com o estado de emergência decretado e vigilância por toda a parte, estamos mais seguros. Por quanto tempo? Manter esse aparato nas ruas é insustentável. Melhor seria atacar as causas do terrorismo, doa a quem doer.

O atentado foi assumido pelo Estado Islâmico. Porém, colocar toda a culpa nesses assassinos bárbaros é uma grande manipulação, daquelas típicas do George Bush. Ontem foi a al-Qaeda, hoje é o Estado Islâmico e amanhã haverá uma outra associação qualquer para fazer o terror em nome de Alá.

No plano externo, quando se trata de Oriente Médio, há um festival de hipocrisia. Todo mundo faz jogo duplo e o interesse econômico prevalece. Ninguém quer mexer com seus aliados endinheirados e financiadores do terrorismo: Arábia Saudita, Irã, Qatar e Emirados Árabes. Sem contar a Turquia, que não tem petrodólares, mas tem a mesma cara de pau.

O vacilão do François Hollande promoveu uma intervenção tardia na Síria, jogando mais bombas na areia do que qualquer outra coisa. Ele pode até fazer um discurso bonito, mas não abre mão de vender um A380 para a Emirates.

Entre todos os governantes europeus hipócritas, melhor ficar com o Putin, que assume que é mesmo um canalha, ao colocar seu exército para defender Damasco.

O plano externo ficou extremamente complexo após a tomada de posição da Rússia. Há algumas semanas, uma publicação francesa anunciava a Terceira Guerra Mundial. Exagerado ou não, é ilustrativo.

O plano interno é ainda pior. Mesmo que a Europa esteja longe de uma desigualdade social como a brasileira, há algo de podre no ar. A estagnação econômica e a dificuldade de integração dos imigrantes e seus descendentes estão entre os problemas mais conhecidos.

Quando milhares de pessoas oriundas das periferias das capitais europeias deixam seus países para juntar-se ao Estado Islâmico, fica difícil apontar apenas para o inimigo externo. O mal está aqui dentro.

E o que diremos daqueles que nem nasceram muçulmanos e também aderiram à causa? Foram à Arábia para matar, degolar, estuprar, esquartejar e enforcar. Nada contra uma coalizão para combater os lunáticos do Estado Islâmico, mas não nos esqueçamos que a nossa sociedade também está doente.

Que todas as vítimas descansem em paz. Estamos com Paris!



Foto: Em homenagem a Paris, uma foto da sua prefeitura tirada em julho último.

Saturday, November 7, 2015

Sanfona

Quando voltei da minha primeira expatriação, estava com 10kg a mais. Digamos que quatro anos de gastronomia francesa justificam esse ganho de massa. Foi por uma boa causa!

A história se repete. O “efeito Bélgica” parece ser ainda mais devastador. A combinação de cerveja, waffle, chocolate e fritas farão os 10kg em muito menos de 4 anos e isso não é uma boa causa, é uma tragédia!

Antecipando o esperado “efeito sanfona”,  tenho procurado academias perto de casa desde que cheguei em Bruxelas. Não achava nenhuma comparável às melhores academias paulistanas. Dá para imaginar alguém limpando os aparelhos após cada utilização por aqui? Nem pensar. E aquele exército de monitores prontos para ajudar? Muito menos.

Entre as minhas tentativas, conheci uma academia tocada por uma só pessoa. Parece cômico, mas a questão da mão de obra na Bélgica é ainda mais complicada do que na França. Também estive numa outra com instalações muito semelhantes às brasileiras. Os aparelhos e máquinas podem ser os mesmos, mas falta o principal: gente.

Há pouquíssimo tempo, encontrei uma academia excelente bem ao lado de casa. Ao longo dos últimos 18 meses, passei diante dela um monte de vezes e não reparei. Possivelmente, uma parte de mim não queria mesmo encontrá-la ;-)

Já estou inscrito. Na próxima vez que pisar no Brasil ainda estarei acima do peso. Quem sabe, em abril, estarei mais próximo daquele que saiu do país há 18 meses.

Em São Paulo, fazia academia com assiduidade. Nunca tive nenhuma ambição esportiva, era a forma mais interessante de fugir do trânsito.

Na minha plenitude esportiva, boa parte do tempo da academia era dividido entre a leitura do jornal, o lanchinho e o banho. No tempo que sobrava, eu queimava umas calorias.


Foto: Mais uma tomada do Château de Belœil, a partir dos seus jardins.

Sunday, November 1, 2015

Roubadinha

Tenho usado a Internet para reservar hotéis, restaurantes e espetáculos. Nesse mundo virtualizado, espera-se que nossas opiniões sejam compartilhadas, construindo (ou não) a reputação de cada local ou evento.

O grande problema é receber inúmeras mensagens semanais de serviços como o Trip Advisor. Desisti! A avaliação pode ser simples, mas ignorar tais mensagens é ainda mais simples. Tenho ignorado até mesmo as avaliações das corridas do Uber e do e-cab (aplicativo de táxi usado por aqui).

Como escolho meus programas com algum critério, dificilmente caio numa roubada. Sempre que precisei “gritar”, usei o Twitter.  Foi rápido e atingiu o objetivo.

Se consegui evitar uma grande roubada, houve “roubadinhas”. O Trip Advisor foi privado de fatos como os que seguem.


Numa cidadezinha da Provence, escolhi um restaurante muito bem localizado, razão pela qual muitos outros turistas fazem a mesma coisa. Sem muita fome, pedi uma salada caprese. O cardápio indicava um preço de 30 euros. Parece caro, mas é aceitável naquele local e na alta temporada. A surpresa viria logo mais com a chegada do prato: Um tomate inteiro e uma bola de mozarela. Olhei para minha esposa e disse: Será que lavaram o tomate?


Aqui em Bruxelas, tem um restaurante estrelado que usa e abusa de trufas. Havia reservado um jantar por lá há algum tempo, aproveitando-me de uma promoção. O espetacular jantar foi um menu-degustação com vários pratos. Em alguns momentos, o garçom ofereceu trufas raladas da mesma forma como se serve queijo parmesão em restaurantes de massa. Entretanto, teria sido mais simpático avisar que cada uma dessas raladinhas custava 20 euros!


E por falar em parmesão, tem um italiano perto de casa. Na última temporada, o tiramisu, minha sobremesa favorita, fazia parte do cardápio. Como sempre, estava animado para degustá-lo, mesmo que fosse pela enésima vez. Quanta decepção! O criativo chef desmontou a tradicional receita italiana, separando o mascarpone, a bolacha, o café e os demais componentes. Horrível! Felizmente, a heresia gastronômica foi excluída do cardápio desta temporada.


Foto: Voltando à Bélgica, uma tomada do Château de Belœil, onde estive um mês atrás.

Sunday, October 25, 2015

Estrelas

O mistério da estrela KIC 8462852 é notícia. Como os cientistas não conseguem interpretar os sinais vindos do astro situado a 1480 anos-luz da Terra, entra em cena a hipótese alienígena. No caso, imagina-se uma gigantesca estrutura envolvendo a estrela para absorver a sua energia. Só uma civilização muito avançada poderia construir um aparato desse porte.

Obviamente, trata-se de uma hipótese. Encontrar inteligência fora da Terra não me choca. Pelo contrário, tem sido muito difícil encontrar  inteligência por aqui. Duro mesmo é acreditar na existência de uma estrutura desse tamanho.

Existe algo ainda não foi explorado nos artigos que li. Caso essa hipotética mega-estrutura fosse real, falamos de algo que existiu 1480 anos atrás, pois os sinais da estrela levaram esse tempo para chegar até nós.

Analogamente, se um ET de um planeta do sistema KIC 8462852 estivesse olhando para a Terra nesse momento, observaria a Europa num cenário de guerra  e fome.  Seria o mundo do ano 535, repleto de disputas entre os povos que ocuparam as antigas fronteiras do Império Romano. Já a fome teria sido provavelmente causada por um vulcão, que espalhou cinzas sobre o planeta, afetando o clima e prejudicando a atividade agrícola.

Voltando aos aliens. Se uma civilização pudesse construir uma estrutura dessas há 1500 anos, fica difícil de imaginar onde estariam hoje. Se não provocaram a sua auto-destruição, poderiam aparecer por aqui a qualquer momento!

Piadas à parte, a confirmação de vida inteligente fora da Terra talvez fosse positiva. Traria um certo pânico no começo,  mas poderia despertar um sentimento de irmandade entre os povos. A existência de uma ameaça comum, a possível união em torno de um grande projeto espacial ou até mesmo o enfraquecimento das doutrinas teológicas que não ajudam em nada na paz entre os homens estão entre os argumentos.

Enfim, foi apenas uma reflexão influenciada pela chegada de mais um episódio de Star Wars.



Foto: Fechando a série de fotos na Provence em julho último, Isle-sur-la-Sorgue a 40 graus.

Sunday, October 11, 2015

Popular e ladrão

O hotel vizinho nem é tão caro, mas é classudo. Seu edifício suntuoso é o endereço preferido dos dirigentes estrangeiros em Bruxelas. Sempre que ando pela Avenue Louise e passo por ele, dou uma olhada para ver qual é a celebridade do momento.

Apesar das longas comitivas, dos jornalistas e curiosos, não há muito barulho. Até mesmo a Dilma não chamou a atenção. Pensei num panelaço solo, mas nossos horários não coincidiram.

Há alguns dias, presenciei uma exceção. A frente do hotel estava repleta de gente. Havia farta distribuição de balões vermelhos e brancos. A charmosa Avenue Louise e a Place Stéphanie foram ocupadas. Até o trânsito de bondes e carros foi  interrompido pela multidão. Quem poderia quebrar a tranquilidade do nosso cantinho? Quem seria tão poderoso?

Tais dúvidas pairavam na cabeça da minha esposa. Estava ao seu lado e pude esclarecer. Disse que o Erdogan, o presidente turco, estava na cidade. Ainda acrescentei : “Ele é o Lula da Turquia, popular e ladrão”.

Para comparar o Brasil e a Turquia, melhor ler a crônica do Guga Chacra. A presença do Erdogan em Bruxelas é importante, pois trata-se de um ator chave numa região tão desestabilizada: refugiados, Síria, curdos, Estado Islâmico, etc. Tudo passa pela Turquia.

Juntar o fã clube para o presidente não foi difícil. A comunidade turca na cidade é muito grande. Assim como acontece no Brasil, encontrar algumas centenas de admiradores de um líder populista é fácil. Não precisa nem pagar.

Dias depois, estive num evento de informática europeu. A maioria dos participantes era do Reino Unido, mas havia uns gatos pingados de outros países. Tive oportunidade de conversar com um executivo turco.

Nem falamos de informática. Já cheguei dizendo que encontrei o Erdogan ao lado de casa.  Ele emendou com as novidades de Istambul. Tudo que ele contou parecia exatamente com a história recente do Brasil, tomado pela gangue do PT.

Preferia ter encerrado a nossa conversa com um tom mais positivo, mas não pude. Contei as coisas que estavam acontecendo no Brasil. Pelo menos ele apreciou a minha sinceridade.


Foto: Ainda na Abadia de Sénanque, a turista curtindo a paisagem. Além do visual, o aroma da lavanda.

Sunday, October 4, 2015

Rugby 2015

A última vez que comentei sobre rugby foi na Copa do Mundo de 2011. Quatro anos depois, estamos chegando às quartas de final da Copa de 2015, organizada pela Inglaterra.

Uma das maiores surpresas deste torneio aconteceu ontem à noite, quando a Inglaterra foi eliminada ainda na fase classificatória. Segundo a imprensa francesa, uma “humilhação histórica”. No grupo mais forte, ela acumulou duas derrotas, para Austrália e País de Gales. A Inglaterra no rugby é a mesma Inglaterra do futebol. Inventou o esporte, tem tradição, mas...

Enquanto escrevo este post, a Argentina, que constrói uma tradição no esporte, garante sua passagem para a próxima fase. Já o Japão protagonizou uma das maiores zebras da Copa, ao vencer a tradicionalíssima África do Sul. Muito provavelmente, fica fora da próxima fase. O Japão do rugby é o mesmo Japão do futebol!

O rugby tem ganho muita popularidade na Europa. Nos países participantes da competição, a cobertura midiática não perde para a Copa da FIFA. Na França, atual vice-campeã, o esporte tem a mesma atenção do que o futebol em época de Copa, páginas e mais páginas dos jornais e muito tempo de TV. Já na Bélgica, sem grande tradição no rugby, fala-se muito pouco sobre o assunto.

O futebol  talvez tenha o fardo de ser o mais popular does esportes. Com tamanha visibilidade e tanto dinheiro envolvido, seus dirigentes sucumbem facilmente às tentações. Michel Platini, visto como a esperança para endireitar o futebol, está mais perto da cadeia do que da presidência da FIFA. Definitivamente, a gestão do rugby não é a mesma do futebol.


Foto: O campinho de lavanda mais famoso da França, junto à Abadia de Sénanque, neste verão.

Sunday, September 27, 2015

Diesel

Assim como na minha primeira expatriação, optei  por um carro movido a óleo diesel, algo muito comum por aqui. É bem prático rodar mil quilômetros sem precisar parar num posto. Nas últimas férias, por exemplo, rodei  quatro mil. Imaginem se tivesse um tanquinho para 50 litros de gasolina?

Alguns especialistas afirmam que o escândalo Volkswagen é o canto do cisne dos motores a Diesel em carros de passeio. Ótimo! Que o meu próximo carro seja elétrico ou híbrido.

Outros especialistas mais radicais afirmam que não é uma questão de modo de propulsão, mas o veículo de uso privativo estaria com seus dias contados. O futuro reside no compartilhamento do automóvel em complemento aos transportes públicos. Ave Uber!

Diesel me faz lembrar de outras coisas. Da marca italiana, que já esteve neste blog, em  Crônica Toscana. E também da enfermeira Diesel, um impagável personagem do filme “Alta Ansiedade”  (Mel Brooks, 1977). Na descrição da Wikipedia, “dominadora e controladora do hospício, sendo que ela mesma é uma psicopata”. 

Sempre que cruzo com uma “alemoa” - carinhoso termo usado no Sul do Brasil - mandona, lembro-me da enfermeira Diesel.

Nesses últimos dias, ando associando Angela Merkel ao personagem.  Graças à sua competência, é claro, tem atropelado o resto da Europa, impondo a vontade da Alemanha, sem dúvidas, motor econômico do continente.

Na crise dos refugiados, a Alemanha impôs a ideia de cotas para os países da União. Quem não queria receber ninguém ficou contrariado. Quem até estava aberto à proposta, pareceu apenas fazê-lo por sugestão da Alemanha. Enfim, é por essas e outras que a queda de um gigante industrial da Alemanha agrada muita gente.   




Foto: Gordes, na Provence. Julho é mês de bater ponto na Provence para visitar os campos de lavanda, entre outras atividades. Pela terceira vez, paradinha em Gordes.

Tuesday, September 22, 2015

Volks

Os executivos da Volkswagen confessaram sua culpa num dos maiores escândalos de todos os tempos da indústria automobilística. São milhões de carros envolvidos, podendo acarretar numa multa bilionária à montadora alemã.

Imaginem vocês se a Volkswagen fosse gerida pelo PT. Claro, eles negariam tudo até o fim. Vejamos os depoimentos dos executivos da montadora:

Ludwig Ignatius, famoso ex-presidente da montadora declarou: “Isso não significa nada”. 

Joseph Genuine, executivo aposentado do grupo, disse que tudo isso é uma perseguição da mídia à montadora, afirmando que todas as outras montadoras também trapaceiam. 

Ruy Falke, chefe das comunicações da VW, foi mais direto, acusando o antigo presidente da casa, Ferdinand Heinrich Cardosen. Segundo Falke, o analista que desenvolveu o software para trapacear os testes de emissões foi contratado naquela gestão.

Outro executivo da montadora, Ludwig Merkadanten, responsável pela P&D, afirma com certeza absoluta: “Foi apenas um bug”.

Ciente de que o caso deve escalar até a Suprema Corte, Richard Lewandowski, jurista e presidente do Clube dos Amigos da VW, menospreza a ameaça à montadora. Argumenta: “A teoria do domínio do fato, criada pelos nobres conterrâneos Hans Welzel e Claus Roxin, não pode ser aplicada nesse caso”. Ainda segundo Lewandowski, o analista que desenvolveu o software é o único culpado.

Johann Vaccarius, ex-diretor financeiro do grupo, esnoba a provável multa de 18 bilhões dólares. Está pronto para convidar todos aqueles que possuam um automóvel da marca para pagar uma fração dessa quantia.


Foto: A vista do Museu da Confluência, em Lyon.

Sunday, September 20, 2015

Circo

Domingo passado, fui a um espetáculo do Cirque du Soleil, em turnê por Bruxelas. Sou um dos inúmeros admiradores do grupo canadense. Além de gostar das exibições, fico impressionado com a performance empresarial da trupe. Quem diria que uma companhia circense pudesse faturar um bilhão de dólares?

O fato inusitado do show do último domingo não foi nenhuma novidade do mundo da acrobacia, do malabarismo ou da palhaçada. Vocês sabem que um errinho ou outro sempre aparece nos shows do Cirque du Soleil. Faz parte. Entretanto, dessa vez, o grupo de acrobatas falhou três vezes seguidas no mesmo número. Sim, três vezes. Ai que dó...

Vocês também sabem o que acontece nessas horas. A plateia fica ainda mais ligada aos artistas. Desperta-se uma incrível solidariedade. Os aplausos são muito mais intensos. Aplausos que significam muitas mensagens como valeu o esforço, continuem tentando, você merecem, comprendemos a dificuldade ou estamos com vocês.

É interessante como nem sempre os erros são encarados da mesma maneira. Tomemos, por exemplo, a Dilma, que não acerta uma, nem sem querer. Seus erros não despertam a menor compaixão. A cada dia que passa, ela fica mais detestável.

Pensei com meus botões nas razões dessa diferença, e aí vão algumas alternativas:

a) Porque ela erra demais e a gente não aguenta mais
b) Porque ela não trabalha no circo, mas faz a gente de palhaço
c) Porque os seus erros custam muito caro para nós
d) Porque ela nem é capaz de perceber os próprios erros  
e) E mesmo que percebesse, jamais os assumiria 
f) Pedir desculpas então, nem pensar! 

Não precisa escolher nenhuma alternativa. É um pouco de tudo. Fora Dilma!


Foto: O Museu da Confluência de Lyon, inaugurado em janeiro deste ano. O projeto arquitetônico audacioso é assinado pelo escritório austríaco Coop Himmelb(l)au . As dificuldades técnicas da sua realização somadas às características do solo causaram um enorme atraso. Qualquer hora eu conto mais sobre isso.

Friday, September 18, 2015

Recorrência

Durante o verão europeu, renovei alguns documentos belgas. Apesar dos avanços da máquina pública, de vez em quando, as ortodoxias burocráticas podem surpreender.

A prefeitura de Bruxelas solicitou-me um atestado de bom comportamento. E onde é que se tira o tal atestado? Na própria prefeitura. Pelo jeito, o pessoal do segundo andar não fala com o do primeiro.

Na ocasião, a recepcionista  perguntou: “Por que o Sr. precisa disso?” Respondi que era um pedido do pessoal do andar de cima! Como bom paulistano, falei fazendo mímica, apontando para o andar acima com o dedo indicador.

A situação hilária é incompreensível, pois está tudo no mesmo prédio e é bem informatizado. Para se inventar um Poupatempo belga só seria preciso um pouco de boa vontade. Mas isso não foi o pior.

A moça ainda solicitou a apresentação do documento de identidade, cuja renovação era o próprio objetivo do meu périplo. Felizmente, o documento ainda tinha alguns dias de validade. Caso contrário, seria vítima de uma recorrência burocrática, condenado a passar o resto dos meus dias entre o primeiro e o segundo andar.

Recorrência burocrática existe mesmo. Um exemplo não incomum acontece com muitos expatriados, quando os fiscos dos países envolvidos disputam o campeonato mundial de ganância tributária. Bem, isso é uma outra história.

E por falar em extravagâncias regulamentares, retomo a questão do Uber, tema de um post de março, que continua fazendo barulho em todo o mundo.

Há alguns anos, uma comissão liderada pelo Jacques Attali fez um relatório com sugestões para dinamizar a economia francesa. Uma delas era a desregulamentação do setor de táxis. Não existia o Uber, mas uma clara percepção de que nesse setor há pouca oferta, pouca concorrência e um potencial razoável para criação de empregos.

Que cada ortodoxia regulatória encontre o seu Uber! Ainda existirão alguns nichos de resistência como os taxistas e a prefeitura de Bruxelas. Felizmente, eles caminham para ser exceções.


Foto: O imponente prédio da Fundação Louis Vuitton, projeto de Frank Gehri, inaugurado em 2014. Paris não dorme no ponto. Apesar da falta de táxis e dos banheiros sujos, não faltam atrações.

Saturday, September 5, 2015

Cuspindo pra cima

Acabaram-se as férias. A volta à labuta tem sido árdua, especialmente para os líderes europeus. O velho assunto dos refugiados virou uma crise internacional.

Puderam ignorar os milhares de mortos na tentativa de cruzar o Mediterrâneo, a superlotação da infraestrutura de acolha e os inúmeros acampamentos clandestinos espalhados pelo continente. Porém, a recente desintegração da Síria e do Iraque entornou o caldo.

As imagens dos mortos nas praias turcas e da multidão atravessando a Hungria a pé são chocantes. Não podemos ignorá-los. O assunto é polêmico, mas a causa humanitária precede o blá-blá-blá político.

Se existe uma expressão, que representa bem o que os líderes mundiais fizeram diante da crise síria ou da ascensão do Estado Islâmico é cuspir para cima. Esqueceram que o Oriente Médio é logo ali. Dá para caminhar da Síria até a Alemanha!

Enquanto os líderes fizerem cálculos políticos, a situação vai perdurar. Qualquer ação terá, num primeiro momento, um preço a pagar, ou seja, um custo eleitoral. Cada um deles deveria perguntar-se sobre a sua real motivação: buscar uma reeleição ou fazer a coisa certa.

Pelo que tenho visto, diante de tamanha crise humanitária, até mesmo alguns dos mais avessos aos refugiados estão comovidos. Há milhares de voluntários mobilizando-se para facilitar a vida dos migrantes, na sua longa caminhada do Levante ao Ocidente. Quero crer que o povo saberá reconhecer os líderes realmente dispostos a trabalhar para resolver o problema.


Post sobre a crise síria (2013)
Damasco
Damasco azedo

Post sobre os refugiados (2015)


Foto: Em Paris, no Jardim de Luxemburgo, no final do generoso inverno de 2015.

Monday, August 17, 2015

Férias

Escrevo este post, por que estou de férias. Melhor dizendo, tirei um dia de férias nas férias. Faço um artigo, um post e acesso o e-mail. Amanhã, volto às férias!

Não achei nenhum grupo de brasileiros para ensaiar uma manifestação ou prestar solidariedade a vocês por aqui. Afinal, mesmo estando na França, estou num lugar que, não por acaso, chama-se Finistério. Em algum lugado do passado, era tido como o fim do mundo.

Um lugar da Bretanha muito tranquilo. Litoral cheio de pequenos portos e vilarejos de charme, talvez um pouco frio para os padrões brasileiros. As hordas de turistas vão até o Monte Saint-Michel e Saint-Malo, deixando a Gália Armorica - a terra de Asterix - principalmente para os locais.

Para ilustrar a tranquilidade, uma notícia do jornal de hoje. Numa das cidades das redondezas, os funcionários da agência do BNP Paribas esqueceram de fechá-la ao sair. O fato só foi percebido no dia seguinte, com a chegada do primeiro cliente.

O mais próximo de barulho foi a passagem da réplica da histórica fragata L’Hermione, de retorno dos EUA. Nesta manhã, pude vê-la contornando o litoral da Cornuália francesa. Eu e algumas centenas.

Antes das férias, fiz uma rápida visita ao Brasil. O suficiente para vê-lo afundando. Nesta passagem, começava mais uma onda de prisões decorrentes da Lava-Jato. Se todos os principais focos de corrupção forem explorados, a coisa ainda vai muito longe. Haja cadeia, ou ainda, haja culhões!

Se serve como consolo, acho que a nossa sociedade pode evoluir e, na retomada, escapar deste nefasto sistema de corrupção. Aos meus amigos do Brasil, parabéns pelas manifestações de ontem. Fora PT e cana neles!



Foto: As fotos das férias virão mais para frente. Por enquanto, algumas fotos de Paris e Lyon tiradas em 2015. Acima, o jardim japonês do “Jardin d’Acclimatation” em Paris.

Sunday, June 21, 2015

Waterloo


Passou 2014 e não escrevi  aquele prometido post sobre o centenário da Primeira Guerra. Para falar a verdade, não li tudo o que queria sobre o tema e acabei deixando o assunto de lado. Nesses dias, comemorou-se mais uma data histórica, o bicentenário da Batalha de Waterloo, que representa o fim do perído napoleônico. Dessa vez, não deixo passar em branco.

Quando o assunto é Waterloo, a França faz picuínha. Atrapalha a comemoração dos outros e ainda não envia seus representantes oficiais ao cenário da batalha. O governo faz feio, mas a imprensa foi magnânime. Fez intensa cobertura de um fato histórico tão importante para a formação da Europa. Hollande não foi. Mas eu fui!

Fui eu e mais 60 mil! Como os campos de Waterloo são afastados do centro de Bruxelas, tive meu momento paulistano ao dividir a estrada com 20 mil carros. Imagino que as centenas de milhares de homens e cavalos que lá chegaram, duelaram e pereceram há 200 anos causaram menos impacto do que todos esses automóveis.

A  Batalha de Waterloo é muito apropriada para ser reconstituída.  Foi uma das últimas batalhas à moda antiga, com tropas inimigas emparelhadas, aproximando-se até aquele sanguinário “mano a mano”. O outro aspecto peculiar é que esta batalha realmente ocorreu numa área pequena, viabilizando a reconstituição com muito realismo.

O lado menos interessante do excesso de realismo é a fumaça. Estava atrás da artilharia de Wellington. A fumaça excessiva dos canhões atrapalha bastante a visão. Considerando-se a precisão das armas de fogo da época, entendo que os canhões tinham mais um efeito moral do que letal.

Veio gente de todo mundo assistir ao espetáculo. Os ingleses eram maioria entre os estrangeiros. Óbvio. Um casal de ingleses perguntou: “Você veio do Brasil só para assistir ao show?” Não é bem assim J

Se a reconstituição deste ano foi especial, o evento ocorre todos os anos. Fica a dica!



Fotos do espetáculo da reconstituição da batalha de Waterloo. Acima,  detalhe da artilharia inglesa no meio da fumaça. Abaixo, visão geral do "batalhódromo" atrás da linha inglesa. Mais abaixo, Wellington observa o avanço da infantaria francesa.



Thursday, June 18, 2015

Discurso de rei

Junho é mês de eventos na Europa. A razão é muito simples. Maio é mês de feriados e julho é mês de férias.

Além da concentração junina, há também um acúmulo de eventos às terças e quintas. Segunda e sexta são dias evitados pelos organizadores por razões óbvias. Quarta também, por que é feriado escolar (França) e muitos pais adotam um regime de trabalho especial, que permite acompanhar seus filhos.

Nesse contexto, terça-feira, dia 16, fui convidado para cinco eventos sobre a “revolução digital”. Confirmei presença em três e estive em dois. Ando fazendo overbooking de agenda. Na  véspera, decido o que vou encarar. (Já fui mais bonzinho!)

Só não quero mais encarar o discurso do presidente do Uber da França ou da Bélgica. Chega! Também não quero mais palestrantes, que tentam nos convencer de que é preciso mudar para o universo digital. Como disse o Jacques Attali, numa das palestras deste mês, não foi preciso convencer o mundo a adotar a TV há 50 anos. Nem  mesmo o telefone há 100 anos.

A palestra mais inusitada  deste mês repleto de colóquios não foi de nenhum bilionário fundador de start-up, nem de nenhum guru profissional. Foi um depoimento de um executivo que, ao invés de contar vantagem, confessou a sua impotência diante dessa transformação “vertiginosa” (sic).

Trata-se de um dirigente de uma vinícola de Sauternes. Elegante, francês perfeito e fala suave. Um verdadeiro nobre com humildade ímpar. Diante de blogs de vinhos que já são mais influentes do que a Wine Spectator, comerciantes virtuais cada vez mais poderosos, centenas de aplicativos e sites sobre o tema, ele  e os 10 funcionários da vinícola estão simplesmente perdidos.

Quase em tom de despedida, relembrou  os bons momentos vividos com seus clientes e visitantes, que vão pessoalmente ao Château. Ressaltou o privilégio de degustar os vinhos com tantos amigos e clientes, naquele clima especial que surge ao redor de um bom vinho. Bons tempos, hein!

Foi uma oportunidade de pensar revolução digital sob uma outra perspectiva. Isso sim é palestra inspiradora. Nosso executivo certamente não está só.  Ser um produtor de Sauternes não é para qualquer um, mas as transformações mencionadas por ele são implacáveis.

A propósito, o nobre palestrante é nobre mesmo.  Embora tenha apresentado-se como um mero gerente de château, uma rápida consulta ao Google confirmou o que desconfiava. O ilustre membro da Casa de Orleans é cheio de títulos honoríficos e pretendente ao “trono francês”.



Foto: A orangerie do Château de Seneffe, na Bélgica.

Friday, May 29, 2015

Bons de bola

Antes de escrever essas linhas, conferi o que já havia dito sobre futebol neste blog. Em geral, meus comentários são negativos. Muito negativos.

“A Copa é rifada entre um grupo seleto de países e a FIFA é quem sempre ganha”

“O problema do futebol é o problema do Brasil: incompetência e corrupção. Não há fórmula que resista a esses dois males”

“Embora a fórmula do torneio seja muito sólida, tudo que está a sua volta fede. Fede muito”

“A FIFA é tão vilã quanto nossos craques, times, televisões, federações e outras entidades. Um depende do outro”

“Tudo o que leva o nome da FIFA tem sido motivo de piada”

Não mudaria nada. As recentes notícias do mundo do futebol evidenciam tais comentários. Mesmo que os EUA tenham seus interesses em desmoralizar a poderosa organização baseada na Suíça, as feridas serão irreversíveis.

O mundo do futebol vai rachar. É aquela trágica sina das organizações mafiosas. Chega uma hora, os bandidos começam a delatar uns aos outros. O futebol terá a sua “Lava-Jato”.

Boa parte do problema da FIFA não é comparável à bandidagem petista. Muita coisa foi construída na base da esperteza, da malícia e até de muito talento, sempre nos limites da legalidade.

Um dos maiores pecados da FIFA, no entanto, é fechar os olhos. Apesar de suas desmedidas ambições pecuniárias, o sistema do futebol possui milhares de atores roubando, desviando e sonegando. Nem a FIFA poderia sonhar com algum controle sobre tamanha roubalheira.

Não adiantar comemorar a prisão do Marin e fechar os olhos para o que acontece nos nossos clubes. Assim como a boa Política começa com a supervisão direta dos nossos representantes, o bom futebol começa nos clubes. Nos EUA, o Neymar estaria em cana.  Tem que prender todo mundo!


Foto: Ainda nos jardins do Domínio Real de Mariemont.

Saturday, May 2, 2015

Crônica ferroviária


Tirando as greves, são raros os momentos em que o sistema ferroviário europeu não funciona como um reloginho. 

Em 2007, passei um sufoco. Houve uma sequência de atrasos por motivos técnicos nas minhas viagens entre Paris e Lyon. Atraso, segundo a companhia francesa, é algo superior a 20 minutos. O resto está dentro da variabilidade. Recebi várias indenizações naquele verão.

Numa das viagens, um problema técnico exigiu a redução da velocidade do trem. Parece pouca coisa, entretanto, sair de 330 km/h para 150 km/h representou um atraso de quase 2h. Nunca cheguei tão atrasado a um evento. Por sorte, havia outros convidados de Lyon no mesmo trem e a organização do evento administrou o imprevisto.  

Depois de 2007, nunca mais tive uma sequência tão azarada. Nesses últimos dias, no entanto, as greves belgas pregaram uma peça em muitos colegas. Houve também problemas técnicos. 

Na última sexta, voltando para Bruxelas e devidamente sentado na poltrona do Thalys, recebi vários SMS: “atraso estimado de 15 minutos” ; “atraso estimado de 30 minutos”; “atraso estimado de 45 minutos”; etc. A tabuada do 15 foi até 165! 

Teve de tudo nessas quase 2 horas: troca de trem, ar condicionado desligado e bar fechado. O que mais me impressionou é que ninguem fez um piu. Todos bem comportados, sem reclamação, sem aumentar do volume de voz, etc. Coisa de belga mesmo.

Os momentos mais próximos de stress nos vagões franco-belgas ocorrem quando alguém pega o lugar do outro. Nessas situações, geralmente tem um estrangeiro envolvido. Seja aquele perdido no trem ou aquele que não sabe que os passageiros frequentes podem mesmo sentar-se onde quiser. Já vi muitos brasileiros estressando-se à toa.

E por falar em brasileiros, enquanto escrevi esta crônica ferroviária, lembrei do nosso ex-futuro-trem-bala ligando Rio e São Paulo. Alguma notícia?



Foto: Domínio Real de Mariemont, a uma hora de casa, um lugar bacana para um domingão ensolarado. 

Sunday, April 26, 2015

Club Med

Após alguns dias sem tragédias como atentados, quedas de aviões ou jornalistas degolados, a imprensa europeia pode finalmente dar um pouco de atenção à sua vigésima sétima prioridade, os imigrantes que fogem da África.

O naufrágio da última semana pode ter sido marcante, mas o evento é recorrente. Toda semana tem algum evento trágico ligado aos africanos que tentam fugir para a Europa. Se os cadáveres africanos no Mediterrâneo não aprodecessem, já haveria uma ligação da África à Itália.

Se fui irônico nos dois primeiros parágrafos deste post, é por que começo ver muita gente perguntando-se como podemos ignorar tamanha tragédia por tanto tempo.  A pressão nos governos para uma solução humanitária aumentou.

Os países europeus não estão abertos à uma nova onda de imigração e tampouco têm uma economia em boa forma. Entretanto, os inúmeros conflitos da África e Oriente Médio tem gerado uma massa crescente de refugiados. Dá para fingir que não acontece nada longe da “civilização”, mas não à porta de casa.

Depois do terremoto do Nepal, tudo voltou à normalidade. Os imigrantes africanos que perecem no Mediterrâneo voltaram para a página 27 dos jornais.




Foto: Para fechar esta série de fotos de Antuérpia, a estátua e fonte de Brabo (soldado romano) diante da prefeitura da cidade na Grand-Place.

Sunday, April 19, 2015

Fênix

Faz tempo que não escrevo por aqui. Uma das razões é que faz tempo que não paro em algum lugar. Se tudo der certo, continuarei assim por mais alguns meses, aproveitando a primavera e o verão europeu.

Entre inúmeros compromissos, também passei pelo Brasil. Foi um “pit-stop” para renovar alguns documentos. A burocracia brasileira ainda é campeã em criar documentos que expiram em poucos anos. Por outro lado, o Poupatempo paulista funciona e os cartórios estão bem informatizados. Assim, meus problemas - que não deveriam exisitr - foram resolvidos facilmente. Criam-se dificuldades, vendem-se facilidades.

Depois de alguns meses de ausência do Brasil, a alta dos preços foi notável. Tudo que pude consumir estava mais caro, entre serviços e mercadorias. Além dos preços, vi muita gente reclamando dos negócios e da perspectiva.

Não é a economia em má fase que mais me assusta. A crise político-institucional é muito grave. O governo Dilma e a máquina petista são asquerosos. O pior de tudo é que o impeachment está longe de ser uma solução.  

Por aqui, o Brasil é motivo de chacota. Piada sobre a corrupção generalizada, piada sobre a Petrrobrás, piada sobre o crescimento e assim por diante. Melhor mesmo voltar às piadas do 7X1.

Com todas as ressalvas a este governo incompetente e corrupto, estou naquela fase de ter que defender o país como um todo. Afinal, o Brasil é muito mais do que um bando de esquerdistas mafiosos.

Para defender a honra nacional tenho apelado para chavões como: “é só uma fase ruim”, “a gente vai dar a volta por cima”, “governos sobem e caem”,  “depois da tempestade vem a bonança”, “vamos renascer das cinzas”, etc. Que assim seja.


Foto: Fechando a série sobre Antuérpia, um detalhe encravado no casario típico flamengo.

Monday, March 30, 2015

Notícias

Confesso que comprei uma revista brasileira de passagem por Lisboa. Depois de tanto tempo sentido o que acontece no Brasil pelas redes sociais e com raras olhadelas a alguns sites de jornais, queria uma outra perspectiva.

Felizmente ou infelizmente, todas as minhas fontes são consideradas pelos petralhas como “mídia golpista”. Ou seja, continuo “desinformado”!

Faço questão de cumprimentar e solidarizar-me com (quase todos) vocês, que estiveram na Paulista, bateram panelas e não arredaram o pé. Visto de fora, é algo impressionante. Estive no Brasil nos dias que antecederam o segundo turno. Praticamente, é o mesmo clima. Já são alguns meses de resistência.

As notícias do naufrágio do PT e do governo Dilma chegam aos principais veículos da imprensa europeia, mas não dá para se ter a menor ideia do que acontece por aí. Além do mais, sempre houve uma simpatia dos jornais à esquerda pelo Lula “et sa dauphine” Dilma. A ficha demorou para cair.

Esses escândalos infindáveis sempre incomodaram-me. No Brasil, acabava acompanhando e envolvendo-me. Sem dúvidas, uma fonte de stress. Não deve ser fácil para muitos de vocês ouvirem todas essas notícias dia a dia.

Ainda estou correndo com alguns trâmites burocráticos relativos à expatriação. Já vivi isso antes e dá um certo trabalho.  Para compensar, o inverno foi bem mais tranquilo do que eu imaginava e pude conhecer muitas cidades belgas. E mesmo quando chove, porque não pegar chuva num florão medieval flamengo?


Foto: A estátua do gigante Wapper, personagem do folclore flamengo, diante do Het Steen, uma fortaleza medieval, no centro de Antuérpia.

Sunday, March 8, 2015

Uber

O Uber é sinônimo de baderna. Ele causa greves, manifestações e agressões. Na última semana, cruzei com uma paralização de taxistas protestando contra o Uber em Bruxelas. O congestionamento engoliu a minha habitual folga para chegar aos aeroportos e estações de trem. Não perdi o trem por alguns segundos.
  
Depois dessa, dá mais vontade de continuar usando o Uber. O serviço é de primeira. Na grande maioria das vezes, chega um carrão limpo e cheio de serviços como revistas, wi-fi, garrafa d’água e balas. O motorista, chamado Mohamed em um terço das vezes,  é muito mais gentil do que qualquer taxista de frota. O melhor de tudo é que sai bem mais barato.

E quem disse que aquele Mercedão é do Mohamed ? Não é mesmo. Ele o aluga por alguns dias e roda o máximo atendendo aos usuários do Uber e fazendo uns trocos.

Acredito que a contribuição mais nobre  do Uber seja quando há um real compartilhamento de veículos (a boa e velha carona) e não apenas a substituição dos motoristas de taxis. Isso sim faz um bem maior para nossas cidades.

O Uber é obviamente injusto com os táxis, que  submetem-se a fiscalizações e regulamentações, quando não pagam uma fortuna pelo ponto. Só resta-lhes uma vantagem, podem andar nos corredores de ônibus e bondes.

Tá com pena deles? Eu não.

Internet é isso mesmo. Desintermediação e ruptura são palavras de ordem. Não se solidarizem com os taxistas.  Melhor mesmo é ficar de olho nas nossas profissões e mercados. Amanhã, poderemos ser os taxistas de um outro Uber.  



Foto: Mais uma cena do centro de Antuérpia.

Sunday, March 1, 2015

Petróleo barato

De uma maneira geral, todos sabem quem ganha e quem perde com o petróleo barato. Os consumidores norte-americanos e europeus ganham. A China e o Japão ganham. A Rússia, a Venezuela e os países árabes da OPEP perdem. E o Brasil, ganha ou perde? Quem sabe?

Não tenho acompanhado as notícias de perto para arriscar um palpite. O preço do combustível ao consumidor nunca acompanhou as oscilações internacionais. A Petrobrás sempre foi usada como um braço do governo (não só para roubar). A autosuficiência é uma história antiga, mas cada ano tem uma desculpa diferente para se importar petróleo ou exportar excedentes a preço de banana.

A verdade é que, independentemente das razões, boa parte do mundo comemora a baixa do combustível. As combalidas economias europeias ganham fôlego. Os EUA solidificam a retomada. E o Brasil, mais uma vez, fica de fora.

Ninguém sabe quanto tempo vai durar essa fase de baixa. Apesar de estar ancorada no crescimento da extração de gás nos Estados Unidos, a queda provém de uma decisão da Arábia Saudita, no sentido de preservar seu mercado ou “quebrar concorrentes”, como arriscam alguns jornalistas.

Em briga de elefantes, sobra para a grama. O nosso pré-sal, por enquanto, é grama. E se o petróleo permanecer barato, o projeto do pré-sal torma-se inviável. Mais um rombo bilionário na breve história do petróleo brasileiro. Incompetência e corrupção andam sempre juntas.





Foto:  Passeio de final de semana em Antuérpia. Na bela Grand-Place, céu azul e temperatura próxima de zero.

Monday, February 23, 2015

A cor do dinheiro

Pude acompanhar as críticas à campeã do Carnaval carioca, que se vendeu para uma ditadura africana. O evento em si, lamentável para a cultura brasileira, está longe de ser um fenômeno isolado.

Na esteira do último post, sabemos que o dinheiro sujo está em todo lugar. Dinheiro de ditadores, terroristas, traficantes e corruptos acabam refugiando-se nos esportes, nos espetáculos e no capital de empresas de todos os tipos.

Como todos querem trabalhar com dinheiro “limpo”, o mercado financeiro encarrega-se da sua transformação. O “caixa dois” vira fundo de investimentos.  Os receptores de propina, sérios empreendedores. Viva a Suíça! Viva Dubai!

Depois dos atentados parisienses de janeiro, a eterna dúvida voltou. Quem está por trás do terrorismo islâmico? Os terroristas não são lunáticos agindo por conta própria. Recebem treinamento, material e apoio logístico de uma poderosa organização.

Arábia Saudita e Catar, por exemplo, são dois dos Estados suspeitos de financiar esse terrorismo. Evidentemente, não há provas conclusivas. Qualquer chefe de Casa Civil de República de Banana sabe montar um esquema para disfarçar os fluxos da corrupção.

Os dois países em questão são grandes aliados do Ocidente. Boa parte do dinheiro do petróleo volta para o Ocidente como participações em empresas, aquisições imobiliárias ou títulos da dívida pública. São centenas de bilhões de dólares. Diante dessa quantia, talvez seja melhor não fazer perguntas complicadas.

O dilema do Ocidente diante da Arábia, guardada as devidas proporções, é o mesmo vivido por inúmeras pessoas e organizações que, lutando pela sobrevivência, acabam fazendo concessões. Ou no popular,“fechando os olhos”.

Resta à sociedade, “abrir os olhos”. A briga por um mundo mais justo e menos submetido a interesses escusos deve ser permanente. Devemos ajustar as regras, criar novas leis, revogar concorrências, cassar políticos, boicotar organizações, clamar pela ética, etc. E, quando nada funcionar, uma sonora vaia. Dilma e Beija-Flor que o digam.



Foto: O tapete de flores da Grand Place de Bruxelas, por ocasião da celebração de Assunção, no último 15 de agosto.

Wednesday, February 18, 2015

Tributo ao Carnaval

Ontem foi mardi-gras. Cá entre nós, Carnaval sem feriado não tem graça nenhuma! Sim, existem algumas celebrações carnavalescas na Europa. Nada que rivalize com uma boa greve ou uma partida de futebol. De qualquer maneira, parodiando o ditado, não existe Carnaval ruim, é você que bebeu pouco.

Não há Carnaval que faça o brasileiro esquecer dos problemas. As investigações do Petrolão e a estagnação do país têm visibilidade internacional. A cara da Dilma preocupada está em todos lugares. As pessoas perguntam-me sobre a crise econômica brasileira. Respondo que não é econômica, é institucional.

Enquanto vocês curtem o Carnval nas ruas e nos jornais, este inverno camarada é temperado com as mesmas notícias: A Grécia, a Ucrânia e o atentado do mês, aquele da Dinamarca. Se não tem um Petrolão por aqui, tem o caso das contas suíças do HSBC. Já estava com saudades de poder acompanhar um grande escândalo mais de perto.

Demorou e o sistema financeiro finalmente ganhou o seu Snowden. Todos sabem do papel dos paraísos fiscais no mundo do dinheiro, mas não tinham as evidências. Com o HSBC na berlinda e uma lista de milhares de correntistas, o aperto aos agentes do sistema será muito maior.

Diante de governos corruptos e gulosos, pode parecer razoável tirar o dinheiro do próprio país. Entretanto, dependendo do país e das circunstâncias, é crime. Pior ainda, quem guarda os seus trocados também trabalha para mafiosos, terroristas, autocratas e até petralhas.

Os bancos são criativos e provavelmente encontrarão alternativas para esconder a grana dos afortunados. Problema deles. É preciso conter a evasão e estancar os fluxos do mundo do crime e da informalidade.

Dias desses, Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital no Século XXI”, deu uma longa entrevista à TV francesa, quando mencionou a questão da evasão fiscal. Como socialista, ele quer muito mais do que eliminar os paraísos fiscais. Fala, por exemplo, da tributação das transações internacionais.

O Piketty tem uma fixação patológica por impostos. Declarou-se satisfeito pelos milhões de dólares que recebe com seu best-seller, que acabam nas mãos do Fisco francês. Disse que está feliz com o seu salário de professor e não precisa de mais dinheiro. Os entrevistadores ficaram embasbacados. Bem, é Carnaval. Talvez, eu tenha bebido pouco.


Foto: O Museu Hergé em Louvain-la-Neuve,  na periferia de Bruxelas.

Sunday, February 8, 2015

Lúgubre


O aparelho e a operadora são belgas, mas acabei configurando o celular em português mesmo. Alguns aplicativos estão em francês e outros em inglês. A maioria acompanha o sistema operacional e está em português, como o aplicativo de meteorologia.

Entre dias nublados, chuvosos e até mesmo ensolarados, o aplicativo Accuweather surprendeu-me indicando que os próximos dias serão de tempo lúgubre. Lúgubre?!

Fiquei mais impressionado com o uso da palavra em si do que pelo clima. Seus sinônimos mais comuns são sombrio, triste, fúnebre ou macabro. O que seria uma semana inteira de tempo lúgubre? Que medo! 

Lúgubre ficou na minha memória como clima londrino. Li os livros de Conan Doyle muito jovem e aquilo marcou para sempre. Eis que estou morando em Bruxelas, que não tem um clima muito diferente daquele do outro lado da Mancha.

Quando a gente vem para cá, todos fazem questão de lembrar os dias sombrios, cada vez mais frequentes a partir do outono: "Prepare-se para os infindáveis dias cinzentos!"

Se 2014 foi um ano atípico ou não, deixo para os meteorologistas.  Devo agradecer àqueles que me assustaram com a previsão de tempo lúgubre, brumas místicas ou escuridão perpétua. Tenho visto o sol com muito mais frequencia do que imaginava e ainda não esqueci que o céu é azul.



Foto: Bem perto de casa, os lagos de Ixelles (Étangs d'Ixelles) num dia cinzento, mas longe de ser lúgubre.

Saturday, January 24, 2015

#JeSuisMusulman


Os atentados e as manifestações ficaram para trás, mas o debate continua por aqui. Não é para menos, a questão é muito complexa. Pouco fala-se da grande maioria fiel às causas republicanas,  o “x da questão” é a minoria discordante.

Uma minoria sem dúvidas. Porém, uma minoria de muitos milhares de jovens da periferia.  São aqueles que não respeitaram o minuto de silêncio em homenagem às vítimas, que aderiram às teorias conspiratórias ou que apoiaram explicitamente os terroristas.

É desse meio que saem inúmeros djihadistas. É desse meio que saem futuros terroristas. As periferias das grandes cidades são incubadoras do radicalismo. A França pergunta-se onde errou. Depois de gerações de imigrantes que lutaram pela integração, deparam-se com um sério revés, confrontando-se com a afirmação religiosa e a negação da democracia.

Como disse no primeiro post sobre o tema, misturam-se fatores econômicos, sociais, culturais, entre outros. Os holofotes estão na Educação. Com certeza, há alguma coisa errada nas escolas. Bem, eu não queria estar na pele dos professores, que dão aulas em salas onde  metade dos alunos chama-se Mohamed.

Circulando pelas ruas de Paris e Bruxelas, ainda percebemos o estado de alerta. Soldados e policiais estão em todos os lugares, sem contar o pessoal da inteligência. Para acompanhar um potencial terrorista, a França mobiliza um overhead de 20 a 25 agentes. A ameaça terrorista em si é capaz de sangrar ainda mais a já combalida economia.

Se existe um lado menos triste nesta história, é a visibilidade que ganhou o quase falido Charlie. Graças aos terroristas, suas caricaturas espalharam-se pelo mundo. Nunca a blasfêmia fez tanto eco. Maomé tem mesmo que chorar.



Foto: Um outro cantinho simpático de Bruxelas, perto de casa, o Egmont Park, que abriga a "brasserie" mostrada na foto.