Sunday, December 22, 2013

ET


Há poucos dias, um colega postou um texto sobre ETs no Facebook e recebeu um comentário irônico deste blogueiro. Neste post, esclareço a minha posição sobre um tema que, com frequência, mistura coisas sérias e não tão sérias, ciência com crendices.

Pela dimensão do Universo, acredito que seja muito difícil não haver alguma forma de vida além da Terra. Que sejam simplesmente bactérias, em algum lugar, a vida existe. Isso, para mim, é quase certo.

Uma coisa é perguntar se há vida lá fora, outra é perguntar se nos encontraremos algum dia. Pelo imensidão do Universo e considerando que ele continua em expansão, muito provavelmente, nunca encontremos outros seres.

Do nosso lado, o melhor que fazemos hoje é rastrear sinais vindos de outros mundos. Notem que esses sinais foram emitidos há milhares de anos, o que tem suas limitações. Nós mesmos começamos a exportar “ondinhas” detectáveis lá fora há pouco mais de um século.

Pensando no contrário, poderíamos imaginar uma civilização muito mais evoluída, capaz de cruzar o espaço - desafiando o nosso conhecimento atual – para nos brindar com uma visita? Sim, por que não?

A vida que conhecemos é fruto de uma sucessão de eventos ao longo de milhões de anos. Nesse contexto, mil anos, por exemplo, não é nada. Comparem o que existia de tecnologia em 1014 com 2014. Dá para extrapolar para 3014? Certamente haverá tecnologias que julgamos impossíveis hoje.

Por isso, não descarto que sejamos visitados por ETs algum dia. Só teimo em acreditar que eles atravessem o Universo para visitar Varginha e Roswell. Isso sim é brincadeira!


A todos vocês, boas festas e um 2014 de outro planeta!



Foto: Pôr do sol na praia de Coronado, em San Diego.

Thursday, December 19, 2013

Escolhas


Alguns assuntos que foram notícias durante a semana mostram como a nossa sociedade é complexa. Na mão dos líderes daqui e dali, não existem decisões óbvias.
  • Um dos debates paulistanos é a circulação de táxis nos corredores de ônibus. A sua proibição traz benefícios evidentes para a maior fluidez dos coletivos. Por outro lado, acredito que um sistema de táxi rápido e competitivo complementa o próprio transporte coletivo. É essencial para os negócios da cidade e pode ser um fator de peso numa decisão de se abandonar o carro próprio.
  • Há três anos, fiz um post satirizando a demora na decisão de compra dos novos caças da FAB. Outra questão difícil, cada alternativa tinha seus prós e contras. A opção sueca agrada aos militares. O Lula tinha uma visão mais política dessa compra. Concordo com ele, pois uma parceria com a França ou Estados Unidos poderia ser muito mais ampla, envolvendo trocas mais importantes do que apenas os aviões.
  • O governo desconversa quando é questionado sobre o pedido de asilo do Snowden. De fato, a coisa parece não ter sido formalizada corretamente. Snowden pode ser um “mico”, mas também pode trazer um pouco mais de brilho e protagonismo ao Brasil no debate global sobre privacidade.  Não seria ruim para os EUA. Afinal, qualquer coisa é melhor do que deixá-lo sob a guarda do democrático e honesto Putin.
  • Ainda sobre o Snowden, é difícil de acreditar que o assunto não esteja na pauta diária da Casa Branca. Quando escrevi meus posts sobre o caso, não imaginava um estrago tão grande. Há uma série de repercussões negativas internas e externas, gerando desgastes e perdas econômicas. Os EUA devem negociar com Snowden? Ó dúvida cruel! Acho que sim. Tudo indica que tenha revelações ainda mais bombásticas e não esteja blefando. Bem, neste caso ainda é preciso encontrar uma saída honrosa para o pessoal de Washington.

Enfim, neste post mostrei quatro decisões difíceis. Nenhuma seria isoladamente certa ou errada. Talvez não façam sentido sozinhas, estão inseridas dentro de um contexto, associadas a outras escolhas. Ao final, julgaremos Haddad, Dilma e Obama pelo “conjunto da obra”. Como disse Camus: “A vida é a soma das nossas escolhas”.


Foto: Jardim japonês do Parque Balboa em San Diego.

Saturday, December 14, 2013

Santos e humanos


Impressionado com a unanimidade em torno de Nelson Mandela? Difícil achar algum artigo fazendo críticas a este grande personagem do nosso tempo. Gostei muito de um artigo de Adam Roberts, republicado no Estadão. Começa assim: “Devemos lembrar do maior ícone da luta contra o apartheid na África do Sul como uma figura humana calorosa e poderosa, um homem político e pragmático, mas não como um santo”.

Mandela está longe de ser um santo. Vê-lo dessa forma seria uma espécie de fuga. Seria messianismo ou, como diz o Arnaldo Jabor, o Sebastianismo luso-brasileiro. Seria acreditar que as grandes mudanças dependem exclusivamente de um salvador. Um convite a se aceitar qualquer situação, por pior que seja, por que somente o salvador poderá resolvê-la.

Nada disso. Mandela cometeu inúmeros erros. No seu governo, houve inúmeros casos de corrupção, compadrio e outras coisas tão comuns por aqui. Há também o escandaloso descaso com a AIDS e a eterna acusação de peleguismo pelos negros mais radicais. Nada disso tira o seu grande mérito. É um ser humano como todos nós, que também erra e tem seus vícios, mas fica para a história como aquele que possibilitou o fim de uma das maiores vergonhas do planeta. O homem certo, na hora certa, no lugar certo.


Obama desceu do pedestal e também mostrou seu lado mais humano. Acho que não houve malícia naquela animada conversa entre ele e os líderes do Reino Unido e da Dinamarca. Aquele momento tão à vontade provocou uma reação também muito humana da Michelle. Infelizmente - ou felizmente - as câmeras registraram tudo. Parodiando o velho ditado: O marido da primeira-dama não basta ser honesto, precisa parecer honesto.


E quem precisa parecer um pouco mais honesto é o governo brasileiro. Não falo de nenhum escândalo recente de corrupção, falo da possibilidade de se adiar a obrigatoriedade de uso de freios ABS e airbags a partir de janeiro de 2014. O Brasil já está atrasado nesse quesito e essa medida propiciará que muitas vidas sejam salvas. Conforme a resolução de 2009, a indústria já está preparada para o fim dos carros sem freios ABS e airbags. A essa altura do campeonato, trocar muitas vidas humanas por alguns décimos de inflação é imoral. O governo poderia até fazer suas contas, mas sem contar para ninguém!


Foto: Para quem gosta da temática militar, a visita ao Midway é um dos programas de San Diego. 

Saturday, December 7, 2013

Mandíbula


Agora ninguém mais segura, entramos no clima de Copa do Mundo. Com a realização do sorteio das chaves, a elite do pensamento nacional começa uma longa fase de conjecturas. Logo mais, aparecerão os "bolões". Aqueles nos quais você coloca toda sua sapiência e conhecimento futebolístico, mas, no final, quem ganha não sabe nem o que é impedimento.

Não tenho nada contra o mundo mágico futebol. Pelo contrário. Só espero que sobre algum espaço na mídia para se continuar tentando melhorar o país, investigando e denunciando.

Nos últimos dias, cheguei à conclusão que a imprensa deve dar mais espaço ao ex-presidente Lula. Deixem-no falar. Dêem-lhe cordas. A história recente do país só tem a ganhar.

A mídia assinalou muito bem três lapsos recentes de Lula. O primeiro foi o escandaloso "estamos juntos", dito pelo telefone ao presidiário José Dirceu. Dispensa comentários.

No segundo, talvez menos espetacular, disse "a lei só vale para o PT", reconhecendo que o STF, liderado pelo lunático Joaquim Barbosa, aplicou a lei.

Ontem, ao receber o título de doutor honoris causa da UFABC (!), dirigiu-se a Dilma e esbravejou: “Depois que ele se forma doutor, não espere que ele ficará agradecido. Ele vai para a rua fazer manifestação contra você”. Lula finalmente reconheceu que as manifestações também foram contra o governo petista, contrariando todo o esforço dos seus companheiros.

Enfim, deixem o Lula falar! Atos falhos podem não ser aceitos como provas criminais, entretanto a sociedade clama por esclarecimentos sobre seus laranjas, filhos e amantes. O Brasil sempre sonhou ter um líder como Madiba, mas ganhou mesmo uma grande mandíbula.


Foto: Montagem com algumas fotos tiradas no zôo de San Diego, um dos melhores e maiores parques do gênero do mundo.

Sunday, December 1, 2013

Novembro

Para mim, este último mês, os 30 dias entre Halloween e Black Friday, vulgarmente conhecido como novembro, foi uma loucura. Correria total. Sinto que as celebrações de final de ano foram antecipadas.

Na prática, como a possibilidade de se criar eventos de confraternização é muito grande, antecipar não significa diluir, antecipar é dar espaço para mais festas! É mais ou menos como o trânsito em São Paulo. Pode-se implementar um rodízio e construir avenidas, mas tudo estará sempre cheio.

Se, em 2014, começarmos a celebrar em outubro, teremos um trimestre inteiro de festas! Assim, a gente cai naquela história de emendar Carnaval, Copa, eleições e fim de ano.

Pode parecer exagerado mas, há poucos dias, estava explicando para um francês a minha dificuldade de agenda nessa época do ano: "Sabe, aqui é diferente, tem muitas festas. Quando morava aí, só tinha a comemoração do Dia de Reis e olhe lá". Bom, espero que o tenha convencido.

Há uns bons anos, não passava a temporada festiva inteirinha no Brasil. Estranhei. Perderei a Fête de Lumières e não estive no lançamento do Beaujolais Nouveau. Não é mole ;-) O pior de tudo é ser bombardeado dia e noite por notícias de corrupção, guindaste caindo, museu pegando fogo, etc. O jeito mesmo é curtir as festas.

Comecei o post dizendo que o mês começava com Halloween e terminava com Black Friday, duas incorporações recentes da cultura brasileira.

O bom do Brasil é misturar as coisas importadas da Europa e dos EUA com heranças coloniais e nativas. A minha esperança no país reside justamente na possibilidade de ser esse caldeirão cultural único. Entretanto, neste caso, diria que nem sempre a gente copia as coisas certas.



Foto: Por falar em Black Friday e Halloween, fotos de uma viagem a San Diego (EUA) de janeiro deste ano. A minha base foi o Hotel Del Coronado, considerado marco histórico, por ser uma das maiores e mais belas construções de madeira remanescentes.

Sunday, November 24, 2013

Vitamina

Depois de uma rodada de exames médicos, amanhã será meu dia de avaliar os resultados. Felizmente, está quase tudo normal. Quase tudo, pois vacilei num único quesito.

O check-up anterior já havia apontado uma deficiência de Vitamina D. Deixei passar um ano sem a suplementação recomendada. Aqui entre nós, achei que a mudança de hábito resolveria - falo do aumento de exposição solar - e não estava querendo acrescentar um comprimido diário à minha rotina.

Obviamente, foi uma bobagem. Hoje, sabe-se que os benefícios da Vitamina D vão muito além da questão óssea (absorção do Cálcio), como se isso só já não fosse argumento suficiente. Se ainda há muita discussão sobre a amplitude dos benefícios, é fato que, cada vez mais pessoas recebem a recomendação de suplementação. A vida urbana moderna acaba nos impedindo de ter a exposição solar necessária para que nossos corpos produzam a tal vitamina.

Em 2013, aumentei minha exposição ao sol de forma significativa. Posso dizer que vivi dois verões, considerando-se o tempo passado na Europa entre julho e setembro, sobretudo de férias. Também acrescentaria todas as caminhadas e corridas dominicais. Mas, isso só não bastou!

Em se tratando de exposição solar para a síntese da vitamina D, é preciso de uma regularidade muito maior: pelo menos 15 minutos diários entre 11 e 13 horas, sem filtro solar. Um almoço ao ar livre ou uma caminhada nesse horário também não resolvem. É preciso expor uma parte considerável do corpo. Bem, começa ficar complicado.

Ainda existe algo sobre a Vitamina D bastante importante, sobretudo para nós brasileiros, pobrinhos mas limpinhos. Ela é produzida pela pele e absorvida lentamente pelo organismo. Alguns especialistas defendem que uma boa chuveirada com muita água e sabão comprometa grande parte da produção do corpo. Há controvérsias. Na dúvida, um renomado médico americano aconselha: sabão só nas axilas e genitais, no resto, passe apenas uma água.

Pesquise na Web sobre a Vitamina D e encontrará de tudo: testemunhos de curas fantásticas, discussão sobre o efeito do banho e uma teoria conspiratória que denuncia a existência de um conluio para boicotá-la.

Enfim, como aquela exposição solar recomendada pelos endocrinologistas e repudiada pelos dermatologistas só será factível na minha aposentadoria, o jeito é aderir ao suplemento. Além do mais, não abro mão dos bons banhos. Morei quatro anos na Europa, mas continuo limpinho!


Foto: Última tomada de Gante. A partir do próximo post, vamos para outros lugares, depois eu continuo com a Bélgica.

Saturday, November 16, 2013

Feriadão na estrada?


Neste feriadão, milhões de paulistanos passaram muitas horas nas estradas. Muuuuuitas horas! Se o descanso no literal ou no interior compensa o estresse da viagem depende do julgamento de cada um. Nesse caso, é correto esculachar o governo e reclamar da falta de infraestrutura viária ?

As maiores deficiências do nosso sistema de transporte estão no transporte urbano e no de mercadorias, dois gargalos que atravancam a economia e perturbam nossas vidas. Turismo interno e lazer soam como prioridades menores diante dessas duas. Investir em estradas, que ficarão ociosas a maior parte do tempo, não é a melhor aplicação dos recursos da sociedade, sejam públicos ou privados.

Alguém poderia argumentar que se tivéssemos uma malha ferroviária mais desenvolvida, o gargalo rodoviário seria bem menor. É verdade, mas é tarde demais. Para um efeito perceptível, precisaríamos de uma malha ferroviária tão grande, que a relação custo-benefício do investimento seria muito discutível. Na Europa, mesmo com toda a malha disponível, as rodovias também chegam a parar nos feriadões!

O governo tem seu papel. Cabe a ele garantir a segurança dos viajantes, fazer melhorias constantes no sistema, desengargalar estradas e, excepcionalmente, construir nova rotas. De qualquer modo, não tem milagre! Não há sistema de transporte que resista a alguns milhões de pessoas saindo da cidade ao mesmo tempo.


Foto: Mais uma tomada de Gante, na Bélgica.


Tuesday, November 12, 2013

Êh São Paulo...


Os jornais paulistanos estão num momento particularmente interessante. Escândalos de corrupção sempre são notícia, mas nem sempre eles surgem ao mesmo tempo nas três esferas do poder! A teia da roubalheira está presente no município, no estado e na federação. Ela engloba diferentes partidos e as mais diversas áreas da administração pública.

Jamais duvidei da abrangência da corrupção na nossa cidade e estado. Ver o jornal recheado de notícias de corrupção local serve de alerta àqueles que acham que São Paulo carrega um fardo, por sustentar um país corrupto e atrasado. Não temos moral para falar do Sarney ou do Collor. Além do mais, a máquina que assola a nação foi desenvolvida pelo PT de São Paulo!

Leitores, não é preciso ficar com vergonha de São Paulo! Muito pelo contrário. Tanto o município como o estado são os mais bem aparelhados do Brasil. Bastam alguns bons funcionários públicos para que as irregularidades apareçam.

Temos que enaltecer o papel da imprensa. Em São Paulo, ela tem mais recursos e liberdade para investigar e denunciar. Talvez o Estado e a Folha não sejam os mais perfeitos exemplos de imprensa independente do planeta, mas no resto do Brasil é muito pior. Sem contar nossos grotões, onde eliminar jornalistas é rotina.

Muito provavelmente, a maioria dos denunciados pelas últimas edições dos jornais paulistanos não irá para a cadeia. Isso não é motivo de descrença. De alguma forma ou de outra, eles serão punidos, terão bens bloqueados, perderão cargos e seus parentes serão expostos à humilhação. O mais importante é que estejamos complicando cada vez mais a vida dos desonestos e, é claro, servindo de exemplo para o Brasil.


Foto: Outra tomada de Gante, na Bélgica.

Tuesday, November 5, 2013

A causa - 2

No post anterior, escrevi que algumas manifestações da sociedade parecem divergir das grandes prioridades nacionais. A diversidade de propósitos divide e confunde, favorecendo quem está no poder. Entendo que um Brasil - ainda não tão educado - possa ser suscetível a tais manipulações.

Pior do que isso é a ausência de um debate decente e um bom desafio às propostas do Governo. Em "2014", falei de como ele atropelou a sociedade com o programa Mais Médicos. Recentemente, no leilão do pré-sal, encontramos o mesmo padrão.

Uns criticam o leilão em si, outros reclamam da participação estrangeira e, finalmente, alguns desdenham da mudança de posição do PT. Mais uma vez, o debate é irrelevante face ao tamanho da coisa. A Dilma constrói o prédio inteiro e a sociedade discute a cor da parede!

Não é uma questão de ser favorável ou contrário à exploração do pré-sal, acho frustrante não ver uma discussão mais completa.
  • Vale a pena extraí-lo ou seria melhor deixá-lo como reserva estratégica? 
  • Qual o impacto do fluxo de dólares adicional na economia? 
  • Será mesmo que os novos investimentos em saúde e educação não seriam parcialmente compensados por perdas de outra natureza? 
  • E os riscos ambientais? 
  • O Brasil é imune a doença holandesa
  • E se o preço do petróleo no mercado internacional baixar muito? 
  • O que faremos de diferente para não cair na maldição dos países exportadores de petróleo, todos atrasados e autocráticos?
Claro que não são questões simples nem populares. Algum político de destaque poderia ter ousado, mesmo que fosse só para aparecer. Pelo jeito, continua sendo bem mais fácil apelar para o debate irrelevante e demagógico. Afinal, o petróleo é nosso!


Foto: O castelo de Gante.

Sunday, November 3, 2013

A causa - 1


O Estadão de hoje traz uma ampla cobertura sobre Serra Pelada. Diz o artigo:

"A Vila de Serra Pelada continua praticamente a mesma. As ruas nunca foram asfaltadas e precisam receber um jato de água no fim da tarde para que as casas de madeira não sejam tomadas pelo pó vermelho. O vilarejo não tem uma só torneira de água potável nem tratamento de esgoto".

Uma das fotos publicadas na edição impressa chamou a minha atenção. Na paisagem dominada pelo mato, por caminhos de terra e pelos barracos,  destaca-se uma faixa, muito bem feita por sinal: "Os garimpeiros são contra a espionagem canadense".

Os trabalhadores de Serra Pelada não têm água, saneamento, habitação, educação, segurança, saúde e nenhum outro serviço público, mas manifestam-se contra a espionagem canadense. É simplesmente grotesco. É a cara do Brasil!

Esse caso é apenas uma ilustração do caráter manipulatório das muitas manifestações por aí. Mostra a atuação de alguns grupos com intenções duvidosas em detrimento do interesse geral da nação. Países desenvolvidos e maduros têm defesas contra esse tipo de ação, mas o Brasil ainda é vulnerável.

Dizem que a próxima faixa que dominará o vilarejo já está pronta. Ela diz: "Os garimpeiros são contra o uso de animais em laboratórios. Salvem os Beagles!"

Enfim, a plataforma eleitoral para 2014 já possui duas grandes prioridades. Sorte de quem abraçá-las. Peço perdão aos leitores deste blog. Por muito tempo tentei induzí-los a pensar que os grandes problemas brasileiros fossem outros.


Foto: Voltando ao ano em que fiz turismo na Bélgica, com mais uma foto de Gante.

Sunday, October 27, 2013

Festa 2


Espero que vocês tenham lido o post anterior sobre a minha festa de 50 anos. Não dá para falar de todos os amigos que estiveram por lá. Então, no estilo do apresentador francês Laurent Ruquier, vou falar de quem não foi.

Políticos ilustres foram convidados.

- O prefeito Fernando Haddad disse que viria de ônibus para dar exemplo. Bem, esperamos ele até às 4 da manhã.
- O governador Geraldo Alckmin condicionou a sua vinda à inclusão de picolé de chuchu entre as sobremesas, mas o chef disse que não dava mais tempo para mudar o cardápio.
- A Dilma Roussef, sempre que passa por São Paulo, visita o Lula. Ela prometeu que, assim que o Lula bebesse a última dose de whisky, viria para a festa. Também não chegou.

Convidei os presidenciáveis.

- Aécio Neves perguntou se iria rolar um pó. Eu disse que não, pois era festa família. Ele declinou.
- Marina Silva condicionou a sua vinda à celebração de um culto evangélico lá pelas 23:30 horas. Tive que negar, pois essa era a hora do "parabéns a você".
- José Serra não veio por que estava em transe com a ascensão do Palmeiras.
- Pedi para convidarem o Eduardo Campos, mas os organizadores da festa não sabiam de quem se tratava.

Algumas celebridades foram convidadas.

- Chamei o Eike Batista. Infelizmente, ele estava sem dinheiro para comprar a passagem para São Paulo. Alguns convidados sugeriram que parte dos donativos arrecadados fosse remetida ao ex-bilionário. Finalmente, um convidado muito querido fez uma proposta melhor: mandar só os alimentos vencidos ;-)



Foto: Regina Pistelli e José Padilha anunciam a ação solidária mencionada no post anterior. (Fotógrafa Tahia Macluf - Foto A2)

Festa 1


Celebrei meus 50 anos neste sábado. Pedi aos amigos que dispensassem presentes e trouxessem alimentos não perecíveis. O saldo da noite foi de 8 caixas de donativos, que serão entregues a um asilo.

A ideia de substituir presentes por doações tem dois aspectos. O primeiro é a promoção da filantropia, que dispensa comentários. O segundo é uma mensagem para se evitar o desperdício, o acúmulo excessivo de bens pouco úteis e o consumismo. A combinação dos dois é uma ação pela sustentabilidade.

Inspirados pelo meu convite, um grupo de executivos de TI fez uma ação solidária numa região muito carente da periferia de São Paulo.

Nosso amigo Jenner Lopes estava engajado em ações de apoio à Comunidade Fazendinha, Zona Norte de São Paulo. Ele e outros voluntários ajudaram a realocar uma família que morava em condições absolutamente precárias. Para piorar um dos filhos da D.Neilda é autista, exigindo cuidados especiais. A solução foi encontrar um terreno e construir uma casa para esta família.

Para felicidade de todos, o dinheiro dos voluntários acabou na época em que o grupo de executivos de TI procurava um projeto de solidariedade para encampar. Graças a essa ajuda, a nova casa está pronta e devidamente equipada.

Fiquei muito honrado com a iniciativa do grupo e a adesão de inúmeros outros participantes. Tenho quase certeza de que esse movimento não para mais.


Obrigado a todos que me cumprimentaram pessoalmente e virtualmente!  Obrigado a todos que se juntaram a essa ação solidária!



Foto: O bolo do cinquentão (Fotógrafa Tahia Macluf - Foto A2)

Tuesday, October 22, 2013

Mané

Nossas caixas de entrada recebem cada vez mais mensagens com armadilhas. Até mesmo pessoas cautelosas já caíram em algumas ciladas. O castigo vai desde a entrada de um vírus até um desfalque considerável.

Acompanho a evolução da criminalidade digital há algum tempo, mas não tenho evidências concretas da eficácia de cada tipo de golpe aplicado na praça. Na última semana, um episódio matou minha curiosidade.

Recebi uma mensagem do Serge, um colega francês aposentado. Gente boníssima! Como não falava com ele há tempos, foi uma surpresa agradável. A mensagem era bem curta e terminava sugerindo que ele passava por dificuldades. Respondi de imediato, pedindo mais detalhes.

Minutos depois, ele respondeu com uma história horrível. Foi sequestrado durante uma visita ao Marrocos, sofreu violências junto com sua esposa e perdeu tudo o que tinha com ele. Deu detalhes da violência física e sexual imposta ao casal. Finalmente, pedia algum dinheiro para se organizar e voltar para França.

Aí você pergunta: Alguém cai num conto desses?

Vamos aos fatos. A conta G-Mail do Serge foi violada. Os invasores enviaram a mesma mensagem que recebi para todos seus 300 contatos. Três pessoas acreditaram e transferiram um total de 11 mil euros para os escroques. Pois é, 3 em 300, um índice de 1%.

Os três caras são uns manés? Não necessariamente. As mensagens estavam escritas em bom francês. Havia alguns indícios, mas nem todos estão cientes dos riscos. Nessas horas, a melhor coisa a fazer é checar com amigos comuns.

 O Serge é tão correto, que está reembolsando parte das perdas dos seus amigos, enquanto aciona os meios oficiais.



Lendo um artigo recente, aprendi mais uma. Vocês já devem ter recebido aquelas mensagens de alguém com uma herança a receber num país exótico, que pede um valor adiantado para acelerar a papelada. Se ajudar um "amigo" parece improvável, imaginem um ilustre desconhecido!

Até pouco tempo, esse tipo de golpe era usado apenas para surrupiar o dinheiro alheio. No entanto, há um número crescente de casos em que os bandidos realmente depositam parte do montante prometido. Pois eles não querem roubar, eles querem um "laranja" para esquentar o dinheiro. A vítima não perde nada, mas terá o ônus de provar que não faz parte da gangue.

Pior do que perder 1000 dólares é passar o resto da vida na cadeia. Isso sim é ser MANÉ!



Foto: Mais uma tomada do centro de Gante.

Sunday, October 20, 2013

2014


No meio político, a grande dúvida é se a Dilma será reeleita no primeiro ou no segundo turno. Parece inacreditável. Há poucos meses, as massas invadiam as ruas e acenavam para um futuro diferente.

As manifestações foram habilmente esvaziadas. A infiltração orquestrada de baderneiros assustou aqueles que se manifestavam legitimamente. Além disso, o "mico" passou para os governos estaduais de São Paulo e do Rio, criticados quando reprimem e quando não reprimem.

O programa Mais Médicos foi uma cartada genial. Quase escrevi um post sobre o assunto, mas preferi esperar pela opinião dos especialistas.  Podemos criticar os métodos e a forma do governo impor o programa, mas não a sua lógica.

Além de fazer sentido sob o prisma sócio-econômico, é uma ação política decisiva, capaz de consolidar a vitória da Dilma e ainda ameaçar os últimos bastiões tucanos. Resta à oposição o medíocre papel de ficar denunciando médicos argentinos e cubanos que cometam deslizes. Algo que começa a aparecer nas redes sociais, mas é estatisticamente irrelevante.

Num país tão desigual, um governo populista sempre poderá achar uma cartada para virar o jogo e ganhar mais quatro anos de poder. E temos que admitir que não foi este governo que criou um dos países mais desiguais do mundo.

A questão é onde parar. De cartada em cartada, o Brasil vai definhando. O desempenho do país na era Dilma não é mais o mesmo. Graças a contínua deterioração dos indicadores, nossos 15 minutos de fama já acabaram. Estamos andando para trás.

Se serve de consolo, falta um ano para as eleições. É bem verdade que os rivais da Dilma são umas mulas, tão ruins quanto ela, mas, em um ano, muita coisa pode acontecer. Afinal, nosso país é regido pela antiga máxima: "o Brasil cresce enquanto os políticos dormem".


Foto: Mudando de Bruges para Gante, ainda na Bélgica.

Sunday, October 13, 2013

Le cirque des ténèbres

Dizem que a série A do campeonato brasileiro de futebol está muito equilibrada ou nivelada por baixo. Eu digo que a atual classificação é a cara do Brasil! Nada mais coerente com a nossa realidade social, política e econômica.

Os quatro times a serem rebaixados são nossos miseráveis. Os demais 12 times, que ainda não descartam a possibilidade de rebaixamento, são aqueles que saíram do status de pobreza absoluta graças aos programas sociais, mas ainda estão longe de ser uma classe média de verdade. O Cruzeiro, isolado lá na frente, representa a nossa elite, a classe A mais um bom pedaço da classe B.

Os clubes agem com a mesma ética dos nossos partidos. Preparam as desculpas para um eventual rebaixamento, começam a buscar bodes expiatórios. Culpam a tabela, o campeonato, o calendário gregoriano, a semana de 7 dias e assim por diante.

Um grande clube paulistano fala de cansaço. Eu entenderia se o Cruzeiro alegasse cansaço, mas quem namora o rebaixamento desde o início do campeonato não tem a menor condição moral de fazê-lo.

Muitos criticam a falta de planejamento. A fórmula de 20 times cruzando-se em dois turnos é universal. Sabemos de antemão todos os 38 jogos e as suas datas. O que mais querem? Combinar os resultados?

O problema do futebol é o problema do Brasil: incompetência e corrupção. Não há fórmula que resista a esses dois males.

Não ligo se meu time for rebaixado e nem se o Brasil não for campeão em 2014. Porém, não posso concordar com a CBF, quando diz que o futebol não depende do governo. É uma piada de mau gosto diante dos gastos com a Copa do Mundo.

Além de tudo, as transações de jogadores são fraudes explícitas ao Fisco e quase ninguém nesse mundo paga os mesmos 27,5% (teto) que são descontados implacavelmente do meu e dos seus salários.

Nosso circo preferido está ficando muito caro!



Foto: Ainda em Bruges, nas proximidades do "begijnhof" local, uma espécie de condomínio de beatas. Talvez, elas ainda acreditem na seriedade dos clubes de futebol.

Saturday, October 5, 2013

Rush


O cinema não aparece neste blog desde abril. Confesso que assisti dezenas de filmes desde então. Cruzei com algumas boas ideias, mas nada genial. O único filme que me surpreendeu explora um dos temas mais difíceis para se fazer um ótimo filme, o mundo do automobilismo.

Adorei Rush de Ron Howard. Bem, pelo diretor, podemos presumir que não seria um filme para simplesmente misturar-se carros, mulheres e muito barulho. O filme relata o duelo entre Niki Lauda (Ferrari) e James Hunt (McLaren) em 1976, uma época em que a Fórmula 1 era muito diferente. Talvez, uma simples confraria de ingleses amantes da velocidade. Nos anos seguintes, uma banho de profissionalismo, dinheiro e tecnologia - não necessariamente nessa ordem - mudaria a cara da F1 para sempre.

O contraste entre o calculista Lauda e o boêmio Hunt pode parecer caricatural, mas todos os testemunhos confirmam os estereótipos. Hoje em dia, a F1 não tem mais espaço para rebeldes românticos como Hunt, privilegiando cordeirinhos fiéis aos grandes patrões do mundo dos automóveis.

Gostei de Rush por que já acompanhava a F1 em 1976. E não era meu primeiro ano de espectador! Nos anos 70, a transmissão por satélite falhava. Ver uma corrida de ponta a ponta sem interrupções era raro. Acho que essa precariedade tecnológica acabava valorizando ainda mais aqueles momentos.

Naquele 1976, o Emerson nos deixou tristes e esperançosos ao mesmo tempo. Tristes por que ele havia  abandonado a ótima equipe McLaren e a chance de um tri. Esperançosos com o primeiro carro nacional, o Copersucar Fittipaldi. Foi justamente a decisão de Emerson que abriu espaço para a entrada de James Hunt na McLaren. No filme, Teddy Mayer, antecessor de Ron Dennis, recorre ao piloto brasileiro carinhosamente como Fuckingpaldi.

Enfim, para mim, é pura nostalgia. O filme é muito bem feito. As cenas de corrida são realistas e os atores estão bem nos seus papeis. Dá para sentir saudades da F1 de antigamente, a menos, é claro, dos acidentes, mais frequentes e mais graves. Esse tema é bem explorado em Rush, graças ao famoso acidente de Lauda. Mas, há controvérsias. Como disse o grande filósofo e antropólogo Nélson Piquet, a gente só assiste corridas para ver os carros baterem :(


Foto: Novas fotos de Bruges, tiradas há uma semana. Tempo bom por lá, muita sorte!

Sunday, September 22, 2013

Montezuma


Primeiro dia em San Sebastián. Depois de ter andado o dia inteiro, estava cansado e faminto. À tarde, fiz uma pausa naqueles bares de pintxos (as tapas do país basco). Não caiu muito bem. Dessa vez, queria um jantar de verdade, um restaurante mais tradicional para sentar-se à mesa e escolher um bom prato de um cardápio cheio de opções.

Sabia que era um pouco cedo para os padrões ibéricos. Ainda na orla da praia principal, a 500m do hotel, passei por dois restaurantes bem cotados. No primeiro, perguntei se poderia entrar. A recepcionista respondeu: "o restaurante ainda está fechado, aceitamos reservas para 8:30 em diante". Eram 8:20!!

Não foi apenas pelos 20 centavos. Não foi apenas pelos 10 minutos. Atravessei a rua e fui para o outro. Acolhido por uma sorridente garçonete, estava satisfeito. Sentei-me e abri o cardápio. A mocinha voltou e alertou: "segunda-feira só servimos pintxos". Grrrrrhhh!!!


Em viagem tudo é pitoresco, tudo vira história para ser contada, como disse num post anterior. Bem, mas tem uma coisa que pode ser engraçada depois, mas na hora não é nada agradável: passar mal.

Depois de ter conhecido inúmeras cidades do extremo oriente ao extremo ocidente, conclui que sofro de um Mal de Montezuma às avessas. Ao contrário daquele que vingou os mexicanos dos seus conquistadores, padeço na Espanha.

Mesmo com a renomada cordialidade e hospitalidade espanhola,Vigo (2005), Madrid (2007) e San Sebastián (2013) me derrubaram. Meu instinto diz que é melhor evitar as tapas com jamón ibérico na próxima vez.

O episódio de Vigo virou lenda entre meus colegas. Estávamos em petit comité, prestes a tomar decisões importantes. No jantar de segunda-feira, brindaram-nos com um banquete fantástico. Nunca tinha visto tamanha diversidade de moluscos, crustáceos e peixes na mesma refeição. Parecia uma aula de biologia marinha. Se não fossem os esclarecimentos do orgulhoso anfitrião, nem saberíamos o que estávamos comendo.

O resultado da farra gastronômica foi percebido nos dias seguintes. Caímos um a um. A quinta-feira foi inesquecível. Dois nem conseguiram sair do quarto. Um colega fazia sua apresentação contorcendo-se de dor. Um outro, desde então, nunca mais comeu ostras. Enfim, a semana foi demolidora. A memória da intoxicação coletiva eclipsou as lembranças do belo Parador, da cidade e de tudo o que a gente fez por lá.



Foto: Um dos canais Bruges. Nos próximos dias, estarei novamente entre Bruxelas e Bruges. Se tiver alguma foto interessante, continuo a série. Senão, viro esta página.

Saturday, September 14, 2013

A diferença entre nós e eles

O Ministro do STF Celso de Mello, o decano da Corte, não é homem do Lula nem da Dilma. Foi indicado pelo Sarney. Absteve-se de diversos processos, quando a ligação com seu "padrinho" indicava conflito de interesses. Foi duro no julgamento do Mensalão, acompanhando a mão firme do relator, Joaquim Barbosa.

Sabe-se também da sua posição em relação aos embargos infringentes. Ele sempre os defendeu. Por isso, houve uma manobra na última sessão do STF, para se adiar o posicionamento do decano, dando mais alguns dias para que seja sensibilizado pela opinião pública.

O editorial do Estadão de hoje criticou a manobra. Mesmo sendo contrário aos tais embargos, o jornal critica o método. Tem razão. Eu também não me sentirei totalmente confortável com uma súbita mudança de opinião do Ministro. Nós queremos que as coisas sejam feitas da maneira correta, dentro da legalidade e ética. Afinal, essa é a diferença entre nós e eles!

Já disse que gostaria de ver a turma do José Dirceu definhar na cadeia. Entretanto, caso o Ministro confirme a aceitação dos embargos, não vou chamá-lo de traidor, nem insultarei o STF, tampouco, insinuarei a famigerada pizza.

Antes de começar o julgamento, não tínhamos certeza da condenação dos réus. Estamos num campo tão complexo e relativamente tão novo, que o desfecho seria imprevisível. Meu post "Mensalão" - um dos mais lidos deste blog - traduziu bem o que sentia à época.

Devemos almejar um julgamento correto de acordo com o sistema em vigor. Se o "sistema não fecha", nas palavras de Marco Aurélio Mello, que mudemos o sistema! Temos que reconhecer que a corrupção evoluiu muito mais do que nossos códigos e isso não é exclusividade do Brasil.

Os juízes, especialmente do STF, devem seguir as regras. Não é por que sabemos que estamos diante de bandidos, que vamos burlá-las para puní-los. Essa é a diferença entre nós e eles! Para nós, os fins não justificam os meios.

A turma do Dirceu já foi condenada e terá nosso desprezo para sempre e isso é muito importante! Pressionar o Juiz é democrático. Exigir mudanças é nosso direito. Entretanto, esculhambar tudo é antipatriótico.


Leia também: Meu post de 2012 sobre o Mensalão



Foto: Fachadas de Bruges, na Bélgica.

Damasco azedo

Quando escrevi sobre a situação síria, não falava apenas da Síria, como se tivesse alguma simpatia especial por aquele país. O que se coloca em questão é como devemos reagir em qualquer questão humanitária desse porte, diante de dezenas de milhares de vítimas.

O último parágrafo do artigo "Um mundo sem âncora", de Roger Cohen (The New York Times) é excelente:

Uma carta dirigida pelo dr. Tewes Wischmann de Heidelberg à revista Der Spiegel sobre o uso de gás na Síria, dizia: "Nossos filhos nos perguntarão o que fizemos contra esse assassinato em massa, assim como nós perguntamos aos nossos pais a respeito do nazismo. Então, teremos de baixar o nosso olhar e calar". 


Foto: Fachadas de uma rua no centro de Bruges (Steenstraat).

Sunday, September 1, 2013

Eco

É verdade que as redes sociais fazem revoluções. Foi assim nas manifestações brasileiras, na primavera árabe e em muitas outras situações. Tem sido um meio de denunciar, participar, reclamar, enfim, de se exercer a cidadania.

Por outro lado, não podemos confundir o que vemos nos “news feed” das redes sociais com a visão correta da realidade.  Pode ser tudo verdade, mas é produto da ação de um grupo muito específico de pessoas: os seus “amigos”. Quando consulto o Facebook, 9 entre 10 publicações são manifestações anti-PT, anti-Lula ou anti-Dilma. Imagino que isso esteja acontecendo com alguns de vocês. Todos?!

Algumas publicações são bem feitas. Muitas são verdadeiras e cruelmente reais.  E tudo isso dá uma falsa sensação de unanimidade.  Até parece que as eleições de 2014 já estão decididas!

Infelizmente, eu e muitos de vocês estamos num mundinho de amigos e colegas que pensam de forma parecida, que é muito distante da percepção dos 200 milhões de brasileiros. Por isso, mesmo aqueles com mil amigos no Facebook estão confinados.  Ou, mais tecnicamente, têm no conjunto de amigos uma amostragem viciada da nossa população.

O “news feed” proporciona uma visão distorcida, mesmo que tudo que esteja nele seja verdadeiro. Portanto, continuem usando e abusando das redes sociais, mas não se iludam com a eficácia das suas mensagens políticas. Muitas vezes vocês estarão ouvindo seus próprios ecos.


Na foto, uma pracinha em Bruges (Bélgica). 


Sunday, August 25, 2013

Damasco


A questão síria prolonga-se acumulando dezenas de milhares de vítimas e o mundo não consegue resolvê-la. É impressionante como não temos mecanismos para sair desse tipo de impasse e reagimos muito lentamente diante de tais tragédias anunciadas.

A Síria é um caso desafiador. É um dos palcos da disputa sanguinária entre sunitas e xiitas. O Ocidente quer afastar Assad do poder, mas sabe que o regime que o substituiria seria ainda menos simpático às suas causas. De um lado temos Assad, Irã e Hezbollah. Do outro, Al-Qaeda.

Um estudioso americano propõe que os EUA perpetuem a guerra, ajudando ora um dos lados, ora outro. Quando mais durar o conflito, melhor. Bem, se tudo fosse um jogo, estaria certo. Entretanto, falamos de vidas humanas! Será que não aprendemos nada no século passado?

Felizmente, entre Estados Unidos e Europa, a maior parte luta por uma intervenção no sentido de se deter Assad com urgência. Felizmente, eles não veem xiitas ou sunitas, mas seres humanos.

A China e a Rússia apoiam abertamente o governo Assad, impedindo qualquer intervenção da ONU.  Já o governo brasileiro, numa atitude vergonhosa, faz pouco caso das vítimas e espera por um “entendimento” entre as partes.

Na prática, Brasil, Rússia e China, ajudam a prolongar essa situação. Basta os EUA e a Europa alimentarem clandestinamente a oposição a Assad, que o cenário descrito pelo estudioso americano está configurado.

Só nos resta cumprimentar a diplomacia do Brasil, da Rússia e da China por esse trabalho tão respeitoso aos direitos humanos e tão inteligente. E os sírios? Bem, enquanto eu escrevia esse post, morreram mais alguns.


Foto: Mais uma cena de Bruges.

Saturday, August 17, 2013

Poltergeist

Alguns artigos estrangeiros celebram a queda da criminalidade no primeiro mundo. Bem, só podia ser lá fora, é óbvio! O mais interessante é que até mesmo a profunda crise não modifica a tendência. Segundo especialistas, o fenômeno deve-se a uma série de fatores como a vigilância onipresente, o envelhecimento da população, a eficácia das modernas técnicas de investigação, etc. Enfim, sob tais condições, o crime não compensa.

Já no terceiro mundo, o crime continua compensando. E muito. Em maio, escrevi o post "o crime da semana", sobre os eventos bárbaros que continuam nos chocar frequentemente. Convido você à sua releitura. Como será o próximo crime da semana?

Numa perspectiva histórica, Rio e São Paulo reduziram fortemente seus índices de criminalidade, mas ainda estão num patamar inaceitável. Em termos relativos, São Paulo é a capital menos violenta do Brasil. Nossos irmãos nordestinos, contudo, rivalizam com países em plena guerra civil. Suas taxas de homicídios são piores do que as iraquianas.

Uma das explicações mais comuns é que a bandidagem prosperou no Sudeste e invadiu o Norte e Nordeste, onde encontrou mais pobreza e uma polícia ainda mais despreparada. Atenção, eu disse "ainda mais"! Terreno perfeito para a explosão da violência. Se nós, paulistanos e cariocas, não admiramos nossas polícias, imaginem os outros!

Sonhamos com uma polícia preparada e competente, que investigue e solucione todos os crimes, independentemente das vítimas, seja um colunável ou o Amarildo. Sabemos que hoje é impossível. Desta forma, penso que quando se trata do "crime da semana", quando os holofotes da mídia estão sobre as 'otoridades', eles não deveriam falhar. É a chance de mostrar que a 'corporação' tem um pingo de seriedade.

A título de exemplaridade, para motivar os seus quadros e inspirar a confiança da população, esses crimes deveriam ser resolvidos. Que tragam especialistas de fora e usem os recursos mais modernos que a tecnologia proporciona!

Infelizmente, as polícias do Rio e São Paulo perdem essa oportunidade. Brindam-nos com histórias pouco críveis. Exemplos? No Rio, tivemos o poltergeist do Amarildo, quando vários dispositivos eletrônicos falharam simultaneamente. Em São Paulo, a história policial já nos trouxe personagens fantásticos como o Homem Invisível na Rua Cuba, o Homem Aranha no sequestro do Sílvio Santos e, mais recentemente, o malvado Chuckie, matador de famílias.


Foto: Um convento no centro de Bruges. Tranquilidade pura.

Saturday, August 10, 2013

Cartel

O caso dos trens paulistanos terá uma repercussão desproporcional. Se depender do PT, ele será explorado até as últimas consequências, com o intuito evidente de se abafar os escândalos dos governos petistas.

Ninguém duvida da existência de um cartel. Os grandes atores do mundo ferroviário já receberam punições exemplares fora do país. É assim em todo o mundo! Fica uma questão para os economistas, talvez seja ilusão querer uma real competição no setor.

A grande dúvida é o envolvimento do governo ou de funcionários públicos. Embora o valor das supostas propinas não pareça exorbitante, corrupção é corrupção e deve ser punida.

Se confirmado, o caso ilustrará como a corrupção está profundamente impregnada na máquina pública brasileira, independente de partido. Como neste caso, no Mensalão e em tantos outros, os grandes desvios são feitos em parceria com agentes privados, encobrindo-se mais facilmente os rastros da operação.

Muito provavelmente, essa história estava preparada para eclodir no momento certo. Era um coringa petista. Depois das manifestações e da queda brutal de popularidade da Dilma, o escândalo vem colocar a disputa PT X PSDB num empate técnico moral.

A essa altura do campeonato, não sei como  FHC poderá convencer o povo de que não é farinha do mesmo saco (nas suas próprias palavras). Precisaria de uma senhora retórica, recorrendo à Ética, Economia e Filosofia. Tudo que o povo não quer ouvir. Luta inglória.

Mesmo com algumas dúvidas sobre o caso, para mim, é mais uma evidência de que não mudaremos nada em 2014. Não é uma questão de nomes. O sistema está doente. Se as manifestações não servirem para reformar a política nacional, então não serviram para nada. O cartel dos atuais partidos brasileiros é infinitamente pior do que o cartel dos trens.


Foto: Outra tomada da Praça do Mercado, em Bruges.

Sunday, August 4, 2013

A capa

Há alguns dias, recebi uma nobre encomenda: preparar uma visão de longo prazo. Não exatamente fazer um plano estratégico, mas descrever o mundo em 2020.

Depois de duas horas e meia de reflexão e mais o mesmo tempo de Powerpoint, estava pronto. Modéstia à parte, muito mais bem feito do que os slides divulgados pelo Snowden.

Precisei de duas horas de meia de Powerpoint, pois estava usando um micro novo. Perdi tempo com um teclado diferente. Já com relação ao tempo de "brainstorming", foi o necessário para colocar as ideias que vagavam pela minha mente numa sequência apresentável. Na prática, pensei no assunto muito mais do que duas horas e meia .

Com o intuito de ser bem ilustrativo, entre os inúmeros slides, mostrei algumas manchetes de 2020, como se fossem capas dos principais jornais e revistas da época.

Neste post, não falo sobre as notícias em si, mas pergunto se realmente teremos tais manchetes em 2020? Alguém vai ligar para a capa da versão impressa do New York Times? Ou para o seu site? Vai existir o New York Times? Vai sobrar algum jornal impresso?

No meu Powerpoint, pedi licença para seguir com os exemplos de notícias. Uma licença didática para continuar com tamanho anacronismo. Em 2020, teremos notícias. Não serão capas do Wall Street Journal ou do Estadão, mas chegarão até nós de alguma forma.

Além dos nossos inseparáveis smartphones, esperamos por uma nova geração de produtos conectados: óculos, relógios, roupas, tatuagens, chips sob a pele, etc. Sem contar nossos carros e casas, que estarão igualmente conectados. Receberemos mensagens e informações permanentemente.

No meio dessa abundância de informação, onde poderemos instalar filtros para escolher as notícias preferidas, não existirá mais espaço para a capa da Veja ou a para a primeira página da Folha. A imprensa escrita pode ter seus defeitos, mas a distribuição de notícias numa folha de papel ou num site ajuda-nos a formar a visão do todo ou a estabelecer o peso das coisas. Perderemos tais referências?

Imagino que a maioria dos leitores já esteja se acostumando a navegar pelas notícias no hiperespaço, pulando de um site para o outro. É só uma questão de hábito. Quem sempre procurou informação, saberá onde encontrá-la, assim como ainda existirão milhões de alienados, mesmo que - literalmente - envolvidos  pela informação.

Novos conceitos deverão surgir para substituir as referências da mídia impressa. Imagino coisas como os já conhecidos "mais lidos", "mais comentados", "mais curtidos", "mais retuitados", etc.

Em 2020, estaremos um pouco mais velhos. Sentiremos saudades ao passar pelas bancas de jornais e perceber que lá já não há mais nenhum jornal ou revista à venda.

   
Foto: A Praça do Mercado e o Campanário Belfort (1240), em Bruges.

Saturday, July 27, 2013

Primeira impressão

Com o Papa por aqui e tantas coisas acontecendo, acabamos deixando o Snowden de lado. Ele vai bem, obrigado! Continua no aeroporto de Moscou, enquanto eu espero ansiosamente pelos demais slides sobre a suposta espionagem americana (faltam 36), aqueles que o Guardian e o Washington Post ainda não publicaram.

Os slides de Powerpoint divulgados pelo ex-agente são considerados como evidências das suas acusações. Bem, tem gente que vê de outra forma. A CIA e a NSA custam rios de dinheiro aos contribuintes americanos e seus agentes não são nem capazes de fazer uma apresentação decente!

Acima, um dos slides vazados. Grotesco. Parece que seu autor aprendeu a usar o Powerpoint há pouco tempo e ainda numa versão bem velha. Será que a NSA não tem dinheiro para renovar os produtos da Microsoft?

O designer francês Emiland De Cubber repaginou a apresentação seguindo padrões mais atuais. Veja e navegue abaixo pelo Slideshare. A Slate também publicou uma proposta de visual alternativo.



A minha reação foi diferente. Apesar dos meus mais de 20 anos de Powerpoint, não é o visual que me choca. Se a apresentação é de uso interno, por que enchê-la de logos oficiais visualmente pesados? Os slides são feios, mas são muito didáticos. Por que fazê-los tão acessíveis quando se está cercado de pessoas supostamente capazes? Por que colocar tanto "TOP SECRET" se a NSA é ainda mais fechada do que a CIA? Por que encher os slides com as marcas dos parceiros? 

Desculpem-me por compartilhar tantas dúvidas. Enquanto não conhecer os demais slides, dormirei com a impressão de que tais slides tenham sido feitos para ser deliberadamente vazados. É só uma impressão.


Leitura recomendada: Artigo do Foreign Policy alinhado com meu primeiro post sobre Snowden: The Surveillance State Strikes Back.


Wednesday, July 24, 2013

Clicando o Papa

Um post sobre o Papa? Sobre religião? Nada disso! Aproveito a vinda do Papa para compartilhar duas imagens que vi numa apresentação recente. As imagens são autoexplicativas. Dá para perceber o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos.

Ambas as fotografias foram tiradas na Basílica de São Pedro (Vaticano). Acima, uma foto de 2005, quando do falecimento de João Paulo II. Abaixo, uma foto deste ano, quando da posse de Francisco. Notaram a diferença? ;-)


Atenção, as fotos não são minhas (sou um daqueles que vai a Roma e não vê o Papa), são da Associated Press, respectivamente de Luca Bruno e Michael Sohn. Também foram publicadas no fotoblog da NBC.

Saturday, July 20, 2013

Porta dos Fundos II

O último post veio bem a calhar, pois já estava para comentar sobre o grupo Porta dos Fundos. Não quero falar sobre o seu humor em si, tarefa que deixo para os especialistas, mas sobre a mídia e seu futuro.

Mesmo quando estou fora do país, dou uma olhadinha nos novos vídeos semanais da trupe. É difícil agradar a todos e posso imaginar que vocês achem alguns muito engraçados e outros menos. O mérito do grupo é buscar a graça numa infinidade de situações comuns.

Se, às vezes, o humor é escrachado, a produção é impecável. São 30 profissionais nos bastidores do grupo, que já está no azul. A viabilidade econômica talvez seja a grande novidade. É um sinal de que existe caminho para os "independentes".

Ainda é cedo para se dizer que os veículos tradicionais morreram. O episódio mais visto, "Na Lata", atingiu 10 milhões de acessos em 6 meses. É um número muito pequeno quando comparado com as cifras da TV. Também é ínfimo perto de um vídeo de escala mundial, como o Gangnam Style, que fez o contador do Youtube bater 1,7 bilhão!

Num mundo ideal, teríamos inúmeros canais de sucesso no Youtube ou em aplicativos para tablets e smartphones, de produções independentes ou de grupos tradicionais da mídia, de humor, esportes, música, notícias, etc. Aí sim, poderíamos enterrar a TV Globo.


Foto: A vista mais celebrada de Bruges, na Bélgica.

Tuesday, July 16, 2013

Porta dos fundos

O que significa "porta dos fundos" para você? Alguns dos meus leitores são do tempo que era apenas uma saída secundária da casa. Outros, mais modernos, lembram da trupe de humoristas que possui o canal mais popular do Youtube no Brasil. E, é claro, tem aqueles que associam o termo ao próprio traseiro. Lamento informar que este post não é sobre nada disso.

Se você leu alguma coisa sobre o escândalo da espionagem americana, já sabe o que é a porta dos fundos no sentido de informática. Trata-se de um acesso privilegiado a um sistema ou computador permitindo o controle do mesmo. Tais portas são oriundas de falhas ou podem ter sido planejadas para tal.

Após o caso Snowden, os grandes nomes da informática mundial estão sendo acusados de colaboracionistas, mantendo uma porta dos fundos para a espionagem de Estado. Além do Google, Facebook e outros, acusa-se a Microsoft de entregar deliberadamente tudo o que se passa no Skype.

Pensando no Skype, vou contar uma história real. Tenho que disfarçá-la para proteger a fonte. A propósito, o Skype foi criado na Europa em 2003, passou pela e-Bay e só caiu nas mãos da satânica Microsoft em 2011. Este episódio aconteceu antes de 2011, num tempo em que o Skype era "puro", não estava vendido para a CIA e, muito menos, para qualquer outro governo.


Um executivo ocidental foi expatriado no Oriente. Os primeiros meses fora de casa costumam ser difíceis. Depois do período de adaptação, é tudo de bom. Nosso protagonista matava a saudade da família com o milagroso Skype. Tudo de graça! 

Seria uma história muito trivial, se não fosse por um detalhe. Ele usava um dialeto para se comunicar com a família. Uma dessas línguas em extinção, falada por poucos, mas que ainda consegue manter uma tradição oral, sendo passada de pai para filho.

Um dia, dois oficiais do governo daquele país bateram-lhe à porta. Não era a dos fundos, era a principal mesmo. Naquela cena típica de Alemanha nazista, o oficial mais graduado vai direto ao ponto. Curto e grosso: "quando estiver usando o Skype, use uma língua mais conhecida ou será expulso daqui".



Portanto, não leve muito a sério tudo que você ler sobre porta dos fundos. Nem precisa. Seremos espionados de qualquer jeito. A infinidade de acusações contra Google, Microsoft e Facebook só serve para alimentar os advogados de ambas as partes. Enquanto isso, vá se divertindo com os vídeos do Porta dos Fundos.


Foto: Outra tomada da "Grande-Place" de Bruxelas.

Sunday, July 14, 2013

Snowden

O aprofundamento da discussão sobre a privacidade e os limites da vigilância do Estado será uma grande contribuição do Caso Snowden. A imprensa está inundada de artigos criticando os EUA, defendendo a liberdade e reverenciando o ex-agente americano.

Até no Brasil, onde nunca se deu a mínima para o assunto, Snowden virou herói e Obama passou a encarnar o próprio Satã. Vi pouquíssimas matérias fazendo um contraponto, por isso recomendo a leitura do artigo do Mario Vargas Llosa.

Não gostaria de julgar o Snowden, até por que só estamos vendo a pontinha do iceberg. Num mundo cheio de segredos, nunca saberemos as suas reais motivações. Ele pode ser um herói de verdade ou o pior dos canalhas. Tanto faz.

O maior problema é a demonização dos EUA. Na prática, estamos fazendo o jogo que interessa aos países que realmente censuram, que mantêm exércitos de hackers ou que promovem o mal de forma deliberada. Com o argumento de "se os EUA fazem, nós também podemos", acabaram-se as esperanças de algum controle sobre o Big Brother. O legado de Snowden pode ser um mundo muito pior.

Um lembrete aos leitores brasileiros indignados com a bisbilhotice americana. Enquanto você está preocupado com o Snowden, tem alguém muito mais próximo fuçando as suas fotos, tentando entrar na sua conta bancária ou prestes a chantagear um membro da sua família.

A maior prova da ineficácia da super espionagem norte-americana é não ter antecipado o próprio Snowden. Portanto, cuidado. Para fins práticos, o grande problema do mundo virtual não é o Big Brother, mas os milhares de maltrapilhos que nos cercam.


Foto: A "Grande-Place" de Bruxelas num domingão festivo. A Praça é a principal da cidade e integra o Patrimônio da Unesco.

Friday, July 12, 2013

Chapas

A foto acima está no meu banco de fotos. Não estava separada para ilustrar este blog, mas eu a utilizei nesta manhã no Twitter e no Instagram. As manifestações chapa branca de quinta-feira me inspiraram: chapas brancas e letras vermelhas.

A foto é de uma parede do museu automobilístico Autoworld de Bruxelas. Os próximos posts serão ilustrados com fotos recentíssimas de Bruxelas e Bruges.

Já vi alguns museus de automóveis, como por exemplo, a coleção Schlumpf de Mulhouse, comentada em 2010. Trata-se do maior museu automobilístico do mundo. Quem gosta de carro deve visitá-lo. O congênere de Bruxelas não tem as jóias de Mulhouse (coleção de Bugatti), mas é muito interessante.

Abaixo, mais duas fotos do Autoworld de Bruxelas. Uma visão geral do pavilhão e alguns dos modelos expostos. No sentido horário a partir do canto superior esquerdo: o belga Minerva AE (1929), o norte-americano Packard Single 8 (1928), o inglês Jaguar XK140 Cabriolet (1955) e o italiano Ferrari 250GT Boano (1956).



Monday, July 8, 2013

"Ultimate fight"

Este blog merece mais do que esportes periféricos como MMA/UFC e detesto misturar esporte com patriotismo. Porém, não queria deixar passar em branco a derrota do "nosso" Anderson Silva. Afinal de contas, ele é um ídolo nacional.

Na luta do último final de semana, o Anderson mostrou o pior lado da brasilidade. Talento e irreverência sem o menor senso de responsabilidade. É verdade que ele teve um longo reinado, mas vocês já viram um super atleta americano desperdiçando alguma chance de medalha ou título?

Certamente, Anderson não foi contaminado pelas massas, ao contrário da nossa seleção de futebol. Esta última, por sua vez, combinou seu talento natural com uma determinação inabitual para vencer. Aí sim, o melhor da brasilidade. Foi só uma luta. Foi só uma partida. Vale como ilustração. Não quero generalizar, é apenas uma metáfora esportiva.



O editorial do Estadão de domingo falava do sumiço do rei das metáforas futebolísticas. Os resultados pífios do governo Dilma podem trazer o cenário mais temido pela oposição: o "volta Lula". Aliás, a oposição ao governo tem sido especialmente acovardada. Combate a presidente na base de tapinhas de luvas de pelica, para se evitar a todo custo o "volta Lula".

Meu cenário preferido é chamar o Lula de volta e derrotá-lo nas urnas. Se precisarmos manter uma Dilma moribunda para ter a certeza de poder destituir o PT, todo esse movimento não serviu para nada. Mais cedo ou mais tarde, virá um outro Lula para fazer a mesma coisa.

Então, quem será o Chris Weidman da política brasileira?



Foto: Última foto desta área ao norte de Lisboa, a estação de trem que servia à Expo 98.

Tuesday, July 2, 2013

Tarde da noite

Felizmente, a televisão belga transmitiu a final da Copa das Confederações. Era muito tarde, mas valeu ficar até o final para ouvir o locutor dizer que, com um Brasil jogando daquele jeito, nem a seleção da Bélgica resistiria.

A Copinha acabou e ninguém mais fala do nosso futebol e nem das nossas manifestações. Não dá mesmo para competir com Egito e Turquia!

Dia desses, o ex-ministro francês Bernard Kouchner esteve num programa de TV, daqueles debates de final de noite típicos da TV francesa. O jornalista perguntou-lhe sobre as semelhanças entre os movimentos turco e brasileiro. O ex-diplomata foi curto e grosso: "Nenhuma". Também valeu ficar acordado para ver a cara de tacho do entrevistador. Segundos depois (pareceu uma eternidade), Bernard discorreu melhor sobre o assunto.

O Courrier International, jornal que sintetiza a imprensa mundial, por sua vez, diz que há muito em comum entre o Brasil e Turquia, explicitando a movimentação das “novas classes médias”.

Há algumas semanas, li alguns artigos sobre a Turquia. Uma matéria do Economist sobre os métodos de Erdogan me surpreendeu. Não imaginava que o Erdogan daqui já teve dois mandatos e elegeu a sua sucessora.

Acima, mais uma foto do "legado" da Expo 98 de Lisboa. Abaixo, selecionei quatro cartuns da imprensa internacional sobre as manifestações no Brasil. Os autores são Patrick Chappatte (dois primeiros), Arcadio Esquivel e Osvaldo Gutierrez Gomez.





Friday, June 21, 2013

Elefantes

Ainda no começo da semana, numa reunião do nosso comitê diretor, disse para meus pares - todos estrangeiros - não se impressionarem com as notícias sobre o Brasil, pois não estávamos diante de uma "primavera brasileira". Errei.

Admiro a mobilização. Fiquei encantado com as hostilidades ao pessoal ligado a partidos. Porém, ainda acho que, sem uma pauta mais precisa, o movimento pode enfraquecer. Veremos nos próximos dias. Encontrei tantas coisas interessantes para explicar e sustentar tais manifestações, que resta pouco a acrescentar.


Na França, li uma matéria enorme do Le Monde sobre os elefantes brancos brasileiros. Saibam vocês que a preparação do Brasil para a Copa é motivo de piada. Eles sabem que os estádios estarão prontos, o problema é fora deles.

Os gastos com a Copa aparecem na pauta dos manifestantes. Apesar de ser apenas uma gota d´água no oceano da corrupção brasileira, é uma gota que cai nos nossos olhos diariamente, como se fosse aquele colírio bem ardido. Abrir mão da Copa e dos Jogos Olímpicos depois de fazer boa parte do investimento seria um grande desperdício. É pena que o povo tenha acordado muito tarde.

O mesmo argumento vale para os Jogos Olímpicos. A essa altura do campeonato, a Expo 2020 em São Paulo está ameaçada. De todos os três eventos, simpatizava mais com a Expo. Ele é mais modesto, pode até deixar uns elefantinhos brancos, mas permite passar a limpo um bom pedaço da cidade, no caso, Pirituba.

Ficarei fora do Brasil nas próximas duas semanas. Conto com todos vocês para me representarem nas ruas de São Paulo ;-)


Foto: A margem do Tejo na área onde foi a Expo 98 de Lisboa.

Sunday, June 16, 2013

Manif

Não pude assistir aos jogos da Seleção. Para falar a verdade, não venho assistindo há tempos. Até veria Brasil X França, se tivesse encontrado algum canal londrino transmitindo o jogo. De qualquer forma, era hora de jantar e a fome apertava. Desci ao restaurante com um tablet e fui acompanhando o andamento da partida por um site brasileiro.

Meu objetivo era curtir o jogo sozinho durante a refeição. Entretanto, foi muito melhor. Alguns colegas franceses chegaram logo depois e juntaram-se a mim. A conversa estava muito boa, mas tive que interrompê-la três vezes. Sem estardalhaço. Com classe. 1, 2 e 3.


Se São Paulo está aprendendo a conviver com as manifestações, a Europa já é craque nisso. Na França, é algo tão comum, que a palavra foi encurtada para "manif". E a manif da semana foi a do controle aéreo. Vocês se lembram do que uma greve de controle aéreo pode fazer? Pois é, fez. 50% dos vôos foram cancelados entre terça e quinta.

A Europa cogita a unificação do controle do seu espaço aéreo, algo bem razoável pelo tamanho do continente. Evidentemente, isso traria uma sinergia significativa. A resistência da categoria é natural.

Tive alguma sorte, pois meus vôos foram confirmados. Já os atrasos foram consideráveis. Enfim, com alguma tensão, passei por Londres, Paris e cheguei em Lisboa.

Estive em Lisboa algumas vezes, apesar de não ter publicado nenhuma foto neste blog. Desta vez, tive duas experiências novas: 1) fiquei hospedado numa área que não conhecia, onde fica o "legado" da Expo 1998 (São Paulo é candidata à realização da Expo 2020). 2) cheguei em plena festa de Santo Antônio.

Bom, esses são meus ganchos para os próximos posts. Até breve!


Foto: A Torre de Belém, no fim de tarde da última quinta-feira.

Saturday, June 8, 2013

Petit comité

Estou numa intensa sequência de viagens, daí as minhas postagens nem tão frequentes. Pôxa, mal poderei acompanhar a Copa das Confederações :(

Em compensação, no final de ano, serei o anfitrião. Faremos um "petit comité" no Brasil, assim como em 2011. Não será nem em São Paulo nem no Rio. Sempre temi impor uma conexão pelos nossos aeroportos aos meus 20 a 30 convidados estrangeiros. Mas, dessa vez, vou encarar. Afinal, eles estarão prontinhos para a Copa ;-)

Fiz uma pequena lista de critérios desejáveis para a escolha da sede da nossa reunião e abro mão apenas de um deles: 1- proximidade à praia; 2- hotelaria de primeira; 3- possibilidade de se sair do hotel a pé em segurança; 4- existência de algum lugar histórico relevante a 90 minutos no máximo; 5- existência de opções de restaurantes e bares nas proximidades; 6- local a uma conexão aérea de SP ou Rio mais translado rodoviário de até 2h.

Não adianta pensar num resort magnífico. Resorts não agradam a todos. Uns dizem que são todos iguais e a diferença entre estar no Brasil, no Caribe ou na Polinésia acaba sendo minimizada. Outros detestam ficar "trancados" num hotel, por melhor que seja.

Enfim, parece fácil, mas não é. Fácil é perceber o quanto o Brasil deixa de aproveitar o seu potencial. Se tiver alguma sugestão, comente o post ou escreva diretamente para mim. Até breve!


Foto: Terminando a sequência de imagens do Château de Vincennes, eis a sua Sainte-Chapelle.

Sunday, June 2, 2013

Viajantes


Com brasileiros viajando pelos quatro cantos do mundo, não é raro que me peçam sugestões para suas férias europeias. Tenho ajudado vários amigos com muito prazer. Às vezes, uso as fotos que ilustam este blog como apoio.

Entre as inúmeras consultas, especialmente sobre a França, uma das mais recorrentes é sobre os campos de lavanda. Já decepcionei muitos, informando que não adianta visitá-los em abril, maio ou setembro, pois quebrarão a cara. Lavanda é só de 15 de junho a 15 de agosto!

Em 2007, cheguei a um dos mais fantásticos cartões postais da França, a abadia de Sénanque, dia 16 de agosto. Tarde demais. Por sorte, já havia visitado outros campos de lavanda, até mais fotogênicos. Voltei à abadia em 2010.

Sempre conectado e com os guias Michelin, errei pouco na França. Na Itália, foi pior. Algumas  atrações merecem reserva ou compra de ingresso antecipada. Por exemplo, a Galleria degli Uffizi em Florença e a Igreja Santa Maria delle Grazie ("A última ceia" de Leonardo) em Milão. Nada grave. Quebrei a cara mesmo, ao chegar às vinícolas de super toscanos de Bolgheri e descobrir que fecham para visitas em agosto :(

De uma forma geral, a minha experiência de turista tem sido ótima. Mesmo quem não quer a coleção dos guias Michelin, tem a Web inteira para evitar surpresas. De qualquer modo, as surpresas de férias viram sempre boas histórias para serem contadas.


Foto: Mais uma do Château de Vincennes, em Paris.

Saturday, May 18, 2013

Jeitinho


Este post já estava na minha mente, quando me deparei com a morte do ex-ditador argentino Jorge Videla. Dias antes, consagrava-se o casamento gay no Brasil. Ainda antes, estávamos abismados com as hostilidades entre o Judiciário e Legislativo.

Para mim está claro, três assuntos decididos pelo Judiciário deixam muitos inconformados: a união homoafetiva, a constitucionalidade da Lei da Anistia e, é claro, o julgamento do mensalão. Embora haja certa sobreposição entre esses grupos, eles ainda voltarão a fazer algum barulho.

São assuntos muito complexos para serem analisados num blog. Por isso mesmo, não estou aqui para dar uma opinião sobre eles. Gostaria apenas de comentar sobre o caminho encontrado pela nossa sociedade para resolvê-los.

O casamento gay, por exemplo, racha um país como a França. Em outros países, monopoliza o debate, tirando o foco da resolução da crise econômica. Nessas viagens entre o Brasil e a França, vi o gritante contraste entre a sangria que o assunto causa por lá e a relativa tranquilidade daqui.

A mesma coisa vale para a anistia. Mesmo com todo respeito às vítimas da ditadura, ainda prefiro a situação brasileira à argentina, onde a ferida jamais cicatriza. Enfim, pode ser que tenhamos que pagar essa conta lá na frente, mas o Brasil encontrou um jeitinho para resolver problemas difíceis, que poderiam dividir a sociedade.

A essa altura do campeonato, é melhor gastar o tempo dos políticos em outras reformas. Só não aceito quando o Parlamento reclama do STF, pois todos nós somos responsáveis por esse grande pacto, inclusive deputados e senadores.


Foto: Nos arredores de Paris, a torre do Château de Vincennes. Eu mesmo deixei para visitá-lo somente há pouquíssimo tempo, por isso imagino que muita gente acaba pulando essa atração tão perto do centro de Paris.

Saturday, May 11, 2013

O crime da semana


Há tempos, queria fazer um post sobre criminalidade. Já falei bastante sobre crimes do colarinho branco no Brasil e na França. Porém, nunca escrevi sobre nossos homicidas comuns, aqueles que ceifam a vida de mais de 40 mil conterrâneos a cada ano. Então, vamos lá.

Já nos acostumamos ao "crime da semana". Invariavelmente, temos um evento semanal, que recebe todas as atenções, pois, de alguma forma, ultrapassa a linha vermelha. Esse limite parece residir em dois aspectos, brutalidade e localização. O conceito de brutalidade é evidente. O aspecto geográfico é menos óbvio e mais cruel. Quanto mais perto das áreas nobres, mais grave.

Excepcionalmente, importamos algum crime, que nos faz esquecer do nosso "crime da semana". E, ainda pior, dos outros 40 mil assassinatos que acontecem no Brasil.

Mesmo tendo passado por um histórico período de prosperidade, não houve qualquer progresso nos índices de violência brasileiros. Houve variações internas: melhorou no sudeste e piorou no nordeste. Para mim, é muito claro que a criminalidade não está associada à pobreza em si. Talvez, à sensação de desigualdade, e, com certeza, à falência do sistema policial, judiciário e prisional.

Na onda do "crime da semana", às vezes, nossa sociedade acena com medidas cosméticas. Só bobagens. Até quando? Por que não resolver a questão da segurança pública? Por que tolerar índices de homicídios tão altos?

Acredito que muitos políticos já fizeram a conta e concluíram que não vale à pena abraçar essa causa (e ainda ser taxado de reacionário!). O "crime da semana" não é suficiente para mobilizar a sociedade, ou seja, o grupo de pessoas tocadas diretamente pelas dezenas de eventos anuais não forma uma massa crítica para tal mobilização.

Ainda existem outros 40 mil assassinatos que acontecem nas favelas, morros e área menos favorecidas. But, who cares? Se, algum dia, o Brasil for um país realmente desenvolvido, talvez nossa geração seja vista como genocida.


Foto: A rua junto ao muro de Saint-Paul de Vence

Tuesday, April 30, 2013

Fantasma II


Antes da minha última viagem, o noticiário brasileiro era dominado pelo escândalo das redações do ENEM. Não aquelas com receita de Miojo, falo daquelas com um portugueis essepicional.

Viajei com aquilo em mente, mas não tive tempo de escrever sobre o tema. Felizmente, pois encontrei a resposta que queria num artigo do Le Monde. Tratava-se de um balanço sobre a política de inclusão indiana sob a perspectiva das castas inferiores.

Se há algum país que conhece preconceito e discriminação é a Índia. Por pressões internas e externas, montou-se um forte esquema de inclusão, começando pela abertura da máquina pública aos intocáveis.

Na medida em que os excluídos penetravam na administração das cidades e províncias, o país promovia uma vasta privatização. No mundo privado, não há cotas compulsórias. Não podemos dizer que a privatização só existiu para se burlar a inclusão. Diversos fatores originaram tal movimento, inclusive esse.

A Índia conseguiu trazer um pouco dignidade a dezenas de milhões de habitantes. Porém, é inocente se imaginar que o esforço de inclusão não encontra resistência. Criam-se ou aumentam-se as barreiras naturais a fim de se preservar o status quo.

Hoje, um dos pilares da discriminação na Índia é o domínio da língua. Qual língua? Inglês, é claro! Em meio a mais de 20 idiomas, o inglês funciona como a lingua franca do país, que viabiliza a gestão nacional e a sua excepcional integração no mercado de serviços internacionais.

A muito custo, várias castas inferiores conseguiram espaços. Conseguem até uma boa educação nos idiomas locais. Agora, se dependerem do ensino público de inglês, ficarão onde estão. Fiquem tranquilos, o governo indiano promete melhorá-lo ;-)

Tomei o exemplo indiano para mostrar como a sociedade boicota a inclusão. Conscientemente ou não, você pode estar dentro.


Foto: Voltando para Saint-Paul de Vence, na Provence. Na pracinha logo na entrada da cidade, a menina brinca com as bolas de pétanque.